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      Entrevista de Rui Miguel Tovar a Silvino- parte II

      «Perguntei ao R. Gomes se queria ser o capitão do Benfica da final de 1990 e ele ‘és tu, porque é um português que vai levantar a taça’»

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      Tinóni tinóni tinóni. O som insistente das sirenes matraquilha os ouvidos de qualquer um, à saída do aeroporto Gatwick. À entrada do táxi, o volume do rádio permite-me ouvir a notícia mais dilacerante do ano: atentado no metro de Londres, dezenas de mortos, centenas de feridos. O mundo em pantanas.

      Passam-se seis dias, o Chelsea sai da sua toca e mostra-se finalmente à comunicação social num jogo em Wycombe, o primeiro particular da pré-época 2005. À falta de segurança (ironia), consigo ir a pé da bancada central até ao relvado. Bato com força na parte de trás do banco de suplentes e ouço um ‘don’t speak english’ de Silvino. A minha resposta sai automática. ‘Eu também não’. É um regabofe. Silvino está sentado ao lado de Rui Faria, levanta-se e cumprimenta-me com um passou-bem à maneira.

      Antes desse 13 Julho 2005, nunca, nunca mesmo, falara com Silvino. Depois desse 13 Julho 2005, só volto a falar a 26 Outubro 2023, por whatsapp. Desafio-lhe para uma entrevista de carreira em Madrid, onde mora há anos e anos. No dia seguinte, falamos de viva voz para combinar uma data oportuna. O seu conhecimento é espantoso. ‘O seu pai era de 1948, tinha agora 75 anos, não é?’ (...) ‘era touro, 3 Maio, não era?’ (...) ‘cruzámo-nos tantas, tantas vezes, na final de Viena em 1990, por exemplo’ Tudo bate certo, incrível.

      A entrevista faz-se no Hotel Eurobuilding, ali perto do Santiago Bernabéu, no dia 7 Novembro, véspera de um Real Madrid vs. Braga. Estou a ver o excel dos penáltis na 1.ª divisão, Silvino defende quatro penáltis do Benfica, todos na Luz, e defende mais quatro como guarda-redes do Benfica, um nas Antas (João Pinto). Nesse momento, Silvino chega ao pé de mim e dá-me um passou-bem à maneira. Mostro-lhe a informação dos penáltis defendidos na Luz e a resposta é lapidar. ‘Quem me dera ter defendido em Estugarda, isso sim.’ PSV, sempre presente. Subimos um piso para nos sentarmos sem barulho à volta, longe da movida. Música, maestro (diria o nosso Pedro Jorge Cunha).

      [Esta é a segunda parte da entrevista a Silvino Louro. A primeira pode ser lida aqui]

      Nos tempos de Manchester United, com Rui Faria e José Mourinho

      O Benfica é campeão português em 1987 e chega à final da Taça dos Campeões em 1988.

      Skovadhl, começa o Skovadhl. Eliminámos o Partizani sem necessidade de ir à Albânia porque eles montaram um 31 na Luz com uma série de expulsões. Depois calhou-nos o Aarhus e aí deu-se um momento imperdível.

      Conte.

      No último minuto, penálti para o Aarhus e avança o guarda-redes Rasmussen. Pé esquerdo, bola na direita. Eu atiro-me para a esquerda e defendo. Quero organizar um contra-ataque quando, de repente, penso que já estamos no último minuto e não vale a pena. Seguro a bola e o árbitro apita para o fim. Na Luz, 1:0 do Nunes, de cabeça.

      E a seguir?

      Aparece-nos o Anderlecht do Ivic. Sofro o único golo da campanha, livre directo do Gudjohnsen pai enquanto estou ainda a fazer a barreira. O Gudjohnsen filho estava na bancada e conta-me a sua história vista da bancada quando nos encontramos no Chelsea em 2004. Na meia-final, o Steaua de Hagi e Lacatus. Lá, 0:0. Cá, 2:0. Bis do Rui Águas com duas costelas partidas. Ele entrou todo enfaixado e foi o herói, grande Rui.

      E a final?

      O PSV era uma grande equipa e aquilo era jogo para 0:0 ou 1:0. Quem marcasse, assunto arrumado. Ainda me lembro do Wando atirar na esquerda e a bola sair ligeiramente ao poste. Se o Mats acreditasse, mudava tudo. Isso foi na parte final do jogo. Depois, nos penáltis, o único que consegui foi aproximar-me da bola do Kieft.

      Havia alguma ciência nos penáltis em 1988?

      Ainda procurámos imagens de livres e penaltis do PSV, mas não havia. Se fosse hoje, tinha defendido um ou dois. E o Van Breukelen também. Aliás, três dias antes à final, para o campeonato, defendi um penálti do Décio António do Vitória SC. Seja como for, saí desse jogo com o PSV a chorar de raiva por não ter conseguido defender nenhum penálti.

      Dois anos depois, o Benfica volta a uma final da Taça dos Campeões.

      E eu a capitão.

      Verdade.

      Era eu ou o Samuel e o Eriksson decidiu-se por mim. Ainda fui falar com o Ricardo Gomes para saber do seu interesse em levar a braçadeira, mas ele recusou e até disse ‘és tu porque é um português que vai levantar a taça’. Eu não queria ser o capitão por estar longe da acção e porque o Ricardo era inteligente, além de capitão do Brasil.

      E o golo do Rijkaard?

      Golo de craque. [Silvino levanta-se e explica] O gajo fez uma rotação com o pé no momento do remate. Quando saí para fazer a mancha, ele induziu-me em erro porque mudou o pé de um momento para o outro. É de craque.

      A dupla de centrais desse Benfica era Ricardo e Aldair.

      E a de 1988 era Mozer e Dito. Os meus preferidos eram Mozer e Ricardo, até porque o Aldair nem era central. Ele começou como avançado no Brasil e nem era muito técnico, só que jogava simples. Fez uma carreira lindíssima e, há dias, liguei para o Zé que estava de visita ao Aldair.

      E o Mozer?

      Está a curtir no Brasil, ainda ontem falei com ele. No ar, era um avião. Ninguém o travava.

      E a vaga de suecos no Benfica?

      Fui companheiro de quarto do Mats. Que sacana, passava o dia a aprender português. Queria saber tudo. Café, café. Chávena, chávena. E por aí adiante.

      E no campo?

      Um fenómeno.

      A sério?

      Um avançado de eleição. Ele e o Vítor Baptista. O Vítor apanhei-o no Vitória FC e metia a cabeça onde ninguém se atrevia a meter os pés. Dentro da área, nunca vi igual. E ele nem era um avançado de chutar com força, bastava-lhe chutar com categoria e fazia-o sem esforço nenhum, talento puro. Já o Mats era implacável ao primeiro poste. Não era rápido, porque pesava 90 quilos, mas era forte tecnicamente.

      O Silvino sai quando do Benfica?

      Em 1994, faço o último jogo no Bessa e defendo mais um penálti, o do Artur.

      Que colecção de penáltis.

      Uma vez, evitei o Vitória FC da descida com um penálti defendido do Reis, em Espinho. Ganhámos 1:0, golo de Dario. Se não ganhássemos, descíamos.

      Acaba no Benfica em 1994, como campeão.

      Foi o ano dos 6:3, estava no banco, Neno a titular.

      E na época anterior, o 5:2 ao Boavista na final da Taça de Portugal?

      Mais do mesmo: eu no banco, Neno a titular.

      É a época do Futre.

      Paulinho, grande Paulinho.

      Costuma vê-lo em Madrid?

      Uma vez, só. O filho dele convidou-me para uma homenagem do Atlético Madrid no Wanda e apareci sem fazer ondas. Toquei no ombro, chamei-o e ele, no meio da multidão, nem me ligou. De repente, viu-me e foi uma alegria. Tenho aqui no instagram, vou mostrar-te [Silvino procura rapidamente e mostra-me, é uma delícia]

      Que tal o Futre no Benfica?

      Na primeira refeição, sentou-se na minha mesa com Thern e Mats. Faltava o Schwarz, devia estar suspenso ou lesionado. Jogou muito e foi a figura dessa final da Taça.

      Nessa época, há um outro épico Boavista vs. Benfica.

      No Bessa, 3:2 para o Benfica, que delírio. O Neno é expulso e vai o Paulo Sousa para a baliza. Fui eu para trás da baliza do Paulo a dar indicações.

      Tipo quê?

      Soca a bola, não a tentes segurar, soca. Fiz o mesmo para o Terry.

      Quem?

      John Terry.

      Quando?

      No dia em que o Cech e o Cudicini se lesionaram com gravidade. Como já estavam feitas todas as substituições, o Terry arrisco ir à baliza. Só que o Paulo foi à baliza a 15 minutos do fim, o Terry só teve de aguentar uns 5.

      A táctica foi a mesma?

      Punch, punch. Soco, soco. Quando acabou o jogo, o Terry só me felicitava. Ainda por cima, jogou com as minhas luvas.

      As do Silvino?

      O Terry tem umas mãos enormes e não cabiam nas luvas de Cech nem de Cudicini. Experimentou as minhas, tamanho 11 de 1 a 11, e entrou em campo.

      Essa aventura como treinador de guarda-redes começou onde?

      No Salgueiros. Na última época à baliza, ganhei o prémio do mais regular do ‘Record’, também ganhei o da ‘Gazeta dos Desportos’ e fiquei em segundo n'A Bola’. Tenho então uma reunião com Dito e Linhares para anunciar a reforma.

      Agora sim.

      Ahahahah. O meu último jogo foi com o Estrela, Ivkovic na baliza. Nesse dia, houve um jantar em que estiveram reunidos todos os presidentes dos meus clubes, João Santos do Benfica, Pimenta Machado do Vitória SC e o Pinto da Costa veio da Madeira.

      Continuou no Salgueiros?

      Como treinador, sim. Tinha o João Ricardo, futuro guarda-redes de Angola no Mundial-2006, e um miúdo chamado Moreira, futuro guarda-redes do Benfica.

      Eischhhh, o Moreira.

      Ainda hoje me chama pai, porque chamei-o à equipa principal com 16 anos de idade. O titular desse Salgueiros era o Jorge Silva, que chegou à selecção nacional.

      E o FC Porto, como se deu o seu regresso?

      O Mly foi-se embora e ficou o Rui, titular do FC Porto nos anos 70. Um dia há em que o Marítimo ganhou ao FC Porto com um golo de chapéu quase do meio-campo do Rui Óscar. O Pinto da Costa liga-me e eu apareço nas Antas.

      Quantos guarda-redes?

      Na primeira época, seis: Vítor Baía, Bruno Vale, Paulo Santos, Pedro Espinha, Hilário e Eriksson. Pior foi no Chelsea, seis e um de cada nacionalidade: um austríaco, um checo, um italiano, um escocês, um inglês e um belga. Estava ali um tutti frutti e a treiná-los um português que não falava um caraças de inglês. Fui aprendendo a linguagem do futebol com o Zé. E não só.

      Então?

      O Cudicini falava português e o Cech aprendeu português em semanas.

      Como assim?

      O Paulo Ferreira ensinou o Petr a falar português nos pequenos almoços. O Petr era divertido e aprendia muito rápido. Chegava-se ao pé de mim e dizia ‘como estás c******?’

      E o Silvino?

      Epá, respeitinho.

      E o Cech?

      Respeitinho o c*****, vai pró c*****. Também sabia falar de outras coisas, não era só asneiras. E era um profissional profissional profissional muito sério.

      E no Inter?

      Apanhei Toldo, Júlio César e Orlandoni. A melhor tripla da minha vida. Toldo e Júlio César, grandes irmãos. Quando cheguei, expliquei-lhes que não havia cá primeiro nem segundo nem terceiro, que ia treiná-los para todos os jogos. E a verdade é que fazia aquecimento a todos os três antes de cada jogo. E tenho de voltar àquele jogo das lesões de Cech e Cudicini. Se só treinasse o primeiro e o segundo, o Hilário aguentaria a pressão?

      O Hilário, pois éééééé.

      O jogo seguinte foi de Liga dos Campeões, com o Barcelona. E o Hilário não sofreu golos. No jogo seguinte, em Sheffield, o Hilário entra outra vez a titular e defende um penálti com 0:0. Tudo isso é resultado de trabalho de grupo em que todos fazem o mesmo. Dou outro exemplo.

      Diga.

      Quando cheguei ao Chelsea, o titular da época anterior era o Cudicini. Mas tínhamos contratado o Cech ao Rennes. Nos primeiros treinos, já nos EUA, vi um Cudicini tecnicamente perfeito e rápido mas tinha uma coisa com os cruzamentos e o contacto físico em Inglaterra é uma constante. Quando o Zé me perguntou quem ia para a baliza, respondi Cech. O Petr era um profissional, já o disse. E vou explicar: ele fazia 40 minutos de alongamentos antes do treino individual dado por mim no relvado. Ao saber da novidade, o Cudicini pediu uma reunião com o Zé e estava desiludido com a troca de papéis. A meio dessa época, ganhámos 1:0 em Liverpool com um golo do Joe Cole e o Cech fez um jogo do c*******. O Cudicini veio ter comigo e disse-me ‘não tenho mais palavras, o Petr é o maior’. E era. Acontece é que o calendário é longo e todos têm a sua oportunidade.

      E?

      O Cudicini fez toda a Taça da Liga e ganhámos 3:2 ao Liverpool em Cardiff. Foi fundamental numa conquista importante. Um pouco à imagem do Manchester United, entre De Gea e Romero. Quando chegou a final com o Ajax, o Zé perguntou-me quem ia para a baliza e respondi Romero. Que exibições com Sevilha e Celta. Bolas de golo e ele safou-as. Jogou a final e ganhámos. Antes do nosso primeiro golo, ele tem lá uma defesa, madre mía.

      E no Real Madrid?

      Quando chegámos em 2010, havia Iker, Dudek e Adán.

      E o Adán, já nem me lembrava.

      O António tinha condição, via-se logo. Na terceira época, acho, o Iker é expulso com o Espanyol e o Adán faz uma exibição maravilhosa. Até o Zé diz que é normal, porque é treinado pelo melhor do mundo. Depois o Adán é expulso e reentra o Iker. E, em Valencia, o Arbeloa dá um pontapé na mão do Iker e volta o Adán ao onze. Com a lesão do Iker, fomos buscar o Diego López ao Sevilha, suplente do Palop, para jogar a Liga dos Campeões com o United. E, ‘hostia’, o Diego faz uma exibição muito boa em Manchester.

      Alguma vez teve problemas com guarda-redes?

      Só uma, no FC Porto.

      Quem?

      Ovchinnikov. Íamos jogar a Taça UEFA e o Fernando Santos alerta-me para um lance ofensivo muito comum do Nantes. Debrucei-me sobre o assunto e preparei exercícios para preparar os guarda-redes.

      Quem eram?

      Ovchinnikov, Pedro Espinha e Paulo Santos. No campo número dois das Antas, começámos a fazer os exercícios e, à terceira série, o Ovchinnikov não quer mais fazer. Expliquei-lhe então que tinha de sair.

      E ele?

      Saiu e juntou-se aos outros colegas, jogadores de campo. Informei o Fernando Santos e ele mandou o Ovhinnikov para o banho.

      Foi assim fácil?

      O Ovchinnikov não foi.

      Uyyyy.

      E o Fernando não foi de modas. ‘Tu, banho. Banho, banho, banho, já.’ Quando levanta a voz, o Fernando é tramado. No final do treino, bati à porta do mister, entrei e expliquei. Viajámos para Nantes no dia seguinte e jogámos na quarta-feira. O Fernando Santos pergunta-me quem joga e eu indicou o Ovchinnikov. Empatámos 1:1 e o golo do Nantes foi precisamente aquele lance que o Fernando Santos me alertou. Como tínhamos passado a eliminação, pelo 2:0 nas Antas, estávamos em clima de festa. Foi aí que o Ovchinnikov se aproximou de mim e nem imagina as vezes que me pediu desculpa. Uns anos depois, já o encontro como treinador do CSKA Moscovo e ele a queixar-se do feitio de alguns guarda-redes, ahahahah.

      Portugal
      Silvino
      NomeSilvino de Almeida Louro
      Nascimento/Idade1959-03-05(64 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoGuarda Redes

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