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Rui M. Tovar entrevista Jaime Pacheco - Parte I

«Veiga Trigo insultava-nos durante os jogos: ‘não jogas um c****, levanta-te'»

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«Barrilete Cósmico» é o espaço de entrevista mensal de Rui Miguel Tovar no zerozero. Epíteto de Diego Armando Maradona, o nome do espaço remete para mundos e artistas passados, gente que fez do futebol o mais maravilhoso dos jogos. «Barrilete Cósmico».

Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior. Transformei-me em Bart Simpson, embora não seja canhoto, nem tenha o cabelo espetado, nem saiba andar de skate, nem tenha uma irmã saxofonista, nem uma mãe com cabelo azul, nem um pai careca. Se fosse tudo isso, suspeito, suspeiiiiito, o Jaime Pacheco não me levaria a jantar ao 'Sapo'.

PARTE II: «O Petit já jogava no Benfica e liga-me a dizer: 'Já estou na segunda [garrafa] do Esporão e aí só bebia água'»

PARTE III: «O Paulinho Santos apanhou-me e pediu-me desculpa: 'mister, desculpe, desculpe'»
 

O homem está na berlinda, o fim-de-semana é dele. Sábado é dia de Boavista vs. Vitória SC e ele treinou os dois. Domingo é dia de FC Porto vs. Sporting e ele jogou nos dois. Jaime Pacheco on the rocks, aí vem ele. A horas, sempre a horas. Apanha-me ali em Leça, à frente do Continente, junto à praia. Pára, arranca, vira à direita no primeiro semáforo, faz outra direita num segundo sinal verde e é siga a marinha até Penafiel. Lá dentro do restaurante, a sala reservada reúne uma série de camisolas, tanto de futebol como de ciclismo. A mais visível é a de Fernando Meira.

Jaime nem perde tempo, ainda de pé, em jeito de anfitrião.

O Meira, fui eu quem o lancei, num Braga-Vitória. Perdemos 4-0, para a última jornada da 1.ª divisão em 1995-96.

É a época em que o Jaime entra no Vitória?

Isso mesmo.

Eischhhhh, o Vitória é o campeão da segunda volta [40 pontos, contra 39 do FC Porto, 36 do Benfica e 27 do Sporting].

Tínhamos cá uma equipa. Herdei gente boa, bem boa.

Como é que chegou a meio da época?

Estava no Lamas e fomos jogar às Antas para a Taça de Portugal. Empatámos 0:0 e falhámos um penálti no último minuto do prolongamento.

Nãããããão.

Estou a dizer-te, no último minuto do prolongamento. A bola bateu na trave, ressaltou na relva e saiu de cena.

Quem falhou?

Jorge Silva, era o nosso marcador.

E depois?

Ir ao prolongamento já era uma vitória, agora era tentar ganhar em casa.

Quem treinava o FC Porto?

Bobby Robson. Convidou-me para o seu gabinete, a seguir ao jogo, e já arranhava umas coisas em português. Foi engraçado, o convívio.

E a mudança para o Vitória dá-se logo aí?

O Pimenta ouviu o jogo na rádio e, palavra puxa palavra com um amigo jornalista d’A Bola [João Freitas], falou-se no meu nome. Quem estava para ser contratado até era o Carlos Alberto Silva, que tinha sido campeão português pelo FC Porto [1991-92 e 1992-93]. Só que o Carlos levou uma cornada de um touro na sua quinta e foi hospitalizado. Depois ainda se pensou no Carlos Manuel, que estava no Estoril. De repente, com o 0:0 nas Antas, pensou em mim.

Como é que se fez o negócio?

Ligou-me, estava eu na casa da minha mãe, porque o meu pai tinha morrido havia pouco tempo. E percebi que era o Pimenta, que não era gozo – aquela voz não enganava. Encontrámo-nos no parque das Antas, à noite, e fizemos negócio.

Então não jogou o desempate com o FC Porto?

Já não, ainda fiz um jogo com o Lamas em Aveiro no mesmo fim-de-semana em que o Manuel Machado fez a ponte entre mim e o Vítor Oliveira no Vitória.

E que tal a chegada a Guimarães?

Incrível. Do meio-campo para a frente, eram estes aqui: Paneira, Capucho, Zahovic, Ricardo Lopes. Ganhámos 3:2 ao Sporting no José Alvalade e 3:2 ao FC Porto nas Antas. O FC Porto não perdia em casa há três anos, ó Rui [1:0 do Famalicão em 1993]. E também fui o primeiro visitante a ganhar no Dragão, pelo Boavista, em 2004. Golo do Cafú, aos 90-e-tal.

Só histórias. Por falar no Boavista, estou a lembrar-me agora daquele golo do Jaime pelo Vitória FC no Bessa.

VÍDEO DO GOLAÇO NO BESSA:

 

 

Canto do Mladenov e eu, taaau, no limite da área. Por norma, saía remate em força. Dessa vez, meti o pé em forma de colher. Foi bonito, bola ao ângulo superior. Ganhámos 2-1.

Como era o Mladenov? Tenho um fascínio por ele.

O que era como jogador, também o era como pessoa. Não tinha ares de vedeta e era dono de uma canhota sensacional.

Fico sempre a pensar o que ele daria num grande.

Na altura, os grandes faziam jus à palavra 'grandes' e tinham grandes jogadores. Agora qualquer um joga nos grandes. Vou dar-te um exemplo de um craque sem grande: Arnaldo, do Barreirense e da CUF. Jogava muito, muito, muito.

[aparece a primeira pessoa na nossa mesa corrida, um habituée do restaurante e amigo de Jaime Pacheco]

Apanhaste-o?

Ele na zona sul, eu na norte.

Onde?

Eu no Aliados. Subimos da 3.ª para a 2.ª e, depois, fomos à liguilha.

Para subir à 1.ª?

Exatamente.

Beeeeem, g’anda esticão.

Quase, quase. Falhámos. Ficámos em segundo lugar, atrás do Famalicão. A liguilha era com Académico Viseu e Juventude Évora. Começámos bem, com uma vitória, depois nunca mais. Na última jornada, para subir, tínhamos de ganhar por cinco ao Académico. Acabámos por empatar 1:1.

E a seguir?

Na época seguinte, muitos jogadores do Aliados saíram e a própria direção não pagava ordenados. Em Dezembro/Janeiro, saí.

Assim, sem mais nem menos?

Meio ano sem jogar.

Ufffff.

Fui trabalhar com o meu pai nos móveis.

G’anda pinta. E futebol?

Tinha a Académica, ainda hoje o contrato está lá em casa. Nunca o assinei.

E mais?

Tinha o Rio Ave, cujo presidente era o senhor Fragoso. Eu e o Álvaro fomos falar com ele. O Álvaro pediu-lhe 30 contos, eu pedi 40. O senhor Fragoso foi muito engraçado para o Álvaro: ele é melhor que tu, pediu mais que tu.

E como ficou?

Fomos para lá, o treinador Pedro Gomes ficou com o Álvaro e não me quis.

Uyyyyy.

Vou ao FC Porto, treinar só. O Pedroto gostou do que viu e diz-me para voltar, quando acabar a tropa. Eu pensei que fosse gozo e não liguei. Entretanto, também apareceu o Beira-Mar, através do Fernando Cabrita, meu selecionador no Euro-84.

E?

Rejeito. Depois do que aconteceu com o Rio Ave, só queria ir com contrato. Passam-se uns tempos, acabo a tropa e um dirigente do FC Porto encontra-me por acaso. Pergunta-me porque é que ainda não tinha ido falar com o Pedroto.

E?

Julgava mesmo que era gozo, a cena da tropa.

Mas não era?

Nada. Resumindo, fui à Sagrobe e falei com o Pinto da Costa. Ofereceu-me 30 contos. Devia julgar que estava com um sancho.

E?

O Pedroto dá-me 60, assunto resolvido.

Fixe, e o Jaime começou a jogar?

Nada, andei a chutar bolas para a bancada durante quase uma época. Só podia, havia muita gente: Oliveira, Gomes, Duda, Teixeira. Só começo a jogar com o Stessl.

E que tal?

É ingrato classificar qualquer um que sucedesse ao Pedroto.

@Arquivo Pessoal

O Jaime jogava onde?

Entrei para médio esquerdo. Muitas vezes, o Stessl tirava o Inácio para meter o Mike Walsh e eu descia para lateral. O Inácio ficava lixado, e eu também.

Ahahahahahah. Que tal o Walsh?

De cabeça, imperial.

Melhor que o Gomes?

Melhor, sim. Ele parava no ar. E tinha um cu pesado, agora imagina a força dele. Era um terror para os centrais.

E o Jacques?

Só entra no FC Porto mais tarde. O Jacques era tipo Müller, aproveitava todas as migalhas dentro da área. E era lixado na bola dividida.

É o melhor marcador do campeonato 1981-82.

Esse título tem história, porque o Homero Serpa, d’A Bola, deu um golo do FC Porto em Portimão ao Jacques.

E?

Foi do Teixeira. Na última jornada, há FC Porto vs. Sporting e a luta entre de rei do golo entre Jacques e Jordão. O Jordão atira uma bola à trave e o Jacques marca um golo. A Bola de Prata é do Jacques, por um golo. Tinha uma relação forte com o Jacques.

Ai era?

Desde o primeiro dia. Éramos vizinhos. Ele andava sempre na noite. Nessa época da Bola de Prata, caía na noite e marcava golos de todo o jeito. Na época seguinte, partiu a perna e, quando voltou, a máquina do golo já não era aquela coisa. Então as pessoas chamavam-no vagabundo.

Porquê?

Porque o viam na noite.

Ele saía à noite, mesmo lesionado?

Não, não. Aí já não. Por isso é que ele me dizia ‘ó vizinho, quando saía à noite e marcava, ninguém me dizia nada; agora que não saio nem marco, chamam-me vagabundo’.

Grande galo.

Íamos sempre juntos para o treino, no meu Fiat Ritmo, e, há um dia, em que lhe dou um toque por telefone. Era o sinal para descer. Qual quê, esperei uns 20 minutos por ele. Porquê? Tínhamos saído à noite, na véspera. Jantar e tal, depois entrámos na boca do lobo.

Então?

Oh, coisas da noite. Claro, toparam-nos. O Jacques chega atrasado ao pé de mim e, azar o meu, já tinha tomado o pequeno-almoço. Eu, não. Então parei na Primazia para comer qualquer coisa. Quando chegámos às Antas, ainda não estávamos atrasados para o início do treino, mas estávamos atrasados para a entrada no balneário. Havia um horário próprio. O Pedroto estava à porta e já sabia de tudo.

E então?

Disse-lhe bom dia.

E ele?

‘Bom dia, não; boa tarde’. Já o tinham informado da noite anterior.

E agora?

Ainda justificámos, a dizer que não tínhamos chegado tarde. E o Pedroto sacou a dele.

Qual?

O problema é que vocês deviam ter-se deitado cedo. Nunca mais cheguem atrasados.

E foram treinar?

Achas? Só ao treino da parte da tarde. E aí chegámos meia hora antes. Ai não. O Pedroto era assim, tramado.

E o discurso contra Lisboa era-vos por ele explicado com antecedência ou vocês só percebiam essa tendência através dos jornais?

Nós sentíamos, ó Rui. Lembro-me de um jogo em Amora. Olha, outro bom de bola: Caio Cambalhota. Se fosse agora, entrava direitinho nos grandes. Naquele tempo, impossível.

Brasileiro, não é?

Nove, ponta-de-lança de referência. Há um lance com ele, o árbitro assinala falta e a malta protesta. O Frasco falou, toma lá amarelo. Eu falei, toma lá amarelo. Era assim, naquele tempo.

Quem era o árbitro?

Veiga Trigo. Ele insultava-nos durante os jogos. Quando a gente caía, e o Amora era pelado, ele: ‘não jogas um c******, levanta-te’. Lembro-me de um jogo na Luz em que estou para tocar a bola para a baliza e o Alves empurra-me pelas costas dentro da área. Eram uns três penáltis e foi o quê? Nada. Adorava o João Alves, sabes? Cheguei a jogar com luvas nos juniores do Rebordosa, agora vê.

Lindo.

Sobre o assunto dos árbitros, também senti isso a favor do FC Porto mais à frente. Tenho de ser honesto. Mas aquela história da ponte D. Luís era verdade. Mal a gente a passava, já estava inquinado. Era como agora no Egipto, com o Al Ahly [Jaime Pacheco acaba de fazer ano e meio no Pyramids]. Na área do Al Ahly, nada. Na área do outro, penálti para o Al Ahly. Era a mesma coisa em Portugal. Agora, o Pedroto treinou-nos bem para isso. E não só.

Mais coisas?

Os treinos do Pedroto ao sábado eram mais intensos que o jogo de domingo. Eram autênticas batalhas campais. Ele fazia equipas mistas e era para partir. E obrigava-nos a usar caneleiras e botas de alumínio.

Uyyyyy, perigo.

Zero.

Como assim?

Ò Rui, ninguém se queixava. Se nos queixássemos, o Pedroto metia-nos fora e não jogávamos. E a gente queria jogar. Todos nós queríamos. Então eu dizia ao massagista para não dizer nada ao Pedroto. Eu, e todos. Uma vez, pisaram-me o dedo mindinho do pé. Aquilo era insuportável. Pedi ao massagista para me atar à pressa. Num outro dia, se estivesse febre, pedia-lhe duas pastilhas e ia jogar.

[chega o segundo elemento habituée do Sapo e senta-se à mesa; este é mais espigadote e há-de intervir aqui e ali]

E a rivalidade com Sporting e Benfica?

Eu, nada. Dava-me bem com todos. O Sporting com Jordão e Manuel Fernandes. O Benfica com Humberto Coelho, Nené, Chalana e Carlos Manuel. De todos estes, o Carlos Manuel era a alma do Benfica. Era ele quem puxava a carroça, a equipa e o próprio estádio. Corria muito, passava bem, rematava bem. O Carlos era bom em todos os jogos, não falhava, era f******. E é bom não esquecer, o golo dele à RFA é uma assistência minha. Roubei a bola ao Littbarski e passei-lha, como quem diz agora resolve.

Ahahahahah. Na nossa baliza, Bento.

Rui, tive o privilégio de fazer a cabeça ao Bento ao serviço da seleção.

Como assim, a cabeça?

O Bento não era para brincadeiras. Nem no treino. E a sua alcunha era 'pé de chibo'. Então, o treino começava com umas corridas à volta do campo e, do nada, o Carlos Manuel dizia ‘ó Jaime, pára lá de chamar pé de chibo ao Bento’. E o Bento lá à frente, a ouvir tudo. Bem, ele passava-se com facilidade. Ia mesmo aos arames. Eu adorava o ambiente, e a malta do Benfica convidava-me para estar no meio deles durante os estágios nos hotéis Cidadela ou Praiamar, ali no Estoril.

[intromete-se o tal segundo habituée: ó Jaime, foste titular na final da Taça das Taças, não foste?]

Obrigado. É o número 10 e tudo.

E acabei a noite com a camisola 10 do Platini, a Juventus jogou de amarelo. Está lá em casa, é pesada. Tal como a nossa do FC Porto, aliás. Acreditas que essa camisola da Juventus andou perdida com um amigo meu, que queria mostrar aos amigos nos jogos de futebol de salão. Certo dia, apanho-o no meio da rua a passear o cão e ele diz-me ‘tenho lá uma camisola tua’. Já nem me lembrava, agora vê.

Incrível. Nesse ano de 1984, joga outra vez com o Platini para a ½ final do Euro.

Verdade, e voltei a trocar de camisola com o Platini.

Não posso, duas camisolas do Platini?

Essa foi para o Eusébio, ele é que ma pediu a do Platini.

E o Eusébio, que tal era ele nos treinos da seleção? Ou já não jogava?

Rui, era o melhor de nós todos.

Ahahahahah.

Era, era. Jogava melhor. Uma vez, fui com ele à seleção de veteranos chamado Clube de Portugal. Os treinadores eram o Eusébio e o Matine, o King e o Kong. Acredita, o Eusébio entrou em campo e não perdia uma bola. Nem uma. E sabia-a tocar como mais ninguém. E se ele arrancasse, adeus.

Então?

Ninguém o apanhava.

[intromete-se o tal cliente, isto já parece o Moe’s dos Simpson: 'o Eusébio é o Haaland de agora']

Não é nada, Na atualidade, só vejo assim o Mbappé.

@Arquivo Pessoal

Eu na capa, que luxo. Ups, afinal não. Está aqui o Laureta pá, francamente.

O Jaime já está no Sporting.

Inda, o Damas. Era qualquer coisa, o Vítor. Ele saía da baliza com a língua presa entre os dentes a querer bater nos laterais dele.

Quem eram?

Carlos Xavier à direita, Fernando Mendes à esquerda. Se o Damas fosse para a esquerda, o Carlos Xavier ria-se. Se fosse para a direita, o Fernando Mendes ria-se. Era sempre a gozar um com o outro.

Mais jogadores aí?

Oceano. Foi treinar à experiência no Sporting, vinha do Nacional. O Toshack perguntou-me o que achava dele.

O Toshack, porquê?

Éramos ambos solteiros e íamos jantar fora com regularidade, ou à Churrasqueira, no Campo Grande, ao lado do estádio, ou aos Arcos, à entrada de Paço d’Arcos. O Toshack, tal como o Manuel José, achava piada aos três centrais e jogava com Venâncio, Morato e Virgílio. Nunca fui à bola com esse sistema.

E o Jaime disse o quê, sobre o Oceano?

Para ficar com ele. Notava-se que ia dar certo. Se aprendesse, chegava lá. E aprendeu. E chegou. Foi capitão do Sporting, com mérito. Da seleção, com mérito. Agora, houve coisas pelo meio. Nunca mais me esqueço de um jogo em casa com o Varzim em que o Oceano dá uma paulada no Valdemar e é penálti. Ele assim para mim, ‘Ó Pacheco, não sabia que estava dentro da área’.

Falta aqui o paneleirinho do Litos. O Toshack queria metê-lo a extremo-direito e ele ‘ou a 10 ou não jogo’. Um miúdo dos juniores!!!

E o Manuel Fernandes?

Grande capitão, o maior que apanhei. Mas fugia ao contacto. Se alguém se metesse com ele, o Manel ia para defesa-direito a sete pés. Ahahahahah. Houve um jogador do Marítimo chamado Noémio que lhe deu uma valente porrada e ele reagiu com um ‘vais ver em Alvalade’. E o Noémio respondeu: ‘Levas aqui, em Alvalade e até em tua casa’. Ahahahah.

Ahahahahah.

É o ano em que jogámos com o Auxerre na UEFA. Há um lance em que me isolo e, de repente, o Boli, qual fantasma, rouba-me a bola. Nunca tinha sentido a presença repentina, acredita. O Boli, que seria campeão europeu pelo Marselha em 1993. E houve uma boa.

Conte.

Voltei a Auxerre pelo Boavista em 2001, para a Liga dos Campeões. Então não é que o treinador deles era o mesmo desse Sporting-Auxerre?

O Guy Roux?

Exato. Quando chego ao estádio, ele oferece-me uma fotografia minha daquele jogo pelo Sporting.

Lindo.

Lembro-me tão bem, ganhámos 2-0 em casa e perdemos 2-0 em Auxerre. No prolongamento, empatámos 2-2 e o Oceano fez um golo de bandeira- Talvez o da vida dele. No regresso, foi Auxerre até Paris de autocarro e, depois, avião para Lisboa. O Toshack foi a Gales e delegou a preparação física ao Pedro Gomes. Não é que ele nos deu uma sova no treino de sexta-feira? Até parecia pré-época.

E depois?

Fomos todos a dormir para cima, no comboio. E entrámos a dormir em Penafiel. Perdemos 2-0, foi a primeira derrota do campeonato e estávamos em primeiro lugar.

[mais uma coleção]

Agora de volta ao FC Porto.

O Liminha, que espetáculo.

Boa gente?

Quando jogava no Aliados, fazíamos muitos jogos-treino com o Varzim, sobretudo na Póvoa. E, naquele tempo, o Lima era suplente dos suplentes do Varzim. Nem calçava. Depois apanhei-o no FC Porto e o Stessl até o metia, às vezes, a lateral-esquerdo.

Que tal?

Não jogava nada, era um passador.

A sério?

Depois, evoluiu. Entendeu o jogo e fazia tudo de forma simples, além de jogar na antecipação. Ele sabia onde a bola ia cair. Aquilo que dizemos dos matadores de área, da intuição e tal, o Lima era isso como defesa. Chamava-o Tardelli.

O italiano?

Isso queria ele. O Tardelli, mas não era o da Juventus, era um jogador que se deitava tarde. No autocarro, ele às vezes dizia-me: ‘deixa-me dormir, deitei-me tarde’. A sua evolução é fantástica. Ahahahahah.

É mesmo?

Estou a lembrar-me dos jogos em que ele tinha a bola controlada e atirava para a frente, sem norte. E nós ficávamos a protestar, porque ele podia ter feito melhor.

E ele?

Dizia-nos ‘Ó Lima a p*** que vos pariu. O que queriam que fizesse? Vocês não se aproximam de mim. Estou aqui para defender, se ninguém se aproxima de mim, eu atiro para a frente.’

Quem atirava para a frente, e bem, era o António Sousa.

Vivia do remate, mas não ajudava nada. Nem a arrumar os talheres.

Ahahahahah.

Defendia pouco, embora tenha melhorado na segunda passagem pelo FC Porto.

E o Madjer?

Uyyyyy, era muito complicado. Quando se davam três dias de folga ao plantel, ele tirava uns 15. E aparecia ao fim dos 15 a garantir que tinha percebido 15. Ó Rui, ele só marca aquele golo de calcanhar ao Bayern, porque tanto se lhe fazia. Se fosse qualquer um de nós, a gente fazia o que os cães e os gatos fazem antes de se deitar, sabes? Dávamos voltas e mais voltas para meter o corpo enquadrado com a bola e a baliza. O Madjer quis lá saber disso: se dá, dá; se não dá, paciência. Tanto que ele quis sair logo a seguir ao 1:1 e meteu-se fora de campo. O Domingos Gomes é que o empurrou para dentro para receber um passe do Celso e começa aí a jogada do 2:1.

...

Ó Rui, o Madjer arrumava confusão com toda a gente, fosse Octávio ou Artur Jorge. Nós não queríamos que ele jogasse, preferíamos o [Jaime] Magalhães. Qualquer conflito a meio do treino e o Madjer cuspia-nos. Menos ao André, que lhe disse ‘ai de ti, rebento-te os dentes todos’. E há um dia célebre em que lhe disse ‘hoje não vais tocar na bola’.

E?

Não conseguiu fazer nada. Virava-se e perdia a bola. Arrancava e perdia a bola. Jogava na antecipação, ele passou-se e deu-me um murro.

E o Jaime?

Respondi na mesma moeda e ele foi ao chão. Disse-lhe ‘se te levantas, f***-te todo.’ Veio então o Gomes para serenar. Isso saiu nos jornais, nada de novo.

[A PARTE II será publicada às 14 horas desta sexta-feira]

Portugal
Jaime Pacheco
NomeJaime Moreira Pacheco
Nascimento/Idade1958-07-22(65 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoMédio (Médio Centro) / Médio (Médio Defensivo)

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