O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel

      A gratidão nacional e a seleção nacional

      2024/07/09
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

      Não foi bom o Europeu de Portugal. Foi de menos a mais, com uma exibição muito competente na despedida, mas esta foi uma seleção que demorou a assentar num plano de jogo, viveu um experimentalismo tático com alteração de estruturas – dois e os três centrais?  - que consumiu tempo e revelou escassa utilidade, sofreu com algumas opções incompreensíveis, em que avulta a substituição de Vitinha com a Eslovénia, e não teve, o que é óbvio ao fim de cinco jogos, verdadeiro poder de fogo no ataque. Os mais de 300 minutos sem conseguir marcar um golo com que despediu da prova são eloquentes.

      Cristiano Ronaldo não foi naturalmente o único problema, mas foi um problema, como se adivinhava, em particular após o jogo com a Irlanda, que iludiu quanto à condição atual daquele que é um dos melhores futebolistas mundiais de sempre. Ronaldo não devia ter sido titular indiscutível da seleção e menos ainda participar (quase) todo o tempo em todos jogos, prolongamentos incluídos. Parece hoje evidente que a sua história, única e incomparável, não o pode eternizar nas opções táticas, porque não pode a gratidão nacional a definir o onze da seleção nacional. Jogando tempo idêntico, é difícil imaginar que Gonçalo Ramos, Diogo Jota ou João Félix – aqueles que também podiam desempenhar a função – não tivessem acrescentado golos à carreira lusa no torneio da Alemanha.  

      A gestão do futuro não se afigura fácil, sem que se descortine uma solução ótima. Cristiano Ronaldo não deu sinais de querer abandonar o grupo e parece até óbvio – e respeitável, do ponto de vista pessoal - que pretenda outro final para a sua história de quinas ao peito. Assim, contar ou não com CR7 na Seleção, e em que moldes – não sendo eu adepto de teorias da conspiração ligadas a influências de A ou B - estará na exclusiva competência e responsabilidade de Roberto Martínez. Quando o técnico espanhol assumiu a equipa de Portugal, Fernando Santos tinha acabado de virar uma página, assumido pela primeira vez, com atos – a colocação de Ronaldo a suplente em dois jogos do Mundial do Catar – que o craque indiscutível tinha deixado de o ser. Instalou-se um psicodrama, os três golos de Ramos de pouco valeram, a seleção perdeu com Marrocos e Santos caiu. Recém-chegado, Martinez foi à Arábia falar com o português mais famoso do mundo e decidiu que mais valia gerir a questão Ronaldo a partir de dentro do que tê-la a atormentá-lo, em permanência, a partir de fora. Mais que avaliar agora se foi certo ou errado, algo me parece evidente: na caminhada para o Mundial, Portugal já não poderá, em definitivo, ser Ronaldo e mais dez. Acontece que um recomendável meio termo – ter Ronaldo mas assumir que ele pode ser substituído, suplente e até nem convocado – nunca vai ser fácil de gerir, desde logo pelo próprio, mas também pelos média e pelo público mais ululante que se acotovela a ver jogos quando da seleção se trata.  

      Restam-me duas certezas:
      1. Clarificar o lugar está reservado a Ronaldo é fundamental para que não se desaproveite mais uma vez o potencial desta incrível geração de talentos, em que alguns dos mais brilhantes – como Bernardo, Bruno e Cancelo – até já tocam a casa dos 30;
      2. Uma coisa é a crítica, outra é o achincalhar um atleta, seja com números ou memes, para mais quando se trata de uma lenda única como Ronaldo, no tanto que representa para Portugal e os portugueses. 

      PS: Já agora e guardadas as proporções, o mesmo se aplica a João Félix, um dos celebrados (e verdadeiros) grandes talentos da seleção: atacar e desvalorizar um atleta, aproveitado o facto de ter falhado um penalti é mais que ignorância e injustiça, é uma indecência.



      Comentários

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      motivo:
      Messi
      2024-07-16 23h38m por Fecundofagundes
      Ainda querem comprar o Ronaldo ao Messi. Enquanto um destrói uma nação, o outro continua a unir um grupo e ganha o que realmente interessa no desporto títulos, e não seguidores no Instagram.
      A LIÇÃO espanhola. . .
      2024-07-15 19h37m por Toupeiral
      . . . está mesmo aqui ao lado, mas insistimos em não a ver e muito menos em aprender com ela.

      Triste sina, triste fado, triste futebol. . .
      KA
      Questão
      2024-07-13 08h36m por kape
      Teríamos ganho o euro 2016 tivesse Ronaldo não saído? Nunca se saberá mas há um claro pressentimento. Custa um pouco mandá-lo embora mas por vezes a mobília velha e carunchenta tem de ser posta de fora em prol da nova.
      Outras seleções tiveram coragem e apostaram na juventude e o resultado está á mostra
      🐘
      2024-07-11 15h01m por Toupeiral
      Se o Ronaldo soubesse o que é, em profundidade, o conceito EGO, fugia a 7 pés. . .
      Ronaldo, o "elefante na sala"
      2024-07-11 00h37m por BlackCat
      Como tem sido habitual na comunicação social portuguesa, Carlos Daniel até tenta mostras qual é o "elefante na sala", mas não tem a coragem de dizer que é necessário retirá-lo, a bem ou a mal.
      O problema deste psicodrama à volta de Ronaldo é, desde logo ele próprio: com um ego incomensurável, muitas vezes fomentado por familiares, amigos e patrocinadores, continua a achar-se o melhor do mundo e não assume a natural decadencia própria da sua idade. Ao mesmo tempo, há nele algo do...ler comentário completo »
      🐄
      2024-07-10 12h29m por Toupeiral
      A FPF em conluio com interesses múltiplos disfarçados por outras tantas vaidades, optou e priorizou espremer até ao fim o FI£ÃO Ronaldo, que se presta às tristes figuras decadentes que são seu o novo padrão desde o rotundo FIASCO que foi a experiência MU 2.

      Os V€NDI£HÕ€$ da FPF afrontam a nação ao fazer da Selecção Nacional um SKETCH cómico produzido em sinergia pelos seus Departamento de Vendas e Departamento de Entretenimento, Ilusionismo & Comédia. . .
      RONALDO, LENDA, MAS NÃO DONO DE PORTUGAL
      2024-07-10 04h47m por Lusitano
      Estou de acordo com o Senhor Carlos Daniel, e têm que ser tomadas decisões firmes. porque RONALDO deve sair da Seleção Nacional, e não pode continuar a prejudicar um País inteiro e, uma nova geração de jogadores que têm direito a um lugar na Seleção de todos os portugueses!
      Excelente visão
      2024-07-10 02h33m por kumbabaa-
      Ainda sobre a lista de convocados para este euro Pedro Gonçalves, Francisco T e Nuno Santos? Não teria feito diferença a sua chamada?
      João Félix
      2024-07-09 22h41m por robbiefowler9
      Quanto a João Félix, o talento está lá, mas não existe ali alegria desde há muitos anos, nem grande vontade de suar e dar o litro para ser consistente e melhor com o tempo, e essas combinações fazem com que esteja estagnado e sem evolução, o que para um jogador que ambiciona ganhar as maiores competições e os maiores prémios individuais acaba por ser muito pouco, mesmo com um currículo de carreira assinalável; ele tem que decidir se se resigna e fica já contente com o que conquistou, ou f...ler comentário completo »
      Quanto a mim
      2024-07-09 22h31m por robbiefowler9
      Cristiano Ronaldo ainda não saiu da Selecção porque é uma máquina de marketing que dá fortunas à Federação, e na verdade mesmo que existam pessoas perto dele que lhe digam que o seu tempo pelas quinas terminou, existem muitos mais interesses nos bastidores em continuar a espremer a marca CR7 e que lhe enchem o ego a pensar que ainda pode ser ele "o herói"; a ser verdade que quer ainda jogar com o seu filho, que o faça no Al-Nassr como passagem de testemunho entre pai e filho quando for tempo
      SA
      Caro Carlos Daniel. .
      2024-07-09 21h12m por santander
      Em primeiro lugar uma nota:
      Aclamo as suas opiniões e penso que fazem mais falta aos painéis de paineleiros da nossa televisão, mais comentadores como o Carlos. . Apresenta uma opinião sempre sustentada, fugindo daquilo que são chavões fáceis que atraem audiências. . infelizmente em Portugal parece que gostamos mais da polémica, mesmo que seja em nosso desfavor, do que aprender para podermos ter uma visão mais clarividente daquilo que vemos. .
      Todas as opiniões são válidas ...ler comentário completo »
      A PROBLEMÁTICA em causa resume-se. . .
      2024-07-09 17h15m por Toupeiral
      . . . à questão suscitada e tratada reflectidamente pela Escola de Filosofia do Porto entre 1944-1974 através das obras monumentais de Cunha Leão:

      «Ensaio de Psicologia Portuguesa»

      «O Enigma Português»

      «Do Homem Português»

      Um vinco indisfarçável e uma trama singular entre um omnipresente COMPLEXO DE INFERIORIDADE amenizado pela CRENÇA NUM DESTINO MESSIÂNICO, eis o núcleo da problemática portuguesa desde que nos consciencializamos como povo e cultura autónoma da Ibéria.

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