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Conversa com o antigo pivô

De jogador a médico da seleção sub-20: «Nem todos os jogos me davam um frio na barriga»

A vida de um jogador de andebol no Campeonato Placard Andebol 1 nem sempre é fácil, salvo raras exceções. Os atletas, na maior parte dos casos, não abdicam de outro tipo de ocupações para conseguirem ter uma vida tranquila e um futuro assegurado quando deixarem de praticar a modalidade que amam. José Rebelo, que passou a última temporada com a camisola do ABC, enquadra-se perfeitamente nesta descrição.

Estreia na EHF European League @MŠK Považská Bystrica
Aos 28 anos, o pivô teve que fazer a escolha inevitável para uma pessoa nesta situação: a Medicina Desportiva ou o andebol. Apenas um dos aspetos podia ter um papel importante na sua vida. «É sempre uma transição difícil e o momento mais complicado foi quando pensei nesta decisão de forma séria, ou seja, a meio da temporada que agora finda. Existiu sempre aquele 'friozinho na barriga' por saber que não ia jogar mais, mas valores superiores se levantaram», começou por afirmar, em conversa com o zerozero.

«Antes de 2023/2024 começar, tive uma conversa com o Carlos Matos [presidente do ABC] e o Filipe Magalhães [treinador do ABC] para dar a conhecer o meu lado. Quis, por isso, apostar no andebol a 200 por cento e trabalhar como médico no FC Vizela sub-23, um aspeto que não me retirava muito tempo da rotina habitual. Nunca tinha tido a oportunidade de me dedicar tanto tempo à modalidade, pois, durante o meu trajeto enquanto sénior, estive a tirar o curso de Medicina e concluí-o no tempo previsto: seis anos», acrescentou.

Seis anos de histórias, lutas e cadeiras feitas... com muito esforço e dedicação. «Algumas foram em época especial [risos]. Outras acabaram por ficar para trás, mas concluí tudo com sucesso. Isso permitiu com que os meus colegas fossem sempre os mesmos desde o primeiro semestre. Ajudaram-me muito para conseguir terminar. Não fui a várias aulas teóricas e deram-me sempre os apontamentos para poder estudar (...) Jantares? Raramente ia, mas depois chegava ao restaurante e tinham guardado um pouco de comida para mim», argumentou.

Passagem em Setúbal foi proveitosa @Vitória FC
A altura da faculdade é especial e exigente, sobretudo para todos os jovens que pretendem seguir a área da Medicina. Depois de 12 semestres desgastantes, é necessário fazer o Internato de Ano Comum, um cenário transversal aos médicos que estejam a começar a carreira. «Basicamente observas, trabalhas e recebes como um profissional da categoria mais baixa. Na altura, estava no FC Gaia (2021/2022) e consegui uma oportunidade na zona de Setúbal. O Luís Monteiro, que era o técnico do Vitória FC, aceitou a minha ida para o clube, uma vez que já nos conhecíamos, pois tínhamos coincidido nas seleções jovens de Portugal», explicou.

«Conjuguei os dois aspetos: o andebol e a situação médica. Sempre foram impecáveis comigo no hospital. Deixavam-me sair mais cedo para treinar e entenderam a minha situação. Numa fase posterior - a partir de janeiro de 2023 -, comecei como médico independente e a primeira experiência no mercado de trabalho decorreu na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados da Quinta do Conde, em Setúbal», disse.

«Existiam cerca de dez mil pessoas sem médico de família. Tentei colmatar esse vazio. Abri a agenda em fevereiro e expliquei que só queria marcação até junho porque sabia que a época ia terminar por essa altura e não sabia se ia ficar. Encheram as marcações em duas semanas, pois a necessidade é bastante e não têm acesso. Uma realidade com a qual não estava habituado a lidar e fiquei surpreendido. Vi todo o tipo de patologias, apesar de ser clínico geral. Felizmente tinha uma equipa que me ajudou desde o início», confessou.

Apenas uma pessoa para milhares de necessidades. Pairou a pergunta: uma rotina cansativa? «De manhã ia ao ginásio, depois trabalhava e às 17h00 já me encontrava no pavilhão para treinar com o Vitória FC. Adorava a minha vida, não me podia queixar nem dizer que era esgotante. A experiência na Quinta do Conde foi bastante enriquecedora. Estava sempre a aprender e a conversar sobre uma área que não dominava completamente. Gostei mesmo do que fiz», atirou.

Minho pintado de dourado

Da Quinta do Conde para Braga. Tal como já referido e explicado anteriormente, José Rebelo assinou pelo ABC na temporada 2023/2024. O regresso ao Norte de Portugal e para perto de casa. Uma nova etapa no mundo do andebol e numa equipa com outro tipo de ambições relativamente ao passado. Resultado? Melhor temporada da carreira em termos de golos marcados a nível sénior - 80 em 37 jogos.

«Acho que foi um excelente ano do ponto de vista individual, pois apresentei-me a um bom nível no plano ofensivo e defensivo. A minha meta passava por chegar a um dos três 'grandes' (FC Porto, Benfica ou Sporting), mas não aconteceu. Recebi propostas de campeonatos muito interesses no estrangeiro, porém, nada de fazer perder a cabeça. O importante é que concretizei um dos meus sonhos, que passava por disputar a EHF European League. Aquele jogo no Pavilhão Flávio Sá Leite, que coincidiu com a passagem à fase de grupos, ainda não me saiu da cabeça. Fantástico», referiu.

«Mas não sei se te lembras dessa eliminatória. Lesionei-me na primeira mão e estive em dúvida para o encontro em Braga. Tinha trabalhado bastante na pré-época. Aos 40 segundos, pumba: rotura muscular no adutor. Não entrei mais em ação e restava-me apenas tentar recuperar para poder dar o meu contributo. Estive ausente dos treinos durante essa semana - excetuando pequenos exercícios. Quando chegou o dia decisivo, fui medicado ao máximo e tentei dar tudo. Resultou, apesar de algumas limitações que fui escondendo. Típico de um atleta [risos]», explicou, antes de responder se esse foi o melhor momento da carreira.

Em bom plano europeu @ABC
«É capaz, é capaz. Se tu vires a classificação do campeonato da Eslovénia, eles terminaram no pódio a um ponto do primeiro posto, são mesmo muito bons. Nós ali provamos que éramos um grupo de homens e foi o coletivo que conseguiu a vitória. Depois existiram performances individuais. Mesmo o último jogo que fiz agora, diante do Benfica... foi a cereja no topo do bolo para sair em grande. Estive a época toda a jogar a pivô e, nessa partida, voltei a lateral esquerdo, onde fiz toda a minha formação e vários anos como sénior», confidenciou. 

«Não vou mentir e dizer que todos os jogos do Campeonato Placard Andebol 1 me davam um frio na barriga. É mentira. Podia haver quem sentia, mas eu não. Os encontros da EHF European League eram a única exceção à regra. Olho para trás e o que me vai ficar na memória é esse último embate em Braga, uma vez que estiveram presentes os meus amigos de infância de Santo Tirso, do GC Santo Tirso (incluindo dois que jogaram comigo desde os bambis) e a família. Foi emocionante festejar com eles. Uma palavra de agradecimento, foram top. Para além disso, dei a camisola à minha mãe e ela não conseguiu conter as lágrimas», atirou.

Um ano volvido, o fim. As últimas semanas de competição, as últimas conversas com os companheiros de balneário e os últimos treinos. «Vou ter muitas saudades das viagens de carro [risos]. Era uma junção de pessoal novo, pessoal divertido. Irei sentir falta, também, do convívio no balneário. Fazia parte da rotina. Sempre fui uma pessoa feliz nos treinos», disse.

qEste ano, considero que estive a jogar andebol num nível profissional, ou seja, tínhamos à disposição todas as condições necessárias e um salário condizente com isso mesmo
José Rebelo, antigo jogador do ABC
A decisão de envergar pela Medicina a tempo inteiro já estava tomada. A quem é que se comunica, numa primeira instância, o veredito final? «Falei com o Afonso Lima, que decidiu deixar o andebol, apesar de ter estado no Atlético Valladolid, na Liga ASOBAL. Pedi-lhe conselhos, acima de tudo. Consegui colocar todos os aspetos em cima da balança e perceber que era o melhor para mim nesta altura.»

«Conversei com a minha família e tentei entender o outro lado. A minha mãe, que esteve sempre lá desde o início, nunca foi contra o que eu disse. A minha namorada, irmão e pai igual. Perguntaram-me várias vezes se tinha a certeza ou se não queria jogar num escalão mais abaixo, num clube com menos exigência», acrescentou.

Eslovénia? Aí vou eu

Seguimos a linha cronológica habitual e chegamos ao futuro de José Rebelo. Já sabemos que irá ser ligado à Medicina Desportiva, mas será que o andebol ainda terá o devido espaço? «Entrei recentemente no Doutoramento em Ciências do Desporto, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Vou continuar os meus estudos e aprofundar outras áreas.»

Representou Portugal no Mundial Universitário de 2018 @FPA
«O andebol não foge de mim. Farei parte da equipa técnica que vai representar Portugal no M20 EHF Euro 2024. O convite surgiu por intermédio do Mário Soares, que chegou a ser o meu médico nas seleções jovens de Portugal. É incrível trabalhar com ele e ter recebido essa proposta», afirmou.

«Gosto muito de desporto e pretendo continuar a praticar outro tipo de modalidades. Acabei de comprar uma prancha de surf. O Pedro Salvador, que é de Espinho e jogou comigo, dá aulas e já fui a uma para experimentar. Não obstante, ando a ver, juntamente com o meu irmão, competições de karting [risos]», atirou.

Chegamos ao fim da conversa. O atleta, de 28 anos, continua feliz, apesar de enveredar por outro tipo de áreas. Somam-se as razões para isso. «Não me arrependo de nada. Tenho uma vida estável juntamente com a minha namorada e, dentro de pouco tempo, vamos morar para Esmoriz», explica. 

Dia 10 de julho representa a altura em que Portugal vai entrar em ação no M20 EHF Euro. Escolhemos a data «a dedo» para observamos a estreia de José Rebelo no banco de suplentes. Grécia, Sérvia e Alemanha. Os primeiros adversários na fase de grupos. Objetivo? Chegar o mais longe possível, pois claro!





Portugal
José Rebelo
Nascimento/Idade1996-05-15(28 anos)
PosiçãoPivô / Lateral (Lateral Esquerdo)

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