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      Internacional portuguesa em entrevista

      Tatiana Pinto e a saída para o Levante: «Era uma proposta irrecusável»

      2021/09/13 16:08
      Rita David
      E2

      O panorama do futebol feminino nacional está cada vez mais alargado. Hoje, um pouco por toda a Europa, é possível encontrar várias portuguesas a jogar nos grandes campeonatos. Desta vez, a nossa viagem foi curta. Viajámos até Espanha onde estivemos à conversa com Tatiana Pinto, jogadora do Levante e uma das jogadoras portuguesas mais talentosas da sua geração. 

      Tal como a carreira de Tatiana Pinto, a conversa foi longa. Afinal de contas, como é que uma menina que aos 13 anos já jogava com a equipa sénior do Fermentelos - em Águeda no distrito de Aveiro - está agora a dar cartas no campeonato espanhol, ao serviço do Levante? Fomos descobrir.

      Hoje, com 27 anos, Tatiana conta já com várias experiências internacionais na Alemanha, Inglaterra e agora em Espanha... Ainda assim, tudo começou no Oliveira do Bairro Sport Clube, clube onde fez toda a sua (curta) formação, e onde jogava com os rapazes. 

      «Tinha 12/13 anos e já jogava com mulheres de 20/30 anos»

      «O Fermentelos foi a primeira experiência em futebol de 11. O Fermentelos era uma equipa feminina e foi o meu ano de transição do futebol masculino para o feminino, porque até aqui estava numa equipa mista do Oliveira do Bairro SC, onde fiz toda a minha formação. Foi uma época de transição. Estive lá dois anos e passei do futebol do futebol de 7 para o futebol de 11. Tinha 12/13 anos e já jogava com mulheres de 20/30 anos, pessoas experientes no futebol feminino. Lembro-me que fui muito recebida e que esta foi uma boa experiência para crescer», começou por dizer Tatiana Pinto em entrevista ao nosso jornal. 

      Aos 16 anos, deu-se a mudança para o Clube Albergaria. De Fermentelos para Albergaria-a-Velha, a distância não é muita, mas a exigência subiu de tom. O Clube Albergaria já estava (e está) na primeira divisão e Tatiana Pinto dividia o seu fim de semana entre a equipa de juniores e a equipa sénior. 

      «No Albergaria estive um ou dois anos a jogar nas juniores e na equipa sénior, sempre com jogos ao sábado e ao domingo...» relembrou a médio que, em 2013, já com 18 anos, decidiu arriscar e embarcar num novo desafio rumo à Alemanha, onde representou o SC Sand, do segundo escalão

      SC Sand marcou a primeira experiência além fronteiras

      Relativamente a este primeiro desafio fora de Portugal, Tatiana Pinto confessou que acabou por não ser a melhor experiência a nível desportivo. Ainda assim, foram vários os ensinamentos que retirou de uma realidade completamente diferente daquela a que estava habituada.

      ©Arquivo Pessoal
      «Não, nesta altura ainda não tinha noção que podia ser profissional. Quando decidi ir para a Alemanha, foi uma decisão repentina. Sou uma pessoa que gosta de desafios e com 18 anos também já gostava e nunca tive medo do desconhecido. Quando aceitei, fui, mas confesso que não tinha noção daquilo que ia encontrar... É que, como já disse algumas vezes, a minha experiência na Alemanha não foi a melhor em termos desportivos - porque fiz a transição da realidade amadora para uma realidade profissional - e com 18 anos isso fez-se notar... Mas a verdade é que ganhei muitas outras coisas a nível pessoal. Cresci imenso como pessoa e aprendi imensas outras coisas. Por isso é que costumo dizer que a nível desportivo não foi a melhor decisão, mas, por outro lado, hoje não mudava nada», referiu a internacional portuguesa, que na temporada seguinte rumou à I Divisão inglesa para representar o Bristol. 

      Bristol? «Aí, foi realmente onde as coisas mudaram»

      A mudança para Terras de Sua Majestade alterou, por completo, o rumo da carreira de Tatiana Pinto. A jovem jogadora, na altura com 19 anos, mudou-se para o Bristol, na altura militava no primeiro escalão inglês, e foi lá que partilhou balneário com várias jogadoras que hoje fazem parte dos gigantes ingleses como Chelsea, Manchester City, Manchester United... 

      «Aí, foi realmente onde as coisas mudaram. O Bristol foi o clube que me fez mudar a minha mentalidade, porque sem trabalho as coisas não iriam resultar. Fui para um país onde a mentalidade das jogadoras era e é de muito trabalho, de muito comprometimento e de muita dedicação. E foi aí que percebi que se realmente eu queria ganhar a vida com o futebol e ser um exemplo para outras meninas mais novas tinha de trabalhar. Foi aí que mudei o meu chip e comecei a trabalhar mais», explicou Tatiana Pinto. 

      Ao serviço do Bristol, a médio portuguesa partilhou balneário com vários nomes hoje sonantes no panorama inglês: Sophie Ingle (Chelsea), Caroline Weir (Manchester City), Mary Earps e Hayley Ladd (Manchester United).

      «Quando cheguei ao Bristol e vi a realidade onde estava inserida, com as jogadoras que estavam à minha volta que tinham muita qualidade e que hoje estão em clubes muito bons em Inglaterra... Eram realmente jogadoras com muita qualidade e quando estamos rodeadas por pessoas que têm essa mentalidade do trabalho, acho que é muito difícil não seguir esse exemplo... Eu aproveitei o exemplo delas e tentei fazer igual», confessou. 

      ©Sporting CP

      «Fui para o Sporting também para deixar o meu nome na história»

      Numa altura em que o panorama do futebol nacional feminina sofria uma autência remodelação - com a entrada dos clubes profissionais em cena - Tatiana Pinto optou por regressar a Portugal. 

      Regressou pela porta do Sporting em 2016/17, ano em que o clube leonino reativou a equipa feminina após vários anos de pausa. Para a história, ficam 126 jogos, 33 golos marcados e cinco títulos conquistados

      «O balanço que faço do tempo todo que estive no Sporting é extremamente positivo. Ganhei títulos, passei por fases muito boas, outras menos boas, mas isso são coisas que acabam por ser normais em qualquer trabalho. O importante é a forma como reagimos a esses momentos. Por isso, claro que o balanço é extremanete positivo. 
      Eu fui para o Sporting também para deixar o meu nome na história, uma vez que era o primeiro ano que o Sporting tinha uma equipa feminina depois de vários anos de pausa, e acabámos por conquistar imensos títulos. Creio que deixei um bom legado no Sporting», recordou Tatiana Pinto, explicando que continua a acompanhar a realidade leonina e que um regresso a Alcochete é sempre uma opção válida.

      «Falar do Sporting para mim é sempre um tema muito sensível porque continuo a apoiá-las, a ver os jogos delas e a torcer como se ainda lá estivesse... Portanto, sinto-me também parte delas, mas agora deste lado de fora... Mas quem sabe se um dia não regresso...», atirou. 

      «A decisão de sair do Sporting foi minha»

      Para os lados de Alvalade, a temporada passada foi tempo de reestruturação. A equipa feminina do leões viu sair mais de uma dezena de atletas e Tatiana Pinto foi uma delas. Ainda assim, em conversa com o zerozero, a médio portuguesa deixou uma garantia: 

      «A decisão de sair do Sporting foi minha. Sentia que precisava de um novo desafio na minha vida, de dar um passo em frente e foi única e exclusivamente por isso mesmo que deixei o Sporting. Porque sentia que precisava de algo distinto na minha carreira e de subir um nível, um pouco... Sentia que estava no momento certo para o fazer e quando surgiu esta oportunidade do Levante aceitei logo». 

      ©Arquivo Pessoal

      Espanha era desejo antigo e a proposta do Levante era «irrecusável»

      De Alcochete, Tatiana partiu para Espanha. Entre convites de clubes espanhóis e italianos, surgiu a proposta do Levante - terceiro classificado no campeonato espanhol na temporada passada - e na hora de decidir não exisitiram muitas dúvidas.

      «Eu cheguei a ter outras alternativas também em Espanha e em Itália, mas confesso que Espanha era o meu principal foco. Era uma liga em que queria muito jogar e sempre disse que acabaria por ser esse o meu próximo passo. Portanto, claro que quando soube do interesse do Levante fiquei bastante contente... O Levante é uma equipa de topo aqui em Espanha e isso foi como um reconhecimento do meu valor e do meu trabalho... Obviamente que a Champions teve muito peso na minha decisão, mas a verdade é que era uma proposta irrecusável». 

      Em Espanha desde julho, Tatiana Pinto revelou que as primeiras semanas de trabalho foram pesadas. Ainda assim, a adaptação a esta nova realidade acabou por ser bem simples...

      «A minha adaptação e integração foram bastante acessíveis. Sou uma pessoa que se adapta facilmente ao meio onde estou inserida e sabia que vinha para uma realidade diferente. Já me tinha preparado mentalmente para isso, acho que isso é muito importante. Sabia que ia ser duro e foi, foi muito duro... Mas as minhas colegas, o staff, os treinadores, têm sido espetaculares comigo. As pessoas do clube e os adeptos também. Acho que estou no clube que tem um ambiente familiar e quando assim é também ajuda a que aqueles que chegam seja bem recebidos e é isso que eu sinto. Fui bem recebida e vinha preparada para trabalhar bastante e acho que até aqui não me safei mal [risos]». 

      ©Arquivo Pessoal

      Cair de pé perante o todo poderoso Lyon

      Com a época já em andamento, Tatiana Pinto começou a temporada da melhor forma: na Liga dos Campeões. O Levante esteve presente nas rondas de acesso à fase de grupos da competição e só um gigante Lyon - campeão europeu em cinco das últimas seis edições da competição - acabou com o sonho na última ronda de acesso à competição. O Levante perdeu 4x2 [2x1 em cada uma das mãos], mas em Espanha a sensação é de «orgulho». 

      «Se tivessemos tido outro adversário, talvez pudessemos ter ido mais longe. Mas já passou... É sempre duro perder e sair de uma competição onde qualquer jogador quer estar, portanto já fiz o meu luto. Agora com o pensamento mais frio, não tenho de estar triste nem desiludida. Acho que tanto a equipa como o clube só têm de estar felizes com aquilo que fizemos dentro de campo. Debatemo-nos olhos nos olhos com o Lyon e foi muito difícil para elas nos ganharem. Acho que deixámos uma boa imagem daquilo que é o futebol espanhol e daquilo que nós como equipa estamos a trabalhar para que as coisas dentro de campo aconteçam. Portanto, claro que é agridoce, mas a verdade é que caímos contra um gigante. O Lyon é um colosso do futebol feminino, por isso cair com gigantes acho que diz muito daquilo que tem sido o trajeto deste clube... Sinto-me bastante orgulhosa da equipa», referiu a médio portuguesa. 

      Estreia no campeonato teve direito a golaço

      Entre as eliminatória da Champions, houve tempo para o arranque do campeonato espanhol e para um surpresa... O Levante recebeu o Real Madrid, adversário direto na luta pelos lugares do pódio, e venceu por um robusto 4x0, com Tatiana Pinto a estrear-se com um golaço à entrada da área. Não se podia pedir melhor estreia...

      ©Arquivo Pessoal
      «Sim, sem dúvida que deu outro ânimo [golo contra o Real Madrid]. Foi uma motivação extra. Para mim, jogar na liga espanhola era um sonho e o facto de ter saído da minha zona de conforto para uma liga muito forte e ter-me estreado com um golo, tornou todo este momento muito bonito. Nunca me vou esquecer, mas também é preciso dizer que fizemos um jogo brilhante e o que fica é a imagem de uma equipa que tem argumentos para se bater com qualquer adversário», acrecentou, descrevendo um pouco daquela que é a realidade do futebol feminino espanhol e que conta com Barcelona, Real Madrid, Atlético Madrid e Levante como as principais quatro potências. 

      «Neste momento, o Barça é sem duvida o expoente máximo do futebol europeu, mas tenho a certeza que o Levante vai estar aqui para provocar dano em qualquer equipa da Liga espanhola e claro que o Barcelona está incluído nesse lote», referiu. 

      ©Arquivo Pessoal

      «Gostava muito que estivessemos presentes no Mundial»

      Para finalizar, Tatiana Pinto abordou ainda uma das páginas mais bonitas da sua carreira. Internacional portuguesa em 72 ocasiões, depois de se estrear em 2014 diante da Coreia do Norte, Tatiana faz parte do [único] lote de jogadoras portuguesas que estiveram presentes num Campeonato da Europa

      Comitiva portuguesa do Europeu 2017 ©FPF
      «Sim, diria que foi o momento mais alto da minha carreira. Acho que agora também estou num ponto muito alto, mas a nível de seleção diria que foi das melhores coisas que já vivi, mas com toda a certeza ainda quero viver mais! Acho que Portugal deve e merece estar nesses palcos e gostava muito que estivessemos presentes no Mundial», atirou a internacional portuguesa que, por estes dias, está prestes a iniciar a qualificação para o mundial de 2023.

      Ainda assim, para trás, ficam as recentes e dolorosas derrotas na fase de qualificação para o Europeu de 2022. Portugal deixou fugir o apuramento direto no último minuto diante da Finlândia e no play-off, diante da Rússia, viu goradas as possibilidade do apuramento após perder 1x0 com a seleção russa no conjunto das duas mãos.
      Questionada sobre a gestão destas emoções, uma vez que o apuramento escapou por entre os dedos, Tatiana explicou que só há um caminho possível: fazer melhor nos desafios seguintes.

      «Depende de cada jogadora. Eu sou esse tipo de jogadora que faz esse luto, porque sinto muito as coisas, mas é precisamente nestes momentos que de deve reagir às coisas e continuar a trabalhar para seguir em frente. Não adianta de nada estar a agora lamentar-me sobre aquilo que podia ter sido. Não foi, então agora o quê que podemos fazer para melhor? É seguir em frente, continuar a trabalhar e sermos melhores a cada dia. É um bocadinho isso que eu penso na minha vida desportiva, mas também pessoal», explicou, virando os holofotes para a fase de qualificação do Mundial que, nesta edição, conta com mais oito vagas e pode abrir o caminho para Portugal conquistar a sua primeira presença na fase final da competição.

      «Vai muito por aquilo que eu disse antes. É aprendermos com os erros do passado e potenciarmos aquilo que temos de bom para fazer melhor e para que consigamos este apuramento que Portugal tanto merece e que o futebol feminino português tanto precisa», referiu.  

      ©Arquivo Pessoal

      «A Cláudia deixou a sua marca na história do futebol feminino português»

      Para concluir, Tatiana Pinto deixou ainda uma mensagem de agradecimento a Cláudia Neto, capitã da seleção nacional que se despediu recentemente da equipa das Quinas.

      «É difícil. É díficil falar sobre isto... Desejo tudo de bom à Cláudia, tanto a nível pessoal como na sua carreira. É uma das melhores jogadoras que Portugal teve até agora, deixou o seu legado e a sua marca na história do futebol feminino português e é um exemplo para muitas jogadoras como eu e para muitas meninas que estão agora a começar... Por isso, desejo-lhe tudo de bom e agradeço tudo aquilo que nos deu e tudo aquilo que aprendi com ela. É, sem dúvida, um exemplo para todas nós», finalizou.

      Portugal
      Tatiana Pinto
      NomeTatiana Vanessa Ferreira Pinto
      Nascimento1994-03-28(27 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoMédio (Médio Defensivo)

      Fotografias(32)

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      Comentários (1)
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      motivo:
      Tatiana Pinto
      2021-09-14 08h15m por Aleaotejano
      Grande jogadora, fazes muita falta. Enche o bolso e volta
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