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Da casinha no Bairro do Aeroporto até Alvalade

«O filho do Cipriano polícia decidiu o dérbi»: visita ao berço de Geny Catamo

Da janela esconsa, a mãe grita o chamamento. ‘Está escuro, anda para dentro, podem vir ladrões’. E o menino corre, dá os pontapés de despedida na bola de borracha, a fugir do breu e dos imaginários bandidos.

Personagens de fantasia materna, seis filhos dentro de quatro frágeis paredes, ali no Quarteirão 6, Casa 30, um enredo de ruas e ruelas no Bairro do Aeroporto, ‘anda comigo ver os aviões’ a aterrar em Maputo.

qEu queria que o Geny fosse polícia, como eu. Era uma profissão honrada, fui muito feliz nessa função. Mas ele nunca quis isso. O meu Geny ou era futebolista ou jogador da bola
Cipriano Catoma, pai de Geny
«À noite era uma festa», conta Cipriano, o pai da criançada, em conversa com o zerozero. «As duas meninas dormiam juntas, os quatro rapazes ficavam no outro quarto e na sala. Não havia luxos, mas nunca lhes faltámos com nada.»

Entre cantorias e asneiradas, «sempre de barriga cheia», o cansaço embala o sexteto. A família adormece, o silêncio só é interrompido pelo ladrar dos cães da vizinhança e o motor dos aviões, os ininterruptos aviões «até altas horas da madrugada».

«O último a dormir era o nosso irrequieto», continua o garboso progenitor. «Esse sonhava até mais não com o futebol. Acordado e a dormir, só pensava em ser jogador.»

Esse resistente é o quarto mais velho dos seis irmãos. «Nunca faltou à escola», apesar da cabeça andar sempre na lua, a imitar ídolos. «O Ronaldo, claro, mas também o Eusébio, rei moçambicano», continua o pai.

«É uma loucura lembrar isso tudo e agora… o filho do Cipriano polícia decidiu o dérbi. O nosso bairro anda vestido de verde e branco, a festa dura há dias. Por culpa do meu Geny.»

‘Por culpa do meu Geny’. O orgulho só não salta do peito porque o peito não deixa.

O menino que foge do escuro e dos criminosos inventados pela dona Quitéria, mãe e educadora, é o herói do último Sporting-Benfica.

Dois golos, impacto brutal, Geny Cipriano Catamo.

23 anos e tantas histórias por desvendar. O zerozero entra no berço e nos primeiros dias do herói leonino, um leão ao peito e uma terra à espera de mais feitos e glória.

«Eu queria que o Geny fosse polícia, como eu»

Cipriano Catoma, reformado da polícia moçambicana, atende-nos 48 horas após o triunfo de Geny no dérbi.

A simplicidade nas palavras é proporcional à pureza. Pergunta-se por Geny em pequeno, as tropelias, as birras, pedaços importantes para a construção da joia lapidada por Rúben Amorim em 23/24.

Geny Catamo
2023/2024
40 Jogos  2330 Minutos
6   3   0   02x

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«Eu queria que o Geny fosse polícia, como eu. Era uma profissão honrada, fui muito feliz nessa função. Mas ele nunca quis isso. O meu Geny ou era futebolista ou jogador da bola», brinca o senhor Cipriano, empenhado em repetir «o mais importante».

«Vivemos num bairro pobre, é verdade, mas nunca deixámos de pôr comida na mesa. Demos uma boa educação aos nossos seis filhos, com todas as limitações que o nosso país impõe a famílias como a nossa.»

O pai de Geny dá, de resto, um exemplo para atestar o testemunho. «Aos dez anos, demos-lhe as primeiras chuteiras. Com esforço, sacrifício, sabíamos que o miúdo ia adorar a prenda. E assim foi, deixou de andar de pé descalço atrás da bola.»

É por esses dias, aliás, que Geny começa a frequentar os treinos do histórico Maxaquene - antigo Sporting de Lourenço Marques.

«No início só treinava, depois o Mr. Baggio gostou dele e inscreveram-no. Esse senhor foi o primeiro treinador do Geny. Baggio, sim. É o apelido do senhor Valdo Mabule», explica Cipriano.

Geny nos iniciados do Maxaquene @Arquivo Pessoal
«Agora só nos falta visitar Lisboa e ver um jogo em Alvalade. Quando o nosso Geny quiser, nós vamos lá.»

Falta falar da «saudade», e da noite «de festança» no sábado à noite.

«Juntámos amigos e família em frente à nossa televisão. Quando foi o 2-1, olhe, eu nem sei. Acho que deixei de ver e de sentir, só me lembro de levar as mãos aos olhos e sentir os abraços e os gritos de todos.»

Joel Cipriano, «um dos outros rapazes», também já joga futebol e está na academia dos Black Bulls, a mesma onde Geny conhece Tiago Quaresma, atual treinador da AD Camacha, em 2018.

«Apesar da pobreza, o Geny alimentava-se bem»

Em Moçambique é banal a expressão «caça-talentos». Refere-se a ações de prospeção realizadas por clubes, seja em bairros como os do Aeroporto ou em campos de condições já aceitáveis.

É num desses eventos, de resto, que Geny Catamo dá um passo em frente na carreira.

«Vi o Geny num desses ‘caça-talentos’ e percebi que era diferente. Lembro-me de dizer ao meu colega algo assim: ‘aquele miúdo parece que desliza no campo’», conta Tiago Quaresma, portuense de 37 anos e anteriores passagens por Leixões e Pasteleira, antes do projeto na ilha da Madeira.

«A técnica, o posicionamento e a relação com a bola já eram interessantes. Nos Black Bulls tínhamos um protocolo com o FC Porto e os meninos tinham esse desejo de vir para a Europa», prossegue Tiago Quaresma, carregado de memórias.

O pequeno Geny ainda em Maputo @Arquivo Pessoal
«O trato cordial do Geny era marcante. Conheci o pai e o irmão, o Joel, e eram todos bastante educados», refere o primeiro treinador português na vida de Geny Catamo.

«Os Black Bulls deram condições ótimas ao desenvolvimento do Geny. Em Portugal, julgo que só os três grandes, o SC Braga e o Vitória SC têm condições superiores. Isso facilitou muito a mudança dele para o nosso país.»

Nesse ano de 2018, Tiago Quaresma mergulha na cidade de Maputo, conhece o Bairro do Aeroporto e a intimidade da família de Geny.

«Viviam ao lado dos aviões, como dizíamos. Ele viveu sempre com os pais, nunca se mudou para a nossa academia. Apesar da pobreza, normal na cidade, percebemos que se alimentava bem, estava bem nutrido e tinha um apoio fabuloso da família.»

«Muito reservado», Geny Catamo não é o típico animador de balneário, «muito longe disso». Tiago Quaresma recorda-se, assim, mais dos feitos desportivos do que de comportamentos desadequados para a idade.

«Quando começou a jogar pelos seniores, pela equipa B, andávamos por campos sem condições. Muitos deles ainda pelados. E aquilo que o Geny não fazia fora do campo, fazia lá dentro: era uma animação! Aquele menino a driblar homens e a ser aplaudido por adeptos adversários, um espetáculo. Tenho bem presente essa imagem.»

Em janeiro de 2019, Geny completa 18 anos e muda-se para Portugal. «Ele esteve antes cá, fez testes na Dragon Force do FC Porto até, mas nunca assinou por ser menor de idade», explica Tiago Quaresma.

«Mais tarde acaba por ir para o Amora. O nosso presidente nos Black Bulls tinha uma participação na SAD deles e sentiu que o Geny iria ter espaço e um palco interessante para se mostrar. Não se enganou.»

Cinco anos depois, o jovem moçambicano é titular do Sporting. Num percurso de avanços e recuos, dois empréstimos infelizes em Guimarães (dez jogos/um golo) e no Funchal (11 jogos/um golo no Marítimo), Geny persevera e encontra «o homem certo».

«A aposta do Rúben Amorim nele é fantástica. Percebeu o que ali tinha, apesar dos indicadores menos bons nessas cedências», considera Quaresma, ainda a «despertar» da alegria dos golos no dérbi eterno.

«O Geny passou por muitas dificuldades, teve problemas físicos, não encontrou a regularidade e aí está ele agora. O futebol é um mundo fantástico também por isto.»

«Nunca fui campeão no Sporting e o Geny vai ser»

Geny Catamo já é o segundo moçambicano com mais aparições oficiais pelo Sporting. E o segundo com mais golos também. À frente do herói do Bairro do Aeroporto está somente Carlitos, futebolista dos leões de 1964 e 1968: 58 jogos/7 golos contra 36/6 de Geny.

Na lista seguem-se Paíto, Lourenço Sitoe, Chiquinho Conde, Ali Hassan, João Carlos e Fumo. No total são oito nomes saídos do país da África Oriental.

Calton Banze, contratado em dezembro de 1988 ao Desportivo de Maputo, acaba por nunca fazer um jogo oficial.

Chiquinho acumula essa passagem pelos leões (31 jogos e três golos em ano e meio, de 1994 a 1995) com o cargo de selecionador nacional de Moçambique. Além disso, tem uma passagem pelo Maxaquene quando Geny dá ainda os primeiros passos.

«Infelizmente, eu cheguei ao Sporting já com 29 anos», começa por dizer o antigo avançado ao zerozero. «Vinha de uma época com 15 golos em Setúbal e pensei que ia jogar mais. Fui prejudicado pelas datas-FIFA e as constantes viagens para Moçambique.»

Chiquinho Conde acaba por sair para o Belenenses a meio da segunda época e fala de «um Sporting instável», ávido por troféus e «mais conquistas».

«O FC Porto dominava completamente, era difícil. Mas posso dizer que ganhei uma Taça de Portugal de leão ao peito, quando o clube já estava há 13 anos à espera. Não fui campeão nacional e isso o Geny já vai conseguir dentro de semanas.»

Chiquinho, 58 anos, sabe o que representa um dérbi de Lisboa. São «20 anos de Portugal» e duas presenças diretas em Sportings-Benficas, «ambas no banco, infelizmente».

«Vi o Geny a crescer no Maxaquene, ainda nos iniciados. Mais tarde conheci o agente dele, sei que ele esteve a treinar no FC Porto, tentei ajudar até através de empresários meus conhecidos, mas nenhum o ajudou. Hoje devem estar arrependidos, o futebol é assim.»

O selecionador de Moçambique espera «grandes coisas de Geny» e elogia-lhe a «progressão incrível nos últimos meses».

Geny nas seleções jovens de Moçambique @Arquivo Pessoal
«Tínhamos ali um diamante por polir, faltava-lhe este contacto regular com o futebol real. O Sporting não deixou de acreditar nele e agora vemos os astros a alinharem-se. É um orgulho para Moçambique.»

Chiquinho usa Geny Catamo num 4x3x3 «sem preocupações defensivas» e valoriza «ainda mais» a exigência de Rúben Amorim ao dar-lhe «todo o flanco direito».

«Vejam bem o que ele cresceu ao viver o jogo com essa responsabilidade», indica o ex-avançado, figura grande em Portugal nos anos 90.

Qual o próximo passo para Geny? Chiquinho é assertivo na resposta.

«Tenho um carinho enorme por ele. Temos de falar, colocar-lhe os pés na terra, serená-lo e mostrar-lhe que não pode perder o foco e distrair-se com o que não interessa. Há lacunas a corrigir no jogo dele, mas há também uma qualidade fenomenal.»

Geny, o pequeno Geny, está um homem. Crescido, prestes a ser pai e feliz na relação com Jennifer Bule, filha de DJ Damost, músico famoso em Moçambique.

Na janela da pequena casa, encaixada nos labirintos do Bairro do Aeroporto, já não se ouvem as chamadas da mãe e as ameaças de ladrões imaginários. O menino agora só corre no televisor, a 11 mil quilómetros de Maputo.

Se Geny parar e escutar, bem lá ao fundo, é provável que ouça ainda a voz de dona Quitéria. ‘Anda para dentro, está escuro’.

Moçambique
Geny Catamo
NomeGeny Cipriano Catamo
Nascimento/Idade2001-01-26(23 anos)
Nacionalidade
Moçambique
Moçambique
PosiçãoDefesa (Defesa Direito) / Avançado (Extremo Direito)

Comentários

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motivo:
Geny
2024-04-11 18h21m por moumu
Novo craque em ascenção na liga portuguesa, para o ano poderá render muito ao SCP e talvez claro mais uma futura venda para o estrangeiro para uma liga superior mas para já é muito novo ainda tem uns passos para subir na escada, mas esta´no bom caminho para uma boa carreira até a nivel internacional.
O Craque Moçambicano
2024-04-11 16h07m por Homo_libero
Conheci o pai do Geny durante uma pesquisa que fazia no bairro do Aeroporto. Não me espanta que ele desejasse que o filho fosse agente da polícia, pois ele demonstrou orgulho da sua profissão e deu para notar que gostava do que fazia. Nós Moçambicanos e adeptos do Sporting, agradecemos por ter deixado o filho seguir o seu sonho. Espero que Geny tenha uma carreira brilhante a nível de clubes e principalmente na selecção. #GENIO CATAMO
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