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Parte I da entrevista do médio ao zerozero

Rui Pires em Singapura: «Tive um colega de equipa que passou 15 dias na solitária»

Rui Pires foi uma das maiores promessas na formação do FC Porto. O médio, atualmente com 26 anos, embarcou para outro tipo de aventuras e voltou a emigrar, desta vez para Singapura, o segundo país que conheceu em termos desportivo depois de França, onde esteve dois anos.

Numa região a quase 20 horas de distância de Portugal, o trinco confessa-se feliz com a decisão na carreira, uma vez que tem um estilo de vida que não encontraria na maior parte do mundo. Apesar de o país se equiparar, em termos de dimensão, à ilha da Madeira, conta com quase seis milhões de habitantes e pouco espaço para construir... novos estádios.

A diferença horária entre Singapura e Portugal não é um problema. Rui Pires atende a nossa chamada de sorriso no rosto, pronto a falar sobre todos os capítulos da carreira que começou em Mirandela, onde nasceu. Seguiram-se FC Porto, Paços de Ferreira, Troyes (França) e Lion City Sailors (Singapura).

Nesta primeira parte da entrevista ao zerozero, Rui Pires fala sobre as inúmeras histórias numa realidade completamente distinta, conta como um colega de equipa foi parar à solitária durante duas semanas e explica como é que nove equipas dividem quatro recintos desportivos. 

As restantes partes serão publicadas durante o dia.

PARTE II - Conceição, NES e Luís Castro: Rui Pires relembra o «sonho de miúdo» no FC Porto

ZEROZERO (ZZ): Abandonou a Europa para embarcar numa aventura em Singapura no ano passado. Quais foram os motivos que o levaram a tomar essa decisão?

RUI PIRES (RP): Não posso esconder que, do ponto de vista financeiro, era uma proposta muito apelativa. Foi por isso que aceitei. A primeira vez que me abordaram não fiquei totalmente convencido, estava um pouco indeciso. Sair da Europa e vir para um país que quase ninguém conhece... Mas, numa fase posterior, as pessoas do clube apresentaram-me o projeto e gostei de imediato. É um emblema que já existe há bastante tempo, mas mudou de nome há três anos, uma vez que o novo dono investiu em meados de 2020. Estão a tentar crescer a cada ano que passa com um investimento avultado. Temos ao nosso dispor instalações espetaculares, pois querem que a equipa seja a número um destacada no país. Além disso, pretendem boas prestações na Champions Asiática, um cenário com o qual convivemos na última época.

Jogaram um amigável com o Tottenham @Getty /
ZZ: ...

RP: Mas é difícil. A Liga de Singapura ainda não aceita muitos estrangeiros num plantel e o campeonato ainda não evoluiu. O ano passado só podiam jogar três atletas vindos de fora juntamente com um asiático. O resto tinha que ser tudo local. Agora, aumentaram as vagas para quatro estrangeiros (dois sub-21) e um asiático. Tem que existir, também, um investimento em relvados. A maioria é sintético e não convivem diariamente com relva natural. Assim sendo, penso que tudo vai melhorar. As condições são bastante boas e a qualidade de vida é espetacular. É muito difícil teres este nível em mais algum lado. Morámos em condomínios fechados e com piscina, juntamente com 30 graus. Também há praia aqui ao lado e, como temos algumas folgas, dá para passearmos um pouco.

ZZ: Esteve vários anos na formação do FC Porto. Acredita que as infraestruturas sejam tão boas como as que encontrou anteriormente?

RP: Eu estive no Paços antes de vir para aqui e as instalações também eram boas. A verdade é que não sinto nenhuma diferença relativamente ao FC Porto, ao Troyes e ao Paços de Ferreira, os clubes por onde passei durante a minha carreira. Temos tudo disponível e dão-nos tudo o que precisamos para estarmos preparados. É tudo muito novo e está em excelente estado. Por exemplo: construíram uma academia há dois/três anos e o staff é todo estrangeiro, o que me ajudou na adaptação. Mas tenho admitir que estou inserido numa realidade em que é o único clube nestes moldes. No total, são nove equipas e vamos jogar quatro rondas, ou seja, quatro vezes contra os mesmos conjuntos. Existem muitos aspetos particulares, pois eles não estão habituados ao futebol profissional. É uma realidade diferente. Quando cheguei, claro que foi um choque, mas com o passar do tempo o cenário mudou de figura. Quem vem de fora traz outro tipo de experiências, no entanto, serão necessárias algumas semanas ou meses para existirem melhorias significativas. O que me disseram é que as ligas ao redor, como a Malásia, Tailândia ou Indónesia, são mais fortes do que a de Singapura.

ZZ: Gostava de incidir sobre a questão do investimento. Qual é que acha que é a razão para tal estar a acontecer com tanta força, sobretudo no Lion City Sailors?

Rui Pires passou por Paços @Catarina Morais / Kapta +
RP: O governo implementou estas medidas e o campeonato vai mudar, disso não tenho dúvidas. Eles querem melhorar a competição, mas, tal como já referi, precisam de tempo para mudar simples aspetos. São nove equipas e uma delas é do Brunei (ao lado da Malásia)... Este ano têm um treinador e um jogador português. Outro exemplo: nós estamos a mais ou menos 15 dias de começar o campeonato e ainda não sabemos se vamos jogar primeiro fora ou em casa. O ano passado, por outro lado, existia uma equipa que se chamava Albirex Nagata (S), que podia jogar com 20 japoneses, um cenário único que a federação permitia. Foram campeões porque faz a diferença ter 11 atletas japoneses com uma formação ao mais alto nível comparativamente aos quatro estrangeiros que nos eram permitidos. Tu podes fazer muita coisa, mas depois é difícil tentares organizar tudo, percebes?

ZZ: ...

RP: Os campos em que nós jogámos pertencem todos ao Estado. Temos quatro estádios e as equipas partilham os estádios entre si. Logo, é tudo aqui em Singapura. Não tenho viagens, não tenho estágios. Eu saio de um jogo como se nada se passasse. Algumas fotos e tal, mas eu chamo um táxi e as pessoas perguntam: 'O que é que aconteceu aqui?' E eu estou a jogar num FC Porto de Singapura. É muito engraçado porque eles são loucos pela Premier League, pelo futebol inglês. Acompanham tudo, pois as partidas são durante a tarde. Para mim é mais complicado ver os encontros do FC Porto, Benfica ou Sporting devido ao fuso horário [mais sete horas do que em Portugal continental]. No entanto, no que toca ao futebol local, não querem saber. Nos nossos jogos, em média, temos dois/três/quatro mil espetadores. Quando eu cheguei, o primeiro amigável foi contra o Tottenham e foram mais de 40 mil adeptos. Também esteve cá o Bayern Munique ou o Liverpool. Levaram mais de 60 mil adeptos. Por isso é que digo que há vários aspetos a corrigir.

Esteve na equipa principal do FC Porto @Fábio Poço/Global Imagens
ZZ: Qual é que é o «desporto de eleição» em Singapura?

RP: Se eu lhes perguntar, eles também não sabem. Não há um em concreto. É tudo meio termo. Gostam de futebol, atletismo... Mas a realidade de ter apenas um desporto, tal como acontece na maior parte da Europa, é utópica. Eu penso que eles preferem investir o dinheiro não no desporto em si, mas sim em infraestruturas para melhorar o país. Dinheiro não lhes falta. O país é mesmo muito rico.

ZZ: Gostava de voltar atrás no discurso, uma vez que o Rui disse que existiam quatro estádios para... nove equipas?

RP: É exatamente isso. Ou seja, dois conjuntos para cada recinto desportivo e, tal como já referi anteriormente, temos um emblema do Brunei, que ainda não sabe onde vai jogar (...) A verdade é que não existe muito espaço para construir outro tipo de infraestruturas. Só existem prédios e tentam que sejam os mais altos possível numa área pequena. Tem o tamanho da ilha da Madeira, por exemplo, mas aqui moram quase seis milhões de pessoas. É abismal. 

ZZ: Já referiu as diferenças entre o futebol singapurense e o futebol europeu, por exemplo. Em termos de adaptação, o choque foi muito grande?

RP: Eu e a minha esposa, que também está cá comigo, fomos muito sortudos porque viemos parar a um país em que a língua principal é o inglês, ao contrário de muitos sítios da Ásia. Eu tenho colegas no Japão, na China ou na Coreia do Sul, que depende das zonas em que estiveres. Se não forem as grandes cidades... É tudo diferente. Existem muitas culturas vindas da Índia, Malásia, Filipinas, Vietname, Indónesia ou Tailândia. Mas o país tem regras muito rigorosas. Por exemplo, no que toca aos transportes públicos, é tudo muito barato, um dos aspetos acessíveis em termos económicos. Eles não querem que os estrangeiros venham para aqui ter carro. Significa mais gente e mais trânsito. Portanto, é um aspeto inacreditável. Eu vou de autocarro para o treino todos os dias. Têm todas as condições, tal como os metros, que passam de dois em dois minutos. Estão sempre limpos, não podes comer nem beber lá dentro. Caso contrário, és multado em mil dólares.

ZZ: ...

@Lion City Sailors
RP: Possuem câmaras de segurança em todos os lugares, não podes fazer nada de ilegal. Por um lado sentes que estás a ser observado constantemente, mas também tens a segurança necessária. A minha esposa pode sair à rua em qualquer hora e ninguém se mete com ela, não há qualquer tipo de problema. As crianças com seis/sete anos andam sozinhas nos autocarros, algo impensável em Portugal. Ao início isso metia-me um bocado de impressão, no entanto, lá me habituei. Também não podes cuspir para o chão, comer pastilhas elásticas ou fumar em espaços públicos onde te apetece. Corres o risco de ser multado. Em Portugal também temos muitas regras, só que não se cumprem [regras]. Aqui, quem não as cumprir tem de sair do país. Os locais, se fizeram alguma asneira, são avisados. O estrangeiro, se fizer algo mais grave, vai embora e nunca poderá voltar. Não há drogas: ninguém pode vender ou consumir, caso contrário, podem ser punidos com pena de morte...

ZZ: Já estava a par de todos esses aspetos ou foi uma viagem «às escuras»?

RP: Não, não. Já tinha uma pequena ideia. Quando a proposta chegou, fui tentar falar com o máximo de pessoas possível. Claro que também pesquisei na internet: como é viver em Singapura? [risos] Fui surpreendido com algumas caraterísticas, mas não tenho qualquer razão de queixa. 

ZZ: A esposa foi logo para Singapura ou juntou-se numa fase posterior?

RP: Veio comigo porque a viagem era muito longa. São quase 20 horas, ainda é bastante. É quase um dia e depois desperdiço outro só com jet lag. Ficámos os primeiros tempos no hotel, até encontrarmos um apartamento. Já estava grávida e não sabíamos [risos]. A minha filha nasceu em Portugal, coincidiu com as férias que tive. Mas estamos muito contentes com o ambiente que a envolve.

ZZ: Como é que lidaram com a questão da humidade? Referiu, no início da entrevista, que estão constantemente 30 graus... Foi o aspeto mais complicado de conseguir ultrapassar?

RP: Claramente. É muito calor e mesmo muita humidade. Nós treinamos todos os dias às seis da tarde ou às sete e tal da manhã, quando o sol ainda não está forte. Eu saio do treino, depois de tomar banho, ando três minutos a pé e fico todo suado. Na semana passada, por exemplo, fomos de estágio para a Tailândia, estavam cerca de 40 graus... É absurdo. Aqui, pelo menos, a temperatura é constante, apesar de chover várias vezes. 

ZZ: Como é que se conseguiu adaptar em contexto de jogo? 

@Lion City Sailors

RP: É complicado porque também não estamos habituados. Mas, agora, a Liga alterou alguns aspetos e, portanto, tive mais tempo de férias. Estão a tentar adiar ao máximo para termos um calendário igual ao futebol europeu. Como? Três jogos por mês. Vai começar em maio e só termina em maio do próximo ano. Ou seja, tive dois meses e meio a treinar sozinho, para não perder a forma física. Fiz tudo direitinho e, quando voltei, contraí uma lesão muscular. Não sei se foi da temporada ou da viagem... Nos últimos três anos nunca tinha tido nada, no entanto, vou perder os primeiros dois jogos do campeonato (...) Lembro-me, também, da minha chegada coincidir com o Ramadão. Nós temos muitos muçulmanos na equipa e eu fiquei impressionado como é que eles aguentavam tanto calor sem comer. 

ZZ: Teve a companhia de jogadores brasileiros, como é o caso do Pedro Henrique e do Diego Lopes, que passaram por Portugal. Acredito que o tenham ajudado a integrar-se de outra forma...

RP: Eu cheguei cá e senti-me como se estivesse em casa. Muito por culpa deles. Agradeci-lhes muito porque foram duas pessoas que me ajudaram bastante. É difícil para uma pessoa ir para um clube novo, longe de casa, onde não conhece nada nem ninguém. Os primeiros tempos são complicados, mas acolheram-me muito bem, tanto eles como as respetivas esposas. Fiquei com pena que tivessem saído, mas a vida é mesmo assim. De certeza que estão bem nos caminhos que escolheram. 

ZZ: Atualmente, como é que o plantel está construído em termos de nacionalidades? Têm algum brasileiro?

RP: Agora não. Temos um belga, um croata, um neerlandês, um australiano e um espanhol. O resto são jogadores locais, mas que fazem parte da seleção de Singapura. São dez ou 11 atletas (...) O que eu reparei, desde o início, é que eles não têm um profissionalismo ao nível que estamos habituados. Eu partilho da opinião de que, alguns deles, se tivessem oportunidades, podiam fazer algo mais. Converso várias vezes com eles e digo-lhe que podiam ter um futuro bom, caso estivessem na Europa. Não quero entrar em valores, mas um salário cá é mais vantajoso comparativamente a outros campeonatos. Na minha equipa acredito que quase todos são bens pagos, no entanto, não sei se o cenário é transversal a outros emblemas. Deviam ser mais bem pagos, na minha opinião. Do ponto de vista técnico são evoluídos, mas taticamente não estão no mesmo patamar. Não percebem tanto o jogo. O meu primeiro encontro foi na Champions Asiática e reparei que, aos 30 minutos, o duelo já estava partido. Só se utilizavam transições e ainda estávamos na primeira parte [risos]. Na Europa é impossível encontrar isso nessa fase. 

ZZ: Lembra-se de mais alguma história engraçada ou caricata?

RP: Já tenho algumas, apesar de só estar aqui há sete ou oito meses. Posso contar esta. Eles aqui têm serviço militar obrigatório, ou seja, durante dois anos abandonam o futebol e vão para o exército. A partir dos 16 ou 18 anos, não me lembro bem. Depois, também são obrigados a ir durante uma ou duas semanas para o serviço militar, um cenário que dura durante dez ou 15 anos. Tínhamos um jogador (da seleção de Singapura) que foi apanhado numa má comunicação entre o clube e o Governo relativamente a essas datas. Mandaram uma carta para acertar dias e o clube pediu para adiar porque não queria perder o atleta nesse período de tempo. No entanto, a mensagem não foi bem transmitida... Não apareceu durante 15 dias e eu perguntava aos meus colegas o que é que se tinha passado. Eles diziam: ' foi para a prisão'. [risos] Ou seja, como ele não apareceu na data estipulada, teve de passar 15 dias numa cela. 24 horas num quarto de 15/20 metros quadrados. Sem acesso ao telemóvel e apenas com um livro, oferecido por eles. Não podia fazer exercício físico porque eles têm medo que tenhas um ataque cardíaco. Só têm uma hora livre! Fiquei perplexo [risos]. Como é que um jogador da seleção foi para a cadeia por uma situação tão simples... São tantas histórias.

Portugal
Rui Pires
NomeRui Miguel Guerra Pires
Nascimento/Idade1998-03-22(26 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoMédio (Médio Defensivo)

Fotografias(50)

Comentários

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motivo:
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2024-05-10 16h41m por bet_now
Excelente artigo/entrevista zerozero, dá para conhecer uma realidade não só a nível futebolístico como também a nível cultural!
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