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      ENTREVISTA DE FIM DE CARREIRA AO ZEROZERO

      Ep. 7 | Bruno Vale: «Diziam-me sempre que ia ser o próximo Vítor Baía»

      Este é o ponto final. Aqui vamos dar espaço ao adeus, vamos pendurar as chuteiras e vasculhar no álbum das recordações de jogadores que marcaram gerações, mas saíram sem que a maioria das pessoas soubessem. Não há parágrafo, sem antes haver um ponto final.

      O nosso convidado é um gigante das balizas. Deixou de jogar sem saber que ia ser o seu último jogo, tem 40 anos e teve um carreira que fez lembrar uma volta de montanha-russa. Somou mais de 60 internacionalizações em todos os escalões de formação. Sim, em todos: principal, B e olímpica incluídas. Muitos títulos no currículo e uma camisola retirada em homenagem à sua carreira. A pergunta antes do Ponto Final. Quem é?

      zerozero: O Bruno Vale adivinharia o nome deste jogador?

      Bruno Vale: Era um bocado difícil. Quero agradecer o convite para estar aqui e contar a minha história no futebol. Eu acho que adivinhava, sendo eu o jogador (risos).

      zz: A informação que temos do seu último jogo data de fevereiro de 2020, um Farense x Oliveirense. Depois foi relegado para o banco de suplentes e teve como último jogo o Oliveirense x Estoril. Diria que nem você, nem ninguém sabia que a partir dali o futebol ia parar. Deixou de jogar na pandemia.

      BV: Eu já estava a pensar na retirada. Na minha vinda para a Oliveirense no último ano, com o tempo fui apercebendo que poderia ser a minha última época, não da forma como foi, mas que iria acontecer. Mas não sabia que aquele seria o meu último jogo, pensei que o campeonato não fosse parar tanto tempo. Com aqueles problemas todos, tinha duas filhas pequenas e sem saber bem como iam ser as coisas, com tanta informação e tanto medo, resolvi acabar.

      zz: No revisitar destes 30 anos sente tristeza por ter terminado sem ter tido uma homenagem em jogo e ter saído pela sombra?

      BV: Não, nunca pensei nisso. Sempre dei o meu melhor por onde passei. Tive essa oportunidade em Chipre, aqui em Portugal passei por alguns clubes... tirando o FC Porto, que foi onde estive alguns anos, mas nunca conquistei algo importante para o clube, pelo pouco que joguei ficava difícil ter esse tipo de homenagens.

      zz: A despedida para o futebol acontece na Oliveirense, foi uma segunda passagem pelo clube e era um momento para o clube: mudou de treinador e já não era o Pedro Miguel, que tinha sido o treinador que o tinha contratado, e a decisão acabou por acontecer...

      BV: Eu também não estava bem, mentalmente também não estava bem. Era muita confusão na minha cabeça, vim de Chipre, as coisas eram totalmente diferentes. Cheguei à Oliveirense e não comecei a jogar, depois joguei e depois fui encostado sem perceber bem, depois acontece a pandemia... Foi muita coisa, se calhar também foi um sinal para eu parar.

      zz: Começou a jogar no Vilanovense, na época 1992/93: logo para a baliza?

      BV: Logo para a baliza.

      zz: Como surgiu a paixão dos postes?

      BV: Desde sempre, desde criança... Eu morava numa freguesia de Vila Nova de Gaia, a minha mãe tinha um café e mini-mercado e junto a esse espaço havia uma rua em paralelo onde passavam poucos carros. Colocávamos duas pedras e começávamos a jogar uns contra os outros pela noite dentro, até nos chamarem para casa. Comecei aí, porque fui para a baliza, apesar de por vezes jogar à frente.

      zz: Mas alguém o colocou na baliza ou escolheu?

      BV: Os meus colegas eram mais velhos que eu e no início eu acho que me empurraram para a baliza, mas eu também gostava de estar, apesar de naqueles jogos ter um estilo de guarda-redes avançado, pois gostava de subir. A paixão foi sempre pela baliza, pois eu não tinha grande capacidade para correr, ficava logo cansado e eles disseram: 'Vai para ali que não corres tanto.'

      zz: Já era assim alto?

      BV: Eu era alto, mas não tão alto como sou agora.

      zz: Em relação às crianças da sua idade: era mais alto do que elas?

      BV: Era, mas pouco. Nada que se notasse muito, mas no ano em que saí do Vilanovense para o FC Porto dei um pulo enorme, comecei a sentir dores nas costas e nos joelhos e aí começou a ver-se essa diferença.

      zz: No Vilanovense que realidade encontrou?

      BV: A realidade de um clube modesto. Na altura os clubes de Gaia tinham quase todos aquelas condições, mas foi ali que cresci. Só um campo de treino, pelado, mas deram-nos as condições necessárias para crescermos. Nunca nos faltaram com nada, mesmo que também tivéssemos de levar algumas das coisas para ajudar o clube. Era um clube pequeno, mas familiar.

      qNo ano em que saí do Vilanovense para o FC Porto dei um pulo enorme, comecei a sentir dores nas costas e nos joelhos e aí começou a ver-se essa diferença
      Bruno Vale, ex-jogador de futebol

      zz: Foi você que pediu para ir para lá?

      BV: Pedi a um colega meu que jogava comigo na rua e era mais velho do que eu. Na altura, o Gervide não tinha formação, não tinha infantis e ele levou-me com ele ao Vila, porque tinha um escalão para mim. Tinha cerca de nove ou dez anos e comecei nos infantis.

      zz: E como surgiu a ida para o FC Porto?

      BV: Foi num jogo entre o Vilanovense e o FC Porto, fiz um bom jogo e o treinador do FC Porto, o Rui Pacheco, veio falar comigo e depois mandou o olheiro vir falar com os meus pais para eu ir para o FC Porto.

      zz: Mas depois a transferência foi fácil? Havia facilidade para se deslocar para os treinos?

      BV: Eu já fui como iniciado para o FC Porto, foi numa altura em que mudaram as idades dos escalões e eu fiz três anos como iniciado e isso foi uma vantagem. Cheguei no meu terceiro ano e era um dos mais velhos. As coisas correram bem, no primeiro ano fui logo campeão nacional e isso foi importante para mim.

      zz: Era fácil a logística?

      BV: Treinava quatro vezes e fazia de várias maneiras. Se o horário da escola fosse compatível o meu pai ou o meu irmão, eles levavam-me. Se não tivesse escola apanhava o autocarro. Para regressar vinha com o meu pai ou o meu irmão, ou então pessoas amigas que trabalhavam naquela zona.

      zz: Foi nesse período que surgiu a primeira ida à seleção?

      BV: Sim. Como disse, no primeiro ano de FC Porto fomos campeões nacionais e depois fomos participar no Torneio Lopes da Silva, o Interassociações, que era o evento onde os treinadores da federação viam os jogadores e escolhiam a primeira seleção de Sub-16. Nesse torneio tive a felicidade de ser campeão e ser considerado o melhor guarda-redes. A partir daí comecei a ir sempre à seleção.

      zz: Tinha noção que a sua diferença para os seus colegas da sua idade era grande?

      BV: Eu não tinha noção disso. Tinha colegas que eram muito bons e eu tentava fazer o meu melhor. Olhando para trás e recordando a minha formação conseguia perceber o porquê de estar a jogar e ser titular. Eu era diferente: era alto, era rápido, era ágil. Tinha uma combinação de características que não é fácil, nem era fácil, um guarda-redes ter.

      zz: Foi trabalhando isso?

      BV: Eu fui melhorando as minhas características. Por exemplo, na escola eu já não gostava da ir à baliza, gostava de ir à frente para poder correr, para ganhar mais carga e jogar melhor com os pés. Esse tipo de coisas fui tentando melhorar e muito, também, com a ajuda dos meus treinadores que viam os meus erros e tentavam corrigir. Mas foi sempre de muito vontade de querer aprender e querer melhorar.

      zz: Há algum treinador mais especial?

      BV: Tenho Rui Pacheco como treinador principal, mas também o Sr. Alves como treinador de guarda-redes. Tenho pessoas que me marcaram. No Vilanovense tive um treinador de guarda-redes que foi muito importante para mim e me fez crescer imenso. No FC Porto o Sr. Alves ajudou-me muito na fase de transição de juniores para seniores.

      Bruno Vale, durante as gravações do Ponto Final, nos estúdios do zerozero @zerozero.pt

      zz: Em que fase da formação sentiu que esta poderia ser a sua profissão?

      BV: Foi quando fui campeão europeu de Sub-16 em Israel. Chego a casa, depois dessa prova, ia para o 10º ano e disse à minha mãe que queria parar de estudar. Ela tentou demover-me, mas eu disse que a responsabilidade era minha e seria sempre minha e queria apostar no futebol. A escola não era muito para mim, não gostava muito da escola e disse à minha mãe que preferia apostar no futebol. Eu tinha treinos de manhã, à tarde, por vezes treinava por duas equipas e às vezes tinha de faltar às aulas. Eu queria estar presente nos treinos e assumi essa responsabilidade de abdicar dos estudos. Matriculei-me no 10º ano, em Gaia, na Escola Secundária de Oliveira do Douro, mas nem apareci lá. Os meus colegas chamavam-me de maluco, diziam para eu tentar conciliar. Hoje arrependo-me, porque acho que conseguiria conciliar.

      zz: Hoje é diferente e sente que os colegas trabalham de forma diferente isso?

      BV: Sim, claramente. Na altura também havia preocupação dos clubes falarem com as escolas, mas não era tanto como hoje. Era mais importante irmos aos treinos.

      zz: Até a escolaridade obrigatória era diferente, era até ao 9º ano...

      BV: Sim, muito abandonavam a escola depois do 9º ano.

      zz: E para si fazia sentido?

      BV: Claro, eu tinha acabado de ser campeão europeu, o FC Porto fez-me contrato de formação e eu comecei a ganhar o meu dinheirinho e com esse dinheiro já podia ter as minhas coisas, claro que com a ajuda da minha mãe e do meu irmão. E ainda bem que optei por este caminho.

      zz: Contou que duplicou escalões?

      BV: Sim, ali já era juvenil, mas ia treinar com os juniores e até com a equipa B. Andei sempre em escalões acima, apesar de jogar no meu escalão. Ou seja, treinava com equipas mais velhas e depois vinha jogar à minha equipa.

      qAs minhas renovações com o FC Porto iam sempre nesse sentido: 'Tu vais ser o sucessor do Vítor Baía.' Diziam-me sempre isso e claro que não foi fácil. Acabou por não correr assim.
      Bruno Vale, ex-jogador de futebol

      zz: Isso foi penoso?

      BV: Senti que era diferente, mas gostava. Eu gostava de treinar, mesmo doente queria ir treinar, com dores de cabeça, constipado, à chuva ou ao sol. Eu queria era treinar.

      zz: Sentia que podia ser o próximo Vítor Baía?

      BV: Sim, sentia isso e as minhas renovações com o FC Porto iam sempre nesse sentido: 'Tu vais ser o sucessor do Vítor Baía.' Diziam-me sempre isso e claro que não foi fácil. Acabou por não correr assim.

      zz: Mas sentia a pressão disso?

      BV: Aceitava bem esse peso, pois fui crescendo na formação do FC Porto e olhava para cima, por isso ele era a minha grande referência, era o meu ídolo e gostava desse selo, mas não pensava nisso.

      zz: Como foi quando lhe disseram pela primeira vez que o mister José Mourinho o tinha chamado para ir treinar com a equipa sénior?

      BV: Acho que nem dormi no dia anterior. Eu guardo para mim essas memórias, mas a primeira vez que estive com ele foi engraçado.

      zz: Estava nervoso?

      BV: Eu era muito envergonhado e ele tentava falar comigo, mas eu era muito calado e ficava a ouvi-lo e quase não disse nada, mas foi muito bom.

      zz: Como foi entrar naquele balneário dos grandes?

      BV: Foi difícil, por causa da minha personalidade. Eles eram mais velhos. Para mim eram referências. O Jorge Costa, entre outros. Eram referências no clube e eu admirava-os por isso e no dia seguinte estar com eles no balneário e poder treinar com eles, nos primeiros treinos foi complicado, mas eles foram sempre impecáveis comigo.

      zz: Na seleção esteve em todos os escalões e até fez duas fases finais do Europeu de Sub-21, mas antes teve a estreia pela seleção A, que foi a estreia do Ronaldo, também.

      BV: Sim, fomos os dois. Tínhamos acabado de ganhar o Torneio de Toulon, onde foi perfeito e toda a gente se valorizou naquele torneio.

      zz: Quando o convocam para a seleção principal achou que era engano ou nem por isso?

      BV: Achei, ao início achei que estavam a querer brincar. Na altura, era o Vítor Baía que estava a jogar, eu estava a treinar nos seniores e eles até brincaram com isso.

      Bruno Vale trouxe as camisolas do FC Porto e da seleção nacional @zerozero.pt

      zz: Internamente, no clube e até o Vítor (Baía) acharam que foi só brincadeira ou até pensaram que podia ser alguma provocação do Scolari? Era a época em que o FC Porto tinha acabado de ganhar a Taça UEFA e vem entrar na temporada em que conquista a Liga dos Campeões.

      BV: E o Vítor Baía estava a fazer épocas fabulosas no FC Porto, mas o Scolari sempre justificou a minha chamada com a sua visão de ter dois guarda-redes experientes e um jovem. Eu, como era dos Sub-20 e ia ser dos Sub-21, fui chamado. Foi a leitura que ele nos deu, agora passados estes anos se era assim que ele pensava ou não, não sei.

      zz: Quando se estreia nesse jogo, que acaba por ser memorável para a história do futebol, por ser, também, a primeira internacionalização do Ronaldo, vocês tinham noção que ali poderia estar um jogador fora de série?

      BV: Saber que ia atingir o que atingiu nunca saberíamos, mas que era diferente, naquela altura já se notava. Deduzíamos que pudesse ter um futuro brilhante, mas não ao nível daquele que atingiu. Felizmente, para nós, que ele atingiu este patamar e tem os números que tem.

      zz: Voltando ao FC Porto, quando percebe que vai ser difícil ser o novo Vítor Baía?

      BV: Com os empréstimos. Fui emprestado ao Estrela do Amadora e antes de ir renovei por cinco anos, com a promessa de que ia rodar para crescer e depois voltar. Faço uma época no Estrela da Amadora fantástica, quase que conseguíamos um lugar europeu. Depois do Estrela da Amadora fui para Leiria um bocado contra a minha vontade, pois se era para ser emprestado preferia ter ficado no Estrela. Por negócio, tive de ir para Leiria, pois veio o João Paulo para o FC Porto e eu, o Paulo Machado e o Ivanildo fomos como moeda de troca. Mas esta é a época em que me lesiono no pé no Europeu de Sub-21 realizado em Portugal, em 2006, e acabo por perder o Mundial também.

      zz: Podemos puxar essa cassete atrás?

      BV: Sim, agora consigo falar, mas na altura foi muito duro.

      zz: Como foi?

      BV: Foi no jogo com a Sérvia, quando o jogo estava praticamente resolvido. É um lance em que eu saio da baliza para controlar a profundidade, vou na dividida com o ponta de lança da Sérvia e ele entra mais forte do que eu.

      qEu vi logo que tinha acontecido alguma coisa grave, pois tive de cortar a bota (chuteira) para conseguir tirar o pé
      Bruno Vale, ex-jogador de futebol, sobre a lesão no Campeonato da Europa de Sub-21 em 2006, que lhe tirou a ida ao Mundial de 2006

      zz: Sentiu logo que era grave?

      BV: Logo, o meu pé começou a inchar, só que já não havia substituições e tentei aguentar, mas depois do jogo acabar foi impossível. Eu vi logo que tinha acontecido alguma coisa grave, pois tive de cortar a bota (chuteira) para conseguir tirar o pé. Foi duro.

      zz: O que mais pensou nessa altura?

      BV: Foi: 'E agora?' Estava a ser visto pelos médicos dos Sub-21, mas como estava convocado para o Mundial tive de ir ao estágio da seleção AA, que estava a estagiar no Alentejo. Eu fui de Braga, nessa mesma noite, de carro com o médico dos Sub-21, no banco de trás, com a perna toda esticada para fazer exames ao pé e ser visto pelos médicos da seleção principal.

      zz: Acredito que para quem tem 23 anos naquela altura, ser convocado para o Campeonato do Mundo de 2006, no pós Euro-2004, já tinha ido a uma Olímpiadas...

      BV: Sim, tinha estado no europeu de Sub-21, apesar de não ter sido das melhores prestações de Portugal. Tínhamos uma grande seleção, mas não deu...

      zz: Mas o que pensou? Que a carreira ia ter um sentido descendente? Que estava no mundo das maravilhas e de repente passou a ser o mundo dos horrores?

      BV: Sim, foi um bocado isso. Eu também, se calhar, não fui suficientemente forte para atacar esse lance. A partir daí a minha carreira começou a tremer um bocadinho.

      zz: Mas sentiu isso da parte dos clubes por onde passou?

      BV: Em Leiria fiz pouco de pré-época, mas quando regresso começo a jogar. Fiz o primeiro jogo no Estádio do Dragão, acho que fiz um excelente jogo, mas no segundo jogo, em casa contra o Beira-Mar, cometi um ou dois erros e na terceira jornada já não jogo e nunca mais joguei. Aí é que comecei a pensar em tudo. Perdi o Mundial, passo a não jogar na U. Leiria, pedi para sair do Leiria e não me deixaram sair e nem explicaram as razões e acabo o resto do ano sem jogar. Na época seguinte, o FC Porto não me deixou fazer a pré-época e disse que eu tinha de arranjar clube e andei até ao último dia de transferências para arranjar clube, porque o FC Porto não me arranjou solução, e fui para o Varzim, para a 2ª Liga. O campeonato já tinha começado, o Bruno Conceição estava a titular e estava a fazer um boa época, e voltei a ter que trabalhar para ganhar a minha oportunidade. Aí comecei a pensar naquilo que já tinha tido. Há dois anos estava na seleção A a jogar e depois passei a não jogar no Leiria, nem no Varzim. Aí comecei a colocar tudo em causa e se calhar não fui suficientemente forte, nem tive aquela personalidade que deveria ter tido. Se tivesse outro tipo de personalidade, se calhar as coisas não tinham corrido como correram.

      zz: É mesmo uma montanha-russa...

      BV: Foram tempos difíceis. Foram tempos difíceis.

      zz: É importante trazermos esse ponto, porque há muita gente que pensa que os jogadores são inquebráveis: alguma vez falou com alguém para pedir ajuda?

      BV: Eu não sou muito de falar e guardo muita coisa para mim, mas a principal ajuda foi da minha mulher e da minha família, mas olhando para trás, precisaria disso, dessa ajuda.

      Bruno Vale foi internacional em todas as seleções portuguesas @Getty / Christopher Lee

      zz: É importante os jogadores exteriorizarem, até porque vivia numa bolha.

      BV: Sim, e estava a passar por uma situação que nunca me tinha acontecido.

      zz: E não foi preparado para isso...

      BV: Certo. Eu fui do Vilanovense até ao FC Porto B e ao Estrela da Amadora sempre a jogar. Em todo o lado, até na seleção nacional e depois deixar de jogar foi duro.

      zz: Em algum desses períodos pensou em terminar a carreira?

      BV: Várias vezes...

      zz: E nunca terminou, porquê?

      BV: Porque no fundo pensei sempre que ia mudar.

      zz: Deu uma oportunidade a si...

      BV: Sim e também porque tinha a minha mulher sempre a dar-me força e a dizer que viria alguma coisa boa para mim. E nunca fui de desistir, até porque também não entendia o que estava a passar. Eu era considerado uma das maiores promessas e de um momento para o outro fiquei sem jogar. Mesmo o FC Porto acho que não se preocupou tanto comigo como deveria.

      zz: Ainda esteve no Belenenses e no Vitória FC emprestado pelo FC Porto?

      BV: Sim, foi sempre emprestado. No último ano do Belenenses foi quando descemos, uma época onde tivemos três treinadores.

      zz: Como apareceu a Oliveirense?

      BV: Acabei a época no Belenenses a jogar, mas o titular era o Nélson. Eu senti sempre que esses recebiam por ser enviado pelo FC Porto. Nunca senti que me quisessem e notava isso pelos treinos. E disse que quando terminasse o contrato iria para um sítio onde me quisessem mesmo e não interessaria onde seria. Foi assim que surgiu a Oliveirense: o presidente José Godinho ligou-me a dizer que queria montar uma equipa para subir de divisão, que confiava muito em mim e essa equipa começaria comigo na baliza. Veio ter comigo ao Porto e assinámos rapidamente.

      zz: Sentiu que havia carinho da parte de toda a gente?

      BV: Sim, começou pelo presidente José Godinho, depois com o treinador Pedro Miguel. Senti que ele me quis mesmo, que tinha sido escolha dele. Foi numa fase importante, conheci também ali o Jorge Silva, como treinador de guarda-redes e sabia que tinha de fazer uma boa época, para tentar ir outra vez para a Primeira Liga.

      zz: A verdade que é não houve isso.

      BV: Não isso, mas houve melhor.

      Bruno Vale tornou-se lenda no Apollon Limassol @Getty / Alex Grimm

      zz: Ir para Chipre foi o melhor que podia ter feito?

      BV: Foi, sem dúvida que foi.

      zz: Como surge o Chipre?

      BV: Na altura foi por intermédio do meu empresário, o Sérgio Leite, que me disse que tinha um clube grande de Chipre e eu disse que queria ir. Era uma primeira divisão, apesar de ser num campeonato secundário, mas quis ir. A proposta demorou uns dias a vir e eu ainda tinha um ano de contrato com a Oliveirense. Tive de falar com o presidente da Oliveirense para ele me deixar sair.

      zz: Foi fácil?

      BV: Não foi fácil, demorou alguns dias e tive de pedir ajudar aos irmãos que trabalhavam com ele, o Carlos e o João, que me ajudaram a sair.

      zz: O Apollon acaba por ser o clube onde mais joga na carreira e consegue vários títulos.

      BV: As coisas não começaram logo bem. Estava no estrangeiro pela primeira vez, num país com uma cultura diferente, uma língua diferente.

      zz: Aprendeu a falar a grego?

      BV: Algumas palavras, apenas, pois no balneário falávamos inglês.

      zz: Quando vai para Chipre tem algum receio? Ordenados em atraso, por exemplo?

      BV: No início senti algum receio, pois ouvia histórias, mas tive sorte. Quando cheguei, foi num momento de mudança do clube. Um presidente novo e com uma mentalidade diferente das histórias que contavam. Tinha uma mentalidade correta.

      zz: Saiu de lá com a sua camisola a ser retirada: surpreendeu-o?

      BV: Fiquei feliz, porque ali em Chipre senti a felicidade de voltar ao nível alto. Deu-me alegria e segurança de fazer o meu trabalho. As pessoas gostaram e a cada ano mantive essa regularidade e os adeptos não se esquecem.

      zz: Durante esse período, alguma vez, o telefone tocou de Portugal para regressar?

      BV: Sim, algumas vezes, mas já não dava. Os projetos não eram tão bons como aquele que eu tinha lá. No Apollon lutava por títulos, por lugares europeus, entrei três vezes na fase de grupos da Liga Europa, e aqui senti que os clubes que me ligaram dificilmente me dariam isso.

      qO Apollon deu-me essa sensação de estar no topo do Mundo. Sentia a confiança de toda a gente, adeptos, dirigentes, toda a gente. Não há nada que pague isso. Foi mesmo muito bom.
      Bruno Vale, ex-jogador de futebol

      zz: A sua família deu-se bem, em Chipre?

      BV: No início foi difícil, mas depois deu-se muito bem. Agora vou lá só de férias, mas no ano passado fui convidado para ir lá à inauguração do estádio, fui homenageado e foi uma festa. É a minha segunda casa.

      zz: Ao revisitar esta carreira, acha que o Apollon foi a redenção da sua carreira?

      BV: Sim, senti isso. Sentia que estava no topo do Mundo e o Apollon deu-me essa sensação. Sentia a confiança de toda a gente, adeptos, dirigentes, toda a gente. Não há nada que pague isso. Foi mesmo muito bom.

      zz: No meio destas 30 épocas, quem merece o agradecimento especial?

      BV: Primeiro a minha família, claro, a minha mãe, o meu irmão, a minha mulher, as minhas filhas e claro todos os treinadores, não quero pormenorizar para não me esquecer de nenhum, mas tive muita gente que me ajudou muito e só tenho de agradecer.

      zz: Destas camisolas que nos trouxe, qual é a que traz mais memórias?

      BV: A da seleção, claro. Ser internacional foi sempre um sonho e quando deixei de ir à seleção sentia que faltava qualquer coisa e é um vazio grande que temos quando deixámos de ir. O FC Porto marcou-me muito, ajudou-me a ser a pessoa que sou e o Apollon deu-me a oportunidade de voltar a estar nas nuvens. Mas acho que tenho de agradecer a todos os clubes. Todos ajudaram-me muito.

      zz: Vamos ao 11 do Bruno Vale...

      BV: Na baliza vou colocar o Vítor Baía, porque foi sempre uma referência para mim. Gostei sempre de tudo o que ele fazia na baliza, era muito elegante. Para lateral direito vou colocar o Bosingwa pela carreira que teve. Vi-o a jogar no meio e a extremo, mas depois quando vai para lateral direito percebeu-se que era ali a sua posição. A centrais vou escolher o Ricardo Carvalho: grande classe. Nos anos em que trabalhei com ele foi incrível no FC Porto. No outro central não consigo escolher um. Vou colocar o Bruno Alves e o Pepe, porque não consigo separar e o Ricardo Costa a lateral esquerdo. São pessoas que me dizem muito. No meio campo vou colocar o Raúl Meireles: um jogador com uma classe muito grande e íamos sempre juntos de comboio para as seleções. A minha primeira ida à seleção é com ele. Ainda no meio campo coloco o Hugo Viana, que era um jogador acima da média e o Manuel Fernandes, que tinha muita qualidade. Na frente Cristiano Ronaldo, sem dúvida, fiz Toulon com ele, é um astro; Quaresma e Hugo Almeida. Está aqui um 11 engraçado.

      Bruno Vale nos estúdios do zerozero @zerozero.pt

      Portugal
      Bruno Vale
      NomeBruno Miguel Esteves Vale
      Nascimento/Idade1983-04-08(40 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoGuarda Redes

      Fotografias(16)

      Comentários (2)
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      motivo:
      Bruno Vale
      2023-10-06 15h29m por redlegion
      Talvez não tivesse sido uma má opção ir para aquele Braga dos inícios do Salvador. Percebo a aposta num Paulo Santos mais experiente do que ele, mas continuo a achar que teria sido bom para ambos.
      Não era pior que o Marco Gonçalves ou o Dani Mallo e seria interessante ver a luta pelo lugar entre Bruno Vale e Eduardo.
      falta de reconhecimento
      2023-10-05 17h07m por Prisco96
      Por onde passou, nunca souberam dar valor ao Bruno. Era um excelente guarda redes! Se calhar se andasse pela mão dos empresários certos poderia ter tido mais sorte! Mas felizmente no Chipre conseguiu ter o respeito merecido!
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