A preto e branco
Luís Cirilo Carvalho
2020/03/11
E1
"A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.

O mundo vive tempos difíceis.

Tempos de angústia, tempos de incerteza, tempos de medo perante uma pandemia que a OMS já reconheceu e que, neste momento, tem expressão mundial com incidência em todos os continentes e uma taxa de mortalidade que não cessa de aumentar.

Portugal resistiu durante algum tempo, criou-se até uma leviana curiosidade de saber quando apareceria o primeiro caso de covid-19, mas obviamente que o vírus chegou cá e está agora em fase de expansão com o número de infetados a subir todos os dias.

Embora a incidência no futebol seja muito menos importante que noutras áreas da vida social, também porque o futebol tem apenas a importância que tem e não a que alguns gostam de lhe dar, ela existe e obriga à tomada de medidas que ajudem à contenção do problema.

Medidas que foram tomadas, inacreditavelmente (mas aí a culpa não é do futebol) antes das referentes a universidades, escolas, discotecas, centros comerciais e outras áreas onde sucedem grandes aglomerações de pessoas e que merececeram o relativo consenso de FPF, LPFP, clubes desportivos e comunicação social face ao estipulado.

Já os adeptos, nuns casos por pura paixão clubística e noutros por verem o problema de um ângulo diferente, não foram tão consensuais quanto às decisões tomadas  e prefeririam que tivessem sido outras e não estas.

Que grosso modo passam por realizar jornadas (para já uma, mas serão inevitavelmente mais) das duas divisões profissionais à porta fechada enquanto nos outros escalões as medidas se dividem pela suspensão de provas na formação, pela sua realização à porta fechada ou à porta aberta para menos de 5000 espectadores, medida que viria posteriormente a ser revogada, passando também esses jogos a serem à porta fechada.

Quanto aos jogos das competições profissionais, aqueles que tem um maior impacto na opinião pública e portanto geram grandes movimentações de pessoas, a decisão de os realizar à porta fechada era o mínimo dos mínimos que se podia exigir, mas gerou em Portugal, como noutros países em que ela está a ser adoptada, alguma contestação que passa essencialmente pela preferência pela alternativa de suspender as competições, e portanto adiar os jogos.

E esta contestação abrangeu edeptos, jogadores e treinadores (os mais visíveis terão sido Pep Guardiola e Jurgen Klopp) por todos eles considerarem, e bem do meu ponto de vista, que o espetáculo existe em função dos espectadores e que portantos sem espectadores não há razão para haver espectáculo!

Creio que em Portugal , que são as competições que mais diretamente nos interessam, teria sido preferível suspender os campeonatos durante duas ou três semanas (como se está a fazer noutros países) e depois analisar o processo de contenção da pandemia para decidir se havia condições para o normal retomar das competições ou, em alternativa, se se devia recorrer a jogos à porta fechada para acertar os calendários.

Creio que com as equipas portuguesas fora das competições europeias, com a consequente disponibilidade de dias a meio da semana para realizar jornadas, teria sido possível um reacerto do calendário sem transtornos de maior e sem a deprimente visão de jogos em estádios vazios que desagradam a todos os intervenientes.

Não foi essa a decisão, foi outra por razões que os responsáveis terão entendido como pertinentes, e há que a respeitar de forma total, deixando durante a realização dos jogos à porta fechada as imediações dos estádios sem pessoas para que os objetivos da contenção do vírus possam ser prosseguidos com sucesso.

Mas isto implica outra realidade.

Vivemos tempos de exceção, por graves razões de saúde pública, que exigem medidas de exceção.

E não adianta realizar jogos à porta fechada, para impedir grandes concentrações de pessoas, se depois essas pessoas se forem agrupar em cafés, restaurantes, associações recreativas e afins para assistirem à transmissão televisivas dos jogos das suas equipas.

O que se previne por um lado acaba por se facilitar por outro.

Sabendo que a esmagadora maioria dos portugueses não é assinante da Sport TV, e sabendo-se que esta operadora tem o monopólio da transmissão televisiva paga dos jogos da Liga NOS, creio que será essencial que se encontre uma forma de a título excepcional os jogos serem transmitidos em sinal aberto, quer pela Sport TV, quer pelos outros canais (RTP, SIC e TVI), para que as pessoas possam ficar em casa a verem nas suas televisões os jogos das suas equipas.

Não sei quem posssa patrocinar esse acordo, provavelmente deveria ser o governo, mas ele parece-me absolutamente necessário para ajudar a fazer frente com eficácia a estes tempos excecionais que vivemos.

Haja bom senso.



Comentários (1)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
motivo:
É o que dá
2020-03-12 00h34m por iSMURF4
deixarem os chineses jogar Plague Inc na vida real.
OPINIÕES DO MESMO AUTOR
Com o problema da COVID-19 a ganhar uma expressão brutal na Europa, aquela a que antigamente se chamava Europa Ocidental mas nem tanto na anteriormente chamada Europa de Leste (o que ...
02-04-2020 23:59
E a longa “noite” do futebol prossegue. Do futebol e do desporto em geral (já se sabe que também dos países mas estes textos são sobre matéria ...
23-03-2020 19:04
A jornada europeia da passada semana foi mais esclarecedora quanto ao que vale hoje, realmente, o futebol português do que as mil e quinhentas horas semanais de programas televisivos sobre ...
03-03-2020 09:05E4
Opinião
Pelas minhas gavetas do futebol
Tiago S. Nogueira
O sítio dos Gverreiros
António Costa
A preto e branco
Luís Cirilo Carvalho
Sempre (In)festa
Filipe Dias
A Coluna é do Cavani
A Culpa é do Cavani
O sítio dos Gverreiros
António Costa