O Melhor dos Jogos
Carlos Daniel
2020/01/23
E3
Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

Os últimos dias mostraram que é possível jogar melhor em Portugal. Os jogos grandes, em particular os do campeonato, não foram grandes jogos. O saldo é favorável a Benfica e Braga, agora mais candidatos ao título e à Europa, mas nada está decidido e verdadeiramente ninguém produziu futebol que emocione. Nem o Benfica, apesar dos melhores argumentos individuais e do um rendimento pontual inatacável, que 16 vitórias em 17 jogos não se questionam. Ainda assim, não só não jogou bem em Alvalade – a exemplo do sucedido diante de Aves e Rio Ave – como, em bom rigor, correu sério risco de ceder pontos perante o Sporting mais frágil em várias épocas. Bruno Lage estará decerto a ser sincero quando refere um Benfica em «alto ritmo coletivo», mas parece não valorizar o que lhe faltou em relação a partidas anteriores: uma maior capacidade de alternar ritmos e uma evidente falta de paciência, que se traduz em menor critério com bola.  E esta circunstância está longe de ser, obviamente, um exclusivo da equipa que lidera o campeonato, é antes um ponto comum em relação às principais equipas nacionais. Joga-se demasiado depressa, muito a partir de momentos de transição, a assumir, quase a desejar, que o jogo se parta para ter mais espaço e atacá-lo: E a este fator acresce uma emotividade excessiva, que tantas vezes tolhe a tomada de decisão dos atletas. Genericamente, e este é o ponto, faltam pausa e racionalidade.

No Benfica, os sintomas agravam-se quando Lage prescinde de Taarabt. O jogo de correria que é habitado por Vinicius (ou Seferovic) e Cervi, reforça-se na tentação de lançar depressa e longo de Gabriel e nas oscilações de humor até de Pizzi, ora dominador ora tenso. E a situação pode agravar-se se, na inevitável recondução de Rafa à titularidade, for Chiquinho e não Cervi o preterido. Foi na associação de Grimaldo-Taarabt-Pizzi-Chiquinho que o Benfica melhorou, sem dois deles fatalmente piorará.

No Sporting, o exemplo acabado de querer fazer depressa e bem, desesperando-se e destemperando-se quando não o consegue, é Bruno Fernandes. Resultados sombrios reforçam-lhe as características de emotividade, mas Bruno, o melhor futebolista do campeonato, deveria focar-se bem mais em jogar como tão bem sabe, sem se perder em picardias sucessivas com árbitros e rivais. E quando se vê Mathieu, outro dos poucos craques verdadeiros da equipa e do alto da sua maturidade, fazer o que fez em Braga, percebe-se que está ali uma equipa em que a estabilidade emocional é quase nula.  

O FC Porto é o rosto do treinador Sérgio Conceição e isso diz quase tudo quanto ao estilo – jogo mais direto e sempre acelerativo - e à condição emocional. O técnico valoriza a atitude, refere-a com ênfase no discurso, e os jogadores não a regateiam quase nunca. Os planos apertados de homens de talento indiscutível como Alex Teles ou Otávio, após cada lance dividido, são elucidativos. Nada é sereno, tudo parece mais sentido que pensado, como se lutar e jogar estivessem na mesma linha de prioridades. Muitas vezes, só a escolha de jogadores, quando são mais os que gostam de se associar para jogar, tem equilibrado as doses de razão e coração.

O Braga de Amorim dá uns primeiros sinais de qualidade estratégica sem bola e personalidade quando a tem. Assim o vimos no Dragão e frente ao Sporting. Com propósitos de equipa grande, dando a ideia de que o novo técnico sabe para onde vai mas ainda não exactamente… por onde vai. É que uma dupla de médios Palhinha e Fransérgio garante equilíbrio e capacidade nos duelos mas não faz fluir o jogo interior como André Horta conseguiria. E perceber quem jogará mais vezes entre Ricardo Horta, Galeno e Wilson Eduardo (e Trincão, claro!) será indicativo do jogo que se procura.

Também o Vitória de Guimarães teve rival de topo esta semana para a Taça da Liga, e, se estão sempre lá os princípios ofensivos ambiciosos, não é menos verdade que a equipa tem muitas vezes pressa de concluir o que prepara – e bem! – a construir. Claro que finalizadores de maior qualidade individual atenuariam sempre o problema, mas não duvido que Ivo Vieira ganharia em fazer a equipa aguentar até ao momento certo para atacar a definição junto da área rival.

A correr por fora, mas metido na luta dos maiores está o Famalicão, racional, deve reconhecer-se, até no modo como distribui os jogadores pelo terreno. Percebem-se a ideia e os princípios. A eles hei de voltar. Hoje interessa-me em particular a serenidade que se nota quer nas imagens no banco quer no discurso após os jogos do treinador João Pedro Sousa. Porque não duvido que o tom do líder, ao mesmo tempo sereno e convicto, contamina a equipa. E só lhe tem feito bem. 



Comentários (3)
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motivo:
leo_83
2020-01-30 08h26m por kropotkin
Se fores perguntar opiniões sobre o assunto à casa do Benfica de Paredes vais ter uma surpresa.
HU
Carlos Daniel
2020-01-29 23h56m por hugomoura__
Mais um texto brilhante. Sem desiludir!
Dá gosto ler (gostaria de ouvir mais vezes) os textos do Carlos, sempre assertivo e realista, denotando grande conhecimento e envolvência futebolistica. Houvesse mais Carlos Danieis por Portugal fora e o futebol ficaria muito mais respirável. . . Sempre fã!
Abraço.
LE
.
2020-01-29 00h20m por leo_83
Um grande adepto do Porto! Tolda-lhe a capacidade jornalística. Que pena. . . .
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