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      África do Sul 2010
      Casos

      A Revolução Francesa

      Texto por João Pedro Silveira
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      Considerar Raymond Domenech um monarca absoluto, à imagem de um todo-poderoso Luís XIV será por certo um exagero sem sentido, além do mais, a maioria dos franceses estará longe de considerar Domenech um despote éclairé. Mas quem lê a imprensa - em particular a francesa - a falar sobre o selecionador francês durante o mundial de 2010, a opinião publicada, os testemunhos dos que viveram por dentro aquele estágio francês em terras sul africanas, talvez não seja descabida de toda a comparação. 

      Mas a mais justa das comparações talvez seja não com o famoso «Rei Sol», mas sim como seu bisneto, Luís XVI, o infortunado monarca francês que acabou derrubado pela Revolução Francesa (1789) e foi vítima da malfada guilhotina. Domenech, viu-lhe o chão fugir debaixo dos pés, e de todo-poderoso condutor de homens, viveu os últimos dias na África do Sul, acossado de todos os lados, apenas aguardando o momento em que seria definitivamente afastado da seleção gaulesa. 

      A mão de Henry

      Domenech conduzira a França à final do mundial de 2006, não obstante as diversas polémicas que enfrentara com a imprensa, mas também com jogadores como o guarda-redes Coupet e o defesa Méxes, ou ainda as críticas públicas de Zinedine Zidane que se queixava da técnica extremamente defensiva que deixava o único avançado muito sozinho na frente.

      O «desastre» da participação no Euro 2008, com a humilhante goleada sofrida contra a Laranja Mecânica deixou marcas. A França sofreu para chegar ao mundial, só se qualificando no play-off, graças a um golo polémico - e ferido de ilegalidade - de William Gallas.

      De desastre em desastre

      Se o caminho até à África do Sul fora tortuoso, a presença no mundial da equipa francesa só se pode qualificar como um desastre. 

      A convocatória já gerara polémica, com Domenech a recusar-se a convocar mais do que um jogador do signo escorpião. A imprensa francesa brincava com assunto, assim como os programas humorísticos, com os Les Guignols à cabeça, mas a situação só ganhou outra dimensão depois da França empatar a zero com o Uruguai no jogo de abertura.

      A revolta de Anelka

      Zinedine Zidane acusou Domenech de ter perdido o controlo sobre a equipa e abria-se assim a «Caixa de Pandora» da participação francesa no mundial de 2010.

      A derrota com o México por 2x0 ficou marcada pela troca de palavras entre Anelka e o treinador. Anelka insultou o treinador à frente dos colegas e de quem quis ouvir. O diário L´Equipe fez capa com a frase polémica de Nicolas Anelka.

      Domenech, pressionado por todos os lados castigou o avançado, afastando-o da equipa. Mas o vírus da contestação já se tinha alastrado e não podia ser erradicado...

      A revolta alastra

      Um dia depois, Patrice Evra desentendeu-se com Robert Duverne, um treinador adjunto de Domenech, que teve de ser agarrado pelo treinador, para não agredir o jogador. 

      A equipa parou o treino e recolheu ao autocarro, recusando-se a treinar. Os jogadores reuniram-se e sem assumir publicamente, entraram em boicote, não falando com a imprensa e recusando-se a treinar. A relação entre a equipa técnica e os jogadores atingiu o ponto de não retorno. Depois desse momento simplesmente não existia forma de voltar atrás, Domenech e a sua equipa estavam de costas voltadas.

      A Federação Francesa criticou o boicote e «entredentes» ameaçou punir os jogadores. Após reunião com os capitães, os jogadores voltaram aos treinos, mas Anelka continuou afastado. Os gauleses acabaram vencidos pela África do Sul (1x2) no último jogo, saindo da prova de cabeça baixa, em último lugar, uma humilhação para o vice-campeão mundial.

      O ambiente em Knysna azedava, mas em França a imprensa e a opinião pública já tinham os seus culpados. O Le Parisien apresentava um editorial com um sintomático: Vous nous faites honte! (1)

      Não houve recepção, não houve vistia ao Eliseu, a França tinha vergonha da sua equipa nacional.

      Fim da linha

      Ainda na África do Sul, Domenech recusara-se a cumprimentar o treinador Carlos Alberto Parreira no fim do jogo contra os anfitriões. Acusado de mal perder, Domenech encolheu os ombros.

      A França saía pela porta pequena, vergada ao peso dos resultados. Domenech, detestado pelos jogadores e há muito criticado pelos adeptos saía pela porta pequena, perdurando na memória do futebol francês, como um dos piores treinadores que já dirigiram os bleus, já ninguém se lembrava de 2006. 

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      (1) - Vocês envergonham-nos!

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