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Campo Pelado
Pedro Jorge da Cunha

Academia da Maia: timing é desrespeito grosseiro por quem vota

2024/04/17
E4
«Campo Pelado» é o espaço de opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Uma homenagem ao futebol mais puro, mais natural, onde o prazer da camaradagem é a única voz de comando. «Campo Pelado».

* Chefe de Redação 

«A Associação Recreativa dos Lírios de Cima vai a eleições no dia 30 de fevereiro. Há três listas candidatas aos órgãos sociais e a incumbente não é, pela primeira vez em seis décadas, a absoluta favorita.

Mesmo assim, o ainda presidente Licínio Realista formalizou a aquisição de terras para a construção de um pombal olímpico, no valor de 300 mil euros. Isto, a cinco dias do sufrágio e sem qualquer certeza sobre a sua reeleição.

A decisão, recorde-se, é contestada pelas duas restantes candidaturas, cada uma delas com a sua própria localização para o pombal inscrita nos respetivos programas eleitorais.»

Perdoem-me a deriva imaginária. O absurdo das linhas supracitadas pretende realizar uma analogia simples, percetível a uma criança de seis anos, com a situação dos famosos terrenos da Maia.

Não possuo conhecimentos técnicos que me permitam afirmar se a futura Academia do FC Porto faz mais sentido no concelho maiato ou mais perto do Olival, nem é isso que coloco em causa.

O que me faz abrir a boca de espanto, e perdoem-me a assumida ingenuidade, é verificar que, a 12 dias de uma eleição fundamental para os destinos do FC Porto, uma direção em fim de mandato decida investir milhões num aparelho estrutural que não reúne a concordância dos restantes candidatos.

Salvo as devidas distâncias e especificidades, coloco outro cenário em cima da mesa: e se o governo PS tivesse fechado o dossier do novo Aeroporto a uma semana das últimas Legislativas, atirando para a responsabilidade do novo executivo uma decisão com um peso orçamental extraordinário e que não entrava no seu programa?

Insensato e irresponsável.

Explicações para esta súbita urgência? A única possível, julgo: trunfo eleitoralista.

Ora, eu percebo que um homem há mais de 40 anos no altar do poder tenha dificuldades em colocar a mão na consciência e perceber que a decisão no dia 27 de abril pertence aos sócios do FC Porto. Tento perceber, pelo menos. São anos e anos de liderança incontestada, incensada, adulada e todos os adas que queiram adicionar.

Jorge Nuno Pinto da Costa foi figura sacra e intocável décadas a fio. Voltar a ser um mero homem não é um processo de transição simples. Mas é o que a realidade impõe.

Se Pinto da Costa for reeleito, este dossier avançará pelos pingos da chuva e choverão elogios do lado vencedor; e se for Villas-Boas o vencedor? Possibilidade verosímil, já agora.

Rasgar-se-ão contratos com a câmara de Maia e a empresa ABB? Pode o FC Porto, em alerta máximo nas Finanças, dar-se ao luxo destes expedientes?

O «presidente dos presidentes» está, antes de mais, a desrespeitar a vontade de milhares de portistas dispostos a votar em André Villas-Boas ou Nuno Lobo. Foram mais de 30 por cento em 2020 e o número não ficará certamente abaixo no próximo sufrágio.

Um erro estatutário e um erro de decência.

PS: «Eu candidatei-me porque verifiquei que as coisas estão mal e é preciso voltar a pôr as coisas como eram. Batemos no fundo. Há que fazer a radiografia, ver os erros que se cometeram, não os repetir.»

Autor da frase? Jorge Nuno Pinto da Costa, em abril de 2016, poucos dias antes das eleições realizadas a 17 desse mês.

Porquê esta declaração com oito anos? Por ter sido nesse ano, em entrevista ao JN, a primeira vez que o presidente do FC Porto falou do desejo de ter uma academia na Maia. «O meu grande projeto para o futuro é fazer um centro de treinos para os jovens. Estamos em conversações com a Câmara da Maia.»

Depois, o silêncio. Só em setembro de 2018, por altura da celebração dos 125 anos do FC Porto, o tema voltou às notícias. Pinto da Costa referiu-se à «obra que falta fazer» e a uns terrenos localizados em São Mamede de Infesta, próximos à Via Norte. O arranque dos trabalhos estaria agendado para 2019, mas só em 2020, por alturas do anterior ato eleitoral, o presidente deu mais explicações.

«Temos um terreno de oito hectares no concelho de Matosinhos. O plano diretor já está alterado e o de pormenor já foi aprovado pela Câmara Municipal. Prevê sete campos de futebol de 11, um deles com bancada para 2500 lugares, e dois campos de futebol de sete. Terá uma zona residencial, um lar, um hotel para 100 camas e temos dois tipos de financiamento aprovados.»

A Câmara Municipal de Matosinhos desmentiu, em comunicado, esta obra.

«A Câmara Municipal de Matosinhos encontra-se a analisar um Pedido de Informação Prévia (PIP) que demonstra a intenção do Futebol Clube do Porto em instalar um complexo desportivo, com várias valências, no lugar da Amieira, na freguesia de São Mamede Infesta. Até ao momento ainda não aprovou nenhum PIP, nem nenhum Plano de Pormenor, nem alterou o Plano Diretor Municipal para esta área.»

A hipótese São Mamede de Infesta caiu.

A 23 de abril de 2022, Pinto da Costa soprou as velas de 40 anos na presidência. E fez mais promessas.

«O que me falta, em termos práticos, e estou convencido que vai acontecer - agora mais do que nunca, e não posso dizer mais do que isto - é fazer o nosso centro de estágio. O meu mandato acaba daqui a dois anos e estou convencido que daqui a dois anos teremos o nosso centro de estágio.»

Foi em novembro de 2022, e numa Assembleia Geral, que o FC Porto anunciou a ideia de realizar a obra na Maia.

A 12 dias de mais umas eleições, o presidente de 87 anos achou boa ideia passar dos adiamentos e das promessas para a formalização da aquisição dos novos terrenos.

Mais de três milhões só para as terras e sem saber o que decidirão os sócios a 27 de abril.

Um desrespeito grosseiro.    



Comentários

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motivo:
Paf
2024-04-18 23h12m por EdmundoAnimal
Foi assim que venderam a TAP. .
MA
Coincidência
2024-04-18 14h58m por Mano_Bambino
87 anos de idade, 40 anos no poder, liderança incontestada, Dividas acumuladas, promessas não cumpridas e feitas a beira das eleições. . .
Faz -me lembrar certos governantes africanos!
Concordo mas. . .
2024-04-17 23h39m por EspecialistaDaBola
Concordo com a totalidade no texto, excepto da explicação do autor para a razão deste subito e apressado investimento: trunfo eleitoralista. Parece-me mais que há vontade de garantir que, independentemente do resultado das eleições, o FC Porto fica obrigado a pagar uns milhões a alguém.
JO
Quero, posso e mando. . .
2024-04-17 13h52m por Joduarte92
Independentemente de quem ganhe as eleições no próximo dia 27, esta ação é das coisas mais presunçosas, desrespeitadoras e francamente idiotas de que me recordo no meu clube.
O sentido de urgência desta direção está completamente desalinhado das reais necessidades do clube. Sim, é verdade que a academia já devia estar feita há muito tempo mas, quem espera estes anos todos não pode esperar 2 semanas?
Mais, 40 milhões para concluir o projeto apresentado? Assim de repente, d...ler comentário completo »

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