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Hilário e o 'Cantinho do Morais', 60 anos depois

«Eu até parecia o Papa a acenar na varanda da minha casa»

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Quis o destino. Carlos Pereira, inimitável figura do jet-set sportinguista como lateral-esquerdo do campeão português e vencedor da Taça de Portugal em 1974, liga-me e lança o isco. ‘Eu e o Aurélio vamos a Leiria no dia 28 Fevereiro para ver o museu do Sporting do nosso amigo Bernardes Dinis. Estás convocado.’ Dito assim, vamooooos. Ao volante, Carlos Mendonça, amigo do mundo inteiro. Ao seu lado, Aurélio Pereira, olheiro do mundo inteiro. Atrás, outro Carlos, com a gargalhada mais fantástica do mundo inteiro, e eu.

A visita é um mimo, o museu é maior que o do próprio Sporting no Estádio José Alvalade. Tudo obra do tal Bernardes Dinis, um senhor com uma cabeça fervilhante do alto dos seus 79 anos. Top, classe. À frente da entrada principal, uma taça em tamanho original. Caramba, é a Taça das Taças. Repito, em tamanho original. Como assim? Bernardes Dinis fala pelos cotovelos e só apanho um número: cinco mil euros. Para fazer a réplica do único título internacional do Sporting no futebol, o homem gasta do seu bolso e instala-a ali à vista de todos.

Mal vejo a taça em todo o seu esplendor, o nome do Pedro Jorge da Cunha atravessa-me o pensamento. E se o zerozero estiver interessado? E se? Os dias passam e nunca mais me lembro da taça nem do Cantinho do Morais. De repente.

Quis o destino. Aurélio Pereira, inimitável génio do universo português como descobridor de dez dos 13 finalistas do Euro-2016, liga-me e lança o isco. ‘Vamos almoçar ao Tipiky, eu e as minhas filhas, já marquei mesa. Estás convocado.’ Dito assim, vamoooooos. Linguadinhos com arroz de tomate p’rá aqui, ó faz favor.

O almoço é um mimo, a conversa estende-se para lá da hora. As histórias tropeçam umas nas outras, é magia pura. De um momento para o outro, surge um convidado especial. Hilário da Conceição. Que luxo. Hilário abraça-se a Aurélio, são vizinhos há uns 60-e-tal anos ali no Lumiar. Melhor, é Hilário quem propõe Carlos Pereira a quem de direito dentro do Sporting para seu sucessor na lateral-esquerda. Hilário senta-se e abana a cabeça como quem não quer os holofotes da fama. E saca a primeira pérola. ‘Fui eleito o melhor lateral-esquerdo do Mundo e ainda hoje não sei rematar com o pé esquerdo.

Ainda nem acredito que estou na mesa com o Hilário, o jogador mais utilizado de sempre pelo Sporting. Ao todo, 494 jogos, só um incompleto, precisamente aquele nas vésperas da final europeia com o MTK Budapeste em 1964. Uma carga de José Maria aos 9 minutos de um jogo da Taça de Portugal atira-o para o fundo do poço. É o próprio Hilário quem o diz. ‘A maior frustração da minha carreira, a ausência na final da Taça das Taças.’ Aurélio dá-lhe um toque no braço. ‘Foste o jogador mais ovacionado de todos e nem jogaste a final, agora vê.

Hilário sorri. ‘Eu parecia o Papa na varanda da minha casa. Mal os jogadores aterraram em Lisboa, vieram ter comigo. Atrás deles, os adeptos.’ Aurélio prolonga a memória. ‘A rua entupiu por tua causa, ninguém conseguia entrar no prédio, ahahahah.’ Hilário confirma.

E os 5:0 ao United, pergunto eu? ‘O presidente entrou no balneário e disse um valor altíssimo em caso de nos qualificarmos. Se calhar, pensava que não íamos dar conta do Manchester. E era natural, tínhamos apanhado 4:1 em Old Trafford. Quando acabou 5:0, a festa foi a dobrar. Que noite.’ A imprensa dá conta de um prémio avultado de 24 contos para cada herói.

Hilário despede-se amigavelmente, sobretudo de Aurélio. Quando este lhe pergunta sobre a sua saúde, a resposta de Hilário é (passe a redundância) hilária. ‘Enquanto fizer isto, sinto-me bem.’ Hilário chega com a mão direita ao chão sem dobrar os joelhos. Inveja boa.

Mal vejo o Hilário abandonar a sala, o nome do Pedro Jorge da Cunha atravessa-me o pensamento. E se o zerozero estiver interessado? E se? A resposta relâmpago do Pedro é fixe. ‘Demasiada informação para aplaudir a esta distância, já estou em êxtase.

Mãos à obra, faz 60 anos a conquista da Taça das Taças pelo Sporting. É uma campanha sem igual, culpa da relação do número previsto (9) para o número real de jogos (12). Há três desempates, dois prolongamentos e um total de 19 horas de bola.

Dezanove. É dose. O Sporting arranca com a Atalanta, em Bérgamo, e perde 2:0. Mascarenhas atira à trave, com 0:0. Nos últimos minutos, a Atalanta ganha dupla vantagem. Pormenor curioso, zero desânimo no balneário do Sporting. Tanto Mascarenhas como Morais e Bé acreditam na reviravolta. E bem, a avaliar pelo 3:1 no José Alvalade.

Nesse dia 9 Outubro, o treinador brasileiro Gentil Cardoso dá treino individual ao Sporting, na parte da manhã. À noite, o colectivo tem de se impor. E impõe-se. Com ajuda dos deuses, porque o guarda-redes Pizaballa lesiona-se gravemente no lance do 1:0 de Figueiredo. Sem direito a substituições, a Atalanta passa a jogar com dez e o número 9 Calvanese vai para a baliza. Até ao intervalo, o Sporting sente dificuldades para dar conta do recado e deixa-se empatar, por Christensen. Na segunda parte, Mascarenhas e Bé (de cabeça) adiam a decisão para um terceiro jogo, o de desempate, em Barcelona, no Sarriá. E porquê? Não só não há substituições como também não há o factor golos fora.

Cinco dias depois, Sporting e Atalanta esgrimem argumentos. Com direito a prolongamento. É verdade, marcam Nova e Mascarenhas. No tempo extra, um golo em cada parte: livre indirecto de Lúcio e cabeceamento de Mascarenhas (sempre ele). No balneário, os jornalistas perguntam pelo próximo adversário. A opinião dos jogadores é unânime: Apoel Nicósia.

16-1 aos moços de Chipre

Meu dito, meu feito. Sai mesmo o Apoel Nicósia, de Chipre, país inscrito na UEFA há um ano, no sorteio realizado em Tarragona (coisa linda). Atenção aos detalhes: o Apoel não tem dinheiro para viajar e está ansioso por jogar pela primeira vez num relvado. Pois é, o futebol cipriota é pobre e todo ele jogado em pelados. O Sporting oferece-se para pagar as viagens de avião mais a estadia em troca dos dois jogos no José Alvalade. O Apoel faz mil e uma diligências. Em vão, o Sporting ganha o braço-de-ferro. Paga todas as despesas e ainda dá 80 contos ao Apoel.

O Apoel, cheio de rapazes simpáticos, instalam-se na cabine número 16 do Estádio José Alvalade. Mal sabem eles o quão premonitório é. Ao intervalo, 6:1. No fim, 16:1. É recorde da UEFA. Até hoje. Que vendaval – o futebolístico e também o da meteorologia. Chovem cães e gatos, sort of speak. Mascarenhas (puxa, que afã de protagonismo) assina seis golos. Imagine-se agora um grupo de rapazes simpáticos, sem qualquer prática de jogar em relvados e a chover. Vale-se a originalidade de actuar com dois equipamentos, um na primeira parte (camisolas amarelas com uma lista azul na horizontal, calções azuis), outra na segunda (camisolas amarelas com listas verticais azuis, calções azuis).

Uma semana depois, o reencontro agita as massas. Qual quê, o Sporting falha 16 golos certos e só acerta dois. Acaba 2:0 e mais um golo de Mascarenhas, feito capitão nessa noite nas ausências de Fernando Mendes e Hilário. O sorteio para os ¼ final já é a puxar para o fancy style, em Zurique. Quantos representantes do Sporting? Zero. Calma, há uma razão. E forte: o delegado José Nunes Júnior é acometido de uma crise cardíaca já na Suíça e é obrigado a voltar para Portugal a meia-hora do início do prélio. Seja como for, sai a fava Manchester United.

5-0 ao Manchester United? Done!

O treinador é Matt Busby, o ataque reúne gente do alto como Charlton (n.º 9), Law (10, capitão) e Best (11). Que categoria. O Sporting queixa-se da arbitragem do holandês Martens, sobretudo dos dois penáltis, ambos cometidos na segunda parte, um por falta de Alexandre Baptista sobre Charlton e outro de Figueiredo. Ambos convertidos por Law, já autor do 1:0. Hat-trick, portanto. Pelo meio, Osvaldo Silva minimiza os estragos com um remate do meio da rua, sem hipótese para Gaskell. Mais uma vez, o ambiente no balneário é de esperança.

Há três golos de desvantagem, vamos lá cambada. Pelo meio, uma troca de treinador. Só naquela. Sai o brasileiro Gentil Cardoso, de malas aviadas para terras de Vera Cruz, e entra o português Anselmo Fernández, arquitecto de profissão (responsável pelos projectos de Estádio José Alvalade, Hotel Tivoli, Reitoria da Universidade, Faculdades de Letras e de Direito), sportinguista dos sete costados, praticante de futebol e basquetebol.

E, surpresa das surpresas, o Sporting consegue mesmo o feito do apuramento. Cinco-secos ao United. Uma proeza sensacional, totalmente fora da caixa. Osvaldo faz hat-trick, é ele quem abre e fixa o marcador, de bola parada (penálti aos 3’, livre directo aos 54’). Leem bem, sim senhor, o 5:0 aparece aos 54 minutos. Ainda falta mais de meia-hora e o United, sem o irritante Stiles no onze, nem cócegas faz ao guarda-redes Carvalho.

À porta da 10-A, o escocês Law resume bem a goleada. ‘Não pudemos, nem soubemos, fazer frente a este Sporting. Se continua assim, ganha a Taça das Taças.’ O mesmo diz o treinador Busby. E também o sorridente Best. ‘O Sporting foi superior em todos os capítulos e é um vencedor justo. Fiquei especialmente impressionado com Osvaldo Silva'. O departamento médico do Sporting pesa os jogadores antes e depois do jogo. Os onze perdem 27,7 quilos, com José Carlos e Géo à cabeça (3,7 quilos cada) e Alexandre Baptista no polo oposto (700 gramas).

O Lyon (da selva?) é o próximo da lista. Em França, 0:0. Géo acerta duas bolas no poste. Em Lisboa, 1:1. Combin assina o 42.º golo da época – ele que ajudara França a eliminar Portugal no torneio internacional militar, em Nantes, como autor dos dois golos (2:1). Na decisão do jogo de desempate, o Lyon quer sorteio para saber se é em Lisboa ou em Lyon. O Sporting torce o nariz e pede ajuda à UEFA. Sai o Estádio Metropolitano, casa do Atlético Madrid. Por essa altura, já há um finalista: o MTK. E é uma eliminatória épica, porque os húngaros perdem 3:0 em Glasgow e ganham 4:0 em Budapeste.

De volta ao Metropolitano, o Lyon reúne o titular da selecção francesa à baliza (Aubuor), o pai de Djorkaeff na defesa (Jean) e o avançado Di Nallo (ainda hoje o melhor marcador de sempre do Olympique, com 182 golos), além de Combin. Ao Sporting basta Osvaldo, autor do solitário golo aos 65 minutos, na sequência de uma perda de bola do Djorkaeff, devidamente aproveitada por Morais com um remate à trave. Na recarga, Osvaldo empurra. É o delírio nas bancadas. Alguns adeptos sportinguistas, trajados a preceito e com as bandeiras nas mãos, invadem o campo para abraçar os heróis.

Pelo quarto ano seguido, há uma equipa portuguesa nas finais europeias: Benfica 1961, Benfica 1962, Benfica 1963, Sporting 1964. A final é em Bruxelas, no planalto do Heysel, onde está erigido o Estádio do Jubileu. Mais tarde, depois da II Guerra Mundial, o nome do estádio muda para Heysel e agora já é Rei Balduíno, por culpa da tragédia de 1985 entre adeptos da Juventus e do Liverpool (39 mortos, 600 feridos), antes da final da Taça dos Campeões.

O Cantinho da História

Entre a guerra e a tragédia, o Sporting joga a final da Taça das Taças, a 13 Maio 1964, uma quarta-feira. Às 1925, duas equipas entram em campo, ambas de verde e branco às riscas: horizontais para o Sporting, verticais para o MTK. Sob a arbitragem do cinquentão belga Lucien van Nuffel, o onze do Sporting apresenta-se sem o lateral-esquerdo Hilário, lesionado três dias antes num choque com José Maria, do Vitória FC, para a Taça de Portugal. É Morais quem se encarrega de o substituir. Também não há Lúcio nem Lino. Daí que Anselmo Fernández jogue com Carvalho; Pedro Gomes, Alexandre Baptista, José Carlos e Morais; Fernando Mendes (capitão) e Géo; Osvaldo, Mascarenhas, Figueiredo e Bé.

É daqueles jogos que não dava para ter receio de nada: é uma final, não é?’, questiona-se Figueiredo, goleador-mor dessa época, com 25 gritos. ‘Do primeiro golo da noite, não me lembro nada, nada, nada. Do segundo, sim: livre ali na linha de cabeceira, marcou-o o Géo. Havia tanta gente no meio da área que me afastei daquele maralhal e pus-me na outra ponta da área, sozinho. A bola é-me enviada e rematei de primeira. Até que foi um belo golo.’

É o 3:3 aos 82 minutos. Há o prolongamento, sem que ninguém desate o nó. É necessário mais um jogo de desempate, agora finalíssima. O regulamento da UEFA é cruel: em caso de empate aos 120 minutos, moeda ao ar. Aí estamos nós. Sexta-feira, 15 Maio 1964. É hoje, 60 anos da conquista da Taça das Taças. Só uma alteração no onze leonino de um jogo para o outro: a saída do extremo-esquerdo Bé (lesionado) para a entrada de Pérides. É troca por troca? Nem por isso, há aqui uma série de nuances. Na véspera, o treinador Anselmo Fernández informa Morais da titularidade como extremo e não na defesa, como sucedera em Bruxelas. Isso implica o recuo do capitão Fernando Mendes para o centro da defesa, ao lado de Alexandre Baptista, e a deslocação de José Carlos para a lateral-esquerda. Como consequência, Pérides joga no meio-campo com Géo.

Posto isto, a equipa verde-e-branca às riscas (horizontais) joga com Carvalho; Pedro Gomes, Alexandre Baptista, Fernando Mendes e José Carlos; Pérides e Géo; Osvaldo, Mascarenhas, Figueiredo e Morais. Do outro lado, a equipa verde-e-branca às riscas (verticais) aposta em Kovalik; Keszei, Danski, Kovacs e Jenei; Nagy e Vasas; Sandor, Bodor, Kuti e Hakapi.

O árbitro é o belga Gérard Versyp. Se o 3:3 da final em Bruxelas enche as medidas de qualquer adepto do golo, o golo de Morais na finalíssima em Antuérpia é uma gota no oceano. E que bela gota. Recordemos o relato de Artur Agostinho na Emissora Nacional: 'Morais afaga a bola, parece falar com ela, coloca-a na marca…. vai marcar o cantooooo……… a bola parte, com boa conta…………. gooolo, é goooooolo do Spoooooorting!'.

A história de João Pedro Morais é engraçada. Nascido em Cascais a 6 Março 1936, começa a jogar futebol no concelho, pelo Sporting de Alcabideche. Aos 14 anos, já treina com os seniores. Aos 15, os juvenis do Estoril contratam-no e é aí que um dirigente do Caldas o alicia com um monte de réis. Ao mesmo tempo, o Benfica chega a acordo com o Estoril, com outra assinatura de Morais. Provada a autenticidade dos dois contratos assinados por Morais, a federação portuguesa suspende-o por 12 meses. O castigo é reduzido para metade devido a uma amnistia. Passada a suspensão, Morais vai para o Torreense e daí para o Sporting, onde se estreia com os brasileiros do Vasco da Gama.

O seu sonho é jogar a avançado, só que acaba por jogar mais recuado por qualidade a mais lá à frente. Uma vez, para não jogar à defesa, inventa uma desculpa e é dispensado de uma digressão do Sporting ao Brasil. Em 1963-64, Morais está tapado por Hilário, mas é convocado para a final da Taça das Taças à última hora, através dos altifalantes do José Alvalade, por conta da tal lesão do lateral vs. Vitória FC. Uma coisa leva à outra e toma lá um golo olímpico a dar um título europeu. Pouco antes do apito final, Kuti atira à trave de Carvalho, eleito pela imprensa belga como o melhor em campo e elogiado pelas luvas verdes.

Quando o árbitro apita para o fim, é uma alegria sem fim. Em Antuérpia, claro, e também em Lisboa. Diz Figueiredo. ‘Da Portela para o José Alvalade, uma multidão esperava-nos, a cidade vestiu-se de verde e branco para nos receber e gritar o nosso nome bem alto. Foi uma recepção e tanto, como nunca vi igual. O autocarro nem sempre andava, às vezes tinha de parar pelo acumular de pessoas à frente dele, verdadeiramente entusiasmadas. Depois do estádio, fomos para a casa do Hilário entregar-lhe a taça.' 

Quem? Esse mesmo, o homem que chega com a mão ao chão sem dobrar os joelhos. Que inveja.

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U Sexta, 15 Maio 1964 - 18:30
Bosuilstadion
Gérard Versyp
1-0
Morais 19'
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