Goleador dos Arcos em entrevista

O «Benzema» do Rio Ave quer o Mundial: «2-2 contra Portugal, golo do Aziz»

Agosto acabou com o FC Porto a perder-se nos Arcos e um nome a fazer manchetes no day after: Abdul-Aziz Yakubu. Quem era aquele avançado, capaz de marcar por duas vezes ao campeão nacional? Quem é, afinal, o atacante que divide com Mehdi Taremi e Simon Banza a liderança na lista dos marcadores do campeonato? 

O zerozero voltou a Vila do Conde, quase um mês depois dessa vitória surpreendente do Rio Ave, com o bloco de notas cheio de perguntas. Aziz, 23 anos, contagiou a conversa com um sorriso simples e genuíno, e com o desejo público de entrar na lista de convocados do Gana para o Campeonato do Mundo que está aí à porta. 

35 golos nos últimos dois anos dão-lhe as credenciais necessárias para exigir a atenção do selecionador Otto Addo. «Rapaz de poucas palavras», o ganês inspira-se nos feitos de Raúl González (histórico do Real Madrid) e de Karim Benzema. Tanto que até recebeu, dos amigos de infância, o apelido do francês.  

zerozero – Quem é o Abdul-Aziz Yakubu? Os adeptos portugueses ainda estão a conhecê-lo.

Aziz – Nasci no Gana, numa cidade chamada Tamale, no norte do país, e cheguei a Portugal em 2016, para jogar no Vizela. Tinha só 17 anos. Depois passei por Guimarães, pelo Estoril e estou a fazer a segunda época no Rio Ave. Não tenho muito mais para contar (risos).

zz – Está a ser humilde. Os seus números, enquanto marcador de golos, são impressionantes: 15 golos no Estoril, mais 15 no Rio Ave na II Liga e agora cinco golos em sete jogos na I Liga. O Aziz é uma goal machine?

A – Não penso em mim dessa forma (risos). Sou ponta-de-lança e os números são importantes para quem joga nesta posição. Basta olhar para as big stars. Não podemos falar do Haaland e do Mbappé sem mencionar o número de golos deles. Esta função exige golos e a minha avaliação está sempre dependente disso. Marcar golos torna a minha vida mais simples.

zz – Está satisfeito com os números conseguidos esta época com o Rio Ave?

A – Sim, sim, estou satisfeito, o cenário é muito positivo. Mas quero marcar muitos mais na Liga, quero sempre golos.

zz – Vemos a lista de melhores marcadores e estão lá três nomes: Mehdi Taremi, que está num clube grande e a lutar por outros objetivos, Simon Banza, que joga noutro clube grande, e Aziz Yakubu. O Rio Ave é um histórico, mas luta por outras posições. O que sente ao ver o seu nome entre dois ‘grandes’?

A – É importante e motivante, porque eles jogam em clubes grandes e que lutam por títulos. Não podia ser mais motivador, quero continuar no meio deles.

O zerozero com Aziz na bancada dos Arcos ©Tiago Pinto
zz – Grande parte do público ficou a conhecê-lo com os dois golos marcados ao FC Porto. Fale-nos desses momentos, num jogo tão mediático.

A - Entrámos muito bem nesse jogo. Estávamos a defender bem e à espera das nossas oportunidades no ataque. Fiz um golo de cabeça e outro de pé esquerdo, correu tudo bem.

zz – É um avançado forte no ar?

A – Estou a 70 por cento (risos). Posso melhorar esse aspeto, diria que sim.

zz – Como é que se define, então, enquanto avançado?

A – Sou um atacante muito vertical, adoro aproveitar o espaço e essa é uma das minhas características mais fortes. Jogo sem problemas com os dois pés, também. Procuro o espaço nas costas da defesa, recebo bem a bola nessa zona. Esse é mais o meu tipo de futebol.

«Sonho com o Mundial e os números falam por mim»

zz – O seu início de época está a ser bom e temos um Mundial a começar em novembro. Ainda vai a tempo de conseguir um lugar na seleção do Gana para o torneio?

A – Acho que sim, os números falam por mim. Os sites e os jornalistas ganeses falam sobre mim, por isso acredito, vamos ver. Espero ter a oportunidade de representar o meu país um dia e se for já no Mundial, perfeito.

zz – Nenhum dos avançados do Gana presentes nas últimas convocatórias tem mais golos do que o Aziz esta época [Osman Bukari é a exceção, com sete golos pelo Estrela Vermelha]. Isso reforça a sua candidatura ao Mundial?

A – Sim, definitivamente. Na época passada já tive bons números, mas no Gana diziam sempre ‘ah, mas ele joga na II Liga’. Agora jogo na I Liga, por isso espero que não continuem a menorizar os meus golos. Espero que olhem de forma justa para mim.

Yakubu Aziz
2022
27 Jogos   2080 Minutos
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zz – Já teve alguma conversa com o selecionador Otto Addo?

A – Com o treinador principal ainda não falei, mas já falei com um dos adjuntos [Mas-Ud Dramani], que é de Tamale, como eu. Falamos o mesmo dialeto e ele disse-me que existe a possibilidade de eu ser chamado. Pediu-me para continuar a fazer golos com regularidade, porque a equipa técnica está atenta.

zz – Como está o seu coração, sabendo que pode estar com o Gana no Mundial dentro de poucas semanas? Todos sonhámos com uma coisa dessas quando somos pequenos.

A – Seria um sonho tornado realidade. Cresci a ver os jogos dos Black Stars e isso faria com que a minha família ficasse extremamente orgulhosa. Sonho com isso e desejo que seja possível acontecer.

zz – Que memórias tem dos jogos do Gana no Campeonato do Mundo?

A – Ah, muitas memórias. Lembro-me do penálti falhado pelo Asamoah Gyan contra o Uruguai e da mão do Luis Suárez nesse jogo [2010, quartos de final], tantas memórias. Lembro-me do 2-2 contra a Alemanha [2014, fase de grupos], são jogos inesquecíveis.

zz – O povo do Gana vive muito os Mundiais, vibra com a seleção?

A – Muito, muito, os ganeses esperam muito dos Black Stars e quando as coisas correm bem é incrível. Toda a gente festeja e fica acordada até tarde. Às vezes o povo é compreensivo, outras vezes não, mas o futebol é mesmo assim.

zz – O selecionador Otto Addo foi um futebolista importante. Lembra-se dele a jogar?

A – Sim, mas apenas na seleção do Gana, no Mundial em que ele esteve [2006]. Não me lembro dele nos clubes por onde passou [Borussia Dortmund, Hamburgo…].

zz – As próximas serão importantes para o Aziz. Já não falta muito para a convocatória final.

A – Sim, vamos ter agora a pausa para as seleções e depois voltam os jogos. Tenho fazer um ou dois golos, para perceber se me estão a monitorizar. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.

Aziz bisou contra o FC Porto e está no radar da seleção ganesa ©Tiago Pinto


«Fiz 60 jogos depois da lesão, sinto-me bem»

zz – Esta é a segunda época com o Luís Freire no Rio Ave. O que lhe pede ele, além dos golos, claro? O que exige ele do seu avançado?

A – Há uma ligação boa entre nós. Quando cheguei ao Rio Ave, ele disse-me logo: ‘Conheço as tuas qualidades, vi muito de ti e sei o que podes fazer’. O Luís pede-me para ser participativo, para ajudar a pressionar e a defender, a ser um jogador de equipa.

zz – O que podem esperar os adeptos do Rio Ave do Aziz até ao fim da época?

A – Ajudar a ganhar jogos, marcar golos, fazer assistências. É esse o meu papel.

zz – Teve uma lesão muito grave [não jogou na época 2019/20], mas quem o vê em campo percebe que recuperou a força, a explosão, a velocidade. Está completamente recuperado dos sérios problemas físicos que sofreu?

A – Estou já a jogar há dois anos e meio sem nenhum problema, sem parar. Posso sentir uma dorzinha aqui, uma dorzinha ali, mas já tenho mais de 60 jogos [depois da lesão]. Sinto-me bem.

zz – Tem prazer em treinar, no trabalho diário?

A – Sou feliz aqui, venho treinar feliz todos os dias. O trabalho diário sabe bem no Rio Ave.

zz – Como é a sua vida aqui na região, fora do futebol? Vive na Póvoa, trabalha em Vila do Conde.

A – Vivo com a minha mulher, ainda não temos filhos. Casámos há pouco tempo.

Os 12 irmãos e o futebol de pé descalço em Tamale

zz – Tem agora a companhia do Emmanuel Boateng e de outros dois jovens ganeses que estão nos sub23. É mais confortável ter a companhia de jogadores do seu país?

A – Sim, faz com que pareça que estou em casa. Falamos o mesmo dialeto. Acordo de manhã e começamos logo a comunicar, falamos sobre tudo. Quase não sentimos saudade de casa. Cozinhamos juntos, fazemos comidas do Gana, é ótimo para nós.

zz – Como são os pratos tradicionais do Gana? Consegue dar-nos alguns exemplos?

A – Temos muitas comidas, mas gosto de fazer waakye e jollof. O primeiro é uma mistura de arroz com feijão e o segundo é um arroz também, mas amarelo. É difícil descrever.

zz – Temos de pesquisar na internet. O Aziz nasceu em Tamale, quais são as memórias mais fortes da sua infância no Gana?

A – Jogar futebol, sempre descalço, sem chuteiras e em ruas empedradas, sem relva. São as memórias mais bonitas. A amizade que tinha com os meus amigos de infância, era muito bonito.

zz – Quais são as ocupações profissionais dos seus pais?

A – A minha mãe vende comida e o meu pai trabalha na construção civil.

zz – Tem irmãos ou irmãs?

A – Irmãos e irmãs (risos).

zz – Algum deles também joga futebol?

A – Um joga, mas ainda é muito novo, tem 16 anos.

zz – Quantos irmãos são?

A – Muitos, somos 12 irmãos (risos).

zz – Como é que lhe surgiu a possibilidade de vir para Portugal, apenas com 17 anos?

A – Fui chamado à seleção de sub17 do Gana e fui para um estágio. Fizemos vários jogos amigáveis e havia vários agentes europeus a acompanhar esses encontros. Conheci nessa altura o meu empresário e foi ele que me trouxe para o Vizela.

zz – Conhecia alguma coisa de Portugal antes de cá chegar?

A – Sim, sim, porque aos 15 anos eu já tinha recebido uma proposta para jogar no Estoril. Informei-me e dois anos depois voltei a ter possibilidade de jogar em Portugal, por isso já sabia alguma coisa.

zz – Que idade tinha quando começou a jogar futebol no Gana?

A – Não me lembro bem, era mesmo muito novo. Comecei a jogar num pequeno clube chamado Zaytuna FC com cino/seis anos e depois fui para a academia Red Bull. Depois voltei ao Zaytuna, porque o campo ficava mesmo ao lado da escola onde eu andava. Quando deixei a escola comecei a jogar numa equipa chamada Charity Stars.

zz – Se não tivesse sido futebolista, que profissão teria seguido no Gana?

A – Desde pequeno que só queria ser futebolista (risos). Não sei o que seria. Era futebol ou futebol.

zz – E tinha algum ídolo quando era pequeno?

A – Sim, adorava o Raúl, Raúl González. E quando ele se reformou eu comecei a dizer que queria ser como o Benzema. E por isso os meus amigos passaram a chamar-me Benzema (risos).  

zz – Para acabar: os portugueses e o Cristiano Ronaldo devem estar preocupados com um golo do Aziz no jogo entre os nossos países para o Mundial?

A – (risos) É difícil, Portugal tem uma equipa muito forte. Basta olhar para o banco de Portugal, até me apetece trincar os dedos. Mas quem sabe? É apenas um jogo. Já disse aos meus colegas no balneário do Rio Ave: Portugal-Gana, 2-2, golo do Aziz na segunda parte, tiro a minha camisola e fico assim [imita uma celebração]. ‘Ah, se for assim nem podes voltar para Portugal’, dizem-me eles. Seria uma sensação maravilhosa poder jogar contra Portugal, um país que conheço muito bem.



Valor de Mercado
3.00 M €
Gana
Yakubu Aziz
Nascimento/Idade1998-11-10(25 anos)
PosiçãoAvançado (Ponta de Lança)

Comentários

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Aziz
2022-09-22 10h17m por EnormeSCB
Nesta forma talvez tenha hipóteses de estar no Qatar pelo Gana.
Aziz
2022-09-22 09h35m por moumu
O RIo Ave podia tentar vender lá para fora, ganhava boa maquia.
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