A Coluna é do Cavani
A Culpa é do Cavani
2019/12/17
E1
A Coluna é do Cavani é o espaço de opinião sobre e à volta do FCP, dinamizado pelos podcasters responsáveis por “A Culpa é do Cavani”, o podcast de referência do universo portista. Publica-se à terça-feira, semana sim, semana não.

Sou sanguíneo, gosto de o ser. Gosto da abertura de se poder dizer o que se pensa. Nem sempre posso, nem sempre consigo. Nem sempre se consegue. Nem sempre se deve.

É claro que a razão, rainha toda poderosa que tudo comanda e organiza, o desaconselha.

Afinal, nunca se sabe até onde a explosão rebentará. Mas não deixa de ser inspiradora, a ideia de se ser, afinal, o que se parece. Ir de peito e coração aberto, estar e ser genuíno.

Esse ser genuíno foi o que me apaixonou quando comecei a viver o meu Porto, na faculdade. Sempre fui de gostar de observar o fio das gentes, as suas idiossincrasias, o seu trato, o seu modo. Sempre me fascinou a forma desabrida como a palavra “meiguice” é tratada no Porto.

Sim, as pessoas têm afecto, mas não é um afecto suave. É aquele que ama apaixonado, aquele que luta e se põe na frente para levar a bala destinada a outro, mas é também aquele que te rasga sem complacência de alto abaixo, para depois te dizer “mas olha que eu gosto muito de ti, meu grande filha da p…” e te abraçar com toda a força enquanto te paga um fino.

É gente tribal, a sanguínea! Gente que se está contigo, vai até ao fim do mundo, gente que se te vê do outro lado, vai contra ti com tudo o que tem. Não há moderação ou resguardo, é-se intenso e pronto. Aliás, aqui foi cunhada a expressão “seu grande co*as”, não como depreciativo do órgão reprodutor feminino, mas sim como parábola para o cálice, o receptáculo e não a brava espada que limpa o caminho, como deve ser.

Admiro o desenrasca, presente na sua própria designação de tripeiro, de fazer muito com pouco, de não ter m**rdas, de não temer ir onde outros chegariam dificilmente. A história da utilização de tripas como alimentação quando nada mais havia, só poderia surpreender quem não conhece as gentes do Norte. Não há pruridos, não há hesitações, não há tempo para pensar em alternativas. É por aqui? Não há escolha? Siga!

Para sempre me lembrei quando uma amiga de Lisboa veio morar para o Porto e chegou à minha beira no bar da estação de São Bento e me disse:

- Não vos percebo!

- O que foi? – retorqui eu, já adivinhando a razão do choque na sua face.

- Então que vi dois tipos sorridentes a gritar um para o outro “tás bom, filha p*ta?!” e outro a dizer “tou, meu c…, e tu tas bom, morcão da m*rda!?” como se nada fosse! E saíram e lá a falar animadamente um com o outro, como se nada fosse!

Dei uma gargalhada. Lembrei-me logo de que este é o tribalismo nortenho. Gostamos, respeitamos, mas temos a familiaridade própria de quem se conhece, mesmo não se conhecendo.

Uma deliciosa sanguinidade.

Jorge Vassalo



Comentários (1)
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motivo:
RE
Sem palavras
2019-12-17 14h45m por RedLineVigo
Ler estas palavras, só por si já me deixam com um sentimento, e sobretudo um orgulho em ser do Norte.
Não falo do Futebol, porque por ai somos Enormes, seja qual for o Clube, com um sentimento de pertença, (a dar goleada às outras regiões do país) seja Leixões, Tirsense, Famalicão, Fafe, Lourosa, Lamas, etc.
Ser do Norte é "ser", verdadeiro, sem filtros, como se diz, com o coração na boca e isso jamais irei mudar.
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