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      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      2021/01/29
      E0
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

      Prefiro o copo meio cheio, valorizar os jogadores de talento e as equipas de iniciativa, mesmo se rareiam. No futebol português, valoriza-se em excesso o esforço e essa indefinível “intensidade” - que dá para tudo - e insiste-se em que faz sentido construir equipas “de trás para a frente”, como se ideias feitas fossem fatalmente boas ideias. E daí se chega depressa à confusão entre um jogar organizado e equilibrado, que faz sentido, e um futebol defensivo, que é o que praticam a maioria das equipas, que está longe de conquistar jovens adeptos e valorizar um espetáculo que se quer vendável. E juntem-lhes os árbitros e os relvados, que os árbitros andam fracos e os relvados péssimos. Os juízes insistem em fazer dos jogos concertos de apito, em que não passam 30 segundos sem mais uma faltinha e a enésima pausa no jogo, enquanto alguns relvados são tão maus que conseguem mais do que impedir o bom futebol, quase impedem que se chame futebol ao que lá decorre. Não é fácil gostar de jogos assim. 

      Quanto às equipas, valorize-se a competitividade das duas mais fortes até agora, Sporting e Porto, em formas de jogar com pontos de contacto, de mais transpiração que inspiração, é certo, mas onde alguns – poucos – artistas fazem com que um jogo valha a pena: Corona e Otávio, João Mário e Pedro Gonçalves à frente dos demais. Com um Benfica desorientado, em que até o talento de Pizzi e Taarabt é visto como problema (como tanto analista pode pensar assim deixa-me perplexo) e mais um pelotão indiferenciado de equipas que ou não acertam passo ou nem querem acertar, restam duas boas notícias coletivas: o Sporting de Braga e o Paços de Ferreira. O Braga é a única equipa que parece pensada a partir do momento ofensivo, com variantes de jogo por dentro e por fora, que procura tanto a largura como as entrelinhas, ora um jogo de apoio ora de profundidade. E multiplica jogadores de talento, o que reforça o gozo de a ver, menor apenas quando procura variantes estratégicas de maior contenção e especula mais do que se assume. O Paços organiza-se bem sem bola mas define ao que vem quando entrega a construção na zona vital a Eustáquio e Bruno Costa, médios de qualidade indiscutível, mais de criar que de derrubar. Só isso já o faz tão diferente da maioria de outros, entregues ao músculo para recuperar mais a bola, mesmo se a seguir dificilmente acertam no que fazer com ela. No fundo, passam a vida a recuperar as bolas que acabaram de perder.

      A centralização dos direitos televisivos é uma óptima notícia, mesmo se filha deste contexto pandémico difícil. Mais vale tarde do que nunca. Mas não se iluda quem acredita que é apenas essa mais justa distribuição das receitas que vai melhorar por si a qualidade do jogo em Portugal. Invista-se antes na qualidade dos relvados, reforce-se a independência dos árbitros, exija-se audácia aos treinadores e solte-se o talento dos atletas que encantam. O dinheiro, quando voltar a haver, só fará o resto. Ou não fará coisa nenhuma.



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