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      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      2020/05/15
      E0
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

      A pandemia é maldita, mil vezes maldita, rouba vidas e estraga vidas, mas no futebol, que como sempre acompanha a vida, motivou reações boas, das que merecem aplauso.  Desde logo os jornais, como os sites que falam dele – vénia, camaradas! – responderam com resistência à emergência e com criatividade à adversidade. E assim voltaram as tertúlias em que a paixão pelo jogo superou as querelas semanais e em que as entrevistas aos ídolos autênticos beneficiaram do espaço, físico e mental, que, por uns meses,  não esteve reservado a alimentadores de ódio, anafados sem nome que se respeite e que, ausentes as arbitragens, ficaram reduzidos ao vazio do que percebem de facto. E, de repente, percebemos todos que basta telefonar para ser possível trazer de volta Cubillas e Madjer, Valdo e Magnusson, Silas e André Cruz. Imaginem. Nós pudemos recordar de novo o tanto que nos deram e eles contaram-nos como foi.  

      Sou dos que tiveram a sorte de poder sair de casa, que o trabalho a isso obrigou na maioria destes dias estranhos, mas não deixei de aproveitar o tempo que o trânsito me tem dado de sobra, tal como o de tantos outros compromissos outrora inadiáveis e rapidamente adiados, para mergulhar em jogos antigos e debates com amigos sobre o que é mesmo o melhor do jogo: as memórias de quem dele gosta verdadeiramente. Voltou a fazer sentido discutir se Dasaev foi mesmo melhor que Schumacher, o Toni dos anos 80, da patada brutal em Battiston, insistir em que Zico foi o melhor, Sócrates o mais encantador, Falcão o mais completo, mas que, naquele meio-campo dos sonhos de tantos em 82, Toninho Cerezo não pode mesmo ficar como figura menor. E, a par do quadrado mágico brasileiro, havia o da primeira grande França – Fernandez, Tigana, Giresse, Platini – ainda antes do mundo inteiro se render a Maradona e uma parte dele também a Hagi, que bem merecia que lhe dessem uma bola de ouro. Podiam até inventar umas “de carreira”, como nos óscares, para entregar a quem merecia muito e não pôde ter. Fica a ideia, de borla, para quando puder voltar a haver galas da FIFA e alinho já, seguidos, Iniesta e Xavi, Baresi e Maldini, Ibrahimovic e Giggs, Riquelme e Robben, e sempre Bergkamp, o homem dos golos bailados, que o da Holanda à Argentina em 98 e o que marcou ao Newcastle pelo Arsenal mereciam moldura no Louvre. Ou no Rijks, para ser na terra onde nasceu fez agora 51 anos.

      Dos portugueses, voltei a galgar metros de Futre e a fintar com o corpo como Chalana, mas descobri principalmente que houve jogadores a quem nunca demos o valor devido, que os olhos de adolescente eram encantados demasiado depressa por quem marcava mais golos. E como jogavam, por exemplo, Sousa e Pietra! Sousa, de FC Porto, Sporting e Beira-Mar, era o médio que sabia tudo, jogar por dentro ou por fora, passar curto e longo, finalizar com bola corrida ou a cobrar cruel o erro de uma falta. Pietra, do Belenenses e depois Benfica, era o defesa lateral que fintava avançados, espécie de Cancelo mas com mais competência defensiva, duro a roubar e craque a entregar. Também confirmei que Luisinho, o central que foi do tal Brasil de 82 e também do Sporting, pode partilhar a galeria dos melhores, onde estão sempre Mozer, Ricardo Gomes e Aloísio. E, alertado em boa hora, pude comprovar que Zahovic foi mesmo dos melhores de todos os que por cá passaram nos anos 90, que ao nível dele, e por largos anos também, só mesmo João Vieira Pinto, ambos geniais na percepção do espaço para criar e do tempo para executar.  O tempo que nos afastou do jogo não nos tirou, longe disso, o melhor de jogo. Devolveu-nos até a essência, que celebro hoje, com nomes, uma vez mais.



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