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RUI M. TOVAR ENTREVISTA JAIME PACHECO - PARTE III

«O Paulinho Santos apanhou-me e pediu-me desculpa: 'mister, desculpe, desculpe'»

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«Barrilete Cósmico» é o espaço de entrevista mensal de Rui Miguel Tovar no zerozero. Epíteto de Diego Armando Maradona, o nome do espaço remete para mundos e artistas passados, gente que fez do futebol o mais maravilhoso dos jogos. «Barrilete Cósmico»

Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior, Jaime Pacheco é o maior. Transformei-me em Bart Simpson, embora não seja canhoto, nem tenha o cabelo espetado, nem saiba andar de skate, nem tenha uma irmã saxofonista, nem uma mãe com cabelo azul, nem um pai careca. Se fosse tudo isso, suspeito, suspeiiiiito, o Jaime Pacheco não me levaria a jantar ao 'Sapo'.

O homem está na berlinda, o fim-de-semana é dele. Sábado é dia de Boavista vs. Vitória SC e ele treinou os dois. Domingo é dia de FC Porto vs. Sporting e ele jogou nos dois. Jaime Pacheco on the rocks, aí vem ele. A horas, sempre a horas. Apanha-me ali em Leça, à frente do Continente, junto à praia. Pára, arranca, vira à direita no primeiro semáforo, faz outra direita num segundo sinal verde e é siga a marinha até Penafiel. Lá dentro do restaurante, a sala reservada reúne uma série de camisolas, tanto de futebol como de ciclismo. A mais visível é a de Fernando Meira.

PARTE I: «Veiga Trigo insultava-nos durante os jogos: ‘não jogas um c****, levanta-te'»

PARTE II: «O Petit já jogava no Benfica e liga-me a dizer: 'Já estou na segunda [garrafa] do Esporão e aí só bebia água'»

Quem era, então?

A direcção. Esperávamos duas horas pela convocatória.

Nasce o Gomes é finito.

O Ivic não tinha ideias nem tácticas. Era quatro defesas, quatro médios e dois avançados. Todos os que fossem do meio-campo, ele só dizia profundo profundo profundo.

Que é?

P’rá frente. Quem foi enganado nisso tudo foi o Gomes, porque o Ivic meteu o Rui Barros mais o Madjer lá à frente e recuou o Gomes para 10. Quando o FC Porto, funcionava, perfeito. Quando não ganhava, a malta de fora dizia ‘o Gomes não marca golos’. Nasceu o Gomes é finito.

E há o Gomes e mais 10, com o Quinito.

O Quinito treinava pouco, mas vai-se embora com o Porto a um ponto do Benfica e já tínhamos empatado na luz.

O problema é o 5:0 com o PSV em Eindhoven?

Eles tinham um avançado chamado Kieft. E o Quinito disse ao Kongolo para marcá-lo em cima. O Kieft percebeu e fez o básico: saía da área e abria-se um buraco na área, porque o Kongolo seguia-o. Qual foi o problema? Golo, golo, golo, golo, golo. A marcação homem a homem não vale de nada, tem de ser à zona, dizíamos nós. E o Kongolo respondia ‘o treinador disse homem a homem’.

Cá, 2:0.

E podíamos ter dado cinco ou seis. Essa eliminatória foi falta de experiência do Quinito e do Kongolo.

Esse jogo da volta com o PSV já é com o Murça, não é?

Não.

Não? Ele está aqui na ficha.

Pois está, deu o nome à ficha. Ficou lá no FC Porto e manteve o emprego.

O Jaime joga as finais de Supertaça europeia e Taça Intercontinental?

Não joguei com o Ajax em Amesterdão, mas entrei a titular no jogo anterior, com o Moura, para a Taça de Portugal, num pelado. Ganhámos 2:0, é a estreia do Domingos. E o Barriga a lateral-esquerdo. E fui a Tóquio, mas fiquei de fora, juntamente com o Frasco. Não havia condições para ir a jogo, ficámos a ver da bancada, com um cobertor.

Aí os capitães já foram Lima Pereira e G...?

O Liminha era incrível, apanhava todos os avançados pela etiqueta da camisola. Dos centrais que vi, o Celso também era macho. Fazia lipoaspiração de dois em dois meses no joelho e jogava bem. Mas a dupla ideal de centrais seria Humberto Coelho e Mozer. Os dois tinham tudo, golo, força, posicionamento, categoria e, acima de tudo, metiam medo.

E o Liminha?

O gajo era incrível. E nervoso, sobretudo antes dos jogos: tossia para expulsar o catarro e ia à casa de banho para mijar. Atenção, havia gente que se mijava no túnel de acesso ao relvado e entrava em campo com os calções molhados. De volta ao Liminha, ele era uma figura. Quando vínhamos da selecção, à quarta-feira, fazíamos o treinozito à quinta e treino conjunto à sexta. Lima, nem vê-lo.

Porquê?

O Pedroto poupava-o. E eu mais o Gomes e o João Pinto metíamo-nos com ele: ‘Ó Lima, já foste.’ E o Lima sem confiança e preocupado por não fazer parte dos 22. No domingo, saía o onze e estava ele a titular. Era sempre a mesma coisa, o Lima pegava no cesto e dizia-nos ‘ide para a p*** que vos pariu, é o Liminha e mais 10’. Tantas saudades dele, vínhamos aqui muito, eu, ele e Gomes

[intervém o de sempre, ‘não havia lá um Raudnei?’]

E o Raudnei?

O Ivic também dava a volta ao Lima. Um dia, fomos a Coimbra e ganhámos 1-0 à Académica. O golo foi do Raudnei, a passe meu. Tínhamos saltado do banco e demos a vitória. A Académica do Oliveira desceu. O Raudnei tinha piada e dizia-me ‘quem nasceu para lagartixa, não chega a ser jacaré’. Como quem diz, o FC Porto é muito grande para mim. Seja como for, ele marcou esse golo e, no dia seguinte, o Ivic dividiu o grupo em dois: os que jogaram em Coimbra e os que não jogaram. O Lima foi para o lado dos que jogaram e o Ivic interrompeu-lhe a passada: ‘Tu hai giocato? No hai visto’. E o Liminha a passar-se: ‘vai para a p*** que pariu, a dizer que não joguei’.

[mais uma pergunta da audiência, isto está descontrolado: e o melhor guarda-redes?]

Dos que vi a jogar comigo, Mlynarczyk. E joguei com o Damas, mas já a acabar. O melhor português que vi foi o Bento, dava pontos quando era preciso e era bom todos os dias. Fui eu quem cruzou a bola para o seu salto no momento da lesão em Saltillo. Pé de chibo, saudades.

[agora é a minha vez] E o Futre?

Dos melhores com quem joguei. Não tinha respeito por ninguém, queria passar por toda a gente. Agora aquilo que ele diz na televisão sobre o FC Porto daquele tempo, é tudo mentira. Tudo. Ele só dormia e, vá, treinava. O Artur Jorge chamava-me a mim e ao Frasco porque ele nunca chegava um dia a horas para o treino. Não queria saber de nada. Fazia o que lhe apetecia e jogava muito, muito, muito, muito. Jogava muito. Ó Rui, nós íamos das Antas para o Sheraton e ele conseguia adormecer no autocarro.

Ahahahahahah.

Depois de ganhar a Taça dos Campeões, fomos jogar o Mundialito. A estreia foi com o Milan, que jogava com Rikjaard e Borghi por empréstimo. Nesse dia, o Virdis fez um golo de penálti. Antes do jogo, fomos para o treino de autocarro e demos pela falta do Futre no relvado. Onde é que eles estava?

Onde é que ele estava?

Dentro do autocarro, a dormir. Ele só queria jogar, queria saber do Artur Jorge e das suas prelecções. Às vezes, o Artur tinha de apanhar com estes embrulhos. Um engraçado, palhaço mesmo, era o Branco. O Artur metia Inácio a lateral e Branco a médio, ambos na esquerda. E o Branco dizia ‘ó mister, tire-me daqui c*, pareço um cego no meio do tiroteio’.

Ahahahahahahahah.

Agora quero fazer uma homenagem a quem mais a merece: Júlio Teixeira, irmão do António Teixeira, um dos maiores goleadores do FC Porto, foi quem me lançou no Aliados. Tinha eu 17 anos, foi buscar-me nos juniores do Rebordosa e meteu-me a titular da equipa principal do Aliados. Ajudou-me bastante, fez tanto por mim. Ainda me lembro de um dia em que fomos jogar, almoçar – e o plantel só bebia Gatão e Casal Garcia – e depois assistir ao Boavista, com Mário João, que jogava com os calções até aos joelhos, Taí, entre outros. O Júlio disse-me ‘daqui a um ano, podes estar aqui’. A jogar na 1.ª divisão. Era a sua convicção.

E deu certo.

Deu, sim. E pude fazer uma série de coisas, como ganhar a Taça de Portugal no Jamor.

Quando?

FC Porto 1-0 Vitória SC, golo do Jaime Magalhães, a passe meu. No final do jogo, o Ivic pediu a minha camisola 8 para a sua mulher enquanto me dava beijinhos na testa e dizia ‘tu sempre sempre a rir, sempre a rir, tu Porsche, muito dinheiro, muito feliz, solteiro’. Por ser solteiro, dava-me com mais malta que os casados. Acolhi o Domingos, por exemplo. Ia à casa do Zé Beto, outro exemplo.

O Zé Beto. Grande.

O Zé Beto era maluco e andava no túnel de acesso ao relvado com os pés de lado, encostado às paredes, como se fosse um ninja. E quando chutava? Tinha cá uns gémeos. Só que, de vez em quando, queria bater no Stessl. Era assim, o Zé. Partiu muito cedo e estava castigado pelo FC Porto.

[mais uma intromissão do senhor do canto: e aquela conferência de imprensa da vassalagem?]

Boa pergunta, e aquela conferência da vassalagem?

Ainda nem tínhamos entrado em campo, estávamos no túnel. A malta passa por mim e nada. André, Rodolfo, João Pinto. Nada.

[é rivais, é rivais, manifestam-se ruidosamente todos os da mesa, já são uns oito]

De repente, chega o Paulinho Santos e começa a desafiar-me ‘ó meu corno, ó meu filho da p*’. Já vinha orquestrado, ensinado lá de cima. Sei como é, também andei lá, e oito anos. E o Paulinho passou o jogo todo, ‘ó sapateiro, ó paneleiro, ó avô, ó boi, ó cabrão’. Tive de me conter em campo. Já sei como funciona a casa, lembro-me bem dos tempos em que me queriam a dizer coisas aos jornalistas com as quais não concordava, como dizer que o Madjer tinha cruzado antes da linha num 1-0 ao Portimonense, quando sabia perfeitamente que a bola já tinha saído. Não sou tolo, nem cego. Então ia dizer isso aos jornalistas e, depois, as imagens mostravam o contrário? Não, não era para mim. Eu não queria mentir. Nem menti.

[‘quem ganhou esse jogo?’ o senhor está on fire]

Quem ganhou esse jogo?

FC Porto, 1:0 de Mielcarski. Perdemos a bola, Deco recupera, passa para o Mielcarski, mete a bola entre as pernas com o Éder e é golo.

[‘pois, bem me parecia’; eu não disse?]

E o Paulinho Santos?

Caaaaalma. Acaba o jogo e o Paulinho Santos continua. Ali perto, ninguém do FC Porto disse nada, qualquer coisa como ‘ele está fora de si, não lhe ligues, vamos embora’. Nada, era mesmo para picar. E eu na minha. O Mário Silva é que se virou ao Paulinho e disse-lha para ter cuidado. Cheguei à sala de imprensa e não me sentei. Disse a história da vassalagem e houve amigos meus do FC Porto que ficaram zangados comigo. Essa azia continuou uns tempos. De repente, recomecei a dar-me com esses amigos e a dizer-lhes o que se tinha passado.

E eles?

Ah, sendo assim. Era sempre a mesma resposta: ah, sendo assim.

E o Paulinho?

Apanhei-o numa peça do Fernando Mendes, no [teatro] Sá da Bandeira. Olhámos um para o outro, ele fez-me isto [Jaime estende a mão muito devagar].

[a medo?, pergunta o conviva mais falador]

A medo?

Cauteloso. Anos depois, o Paulinho apanhou-me no Rijo e aí, sim, pediu-me desculpas. ‘Mister, desculpe, desculpe.’

Bom, Rui, vamos embora que amanhã é dia de trabalho e estes aqui não querem nada com isso.

E vamos, o meu destino é o Hotel Black Tulip, ao lado da Rádio Renascença, em Gaia. Saio do carro, mais ensonado que o João Pestana, um grande passou bem e hasta la vista. Menos de dois minutos depois, ainda durante o check-in, o telefone toca. É o Jaime Pacheco. ‘Ó Rui, anda cá fora, tenho uma surpresa. Vou, ai vou vou. E é uma camisola do Pyramids.

Portugal
Jaime Pacheco
NomeJaime Moreira Pacheco
Nascimento/Idade1958-07-22(65 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoMédio (Médio Centro) / Médio (Médio Defensivo)

Comentários

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motivo:
Curioso
2024-04-27 15h00m por Las
Gosto do Jaime mas há aqui coisas estranhas. . .

Então o Ivic não fazia nada?

Tantos ex jogadores e treinadores que dizem que ele só fazia táticas e invenções (no Benfica e Porto) e este diz que ele era uma mascote?

Passou a entrevista a dizer mal de quase todos, está postura não se compreende mas gostei de ler, ele é um grande treinador
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