Portugueses do Helsingfors IFK em exclusivo

Beto e Rivelino em Helsínquia: «Parece que estamos no Game of Thrones, há muitos corvos»

Cidade «obcecada por regras», cúmulo do civismo e do saber estar. Helsínquia, a casa nova de Beto Pimparel e de Roberto Rivelino, homens de luvas calçadas e preparados para tudo na defesa do Helsingfors IFK.

O primeiro celebra a entrada na ternura dos 40. Após uma paragem competitiva de quase um ano, voltou a fazer o que mais gosta. Na improvável Veikkausliiga, o homem que jogou Mundiais e Europeus agarra-se a cada dia de trabalho como se fosse o último.

Tal como os gauleses na aldeia de Astérix, Beto só tem a certeza de que o próximo treino e o próximo jogo não serão os últimos. Enquanto houver estrada para andar…

qCheguei a ver crianças a apanhar o metro ou o autocarro sozinhas. Crianças com cinco, seis anos, sozinhas. Para um latino isto é impensável
Roberto Rivelino
Rivelino tem 27 anos e é o treinador dos guarda-redes do Helsingfors. Homónimo de um dos maiores avançados brasileiros de sempre, mas apaixonado pela arte das balizas. Um paradoxo que em nada condiciona a inteligência emocional com que fala desta experiência no Norte da Europa.

Lá em cima, onde os dias são sempre noite no inverno e têm 24 horas de luz no verão. Lá em cima, no paraíso das auroras boreais, das ruas sem policiamento e da ausência absoluta de sinais de pobreza.

Uma conversa com o zerozero que vai muito para além do futebol. Dois amigos, dois portugueses, a viverem a Finlândia e um futebol peculiar, jogado em sintéticos por gente com menos… alma.

. PARTE 2: «Um dos guarda-redes até me tratava por você»

zerozero – Porquê a Finlândia? O Rivelino foi o primeiro a chegar aí.

Beto – Faz sentido ser ele a responder, isso mesmo. Foi o primeiro a vir.

Roberto Rivelino – O convite surgiu através do anterior treinador [o português Bernardo Tavares, agora na Indonésia]. Nunca tinha trabalhado com ele, mas ligou-me e falou-me muito por alto sobre a proposta da Finlândia, sem mencionar o clube. Depois, à posteriori, tivemos uma reunião com o diretor desportivo e aí soube que clube era, investiguei tudo o que pude e decidi que era perfeito para a primeira experiência no estrangeiro. Para mim fez todo o sentido, não só pela parte futebolística, mas também pela parte social. Depois, tentámos vários cenários até chegar ao Beto. E quando chegámos ao Beto foi muito simples de se chegar a acordo, porque também já o conhecia de outras andanças (risos).

zz – E o Beto?

B - O Rivelino abordou-me e foi muito fácil decidir. Por várias razões. A primeira pela relação que eu tenho com o Rivelino já há muitos anos e nunca tínhamos tido o privilégio de trabalhar juntos. Achei que era uma oportunidade, provavelmente até a última oportunidade, de podermos trabalhar lado a lado. E foi fácil também no sentido em que faltava-me conhecer algo diferente. Tive inúmeras experiências durante toda a minha carreira. Cheguei até lá acima, até ao topo, e depois também quis conhecer um pouco daquilo que é mais ou menos a periferia do futebol europeu. E isto aqui é um pouco a periferia do futebol europeu. Há ainda pouca expressão e pouco conhecimento sobre o que é o futebol profissional. E, tendo aqui o Rivelino, posso também adquirir mais conhecimento, mesmo na parte social, na parte cultural, mesmo na parte futebolística. Não demorei muito a aceitar. O Rivelino está aqui e não me deixa mentir. Só foi mais difícil convencer a minha a minha mulher (risos). Da minha parte a resposta foi simples.

zz – O Beto faz 40 anos a 1 de maio [a entrevista foi feita dias antes].

B – Obrigado por me lembrar (risos).

©Beto - arquivo pessoal
zz – É um número bonito, redondo. Ainda sente o prazer pelo treino, pelo jogo, aquele bichinho que mexe com um atleta no auge?

B - Se eu não sentisse isso, não teria vindo para a Finlândia. Aquilo que me move é a minha paixão pelo jogo. Não vim para aqui por questões contratuais ou financeiras, até porque não é um mercado apetecível a nível financeiro. Vim mesmo pela paixão do futebol e pela experiência. Tive um período de paragem, desde que terminou a temporada passada até há três meses. Estive parado, no sentido de estar sem competir, e não sabia muito bem que tipo de projeto iria abraçar. Os projetos que me chegaram eram mais do mesmo e eu não queria mais do mesmo. Queria algo diferente, algo novo, e vir para a Finlândia neste contexto fazia sentido. Como referiu, e bem, vou fazer quarenta anos e já são 23 como profissional. Muitas experiências, muitos países, muitas culturas. Faltava-me, se calhar, esta parte para poder brevemente terminar a carreira e poder ter uma, digamos, uma bagagem de conhecimento ainda mais alargada.

zz – O futebol já tem alguma dimensão dentro da sociedade finlandesa?

RR – Alguma, mas não é o desporto principal. Eles têm uma forma muito engraçada de estar nos estádios. Quer estejam a ganhar, a empatar ou a perder, continuam a cantar e a incentivar. São muito positivos. Num dos nossos jogos, os adeptos começámos o aquecimento às 16h10 e eles já lá estavam. O jogo era só às 17. Essa parte é espetacular, mas não há uma cultura de idolatria. O próprio Beto não é reconhecido na rua ou nos restaurantes. Eles permitem que as pessoas tenham o seu espaço e não seguem o futebol com o mesmo fervor que seguem, por exemplo, o hóquei em gelo. Sinto que são respeitadores e fizeram com que eu recuperasse grande parte da paixão pelo futebol. Em Portugal, as pessoas tendem a esquecer somos seres humanos e sentimos. Os finlandeses são um bocadinho frios, embora não tratem com falta de respeito ninguém. Há exemplos impressionantes. Se o semáforo está vermelho para as pessoas, ninguém atravessa, mesmo que não haja nenhum carro na rua.

zz – Civismo, não é?

RR - Exatamente. E isso é a grande diferença. Cheguei a ver crianças a apanhar o metro ou o autocarro sozinhas. Crianças com cinco, seis anos, sozinhas. Para um latino isto é impensável.

B - Depois, claro, há um problema grande que se chama frio (risos). É muito, muito frio aqui.

zz – E vocês chegaram em janeiro. O choque deve ter sido violento.

B – Já era fevereiro, mas havia ainda muita neve. A adaptação a isso é difícil, não vale a pena dizer o contrário. Nós começámos a trabalhar num ambiente fechado, numa espécie de iglu gigante. Mas depois temos de jogar ao ar livre. Outra dificuldade tem a ver com os campos. A grande maioria tem piso sintético, porque a relva natural não aguenta temperaturas tão baixas. E estou muito de acordo com aquilo que o Rivelino referiu sobre a questão social. Não vou dizer que eles são robóticos, mas são obcecados por regras. Nisso são taxativos, não há hipótese de dar a volta. Há pouca emoção nas pessoas, são pessoas bastante comedidas no que dizem e fazem. Não exteriorizam as sensações e nem sabemos se uma pessoa está feliz ou se está chateada.

zz – Os vossos colegas de equipa são assim também no balneário?

B – Sim, bastante. São aquele iceberg que está muito perto do vulcão. Ou seja, com duas festinhas e dois carinhos aquilo derrete tudo. Eu sou uma pessoa emocional, e quando cheguei tentei criar laços. E eles só olhavam para mim a pensar ‘o que está o Beto a fazer aqui’? Eu brincava, dava um abraço e eles ficavam imóveis, até por timidez. Eu vivi em Portugal, Espanha, Roménia, Turquia, sempre com pessoas de muito toque e aqui é o oposto. Não são melhores ou piores, mas são verdadeiramente diferentes.

©Roberto Rivelino - arquivo pessoal
zz – Eles reagem mal à derrota, exteriorizam a insatisfação, ou mesmo aí mantêm alguma reserva?

RR – A palavra certa para descrever a reação deles na derrota é apreensão. Ficam parados, a cismar, tomam banho em silêncio e a seguir já passou. Eu rebento muito mais depressa do que eles. Já tivemos aqui uns arrufos nos jogos, contra os adversários, e eu quando olho para trás vejo que estou sozinho. Ou com o Beto. Eles não se metem nisso.

zz – O Beto dava o exemplo do iglu gigante. Apesar da violência climatérica, o vosso clube oferece boas condições de trabalho?

B - Dentro daquilo que se pode pedir num clima tão severo, as condições são perfeitamente boas. Temos tudo. Obviamente que é complicadíssimo treinar ao ar livre com o campo muito frio, por isso é que foram criadas este tipo de condições. De uma forma geral, as condições são perfeitamente aceitáveis. Temos um complexo com três campos sintéticos, temos o nosso estádio e mesmo ao lado temos o Estádio Olímpico. Portanto, as condições são perfeitamente boas e aceitáveis.

zz – Nos jogos fora já devem ter visto sítios incríveis.

RR – É verdade. A pré-época foi feita a competir, na Taça da Liga. Algumas equipas levam a sério, outras nem tanto. O HJK optou por meter os juniores na meia-final e foi estagiar para fora. Já fomos jogar a Mariehamn, nas Ilhas Aland, uma região muito bonita, offshore.  E também fomos a Turku, uma cidade bonita e com demasiado vento (risos). E fomos a Seinajoki, a cidade do SJK e uma cidade muito…

B – Cinzenta.

RR – Literalmente cinzenta (risos). Até o estádio é todo cinzento. Mas Helsínquia, onde vivemos, é uma cidade espetacular.

B – É muito bonita, rica culturalmente, não tinha ideia de que isto era assim. E a construção é impressionante. Nós atravessamos de uma ilha para a outra e nem sentimos, apenas sabemos que estamos numa ponte. Nós temos sempre a tendência para comparar e eu tenho muitos termos de comparação. Aqui não conseguimos encontrar edifícios em decadência, há uma preocupação absoluta em cuidar da propriedade pública e privada. E há mais uma coisa que chamou a atenção da minha mulher antes de virmos para cá: a Finlândia aparece sempre no topo do ranking mundial da felicidade [tabela organizada pelas Nações Unidas]. São o povo mais feliz do mundo.

©Roberto Rivelino - arquivo pessoal
zz – São felizes e não se riem, portanto.

B – Bem visto (risos). Onde é que está essa felicidade toda? A felicidade deles reside na ausência de problemas. Vou dar o exemplo dos impostos. Existem aqui como existem em Portugal. Só que as pessoas aqui não se importam de pagar impostos. E os impostos aqui até são altos. Altos, altos. Só que as pessoas depois sentem que estão a contribuir para alguma coisa, de facto. A população faz descontos, mas tem a retribuição por parte do governo. As infraestruturas são perfeitas, a saúde é gratuita, a educação é gratuita e a segurança – que é fundamental – é extraordinária. A minha família esteve aqui duas semanas e não viram um único carro da Polícia.

zz – Nas ruas há algum sinal de pobreza, pessoas sem abrigo?

B – Nunca vi nenhum, felizmente. Há ausência de sinais de pobreza.

zz – Esquecendo um bocadinho o futebol, imaginam-se a viver na Finlândia durante alguns anos?

B – Eu não. E digo não porque faltam a este país duas coisas prioritárias para mim. O relacionamento humano e o clima. Sou um homem que gosta de socializar e aqui é difícil.

RR - Se tivesse o dobro da idade, provavelmente ficaria por aqui. Há uma sensação de liberdade muito boa, a oferta cultural é impressionante, música, teatro, cinema, artes. A quantidade de lojas de comércio conceptual é incrível. Os negócios aqui aparentam nunca ir à falência, está tudo aberto. Gosto muito do conceito de pop store, os artistas plásticos têm a sua própria showroom e isso cria uma atmosfera de grande criatividade. 

zz – Têm conseguido viver esse lado cultural de Helsínquia, apesar do frio extremo?

B – Sim, hoje estão 14 graus, um sol aberto, está um dia espetacular. Isto é como se estivessem 23 graus em Portugal, porque o sol está sempre baixo, aparenta isso.

zz – Ainda apanharam os dias de 24 horas sem sol?

RR – Eu ainda apanhei, o Beto já não.

B – Quando cheguei já tinha claridade das 11h30 às 15 horas, um luxo. Mas o pior vem agora. Agora vamos ter 24 horas de sol, de dia.

RR - O maior defeito da Finlândia para mim é a inexistência de persianas.

 

zz - Persianas?

RR – Exatamente, é horrível.

B – Agora já podes dizer que tens persianas. Posso contar?

RR – Sim, claro.

B - Eu fui montar com o meu sogro umas persianas a casa do Rivelino. É impossível dormir, porque eles nem sequer usam cortinas blackouts.

zz – O finlandês comum dorme de janela aberta?

B – Isso mesmo. No verão, às três da manhã está um sol radiante. Eles vivem assim, se calhar explica o estado de espírito desta população.

zz – E já tiveram alguma experiência gastronómica mais exótica?

B – Eu não, mas eu não arrisco muito. Temos aqui quatro/cinco restaurantes onde se come espetacularmente bem e eu acho que daí não saio.

RR - Ainda não sei qual é o prato típico finlandês. Tenho de provar a carne de rena e a  carne de urso. Eles comem essas carnes, mas ainda não tive coragem para provar. Gosto da sopa de salmão deles.

B - A sopa de salmão é espetacular, o salmão aqui é fantástico. Mas não me arrisco ainda muito, eu gosto de ver as renas é lá em cima na montanha.

RR - Aqui vemos é muitos corvos. Parece que estamos no Game of Thrones.

©Beto - arquivo pessoal
zz – Winter is Coming.

RR – Isso mesmo (risos). É difícil ver uma cidade assim, sem sinais de pobreza. Mesmo os carros são modernos e não têm riscos, não há acidentes. Parece que vivemos noutro planeta. É a disciplina levada ao extremo e é por isso que a Polícia não sente necessidade de andar nas ruas. Nos transportes públicos podemos andar sem bilhetes, não há qualquer problema.

B - Vou só dar outro exemplo deste civismo, até por comparação com as outras realidades que vivi. Aqui há muitos cafés e restaurantes de self-service. Com manteiga, água, café, qualquer coisa. Nos outros países onde vivi, os senhores do café deixavam uma cafeteira e passados dois minutos já não havia café. Era um abuso. Aqui não. Cada um tira só o seu café, o seu pão e sentem-se na sua mesa, em silêncio. Há uma cultura de respeito pelo outro.

RR – Mesmo na relação com os animais.

B – Na zona onde vivo há uma casa de banho própria para os animais.

RR – E não existem caixotes de lixo nas ruas. Cada condomínio tem o seu… como se chama aquilo? Um pequeno hangar onde se coloca o lixo, que depois é recolhido de lá diretamente. E os funcionários do condomínio entram em nossa casa e tiram o lixo também. Estão muitos anos à frente no que diz respeito à mentalidade.

zz – Já foram ver hóquei em gelo ao vivo?

B – Muitas vezes, é espetacular. E temos a sorte de jogar num clube que é uma referência na modalidade. Estão sempre quatro/cinco mil pessoas no pavilhão. Só é pena haver três intervalos de 15 minutos. As pessoas saem e vão comer o seu hot dog ou ficam a ver o espetáculo. São pessoas diferentes.

zz – Vocês até já percebem melhor as excentricidades do Kimi Raikkonen.

RR – É verdade, é verdade (risos).

B – E eles são um país de grandes pilotos. De Fórmula 1 e de rally. Para tirarem a carta de condução têm de andar em estradas com óleo e em ruas com gelo, talvez isso ajude a explicar.

Portugal
Beto
NomeAntónio Alberto Bastos Pimparel
Nascimento/Idade1982-05-01(41 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoGuarda Redes

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