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      Investigámos a aventura do holandês no Barnet

      Digna de uma curta-metragem: a aventura de Davids, treinador do Olhanense, em Inglaterra

      2021/01/08 13:34
      Ricardo Lestre com Stephen Gillet
      E2

      Alguma vez tinha imaginado um futebolista super conceituado, com passagem por alguns dos melhores clubes do mundo, com um palmarés invejável e uma imagem única a... Treinar no terceiro escalão do nosso futebol? Certamente que não, porque se algum dia o fez, parabéns: recebe o prémio de «maior visionário», provando que as bolas de cristal não são para todos.

      Com todo o respeito do mundo pelos algarvios, Edgar Davids a treinador do SC Olhanense é tão surpreendente como... Vejamos, Patrick Kluivert no Alverca!? Notícias que fazem sentido no dia das mentiras e que nos fazem atingir a realidade quando o próprio presidente, Luís Torres, justifica a aposta (declarações ao nosso portal).

      Não é, certamente, um desconhecido para grande parte dos amantes deste desporto, até porque a sua carreira fala por si. Retirando a nível de seleção (e não foi por falta de qualidade!), o Pitbull holandês venceu praticamente tudo, com marca em tubarões como Ajax, AC Milan, Juventus, Barcelona, Internazionale e Tottenham. E mesmo numa idade avançada, nunca perdeu o sangue quente, o ADN único e congregador de talento, loucura e garra que sempre o caracterizou dentro das quatro linhas. Ah, e a sua mítica aparência.

      Carismático, polémico e estiloso. Davids nunca foi, propriamente, um jogador politicamente correto ou resignado. Prova disso foi ter regressado ao ativo três anos depois de ter abandonado os relvados ao serviço do seu clube do coração (2007/08), Ajax, para, em 2010/11, aceitar o desafio do Crystal Palace, então no Championship. onde acabou por nem ser muito utilizado. Pendurou as botas uma vez mais e... Decidiu voltar, claro, após dois anos.

      Desta vez, para um patamar inferior. Muito inferior. Aliás, já ninguém pensava que, aos 40 anos, Davids se iria desafiar de novo. Mas fê-lo. E logo no Barnet que, em 2012/13, lutava para não descer na League Two (equivalente ao quarto escalão). Por ter casa em Londres - jogou no Tottenham entre 2005/06 e 2006/07 - e viver nas redondezas, recebeu um convite para se juntar ao modesto emblema. Inicialmente reticente, lá se aventurou: «You know what? I'm f****** Edgar Davids!», como explicou num programa de televisão. Tudo dito em poucas palavras, até porque era um projeto íntimo e de paixão, tendo em conta os convites rejeitados para ingressar no futebol asiático.

      Edgar Davids
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      Esse foi o clique para Edgar Davids assumir o papel de jogador/treinador, inicialmente em parceria com Mark Robson, mais tarde como figura única. Ao seu estilo, como um Messias, mostrou não ser «fã das equipas inglesas» e que estas «precisavam de muito trabalho». Causou um impacto brutal logo de início, com uma vitória por 4x0, transportando a sua alma guerreira para dentro de campo, jogando a central e a médio. Apesar de tudo, no meio de um temperamento louco, alimentou a esperança da manutenção: e, no final, só não a conseguiu devido à diferença de golos

      «É o que é e nós estamos onde estamos. Se temos que ir para a Conference [quinto escalão], então nós vamos para a Conference». Sem rodeios, frontal e frio. Edgar Davids, o mesmo que se rejeitava a jogar fora de casa, especialmente os que envolviam grandes deslocações, voltou a descer um degrau e a promover cenas dignas de um filme, antes de rescindir: expulso várias vezes num curto espaço de tempo, incluindo cenas de pancadaria em pleno relvado, e muitas acusações aos árbitros devido a «cartões vermelhos exagerados».

      Expulso após agredir Stephen Wright, do Wrexham ©Getty / Charlie Crowhurst

      Com tanto para contar, o zerozero, contando com a preciosa ajuda de Stephen Gillet, do nosso domínio inglês (playmakerstats.com), contactou Matthew Badcock, editor do Non League Football Paper, maior jornal das divisões inferiores do futebol do Reino Unido, para recordar a primeira e única passagem (até então) pelos bancos do novo treinador dos Leões de Olhão. Fique por aí porque, acredite, é algo que merece ser conhecido e partilhado.

      ZEROZERO: Foi sem dúvida surpreendente quando o Barnet anunciou Edgar Davids como jogador/treinador em 2012/13. Qual foi o impacto?

      Matthew Badcock: Todo o futebol inglês ficou surpreendido! Depois de ter jogado ao máximo nível durante tantos anos e ter ganho tantos títulos, a carreira de Edgar Davids fala por si mesma. Por isso, alguém com o seu calibre juntar-se a um clube como o Barnet na League Two não foi propriamente normal. Acima de tudo, mostrou realmente o quão apaixonado é pelo jogo, porque tenho a certeza que, mesmo tendo em conta a idade, isso não foi um entrave.

      Era adjunto do Telstar, da Holanda ©Getty /
      ZZ: Ainda mostrou lampejos de qualidade como jogador apesar dos seus 40 anos?

      MB: Sim, sem dúvida que mostrou e isso provou que ele era, de facto, um jogador especial. Ele fazia tudo para que a sua equipa brilhasse. O problema é que o futebol é um desporto difícil e, na sua idade, é injusto esperar o mesmo impacto. Para além disso, os jogadores já o conheciam e esperavam desesperadamente para enfrentá-lo dentro de campo. Dizer que fez um ‘túnel’ ao Edgar Davids – ou até provocá-lo – era uma motivação para qualquer jogador. Ele era como um prémio!

      ZZ: A sua primeira época como treinador terminou com uma sempre difícil descida de divisão. Como avalia a sua estadia?

      MB:  O Barnet esteve sempre na metade inferior da tabela, comparando com outros clubes da League Two. Eles lutaram contra equipas muito mais poderosas e com muito maiores recursos. Nas duas épocas anteriores, haviam terminado acima da zona de despromoção e, antes disso, em 21º no campeonato. Por isso, era um clube habituado a só ter a cabeça fora de água, mesmo antes da chegada do Davids. Não foi propriamente uma surpresa quando desceram de divisão.

      ZZ: Depois da descida para a Conference League, a situação ficou... louca. Davids decidiu ficar com um número '1' na camisola, recusou viajar para alguns jogos fora e foi expulso três vezes em cinco jogos... O que se passou!?

      MB: A Non-League [expressão para descrever o futebol inglês da quinta divisão para baixo] provavelmente não sabia o que tinha pela frente! Na época em questão, quando o Barnet desceu, as pessoas não estavam seguras de que ele ia continuar e assumir o desafio. A Conference é uma liga difícil, com um misto de equipas full-time/part-time que são inflexíveis. Ele fez questão de ficar com a camisola número ‘1’, algo que na altura foi muito discutido por não ser algo muito comum no futebol. Havia rumores de que os jogadores o chamavam de ‘Mister’, mas talvez fosse algo mal interpretado até porque os jogadores ingleses normalmente chamam ao treinador ‘Boss’ ou ‘Gaffer’.

      Os jogadores ficavam entusiasmados de jogar contra ele e de o tirar do sério. Isso resultou em muitos cartões vermelhos… E ele viu uns quantos amarelos, ainda. Isso talvez o tenha levado a deixar de jogar. No banco, ele chamava à atenção pelas roupas que usava. Ele nunca era visto com fato de treino vestido, como outros treinadores. Usava sempre as suas roupas e atraía as pessoas. Os jogos fora de casa implicavam estadias prolongadas fora de casa, o que significa que o Davids não viajava sequer. Isso rapidamente virou um problema. Mesmo no quinto escalão do futebol inglês, deves mostrar comprometimento total com a causa e liderar o teu grupo em toda e qualquer ocasião. Foi um tema muito debatido na altura.

      Autonomeou-se capitão e escolheu o número '1' na camisola ©Getty / Charlie Crowhurst
      ZZ: Foi uma surpresa quando deixou o Barnet, em 2014, no 10º lugar da tabela?

      MB: Talvez não tenha sido. Foi no tempo em que a polémica aumentou devido ao facto de ele não ir aos jogos fora de casa. A Conference é muito difícil. Nem todos os clubes conseguem inverter o rumo dos acontecimentos.

      ZZ: No geral, como avaliam o trabalho do Edgar Davids no Barnet?

      MB: É difícil falar pelos adeptos do Barnet. Foi tudo um autêntico turbilhão. Acho que muitos ficaram radiantes pela aventura. Ele não fazia sempre tudo bem. Por exemplo, ele deixou o Jamal Lowe, avançado da equipa na altura, ir embora e ele joga atualmente no Championship, pelo Swansea. Mas sem dúvida que o Barnet era um dos clubes mais falados na altura dentro do próprio país quando ele lá estava. O clube apontou o Martin Allen como sucessor, ele que foi o responsável pelo regresso à Football League. Ele também podia ser pouco convencional, mas sabia o que tinha para fazer para criar uma equipa campeã.

       ZZ: Vai ter sucesso no Olhanense?

      MB:  É difícil de dizer porque afastou-se dos bancos por algum tempo. Espero que ele consiga reunir grupo, aumentar o comprometimento geral e, claro, jogar bom futebol. Sempre foi claro para mim que ele ama o futebol. Ele era visto muitas vezes a jogar futebol de Sunday League [expressão utilizada para o futebol amador] num parque local em Inglaterra ou a discutir no seu escritório com o seu olheiro. Certamente que vai ser interessante!

      ZZ: O que podem esperar os adeptos do clube e os portugueses em geral?

      MB:  Bem, aborrecido não vai ser de certeza! Edgar Davids é uma das caras mais facilmente reconhecíveis no mundo do futebol e os adeptos vão habituar-se rapidamente ao seu estilo único na área técnica. É conhecido por ser uma pessoa intensa, super determinada e que não se deixa afetar por nada, tal como nos seus tempos de futebolista.

      ZZ: E... Algum aviso em especial?

      MB: Apenas para os jornalistas: tenham a certeza de que fazem boas perguntas!

      Apresentado no novo clube ©SC Olhanense

      O primeiro jogo de Edgar Davids no comando do Olhanense é este domingo (10), frente ao Lusit. Évora.

      Holanda
      Edgar Davids
      NomeEdgar Steven Davids
      Nascimento1973-03-13(47 anos)
      Nacionalidade
      Holanda
      Holanda
      Dupla Nacionalidade
      Suriname
      Suriname
      PosiçãoMédio (Médio Centro)

      Fotografias(9)

      Comentários (2)
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      motivo:
      EL
      Boa praia
      2021-01-08 20h52m por elanus
      Claramente ter uma boa praia a "5 minutos" não teve influência nenhuma :)
      Davids
      2021-01-08 15h31m por Tobin
      Quem diria que vinha treinar no 3º escalão do futebol português?!?!
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