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      Argentina 1978
      Grandes jogos

      Argentina x Holanda: Generais e papelitos

      Texto por João Pedro Silveira
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      Lembrar a final de 1978 é pensar no ambiente fantástico que o Estádio Monumental em Núnez, Buenos Aires, apresentava nesse dia. Os números oficiais falam em 71483 espetadores que lotaram a histórica catedral do futebol argentino: sobre a quantidade de serpentinas e confetis que foram lançadas sobre o relvado, só podemos supor, mas por certo que estaremos sempre a falar numa grandeza na ordem dos milhões... 
       
      Generais e Cruijff
       
      A Argentina vivia sob o jugo da ditadura militar liderada pelo «sinistro» General Videla. Debaixo do punho opressor dos militares, o povo argentino sofria perseguições, atrocidades e vivia uma das horas mais tristes da sua história. A FIFA, fechando os olhos à situação política que a Argentina vivia, entregou a organização do Mundial ao país, provocando uma onda de descontentamento e protestos na Europa Ocidental.

      Muitos comparavam o Mundial de 1978 com o de 1934 em Itália, onde Mussolini aproveitara a prova para propagandear o seu regime. Entre os contestatários estava Johann Cruijff, uma das grandes vedetas da Holanda e estrela do Mundial anterior, que recusou a jogar num país com uma ditadura. Em Buenos Aires respondia-se à decisão de Cruijff, lembrando que em 1973 o holandês não se importara de jogar na Espanha de Franco a troco de muitas pesetas...
       
      Uma longa espera
       
      Os anfitriões perseguiam o título desde a primeira edição da prova quando a Albiceleste fora batida pelos vizinhos uruguaios do outro lado do Rio da Prata, no Estádio Centenário, em Montevideu.
       
      Durante décadas, a «Equipa das Pampas» não conseguiu repetir o feito da equipa que Guillermo Stábile ajudou a guiar até a final em 1930. Desilusão após desilusão, a Argentina via as suas esperanças esfumarem-se a cada novo Mundial.
       
      Em 1978, a jogar em casa, o sonho ganhou asas. A cada novo obstáculo ultrapassado os argentinos acreditavam mais. A final, naquele domingo (25 de junho), em pleno pico do inverno austral, era o dia da celebração.
       
      Um sonho antigo
       
      Os números oficiais falam em 71483 espetadores que lotaram a catedral do futebol argentino que é o Monumental de Buenos Aires, criando uma atmosfera de encantamento e de devoção, algo que aqueles 22 jogadores no centro da cancha jamais voltariam a sentir ao longo da carreira.
       
      Ambas as equipas já haviam jogado uma final (a Holanda quatro anos antes), mas tinham sido vencidas e esta era uma nova oportunidade de ouro de se sagrarem Campeãs do Mundo de futebol. Era a quinta vez que uma final era disputada entre duas equipas que nunca tinham conquistado a prova. Argentina e Holanda seriam o sexto campeão da história, juntando-se a uma ilustre lista que já contava com Uruguai, Itália, Brasil, Alemanha e Inglaterra.
       
      Podemos recordar a mestria tática de Menotti, os golos de Kempes e Bertoni ou o golo de Nanninga que voltou a trazer a Laranja Mecânica de volta ao jogo quando só faltavam oito minutos para acabar o tempo regulamentar. Podemos recordar as defesas de Fillol, as oportunidades perdidas, mas o que realmente perdurou na memória de quem assistiu ao encontro foi a chuva de papelinhos e serpentinas que choveu sobre o relvado antes do pontapé de saída, um espectáculo cénico inesquecível. 
       
      Bola rola no meio dos papéis
       
      Antes do jogo começar, surgiu o primeiro caso com o árbitro italiano Sergio Gonella insatisfeito com a forma como o médico holandês ligara o pulso de René van de Kerkhof, obrigando a um atraso no jogo que deixou holandeses preocupados e argentinos furiosos perante o atraso. 
       
      A partida começou e a Holanda foi a primeira a criar perigo com Rep a pôr à prova os reflexos de Fillol com uma cabeçada. Os primeiros minutos foram de tensão para defesa argentina, com grande dificuldade para travar o tridente Rep, Neeskens e Resenbrink, triângulo ofensivo que havia sido a chave da caminhada holandesa até à final.
       
      Aos 15 minutos, a Argentina reagiu, com Passarella a apontar um livre que testou a atenção de Jongbloed. Minutos depois, Passarella, novamente, surgiu isolado no meio da área a corresponder a um centro de Olguín, mas o remate subiu muito, passando por cima da barra.
       
      Primeiro golo
       
      Sentindo o perigo, a Holanda reagiu e Rep obrigou Fillol a uma enorme defesa. O jogo estava aberto e a Argentina aproveitou uma desatenção holandesa para chegar ao golo numa insistência de Mário Kempes. Corriam 37 minutos no marcador.
       
      Os europeus responderam de pronto e antes do intervalo estiveram perto do empate, mas Fillol negou o golo a Resenbrink, depois de uma jogada que passou pelos irmãos van de Kerkhof. O intervalo chegou para alívio de Menotti, que percebeu que a sua equipa perdera o controlo do jogo depois de ter inaugurado o placard
       
      Segundo tempo
       
      Logo no recomeço, a Argentina podia ter acabado com o jogo, quando Bertoni isolou Luque, mas Jongbloed manteve vivas as esperanças da Laranja Mecânica.
       
      Com o relógio a avançar, a Argentina começou a recuar, e os adeptos começavam a celebrar a conquista. No relvado, uma Holanda sem ideias parecia incapaz de contornar a sólida defesa argentina.
       
      Ernst Happel substituíra o lesionado Rep por Nanninga e seria precisamente o médio do Roda a chegar ao empate quando faltavam apenas oito minutos para os noventa.
       
      «Monumental» explosão
       
      No tempo extra, a equipa da casa voltou a pegar no jogo, superiorizando-se definitivamente ao adversário. Kempes, a fechar a primeira parte abriu o caminho da vitória, que seria selado com o golo de Bertoni a quatro minutos do fim.
       
      A Argentina era campeã do Mundo, Kempes um herói nacional e Menotti o «general» que conduzira as tropas ao sucesso.
       
      Na tribuna, os generais festejavam a conquista e por momentos a ditadura argentina ganhava cor. No calor dos festejos, a tortura, a perseguição das oposições, «os desaparecidos» e o cinzentismo de uma sociedade amordaça parecia esbater-se, mas, terminada a euforia, a Argentina voltou a ser a mesma ditadura de sempre. Vilela entregou a taça a Passarella, mas o regime tinha os dias contados.

      A derrota na Guerra das Malvinas (1982) seria o começo do fim do regime dos Generais, que acabaria por colapsar, dando lugar à democracia em 1983. Oito anos mais tarde, já em liberdade, os argentinos vibraram com a conquista do mundo na Cidade do México, liderados pelo astro-rei, Diego Armando Maradona.

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      jogos históricos
      U Domingo, 25 Junho 1978 - 19:00
      Monumental Antonio Vespucio Liberti (Monumental de Núñez)
      Sergio Gonella
      3-1
      a.p.
      Mario Kempes 38' 105'
      Daniel Bertoni 116'
      Dick Nanninga 82'
      Estádio
      Monumental Antonio Vespucio Liberti (Monumental de Núñez)
      Lotação74624
      Medidas105m x 70m
      Inauguração1938
      TEXTO DISPONÍVEL EM...
      Competição
      Futebol holandês