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      Léo Lima vive em Orlando

      Do FC Porto a um rent-a-car na Disney da Florida: «As festas foram o problema»

      Disney, o mundo da fantasia. Mickey, Pateta, princesas e príncipes, contos de fadas em tons de cor de rosa. Da Bela Adormecida às tropelias de super-heróis vs vilões, quem não sonhou com um bilhete premiado para o mais famoso dos parques temáticos?

      Léo Lima ganhou a sorte grande. Uma visita de férias à casa do Pato Donald & CA, na Florida, transformou-se em residência permanente no estado sulista dos Estados Unidos. Um bom ponto de partida para a entrevista do zerozero com o antigo médio de Marítimo e FC Porto, patrocinada pela dica de um leitor atento.

      Léo é um homem mudado, hoje com 41 anos, bem distante do estilo de vida boémio dos dias de futebolista no Funchal e na Invicta.

      Empresário e fundador de dois negócios em território norte-americano, aceita o convite para esta viagem ao passado, um passeio por aventuras que parecem saídas da… Disney, mas numa versão para adolescentes e adultos.

      zerozero – Disseram-nos que está a viver nos EUA, é verdade? 

      Léo Lima –
      Em Orlando, na Florida. Estou cá há quatro anos e sete meses. Tenho a minha família comigo, há muito trabalho e vivemos em segurança. Tenho saudade do Brasil e de Portugal, claro, mas sempre que é possível recebo aqui os meus amigos.

      zz – Porquê a Florida? A mudança teve alguma coisa a ver com o futebol?

      LL – Na verdade, eu vinha para cá apenas de férias. Trouxe as crianças, fomos à Disney e adorámos tudo. Enfim, o Brasil vivia um período mau, terrível, era perigoso continuar a viver lá. Não sei como está Portugal agora, mas no nosso Brasil não estávamos bem. Os EUA têm problemas, claro, mas a lei funciona e conseguimos viver sem medo. 

      qO meu sangue subiu, agarrei no colete e atirei-o ao chão. O Vítor Baía apercebeu-se e veio a correr ter comigo. ‘Vítor, diz ao Adriaanse que eu estou a mandá-lo apanhar naquele lugar’.
      Léo Lima
      zz – Tem negócios seus?

      LL – Tenho um rent-a-car próximo da Disney, o LL27 Rental Car, e abri mais uma barbearia há um mês. Gostava também de ter uma escolinha de futebol e estou a pensar seriamente nesse projeto agora.

      zz – Costuma ter clientes portugueses a alugarem-lhe automóveis?

      LL – Por acaso, aqui em Orlando não recebemos muitos portugueses. Curiosamente, fui passar dez dias ao Dubai, porque joguei lá de 2010 a 2015, e um rapaz de Lisboa veio ter comigo. Reconheceu-me dos meus tempos no Marítimo e no FC Porto.

      zz – O Léo continua igual, só os óculos é que estão a mais.

      LL – Isso, ah ah ah. Tento cuidar de mim, as asneiras já ficaram lá para trás.

      zz – E com o futebol profissional, nada?

      LL – Tenho um grande amigo que é empresário de futebolistas e vou ajudando-o da forma que posso e sei. Aconselho, vejo jogos, mas apenas isso.

      zz – Aqui no zerozero temos a ficha do Léo Lima como treinador do Madureira, em 2019. Confirma?

      LL – Certíssimo. Comecei a jogar no Madureira, é um clube que tenho no coração, e fui adjunto de um amigo meu nos sub20. Ele saiu depois para os Emirados e eu assumi o comando técnico. É muito exigente. Eu fui jogador muitos anos e sei o trabalho que o treinador tem. Correu bem, foi uma boa experiência, talvez volte a ter uma oportunidade. Para já estou feliz aqui, com os meus negócios, não penso em ser treinador.

      zz – A quantas horas está de Miami?

      LL – Quatro horas. Mas, atenção, a equipa do Messi não é de Miami, ah ah ah. Era isso que ia perguntar, não era?

      zz – Bingo. Previsível.

      LL – O Inter Miami joga em Fort Lauderdale, outra cidade da Florida. Tenho uma das barbearias lá perto, a cerca de duas horas. Foi um boom nas primeiras semanas do Messi. Televisão, jornais, redes sociais, todos falavam disso. Depois ele lesionou-se, a equipa foi eliminada e o tema morreu um pouco. O futebol feminino é muito forte, mas o masculino continua atrás do basquetebol, do futebol americano e do basebol.

      zz – Voltemos ao soccer. Poucos saberão em Portugal, mas o Léo Lima foi campeão do mundo pelo Brasil.

      LL – De sub17, é verdade. Um privilégio e um orgulho. Vestir a camisola do Brasil… não há nada acima disso. Fui campeão mundial e sul-americano. O nosso avançado era o Adriano e o suplente dele era o Souza, que mais tarde foi meu colega no Marítimo.

      zz – O Adriano ‘Imperador’?

      LL – Ele mesmo, com uns quilinhos a menos. Um craque. O torneio foi realizado na Nova Zelândia e ganhámos à Austrália na final, nos penáltis. Isso foi em 1999. Em 2001 fui ao Mundial de sub20, mas caímos nos quartos-de-final e não joguei tanto. O Luisão, do Benfica, e o Kaká também já faziam parte da equipa. Fico feliz porque pude dar essas alegrias aos meus pais e ao meu avô. Ele tem 92 anos e acompanhou-me para todo o lado quando eu era pequeno, sempre de autocarro, para a frente e para trás.   

      zz – Nessa altura, em 2001, o Léo já era titular do Vasco da Gama.

      LL – Eu estreei-me com 16 anos nos seniores do Madureira e fui contratado pelo Vasco com 19. Logo depois do Mundial de sub17. Cheguei ao Vasco, entrei no balneário e era só meninos. Romário, Jorginho, Bebeto, Euller, Juninho Pernambucano, depois Edmundo. Não intimidavam nadinha, ah ah ah.

      zz – Mesmo assim, em 2001 fez 34 jogos.

      LL – Esse é o ano em que eu me começo a afirmar a sério. Sinceramente, tinha muito futebol nos meus pés. Não fui mais longe, ou mais alto, por culpa da cabeça. De algumas asneiras. Em 2003 aceitei ir para o CSKA, um grande da Bulgária, porque o salário era ótimo. Sabe o que me aconteceu?

      zz – Nada.

      LL – Fiquei três meses e nem um cêntimo recebi. Só recebi as luvas, o prémio de assinatura. Mais nada. Fui embora. Uma loucura. Fomos fazer um jogo à Rússia [Torpedo] e no final o presidente, o mafioso típico, entrou e disse: ‘Não se preocupem, sei que estamos a dever muito dinheiro, mas eu vou pagar’. Eu não percebia nada, mas o português da equipa, o João Paulo Brito, traduzia tudo para mim. Passou algum tempo e nada.

      zz – Nada de nada?

      LL – Nada. Fartei-me e pedi ao Souza para me levar ao aeroporto de madrugada. Apanhei um avião e fui com o meu empresário para Santa Maria da Feira, em Portugal. Ele era português. Entreguei o caso à FIFA e fiquei à espera. Foi nessa altura que apareceu o Jorge Mendes na minha vida.

      zz – O empresário Jorge Mendes?

      LL – Ele mesmo, numa fase em que ele já estava a começar a voar. Foi ele que nos trouxe as propostas do Marítimo e do Sporting.

      zz – Teve ofertas do Marítimo e do Sporting, e optou por ir para a Madeira?

      LL – Sim, aconselhado pelo Jorge. Ele disse-me assim: ‘Léo, o salário no Sporting seria superior, mas no Marítimo você pode ser titular e chamar a atenção de um dos outros grandes de Portugal. E daí saltar para uma liga ainda melhor’. Decidi-me pelo Marítimo e fiz bem, as coisas correram-me muito bem lá. Conheci o Pepe, fiz bons jogos e chamei a atenção do FC Porto. Acabámos por ir os dois para lá. O Pepe foi seis meses antes de mim.

       

      «Fui treinar ao Dragão e já não me deixaram sair»

      zz – Falemos do FC Porto, então. A sua mudança para lá foi simples? Perguntamos porque na altura falou-se muito da luta dos ‘três grandes’ pelo Léo Lima.

      LL – Olhe, acima de tudo foi uma coisa rapidíssima. Eu fui com o Marítimo jogar a Leiria e na véspera fizemos um treino no Dragão. Já não me deixaram sair. Aliás, nem treinei. Cheguei lá, pegaram em mim, falámos e assinei contrato. Nem roupa tinha comigo, ah ah ah ah. Estava tudo na Madeira, lembro-me de ir a um shopping com um funcionário para comprar tudo o que precisava. Ainda hoje não percebo como não fomos campeões.

      zz – O FC Porto vinha do título europeu, mas essa época 04/05 foi má.

      LL – Olhe, eu só posso dizer que falhei no FC Porto por culpa exclusivamente minha. Tinha condições suficientes para ser uma referência do clube. 

      zz – Por problemas disciplinares?

      LL – Houve vários problemas, não diria disciplinares. O grupo tinha muita juventude e passou demasiado tempo em festas. Você já viu a qualidade do plantel? Vítor Baía, Jorge Costa, Costinha. Maniche, Luís Fabiano, Diego, Ibson, Bosingwa, Quaresma, Seitaridis…

      zz - Como é que essa equipa não foi campeã?

      LL – Se eu tivesse de apostar, apostaria cegamente no nosso elenco. Foi um ano mau. E depois foram buscar o louco do holandês [Co Adriaanse] e a minha história acabou mal.

      zz – Quando chega ao FC Porto, o treinador era o Victor Fernández. Ele apostou logo no Léo Lima.

      LL – O Victor gostava muito de mim, boa pessoa, muito educado. Sereno, calmo. Ele saiu depois de uma derrota contra o SC Braga e entrou o José Couceiro. Ainda fiz uns jogos, mas depois saí da equipa. Não estava a render o que sabia, essa é a verdade. Não atiro as culpas para cima de ninguém, faço a minha autocrítica e assumo a responsabilidade. Eu era o médio da moda, pretendido por todos e falhei no FC Porto.

      zz – Confirma que o Benfica e o Sporting lutaram por si?

      LL – Confirmo. Lembro-me de uma capa do jornal A Bola onde eu aparecia ilustrado como sendo o presente de Natal do Benfica. O Jorge Mendes disse que eu tinha de aceitar o FC Porto e ainda bem que o fiz. Depois, enfim, não tive cabeça.

      zz – O que aconteceu no tal jogo contra o SC Braga, em que o Victor Fernández foi despedido?

      LL – Cometi um erro gigante nesse jogo. Eu recebi a bola no meio-campo, dominei bem e toquei para trás, para o Pedro Emanuel. Ele estava a subir e a bola foi para o jogador errado. O SC Braga recuperou e fez golo. Fiquei muito marcado por esse erro. A vida segue, joguei no maior de Portugal e não posso dizer nada do clube. 

      zz – Muitos churrascos, muitos exageros próprios da juventude?

      LL – Muito isso, sim, o problema foram as festas Antes de eu ir para o FC Porto, eu rezava e pedia uma oportunidade dessas. Fui abençoado, cheguei ao clube e nunca mais pus os pés numa igreja. Fui ingrato com Deus. Deus dá e Deus tira.

      zz – Todo o plantel ia esses churrascos ou só os brasileiros?

      LL – Toda a malta ia, só os mais experientes e que tinham filhos é que não iam. O Costinha, o Jorge Costa, o Maniche, o Pedro Emanuel, o Nuno Valente, o Vítor Baía… acho que não me estou a esquecer de ninguém. Não era só o Léo Lima e o Leandro [lateral esquerdo, melhor amigo de Léo].

      zz – Ou seja, o ambiente no grupo era bom.

      LL – Demasiado bom, ah ah ah. Eu era um homem da Igreja e no FC Porto deixei-me levar pelos convites, pelas festas. Era um jovem, errei, mas quem não erra com essa idade? Ficou a lição, a aprendizagem.

      zz – Acha que foi por isso que o Pinto da Costa contratou o Co Adriaanse, um treinador conhecido pela exigência e rigor?

      LL – Não sei. Com o José Mourinho a malta tinha liberdade e foi campeã da Europa. No meu tempo o balneário estava cheio com fotos de mulheres nuas, da Playboy, e esses jogadores tinham ganhado tudo. Chegou o Adriaanse, mandou arrancar tudo e a malta ficou zangada. O que adiantou isso? Nada. Se um jogador cumpre dentro do campo, não importa o que ele faz cá fora. Se ele se prejudicar, se baixar o rendimento, o treinador afasta-o. Tem de ser assim. Não adianta estar 24 horas a controlar o atleta, não é um chip que vai resolver as coisas. A consciência tem de nascer no jogador. 

       

      «'Vítor, diz ao Adriaanse para apanhar naquele lugar'»  

      zz – Nesse ano de 04/05 o investimento foi alto e os resultados foram maus.

      LL – Há sempre erros e coisas mal feitas, mas se ganharmos os jogos todos, ninguém diz nada. Se as vitórias não aparecem, então começam a ‘achar chifre em cabeça de cavalo’. Acha que não havia erros nos anos do José Mourinho? A malta falava do Benni McCarthy, que foi afastado por comportamentos errados durante dois jogos. Voltou e fez logo um golo importante na Liga dos Campeões, acho que ao Lyon [Manchester United]. Vamos dizer o quê a esse jogador? Quando se perde, até no que está bem nós colocamos defeitos.

      zz – Falemos do famoso estágio na Holanda, em 2005. Os treinos eram abertos e o Co Adriaanse gritava muito consigo.

      LL – Ele embirrou comigo, não sei os motivos. Lembro-me de um domingo em que nós tínhamos folga, íamos descansar. De repente, o Adriaanse obriga-nos a fazer um passeio de bicicleta, de 25 quilómetros. ‘Está louco? Folga é folga’. Fui sempre atrás, ao lado do Leandro Bonfim. Cheguei quase em último, não sei se foi por isso que ele começou a ‘pegar no meu pé’. Eu treinava bem, não chateava ninguém, não ficava de corpo mole. Até que um dia explodi.

      zz – O que se passou?

      LL – O Lucho González fez uma jogada e errou um passe. O Adriaanse não disse nada. Na mesma jogada, igualzinha, no jogo do quadrado, eu perdi a bola e ele começou a gritar comigo. O meu sangue subiu, agarrei no colete e atirei-o ao chão. O adjunto estava ao meu lado, mas eu não o entendia. O Vítor Baía apercebeu-se e veio a correr ter comigo. ‘Vítor, diz ao treinador que eu estou a mandá-lo apanhar naquele lugar’. ‘Ó Léo, não posso dizer isso ao homem, pá’. Bem, já nem sei se o Vítor lhe disse alguma coisa. Eu peguei na bicicleta e fui para o hotel.  

      zz – O que lhe disseram os dirigentes?

      LL – Chamaram-me e disseram que o melhor era emprestar-me. Tivemos logo uma reunião nessa noite, depois do jantar. Disse logo que só aceitava voltar ao Brasil. Disseram-me que o Adriaanse queria falar comigo, mas eu não aceitei. Ele era arrogante da cabeça aos pés, achava-se o ‘rei da cocada preta’ [convencido]. Com muita pena saí do FC Porto e depois soube que ele afastou praticamente todos os brasileiros.

      zz – Esses churrascos devem ter dado boas histórias.

      LL – Posso contar uma, mas essa ainda é dos tempos do Marítimo.

      zz – Vamos a isso.

      LL – Lembra-se do André Neles?

      zz – Avançado, jogou no Benfica também.

      LL – Infelizmente, o André já faleceu. Teve um ataque cardíaco durante o sono. Mas queria contar uma história engraçada sobre ele. Eu gostava muito do André. Então, certo dia fizemos um churrasco com a malta do Marítimo, convidámos amigas e o André meteu-se com uma delas. De repente, olho para trás e uma das meninas estava a espetar aquele ferro, onde se coloca a linguiça a assar, na perna dele, ah ah ah. O André aos berros e a menina com o ferro das linguiças na mão.

      zz – Tem saudades do futebol?

      LL – De jogar, não. Mas tenho saudades desses momentos de amizade, com a malta. Mas estou feliz nos EUA, vivo para a minha família e o meu objetivo é continuar por cá, bem pertinho da Disney. 

      Brasil
      Léo Lima
      NomeLeonardo Mendes Lima da Silva
      Nascimento/Idade1982-01-14(42 anos)
      Nacionalidade
      Brasil
      Brasil
      PosiçãoMédio (Médio Ofensivo) / Médio (Médio Defensivo)

      Fotografias(3)

      Comentários (2)
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      motivo:
      Léo Lima
      2023-11-28 07h01m por MariaHelenaOsswald
      Jogador bom de pés, mas muito indisciplinado e emocionalmente fraco.
      Léo Lima
      2023-11-27 16h20m por naosabesonde
      podia ter sido muito mais !!! era muito bom jogador
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