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        Itália 1934

        Itália 1934

        Texto por João Pedro Silveira
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        A Europa vivia momentos de tensão. A Itália desde 1922 e Portugal desde 1926 viviam já sobre a sombra do fascismo, a Alemanha tinha assistido no anterior à ascensão de Adolf Hitler e do seu Partido Nazi ao poder; entretanto a leste Josef Stalin – no poder desde 1924 – moldava o estado soviético à sua imagem, com purgas, perseguições e um contínuo estado de terror na sua URSS.

        No meio disto tudo, as democracias ocidentais dormiam sobre si mesmas, distraídas, seriam incapazes de impedir a Guerra Cívil Espanhola (1936-39) ou as anexações do III Reich que iriam conduzir à II Guerra Mundial (1939-45).

        Foi neste mundo incerto que a segunda edição do Campeonato do Mundo de Futebol se disputou em Itália. Na verdade, mais que uma competição desportiva, o mundial foi encarado por Mussolini como uma oportunidade para mostrar a força da Itália no mundo.

        Curiosamente, ou talvez não, tanto o fascismo italiano e o nazismo alemão organizaram respectivamente o Campeonato do Mundo de 1934 e os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936.

        Como «represália» pela ausência da Itália no mundial de 1930, os campeões do mundo - o Uruguai - não participaram nesta edição da prova. Foi a primeira, e única vez até à actualidade que o Campeão mundial não defendeu o título conquistado no campeonato subsequente.

        Ao contrário do primeiro mundial, para o campeonato de 1934 foi preciso disputar-se uma fase de qualificação onde estavam inscritas inicialmente trinta e duas nações, como o Luxemburgo, Cuba, a Palestina, Estado Livre da Irlanda, ou Portugal que pela primeira vez participava numa fase de qualificação, caindo aos pés da também estreante e vizinha Espanha.

        A Europa vingava-se das Américas em relação ao primeiro mundial e contava nesta edição com 12 participantes, cabendo às Américas 3, e a África a participação do Egipto que havia eliminado a Palestina com duas vitórias e um acumulado de 11-2 numa eliminatória a duas mãos.
         

        A fase final do mundial apresentou a inovação de não ter fase de grupos, começando logo com os oitavos-de-final onde as equipas europeias deram cartas.

        A Espanha venceu o Brasil por 3-1, a Itália esmagou os E.U.A. por 7-1 e a Argentina e o Egipto caíram respectivamente aos pés de Suécia e Hungria.

        Para muitos analistas a Áustria era considerada a melhor equipa da Europa.

        O Wunder Team – que em alemão significa “Equipa Maravilha” - tinha escandalizado a Europa em 1933 ao conseguir ser a primeira equipa continental a sair de solo inglês sem o sabor da derrota (3-3).

        No mundial de 34 os austríacos liderados por Sindelar iniciaram a competição com uma vitória suada sobre a França (3-2), eliminariam depois os Húngaros (2-1), chegando às meias-finais para defrontar a Itália - a outra candidata ao título.

        Para que nada falhasse no objectivo supremo de ganhar o mundial, decorreu durante os anos e meses que antecederam a competição uma «recruta» exaustiva de jogadores com ascendência italiana em países como Argentina, Espanha ou Uruguai, avalizada por il Duce, que não olhou a meios para levar a sua amada Squadra Azzurra ao sucesso.

        Mas antes de chegarem à meia-final para defrontarem os austríacos, a Itália teve que eliminar a Espanha num dos jogos épicos da história do Futebol.

        Nessa tarde em Florença defrontavam-se dois regimes políticos: à Itália fascista de Mussolini, opunha-se uma Espanha Republicana e Democrática que à época era liderada por um governo de esquerda.

        Em campo, a mais-valia dos italianos foi condicionada pela pressão das autoridades italianas, que exigiam a vitória a todo o custo e por um público fanático sedento de vitória e glória que fazia com que a Squadra Azzura jogasse “sobre brasas”.

        Ao golo inicial dos Espanhóis responderam os italianos com um golo ilegal de Ferrari e o jogo terminaria com um empate (1-1), mas ficariam para sempre as imagens do jogo agressivo e da violência que mancharam um relvado onde era suposto apenas se jogar futebol.

        No dia seguinte, novamente na Cidade dos Médicis, os heróis italianos voltaram a enfrentar uma selecção dos nuestros hermanos bastante debilitada pelas lesões do dia anterior. Ao todo, sete titulares não puderam jogar. 

        Mas para surpresa de muitos a exibição dos ibéricos entrou para os anais da história do Futebol. Lutando com garra e contra uma arbitragem calamitosa, sobre uma pressão incrível, nascia para o mundo La Fúria, o famoso epíteto porque ainda hoje é conhecida a selecção nacional espanhola.

        Zamora, considerado o maior portero que alguma vez vestiu a camisola de Espanha, estava lesionado e não pode jogar 24 horas depois. Para o seu lugar entrou Juan José Nogués, que defendeu tudo o que podia defender, excepção feita ao golo solitário de Giuzzeppe Meazza que garantiria a qualificação da equipa da cada para a ronda seguinte.

        Nas meias-finais Mussolini obrigou a Federação Italiana a desviar o jogo de Roma para Milão - cidade que era o berço do movimento fascista italiano – e a FIFA não se opôs.

        Os Austríacos ainda contestaram, mas foram obrigados a ir jogar a Milão, onde foram incapazes de travar o jogo italiano, mas acima de tudo, onde foram vencidos por uma arbitragem escandalosa, do sueco Eklind, que como prémio foi nomeado para arbitrar a final de Roma, onde a Itália que vencera a Áustria (1-0) e a “desconhecida” Checoslováquia que havia derrotado os alemães (3-1) se iriam defrontar.


        Rezam as crónicas que «estava escrito» que a Itália de Benito Mussolini teria de vencer. Na véspera do jogo  o árbitro - um admirador confesso do Duce – aceitou  ir jantar ao Palazzo Venezia com o ditador.

        E no dia seguinte a Itália, que de facto era melhor equipa, foi levada ao colo, até ao seu primeiro título mundial, acabando por vencer a Checoslováquia por 2-1, mas só após prolongamento.

        Nessa final pouca consolação terá sido para os checos que o prémio de melhor marcador da competição ir para Oldrich Nejedly com 5 golos; enquanto do outro lado, Luís Monti tornava-se o primeiro jogador – e único - a jogar a final do Campeonato do mundo por selecções diferentes: Argentina (1930) e Itália (1934).

        A Cena: O Mundial de 34, tal como os Jogos Olímpicos de 36, ficaram marcados pelo Fascismo. Tudo foi feito para levar a Itália ao título, desde a alteração a última hora da data dos jogos, ou do local onde se disputavam as partidas, como inclusive dos próprios árbitros que arbitravam os jogos mais importantes da competição, que obviamente eram aqueles onde entrava a equipa da casa.

        A Itália conseguiu ainda em cima do torneio inscrever quatro argentinos e um uruguaio, vasculhando nos registos, jogadores com possíveis antepassados italianos.

        A Figura: Mathias Sindelar - o génio judeu, ou o Mozart do Futebol como era conhecido por muitos, encheu os campos italianos. Estrela maior do Áustria de Viena, Sindelar tornou-se nos anos anteriores ao Mundial na maior estrela do futebol europeu.

        No mundial italiano, a Áustria atingiu a meia-final perdendo no Estádio de San Siro em Milão por 1-0.

        Todos os que assistiram ainda se lembram de uma enorme grande penalidade que ficou por marcar, numa falta cometida por Monti sobre Sindelar que o árbitro seuco resolveu não ver.

        Em 1938 Sindelar já não jogou o mundial, dado que a sua amada Áustria já não existia como nação independente - uns meses antes a Alemnha de Hitler anexara o pequeno país alpino.

        Após a anexação Sindelar ainda participou no último jogo que a Áustria efectuou como selecção nacional, num jogo de festa em que defrontaram os seus irmãos alemães. Nesse jogo, Sindelar e os seus colegas falharam deliberadamente várias ocasiões de golo, sendo só perto do final que a estrela maior dos austríacos marcou os dois golos da vitória, para profunda humilhação do estado maior germânico que assistia ao encontro.

        No dia 22 de Janeiro de 1939,foi encontrado morto no seu apartamento em Viena ao lado da sua amante italiana. O relatório oficial da Gestapo fazia constar que Sindelar tinha cometido suicídio através da inalação de gás, mas como é sabido, os relatórios da Gestapo deixavam muito a desejar.

        A Selecção: Zamora (Espanha), Ferraris (Itália), Allemandi (Itália), Monti (Itália), Bican (Áustria), Sindelar (Áustria), Meazza (Itália), Schiavo (Itália), Ferrari (Itália), Conen (Alemanha) e Nejedly (Checoslováquia).

         

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