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      Entrevista à Tribuna Expresso

      (20Jun2020)| Jorge Costa: «Fiz maldades ao Nuno Gomes, mas gosto muito dele e sou amigo do João V. Pinto e do Rui Costa»

      2020/10/16 16:36
      Texto por Tribuna Expresso
      E1

      Entrevista da autoria da jornalista Alexandra Simões de Abreu da Tribuna Expresso, originalmente publicada a 20 de junho de 2020 e que pode ser vista na publicação original aqui.

      Da infância no Porto, ao voleibol com Miguel Maia na Cortegaça e o acidente que o atirou decisivamente para o futebol, passando pelo ingresso no clube do coração, o gosto pela cozinha que o leva a ver programas de culinária para ter ideias novas, até às grandes conquistas, aquele que ficou conhecido por 'Bicho' abre um pouco o livro da sua história nesta entrevista, que tem continuação - Parte II, amanhã -, já na carreira de treinador.

      Nasceu no Porto. Apresente-nos a família.
      A minha mãe era costureira, trabalhava em casa e ia duas, três vezes por semana a casa de algumas famílias da Foz do Douro fazer uns arranjos. O meu pai era vendedor de material de construção, saía de manhã, vinha à noite, quando não ficava fora algumas noites porque na altura era difícil viajar. Relativamente aos irmãos, nós somos cinco filhos mas só se comemoram três aniversários [risos].

      Explique lá isso.
      As minhas irmãs mais velhas nasceram passado um ano no mesmo dia e no mesmo mês, depois nasceram um irmão e irmã, que são gémeos. A seguir é que vim eu, sou o caçula.

      O único que se tornou futebolista?
      O único que se tornou futebolista, o único que tem uma altura acima da média dos portugueses, o único que nasceu com olhos claros. A minha mãe não vai gostar muito que diga isto mas a verdade é que sou completamente diferente dos meus quatro irmãos [risos]. A minha irmã, a segunda mais velha, é pequenina de cabelo preto, olhos pretos, não tem nada a ver comigo.

      Deve ter algum avô ou tio com olhos azuis ou verdes a quem saiu.
      Pois, os pais dizem sempre isso "o teu bisavô já era assim". Mas não o conheci. Costumo dizer na brincadeira que a pessoa mais parecida comigo é o abade da igreja de Nevogilde [risos].

      Sendo o mais novo foi o mais mimado?
      Sim, fui. Eu tive uma infância feliz no Bairro da Previdência, na Pasteleira, um bairro social. Não me faltava nada, tinha o que comer, tinha bicicleta, tinha acima dos mínimos. Hoje tenho consciência dos sacrifícios que os meus pais fizeram para que não me faltasse nada. E, como era o mais pequenino, era até um puto giro, lourinho, de cabelos aos caracóis e olhos azuis, era muito paparicado pelas minhas irmãs, não fazia nada em casa, tinha a cama feita, roupa lavada, comida na mesa [risos]. Foi uma infância feliz. Chegava a casa da escola, pegava na bicicleta e ia para o bairro, sempre com a bola debaixo do braço. Éramos muitos da mesma idade.

      Era um puto "terrorista" ou calminho?
      Como é que eu vou explicar... Eu sou muito envergonhado, sou uma pessoa que me custa dar a conhecer. Há quem possa pensar que é por arrogância, mas eu conheço-me bem e quem me conhece sabe que tem a ver com timidez. Portanto, na escola era aquele aluno exemplar que os professores não tinham nada a apontar. Já nos intervalos e no bairro era diferente, era um bocadinho rebelde [risos].

      Tinha alguém na família ligado ao futebol?
      Não.

      ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS

      De onde vem a paixão pelo futebol?
      Não sei, acho que já nasci com ela. Se me comparar com o meu irmão mais velho, ele tinha gostos completamente diferentes, ele montava e desmontava tudo, carros, varinhas mágicas, aspiradores, era um engenhocas. Eu era bicicleta e bola. Posso contar uma história que foi a minha sorte em relação ao futebol.

      Então?
      Quando era pequenino começámos a fazer campismo em Cortegaça. Ainda hoje os meus pais, com 83 anos, fazem lá campismo. E ali em Cortegaça havia muita gente ligada ao voleibol, entre os quais o Miguel Maia, que é meu amigo de infância. O Maia, o Filipe Vitó, o Carlos Filipe, havia ali muita malta do voleibol. Eu jogava lá voleibol, futebol, fazia gincanas de bicicleta, fazia tudo. E tinha uma paixão enorme por voleibol. Cheguei a jogar voleibol no Fluvial e a minha sorte foi que, um mês antes de começar o campeonato, fui atropelado.

      Sorte?
      [Risos]. Eu fui atropelado três vezes. Uma ainda andava na pré-primária, mas a segunda foi a mais grave, o carro bateu-me, passei por cima e só cai lá atrás, parti a clavícula e fui operado duas vezes. E essa foi a minha sorte porque como parti a clavícula, tinha de ser operado passado dez meses para retirar as placas e parafusos, e perdi também alguma mobilidade na clavícula esquerda, o que me obrigou a deixar o voleibol. Tinha 13/14 anos. Por isso é que digo que foi a minha sorte porque me dediquei exclusivamente ao futebol.

      Nunca se sabe se não se perdeu um grande voleibolista.
      Sim, tenho uma grande paixão pelo voleibol, sempre tive, mas acho que a minha vida foi muito melhor estando ligado ao futebol.

      Como é que começa a jogar futebol no FC Foz?
      Nós, os putos do bairro, íamos fazer as captações e chegámos a ir ao Boavista porque era mais perto. Éramos uns 100 putos; terminava o treino, o treinador vinha e "dizia tu, tu e tu, venham amanhã". Isto dia após dia, até que fiquei sozinho. E como fiquei sozinho disse “eu não vou, vou para o bairro [risos]. Sozinho não vou.” Jogava na escola, fazíamos torneios de bairro e nunca quis ir para o futebol porque não queria ir sozinho. Até que decidimos todos ir ao FC Foz. Como era um clube mais pequeno, ficámos quatro ou cinco.

      Não foram ao Futebol Clube do Porto (FCP) porquê?
      Porque era longe e porque achávamos que era difícil ficar lá. Faço um ano no Foz e, no final desse ano, já tinha FCP, Leixões e Boavista interessados. E quando se fala de Leixões, era realmente um clube muito forte em termos de formação e mesmo futebol sénior; eram outros tempos, tinha uma equipa de I Liga.

      Mas decidiu ir para o FCP.
      Fomos a uma reunião com o presidente do Foz, eu fui com o meu empresário, senhor Lino Costa [risos], o meu pai. E o presidente do Foz tinha sido jogador também e aconselhou-me a ir para um clube onde a exigência fosse menor para eu poder continuar com os meus estudos. Ele lá falou durante meia hora e no final o meu pai disse: "Eu percebo isso tudo, mas a decisão será do meu filho, o que ele quiser é o que será feito". E como é evidente, portista desde pequenino, disse "então não há dúvidas". Foi o FCP.

      Lá em casa toda a gente torcia pelo FCP?
      Toda a gente. Era uma democracia em que era mandatório sermos portistas [risos].

      Tinha ídolos?
      Tinha. Eu ia ver todos os jogos do FCP. Ia ver jogos do Boavista, do Salgueiros também. Claro que tinha os meus ídolos, desde o Fernando Gomes, o Bibota, ao Rabat Madjer... foram os dois jogadores que marcaram mais a minha infância.

      ©Getty / Henning Bangen

      Como foi entrar pela primeira vez, como jogador, no clube do coração?
      Foi complicado porque entretanto a época no Foz acabou, não passámos à fase seguinte como era expectável e o FCP disse: "já que acabou a época vais começar a treinar connosco para te adaptares". Tudo bem. Fui um dia, no dia a seguir tinha coisas mais interessantes para fazer, era um puto de 15/16 anos, e disse: "hoje não vou, não me apetece ir ao treino". Habituado ao Foz, em que treinávamos duas vezes por semana e só íamos quando queríamos, não fui. Fui no dia a seguir e quando lá cheguei o treinador, o Costa Soares, chamou-me. Perguntou-me porque não tinha ido na véspera. E eu olhava para ele e pensava: "mas porque que eu tenho de justificar o porquê de não ter vindo ao treino?". Mas lá expliquei, menti, disse que tinha ido ao dentista. E ele: "Não estás no Foz, vê lá se te adaptas a isto, senão meto-te no 78 e mando-te para o Foz de volta definitivamente". Aí eu percebi que era a sério.

      Chega ao FCP como juvenil de 2.º ano. Nessa altura jogava já como defesa central?
      Quando cheguei ao Porto só tinha um ano de futebol onze. E no Foz vestia o n.º10, mas era central. Era o 10 porque era o craque da equipa, com todo o respeito por todos os outros, mas eu exigi o n.º10 [risos]. Gostava mais de jogar no meio campo, mas lá acharam que se calhar era demais para mim jogar no meio campo e puseram-me atrás. Lembro-me que nos primeiros jogos que fiz no Porto, era a fase de apuramento, e íamos jogar por exemplo com o Bombeiros Voluntários de Almeida, na Serra da Estrela, e o Costa Soares, passados cinco, dez minutos de jogo, como a oposição era tão fraca, punha-me a ponta de lança, porque atrás eu não fazia nada, eles não chegavam lá. Então fazia três, quatro golos por jogo. Não pela minha qualidade técnica, mas porque realmente era bem mais alto do que os outros e ganhava as bolas todas de cabeça.

      A propósito de cabeça, é verdade que foi obrigado a cortar o cabelo no FCP?
      Eu nasci na Foz. E apesar de ter crescido num bairro social, pertencia à Foz. Para quem não conhece, a Foz é a zona mais chique, mais in do Porto, e houve aquela altura dos rockabilly, então eu usava o cabelo tipo Elvis Presley, com uma pala, e o Costa Soares perguntava-me se eu vinha de elétrico da Foz para as Antas com a cabeça de fora [risos]. E depois obrigou-me a cortar o cabelo. Mas é engraçado porque naquela altura tinha colegas, o Zulmiro, o Tiago, o Hélder, que usavam o cabelo à jogador da bola, isto é, grande, como usavam os jogadores da bola, e não tiveram de cortar. Eu usava à rockabilly, completamente descontextualizado daquilo que era o futebol na altura. E cortei. Claro que nunca deixei crescer o cabelo, até porque o volume da minha cabeça não me permitia ter o cabelo grande; cabeça grande, com cabelo grande... [risos].

      É campeão juvenil no FCP, não é?
      Sou campeão juvenil, depois no 1.º ano de juniores não sou campeão, mas no 2.º ano sou campeão. Em três anos de formação, sou duas vezes campeão nacional.

      Era muito namoradeiro?
      [risos]. Q.B.

      E saídas à noite?
      Ainda hoje não sou disso. Gosto muito de estar com amigos, em casa, é disso que gosto. Gosto de sair, mas a partir da uma, duas da manhã acho que as coisas já não funcionam. Eu deixo de funcionar e toda a gente que está à minha volta deixa de funcionar, portanto, começa a ser um mundo que eu não gosto. Mas nunca fui um apaixonado pela noite. Na nossa altura havia as matinés, ao domingo à tarde, e lá ia dar uma voltinha, mas propriamente sair à noite nunca foi a minha paixão.

      É chamado a primeira vez ao plantel principal quando?
      No 2.º ano de júnior, era o Artur Jorge o treinador dos seniores, eu era chamado regularmente para treinar com eles. Na altura havia os jogos de reservas à quarta-feira, onde jogavam os jogadores menos utilizados do plantel principal e quando era necessário alguns juniores. Normalmente jogava com os seniores, mas no campeonato de reservas.

      Lembra-se da primeira vez que entrou no balneário sénior do FCP?
      Lembro-me perfeitamente. Acho que nem dormi nada na véspera. Fui muito bem recebido, mas tremia por todos os lados. Claro que víamos os seniores, porque era nas Antas, equipávamo-nos num balneário e os seniores noutro, havia um corredor e a distância era relativamente curta. E na altura havia o Pepe, o sapateiro que tratava das botas de toda a gente, e por isso íamos cruzando com os seniores e íamos falando. Mas entrar no balneário, equipar com eles, para treinar com eles, foi algo que marcou.

      Nessa altura quem eram as grandes referência do balneário, que impunham mais respeito?
      O João Pinto, que era o capitão, o Jaime Magalhães, o meu ídolo o Madjer ainda lá estava, o Fernando Gomes também. Havia o Semedo, o André, grandes figuras. E eu com 17 aninhos, metia-me no meu canto, não falava com ninguém, as pernas tremiam-me um bocadinho, eles brincavam comigo e eu lá me ia soltando.

      E que tal o Artur Jorge?
      O primeiro treino a que fui era de finalização e eu, como se diz no futebol, levei um arranque descomunal do Artur Jorge. Não me perguntem porquê, porque para mim estava a fazer tudo bem. Hoje percebo, como treinador, que às vezes é preciso dar um abanão e escolhe-se o primeiro que vem; eu se calhar tive o azar de ser o primeiro. Ele provavelmente dá-me esse arranque para acordar os outros todos. Só que, azar meu, foi a mim. De tal forma que cheguei ao Inácio, que era o meu treinador de juniores e disse-lhe: "mister, eu não quero ir mais" [risos]. Hoje eu percebo tudo. Na altura, custou.

      Na passagem para sénior é emprestado ao Penafiel. Estava à espera?
      Acabou a época de juniores, sou campeão nacional, e ficamos um bocadinho sem saber, e agora? O que é que se passa agora? Na altura não havia telemóveis e fiquei um bocadinho naquele impasse. Eu já tinha contrato profissional com o FCP.

      Qual o valor do seu primeiro ordenado?
      O primeiro dinheiro que ganhei no futebol foi no 1.º ano de juniores. 75 contos (375€).

      O que fez com ele?
      Eu dava mais de metade aos meus pais e o resto ficava para mim.

      Não havia nada que quisesse muito comprar?
      Havia uma coisa que eu queria muito, uma mota, e já tinha dinheiro para a comprar mas o meu pai nunca me deixou. Hoje agradeço-lhe.

      Deixa os estudos quando?
      No 10.º ano. Eu reprovei um ano quando fui atropelado. Não era mau aluno, embora não fosse excelente. Mas do 10.º para o 11.º anos começou a preparação para o Mundial de sub-20, em que nós passámos muito tempo em Lisboa, em estágio com o professor Carlos Queiroz - e pronto. Se me perguntarem se conseguia ter conciliado, acho que sim, acho que conseguia ter terminado o 12.º ano, mas foi uma opção. Portanto, deixo os estudos no 2.º ano de juniores do FCP. Optei por aquilo que era mais confortável, mas podia ter conciliado.

      ©Getty / Henri Szwarc

      Quando é chamado pela primeira vez à seleção?
      Imediatamente quando chego ao FCP. Se não me engano o prof. Carlos Queiroz chamou 45 jogadores para estágio, três, quatro dias de treinos; voltámos aos clubes, na chamada seguinte ele chamou 40 ou 38 e foi reduzindo até ter o grupo final de 20 jogadores. Tive o primeiro torneio a sério no Algarve. Resumido, fui chamado a primeira vez aos 16 anos.

      Chega ao FCP com 16 anos, é chamado à seleção, passa a ganhar um ordenado. Não se deslumbrou?
      Não. Nem hoje. Nunca me deslumbrei. Aliás, quem me conhece até diz que eu às vezes deveria ter um bocadinho mais de orgulho e perceber aquilo que conquistei. Curiosamente, durante esta pandemia deu para ver muitos jogos do passado, para ver grandes conquistas. A vida é tão intensa. Ganhas a Liga do Campeões Europeus e passados três dias tens uma final a Taça de Portugal, e depois tem um jogo do campeonato e depois tens uma chamada à seleção para um Europeu... Não tens tempo para parar, pensar, usufruir, festejar. Depois acabas a carreira, começas como treinador... Estás sempre tão ocupado, a seguir a uma grande vitória se calhar vem uma derrota, que não consegues perceber a grandeza das conquistas que fizeste e a dimensão da carreira. Esta pandemia permitiu-me parar, rever e reviver, desculpem a falta de modéstia, a carreira brilhante e os feitos que consegui.

      Voltamos ao final do 2.º ano de júnior e a ida para o Penafiel.
      Entretanto, tive uma proposta do Vila Real, do norte. Tenho uma reunião no Porto, com o presidente, foi a minha primeira reunião sozinho para arranjar clube, e saí da reunião com a sensação de que parecia que me estavam a fazer um favor. Provavelmente fui a essa reunião, porque alguém deve ter falado de mim ao presidente e ele lá me chamou, mas sem saber muito bem quem eu era, porque passados uns dias recebo um telefonema dele a dizer: "diz-me quanto é que queres para vir para cá". Só que entretanto o Joaquim Teixeira ligou-me do Penafiel e decidi ir para lá porque era da I liga. Quando o presidente do Vila Real liga, digo-lhe que já não dá porque já assumi o compromisso com o Penafiel. Começa aí o meu sofrimento como jogador de futebol.

      Sofrimento porquê?
      Por dois motivos. Futebol sénior, a que eu não estava habituado, um clube com condições que não eram iguais às do Porto. E porque pela primeira vez vou para o banco. Eu nunca na vida tinha ido para o banco, não estava habituado.

      Confrontou o treinador por ir para o banco?
      O treinador é muito meu amigo, era o Vítor Manuel, e uma vez ele chegou-se ao pé de mim e disse-me: "Não vais jogar, vai jogar o fulano tal"; "Mas porquê mister?"; "Porque precisamos ganhar"; "Mas se é para dar chutos para a frente eu também consigo"; "Eh pá, não digas isso, eu gosto muito de ti". E gostava. Mas foi um choque para mim. E também os ordenados em atraso, que nunca tinha acontecido.

      Continuava a viver em casa dos pais?
      Sim. Íamos quatro jogadores todos os dias do Porto para Penafiel. Cada semana levava um o carro.

      Já tinha carro nessa altura?
      Tinha. O meu primeiro carro foi um Renault Super 5 TL, preto, com um auto-rádio de gaveta que guardava debaixo do banco e à noite levava para casa para não me roubarem [risos].

      Não ponderou vir embora de Penafiel antes da época acabar?
      Não. Foi difícil, mas foi uma aprendizagem e foi ótimo para crescer como ser humano e como futebolista. Aprender a sofrer porque até à data era tudo um mar de rosas e deu para perceber que na entrada no futebol a sério, profissional, tinha de crescer em várias áreas. No final desse ano temos o campeonato do Mundo de sub-20 (1991) em que sou campeão do Mundo e assinei pelo Marítimo, com contrato com o Porto.

      Não tinha esperança de poder integrar a equipa principal do FCP depois de Penafiel?
      Eu pensava que era complicado. Fiz o campeonato do mundo, com contrato assinado já com o Marítimo, mas com uma cláusula em que, se o Porto me quisesse, o contrato era nulo. Na altura o treinador do FCP, Carlos Alberto Silva, disse: "quero ver o menino". E o menino lá foi fazer a pré-época com o FCP, depois de umas férias fantásticas de campeões do mundo em Ibiza.

      Fale lá dessas férias.
      Éramos 12 jogadores do norte e do sul, do Benfica, Sporting, Porto... A única coisa que posso dizer desses 10 dias em Ibiza é que tudo aquilo que disse há pouco de não gostar de sair à noite, em Ibiza foi tudo ao contrário [risos]. Mas... continuando. Fui fazer a pré-época com o FCP, na altura a metodologia de treino era diferente. Aquilo eram grandes tareias, era correr, correr, correr, correr, e eu sinceramente nunca gostei muito de correr. Até que, passado dez dias de pré-época, chegámos ao estádio das Antas e faz-se o treino conjunto, 11 contra 11. O Carlos Alberto Silva de um lado mete o Aloísio e o Fernando Couto, do outro, mete o Zé Carlos e o Mourato. Eu fiquei de fora. O treino demorou hora e meia, duas horas e nos últimos dez minutos ele lá me mete a jogar. Eu com aquele meu feitio difícil e de puto, acabo o treino, bato na porta do balneário do treinador... É preciso contextualizar isto porque o treinador era daqueles difíceis e numa outra época em que ninguém falava com os treinadores... E perguntei-lhe claramente: "Mister, peço desculpa o atrevimento, mas o mister diz que me quer ver, viu-me 10 dias a correr, na altura em que há jogo, jogo cinco minutos, portanto não me parece que o mister me queira ver". Ele ficou muito chateado e disse (faz sotaque brasileiro): "Não está contente?"; "Não, não estou contente"; "Já tem clube?"; "Sim, já tenho clube"; "Então pode ir, boa sorte." [risos] E fui para o Marítimo.

      Foi zangado?
      Não. Eu achava que era fundamental naquela altura da minha carreira jogar. Sentia que era quase impossível jogar no Porto e precisava de dar continuidade ao meu crescimento enquanto jogador, não podia parar, tinha de jogar. No Marítimo o treinador era o Paulo Autuori e sabia que, com maior ou menor dificuldade, iria jogar.

      ©Getty / MICHEL KRAKOWSKI

      Foi para a Madeira sozinho?
      Ligaram-me do Marítimo a dizer que tinha um voo marcado à tarde e eu, sozinho em casa, deixei um bilhete aos meus pais a dizer: "mãe, pai, fui para a Madeira. Quando chegar lá, ligo-vos" [risos]. Fui com o Brassard, que era guarda-redes, também tinha sido campeão do mundo comigo. Ficámos a viver juntos na Madeira.

      Iam comer todos os dias fora ou cozinhava?
      Foi aí que comecei a cozinhar. Eu ligava à minha mãe para perguntar como é que se fazia. Apesar de já termos um bom ordenado, sempre tive aquele cuidado de não almoçar e jantar todos os dias fora porque era uma parvoíce e então comecei a desenvolver uma das minhas grandes paixões hoje em dia que é a cozinha. Hoje, em minha casa também é uma democracia, sou eu que cozinho todos os dias [risos]. Gosto de ir às compras. Como sabem estou fora há muitos anos enquanto treinador e, quando estamos fora, normalmente as mulheres não estão, somos só homens e eu cozinho para eles todos. Mais. Saio do treino de manhã, passo no supermercado, vejo na hora o que quero e o que vou fazer para o jantar e isso descontrai-me. Não sei se é uma terapia, mas vejo programas culinários para tirar ideias e fazer coisas novas e gosto muito.

      Qual é a sua especialidade?
      Só há uma coisa que não me sai muito bem: a doçaria. Faço tripas à moda do Porto, pratos típicos do norte, mas toda a gente diz que a minha especialidade é o cabritinho assado no forno da lenha.

      Gostou da Madeira?
      Gostei muito mesmo. Eu e o Brassard chegámos com bom tempo, bom ordenado, no início íamos almoçar todos os dias à marina, dava até sensação de férias. Adorei o Paulo Autuori. Como treinador, muito bom, e como ser humano das melhores pessoas com quem já tive o prazer de conviver. A época desportiva também correu bem, o presidente era espetacular, de tal forma que, no último jogo, que ganhámos em casa ao Torreense, eu já tinha acordo para ficar mais um ano. Mas aí o Porto já não me deixou e voltei precisamente com o mesmo treinador com quem tinha tido aquela conversa menos agradável.

      O seu primeiro jogo como sénior pelo FCP é com o Estoril e tem história.
      Sim, em Coimbra. Acho que o Fernando e o Aloísio estavam castigados e joguei eu e o Zé Carlos. Ganhámos 1-0 e fui eu quem marcou o golo. A seguir fomos jogar a Belém e passei de titular para 17.º jogador.

      Voltou a falar com o Carlos Alberto Silva?
      Não [risos]. Era difícil, havia o Fernando e o Aloísio, eu era um miúdo. Eu não me queixo dos treinadores, eu lutei sempre muito pelo meu espaço, mas tenho consciência de quem estava a jogar naquela posição, que eu achava que devia ser minha. Eram dois jogadores de grande nível.

      Quando regressa definitivamente ao Porto passa a ser o rapaz da chamuças. Aliás há uma história com chamuças que vou pedir-lhe para contar mais uma vez.
      [risos]. Isso é porque ao sábado havia o treino, banho e massagens e saíamos por volta do meio dia para estágio. Almoçávamos em estágio, tínhamos de descansar à tarde e no dia a seguir jogávamos. Eu era um miúdo e o João Pinto, o Jaime Magalhães, o André, essa malta dizia: "Miúdo, vais ali à Primazia, já lá está feita a encomenda e trazes". E fui, obviamente, porque eles mandavam e eu obedecia, lá está, a tal democracia. E eu fui, com tempo. Meti as chamuças no carro, estava a chegar às Antas e havia um hotel ali perto onde tinha acabado de chegar o Nacional da Madeira... Resultado: estavam a tirar as malas e todo o equipamento do autocarro, o que provoca trânsito e eu começo a stressar. Quando cheguei ao Parque das Antas, estavam todos, jogadores, treinadores, já dentro do autocarro à minha espera. E eu só tinha duas hipóteses. Ou deixava as coisas no carro e entrava, ou assumia o risco. E pensei: "não os posso deixar ficar mal". Mas também me passou pela cabeça: "se houver alguma coisa com o treinador, eles vão-me defender." E entrei no autocarro a pedir desculpa pelo atraso e eles lá atrás a rirem e a bater palmas. Moral da história, quando passas com um saco de chamuças, passado cinco segundos veio aquele cheiro intenso e típico [risos]. Mas não aconteceu nada e ganhei pontos ali porque viram que afinal o "Bicho" era de confiança.

      A alcunha de "Bicho" nasce também nessa altura.
      Sim, foi o Fernando Couto que começou por brincadeira, pela forma de eu jogar. Ainda hoje mais de 90% dos meus ex-colegas, companheiros e amigos me chamam por "Bicho" e não por Jorge.

      ©Ben Radford / Getty Images

      Entretanto é logo campeão pelo FCP.
      Mas a época não me correu muito bem porque me lesionei. Fiz uma rotura do ligamento cruzado anterior. Eu tive três lesões iguais. A primeira foi no direito e as outras duas no esquerdo. A recuperação normal de um jogador de futebol é na ordem dos seis meses, num cidadão comum são nove, e eu em todas as lesões demorei três meses, três meses e meio no máximo, para voltar a jogar. Passados três meses já estava a competir, o que não é de todo normal, mas também não sei explicar muito bem o porquê.

      Como faz a primeira lesão?
      Era um jogo da seleção nacional, no estádio da Luz, Portugal-Escócia, ganhámos 5-0. Na primeira parte ainda, num lance com o McCoist, ele vai receber a bola no pé, eu tento antecipar-me ele protege com o corpo, o meu pé fica preso e faço a rotura do cruzado, mas ao intervalo sou visto pelo médico que me pergunta se dá para jogar. Joguei o jogo todo, no final do jogo venho embora para cima, com o Fernando Couto e o Semedo, deixamos o Semedo em Ovar e, quando saio do carro para o Semedo sair, já não conseguia andar, tinha o joelho inchado. Chego ao Porto faço logo a ressonância e sou operado no dia a seguir.

      Na época seguinte chega o Ivic. Muito diferente do Carlos Alberto Silva, certo?
      Sim, o Ivic muito próximo dos jogadores. Lembro-me que ele se sentava ao pé de mim, puxava-me a perna, punha a perna em cima do colo dele, começava a dar-me beijinhos no joelho e dizia: "Para mim és o melhor stopper da Europa". Eu dizia-lhe: "pois mister eu sou o melhor da Europa e os outros dois são os melhores do mundo", porque eu não jogava. Foi difícil porque era titular da seleção e jogava muito pouco no Porto.

      Quando chega da Madeira ainda foi viver para casa dos pais ou entretanto casa?
      Fui viver para casa dos meus pais ainda. Eu casei relativamente cedo, no segundo ano do Porto, com 21/22 anos. Mas não vou falar sobre a minha vida pessoal, o meu casamento e a minha ex-mulher.

      É pai pela primeira vez quando?
      O David nasceu em 1994. Ele nasceu no hospital, mas teve de ir para a maternidade porque precisou de incubadora e eu no dia a seguir tinha de ir para Lisboa; ainda passei de manhã na maternidade, para vê-lo, porque a mãe ficou no hospital e o filho é que foi para a maternidade. Depois só o vi passados dois dias porque tive de ir jogar.

      O Ivic vai embora e chega Bobby Robson. Como foi?
      Lembro-me do primeiro treino que ele faz no campo de treinos no estádio das Antas, treino aberto. Ele muito ativo. Nós até pensámos: "isto é para inglês ver" [risos]. Mas não. Ele tinha uma dinâmica, uma vontade e uma paixão pelo treino incríveis. E pelo jogo. Foi um treinador diferente que me marcou muito pela positiva.

      São campeões e ganham a Supertaça na segunda época de Bobby Robson no FCP, mas com um início algo conturbado.
      O Bobby Robson fica doente no início da segunda época; entretanto ficam o Inácio, que era o n.º2, e Mourinho, que a era a pessoa de confiança do Robson. Houve ali um choque de lideranças entre o Inácio e o Mourinho. Pelo menos era aquilo que nós jogadores pensávamos, não sei se realmente foi assim ou não. Eu fui jogando e só quando o Robson regressa é que começo a jogar com regularidade. Foi complicado porque o barco ficou sem comandante momentaneamente, sem o Robson.

      Entretanto, começa a assumir o balneário e a praxar os jogadores que chegam, não é?
      [Risos] Faz parte. Nós tínhamos o hall da entrada que tinha umas escadas para o departamento médico e normalmente era sempre eu que pegava num dos novos e o sentava ao meu lado. Começávamos todos a bater palmas e a cantar o nome do Paulinho Santos, e quando isso começava, eu levantava-me, dizia “vou só ali buscar as caneleiras”, e saía. O jogador ficava isolado e na parte de cima o Paulinho Santos agarrava num balde com água, jornais, Betadine, com tudo o que houvesse no departamento médico, atirava para cá para baixo para cima da cabeça dele e praxávamos os jogadores assim.

      A sua liderança foi sempre algo evidente e muito visível tanto no campo como no balneário?
      Acho que sim. A liderança é algo natural, ou és líder ou não és líder. Hoje até há cursos e há seguramente técnicas de liderança, mas na altura não havia nada disso. Mas mesmo com esses cursos, podes melhorar, mas não és um líder nato. Ou és ou não és. Acho que as coisas comigo foram naturais. Quando o João abandona a sua carreira desportiva eu passo para capitão, havendo jogadores com mais anos de casa do que eu. O Aloísio, por exemplo, ou o Domingos. E por algum motivo decidiram que eu é que devia ser o capitão. Claro que foi um orgulho, mas nunca me senti naquele Porto, o capitão, porque sempre tive o apoio de vários jogadores. Não era um líder isolado, tive um apoio sempre de todos, do Vítor Baía, do Paulinho, do Rui Jorge, de tantos, que era fácil a minha tarefa.

      Sofre outra lesão.
      Sim. Fomos jogar com o Sporting em casa, estávamos a perda e faço o golo do empate e havendo empate havia 2.ª mão. Nós vamos jogar a Alvalade a 2.ª mão. Foi um lance perfeitamente parvo com o Pedro Barbosa, vamos os dois juntos desde quase o meio-campo. Eu a acompanhar o lance, até que o Pedro Barbosa chega à linha de fundo, vai para cruzar, eu estou com a perna direita apoiada e com a esquerda no ar a acompanhar a bola para que se o Pedro cruzasse eu interceptasse a bola. Entretanto o Pedro deixa a bola sair, eu na altura em que apoio a perna esquerda ouvi dois estalos e aí sim, já não andei mais. É uma rotura do ligamento cruzado que me tira do Europeu de 1996 de Inglaterra, cujo selecionador era o António Oliveira.

      António Oliveira que entra no FCP na época seguinte. O que pode dizer sobre ele?
      É uma figura. Eu gosto muito dele. Ele tinha uma capacidade incrível. Eu não vou falar aqui dos aspectos técnico-táticos porque é tão bom ou melhor do que todos os outros, mas da capacidade que ele tinha de entrar nas nossas cabeças e de nos motivar. Os jogos com o Oliveira… Ele tinha sempre algo que nos fazia ir para o campo com uma força... Lembro-me que antes de um FCP-Benfica ou Benfica-FCP, a conversa que tive com ele… Eu entrei naquele jogo e, digo sinceramente, se o meu pai vestisse de vermelho, acho que ia... Nós íamos para o campo e se tivéssemos de morrer em campo, morríamos em campo, entre aspas, claro. Mas é para se perceber a forma como ele levava a nossa motivação ao expoente máximo. Nós dávamos o que tínhamos e o que não tínhamos. A forma como ele falava, ele para chegar do Porto a Lisboa ele não ia pela autoestrada ele ia a Faro, ia a Bragança para chegar a Lisboa. Eram conversas demoradas, mas daquelas conversas emotivas, que nos faziam ir buscar forças onde nós pensávamos que não tínhamos.

      ©Getty / Shaun Botterill

      E conseguem finalmente o tão desejado tricampeonato com o Oliveira.
      Sim, finalmente conseguimos um dos grandes sonhos do nosso presidente. Foi algo que nunca tínhamos conseguido, que tivemos muito próximo de conseguir e falhámos de uma forma drástica e dramática, e acho que o “tri” era aquele clique que o Porto precisava para se libertar.

      Falou de Pinto da Costa pela primeira vez nesta entrevista. Ele ia muitas vezes ao balneário?
      Não. Mas ele não ia lá só por causa de coisas más, quando ia, era porque algo de importante estava para acontecer ou tinha acontecido. Ele não ia lá só para nos dizer bom dia. Ia sempre com uma mensagem forte, não se desgastava.

      Estava a dizer que a conquista do “tri” foi um marco muito importante na história do FCP...
      Acho que o “tri” era o grande bloqueio. O Porto numa centena de anos de história teve sempre bloqueado pelo "tri". Tanto que o desbloqueio levou-nos ao tetra e ao penta e acho que poderíamos ter feito muito mais ainda. Podíamos ter alargado mais esta história.

      Na altura em que se torna capitão já liderava o famoso "U" do autocarro?
      Eu tive de conquistar o meu espaço. As histórias que o Cândido Costa e por aí fora contam... Eu tive de conquistar o meu espaço. Eu era o miúdo das chamuças, mas isto é como a água do mar, se ela vai depois volta. Portanto, o que me fizeram, eu aprendi com isso, sofri e depois fiz aos outros. E o meu espaço no autocarro tive de o conquistar, era por direito do João Pinto e depois passou para mim.

      Tinha noção de que os jogadores mais novos olhavam para si com veneração, respeito e quem sabe às vezes até com medo? Brincava com isso?
      Sim, lembro-me do Ivanildo, Cândido Costa, Hélder Barbosa, eu provoca-os mesmo. Mas os outros usavam-me também, porque os miúdos chegavam e eles dizem, "senta aí" e eles sentavam-se precisamente no meu lugar [risos]. Quando chegava, como devem compreender [risos]... perguntava: "Não sentes nada por baixo? Vá, sai, que esse lugar tem dono". Eles saíam, o autocarro todo a rir. Mas se eu fosse o primeiro a chegar ao autocarro também fazia isso por exemplo com o lugar do Paulinho Santos ou do Baía, porque eles tinham a mesma reação.

      O seu estatuto dentro do clube era tal que chegou a ter no balneário uma casa de banho só para si…
      ... Não é verdade [risos]. É verdade que tinha lá a minha fotografia.

      E é verdade que se apanhasse alguém lá dentro não ficava muito tempo?
      Não, não ficava não [risos]. Eram as minhas rotinas. O Ricardo, que era técnico de equipamento, todos os dias me levava os jornais. Eu chegava ao treino e gostava de estar ali, porque lia os jornais todos. Demorava tempo dentro daquela casa de banho porque estava tranquilo enquanto decorria aquela azáfama da chegada dos outros. Ali era o meu poiso. Mas raramente aconteceu ter de tirar de lá alguém porque normalmente era dos primeiros a chegar. Era algo cultural, eles sabiam que aquele era o meu espaço e respeitavam. E acho que depois de sair do Porto, durante pelo menos mais uma época ou duas, continuou lá a minha fotografia. Mas aí já podiam usar [risos].

      Qual foi o jogador novo que mais chateou?
      Os primeiros nomes que me vêm à cabeça são o Ivanildo e o Hélder Barbosa. Principalmente, porque o Ivanildo era namorado da irmã do Hélder Barbosa, eles jogavam os dois juntos e eu metia-me muito com eles por causa disso. O Paulo Machado também. Eu achava que era uma forma de os integrar. Sempre tive a preocupação de integrar os miúdos de uma forma mais natural e mais rápida para que eles se sentissem em casa.

      Outra coisa que dizem de si é que dentro de campo estava sempre a barafustar. É verdade?
      É. E não só. Eu falava muito com os adversários. Por exemplo, o Nuno Gomes, gosto muito dele, somos amigos pessoais, fomos adversários e fiz maldades ao Nuno como ele me fez a mim, eu de uma forma e ele de outra. Como o conhecia e à família, começava a perguntar com o jogo a decorrer: "então a família está bem? Os miúdos estão bem? Eh pá, olha que o não sei quantos disse-me...", isto com o jogo a decorrer. A ele e a outros fazia isto, era uma forma de os ter perto de mim, de os controlar e distrair do essencial [risos].

      Entretanto, há o caso com George Weah. O que aconteceu em concreto?
      Fazemos o jogo em Milão, que ganhámos, ele faz um golo e eu piso-lhe a mão... Eu já sei que muita gente acha que foi propositado por isso nem me vou justificar. Eu estou de costas, nem vale a pena estar a justificar-me, piso-lhe a mão, na altura podia usar-se anéis, ele usava uns cachuchos. e partiu o dedo. Sinceramente, não me apercebi sequer que ele se tinha lesionado. Eu não escondo que o Weah era um dos melhores jogadores a nível mundial, era forte, rápido, tecnicamente muito bom, pé esquerdo, pé direito, portanto, dentro daquilo que era permitido usei todas as minhas armas para o parar e claramente há agressividade e lances mais rijos. Mas isto durante o jogo. Tudo o que depois ele vem justificar são histórias, aquilo que digo é verdade, assumo que fui agressivo, no limite, ou talvez até a roçar um bocadinho mais do que o limite para ter o meu sucesso em termos desportivos. No segundo jogo, em casa, conseguimos o apuramento e naturalmente ficamos ali dois, quatro minutos a festejar com os adeptos e quando entro no túnel, a festejar, às tantas sinto movimento ao meu lado direito e a reação natural é olhar; quando olhei levei uma cabeçada, partiu-me o nariz, caí. Tudo bem. Se me perguntarem já o perdoaste? Não sou ninguém para perdoar. Se esqueci? Nunca na vida irei esquecer, mas só quando me fazem a pergunta é que penso nisso. Se o cumprimento se o vir na rua? Provavelmente não, porque ele não teve a dignidade de assumir que errou e que foi cobarde. Bate e foge. Hoje é o presidente de uma república, podia ser o arruma-carros, com todo o respeito pelos arruma-carros, não é por isso que o respeito mais ou menos. Mas não deixa de ter tido um ato que o transformou em cobarde.

      ©Getty / ullstein bild

      Vamos para o ano do pentacampeonato em 1998/99, com Fernando Santos, outra grande figura do futebol português. Apesar daquele ar fechado consta que tem um grande coração.
      Enorme, enorme. O Fernando Santos no início meteu-nos algum receio, para não utilizar a palavra medo.

      Porquê?
      Mal disposto. Treinos violentos. Entretanto fomos para uma pré-época em Viseu em que, meu Deus, quase me deu vontade de desistir da carreira porque os treinos eram a rasgar de início ao fim. Fisicamente muito agressivos. Mas entretanto fomos conhecendo. E como capitão de equipa, acabamos por ter uma ligação mais próxima dos treinadores porque fazemos esta ponte, chegava a estar duas, três horas no final do treino a falar com o Fernando Santos, porque ele gosta de falar. Fui conhecendo o Fernando Santos, homem, que depois se deu a conhecer a toda a gente. E realmente é de uma honestidade, de uns princípios; não o conhecendo na perfeição como é evidente, posso dizer que é o exemplo daquilo que deve ser um ser humano.

      O pentacampeonato foi especial também ou já foi naquela "é mais um"?
      É mais um. É mais um, muito especial. Acho que o grande momento foi o “tri”. O “penta” entrou para a história porque sabíamos que dificilmente algum clube iria ultrapassar-nos. Felizmente, desculpem mas tenho de dizer isto, há dois ou três anos houve uma equipa que falhou o “penta” [risos]. Por isso o “penta” não foi uma conquista menor.

      Pode dizer-se que a época seguinte, 1999/2000, é o fim de uma era e o início de outra?
      Sim. Quando as coisas correm menos bem temos sempre a tendência de justificar ou de encontrar culpados. Se há culpados eu sou o primeiro culpado, como capitão da equipa deveria ter feito mais. A direção, equipa técnica, acho que todos achamos que com maior ou menor dificuldade íamos vencer novamente porque era tão natural. Não tivemos essa consciência, de que havia equipas também com valor. Mas custa-me muito, porque tínhamos equipa para mais, deveríamos ter feito mais e poderíamos ter alargado ainda mais a história de campeonatos consecutivos. Mas infelizmente acho que todos nós embandeiramos um bocadinho em arco e não tivemos consciência do quanto nos custou ganhar os cinco campeonatos seguidos.

      Na época seguinte chegam muitos brasileiros ao FCP. Recorda-se?
      Sim, foi uma época claramente de más apostas, de um grupo de trabalho não tão unido em que aconteceu o que era expectável.

      Não eram jogadores à Porto?
      Nós tínhamos jogadores que até tinham qualidade, mas que não... Quando se fala de jogador à Porto, isso existe. Pelo menos na minha altura existia. E nessa época temos bons jogadores, mas não jogadores à Porto.

      O que é um jogador à Porto?
      É um jogador que está disposto a pôr o Porto acima de tudo e de todos, acima dele próprio. Claro que todos nós temos ambição pessoal, mas tens de perceber que os teus objetivos pessoais só os consegues se coletivamente tiveres sucesso. E foi um ano em que havia grupo e subgrupos, havia muita divisão e acho que não se teve o cuidado de perceber que dois ou três jogadores que venham de fora tu consegues facilmente adaptá-los, mas mais...

      Chegou a falar com Fernando Santos e Pinto da Costa sobre isso?
      Não antes, mas depois porque também eu teria de fazer análises e passar o meu feedback. Não me lembro em que altura ou o conteúdo, mas seguramente que eu próprio transmiti a minha opinião a quem de direito.

      Eles perceberam que se calhar não fizeram as melhores apostas?
      Sim, perceberam. Mas são questões complicadas porque há contratos a cumprir e demoramos dois anos a tentar voltar àquilo que era o natural do Porto e conseguimos.

      É verdade que um dos jogadores que mais o irritava em campo era o Jardel?
      Era. Era um dos que mais alegrias me dava, mas era daqueles que mais me irritava porque...ele era estranho, era um fora de série. Até nos treinos às vezes dizia-lhe: "Mário, mexe-te um bocadinho". Eu a falar com ele, a pedir-lhe e ele a marcar-me golos. E eu super focado no treino, a bola bate na barra, tu olhas para a barra, a bola vem para trás e ele está sozinho a fazer o golo; estás ali super focado, e ele, golos atrás de golos. Realmente o Jardel era um fenómeno. Eu irritava-me com ele e ele no final vinha (faz sotaque brasileiro): "É bicho, olha lá, mais dois". E eu tinha de me calar, há coisas em que perdes a razão toda [risos].

      ©Getty / Phil Walter - EMPICS

      Na época seguinte vem o Otávio Machado, com quem as coisas não correram bem, particularmente consigo. A animosidade é logo desde início?
      Eu não vou perder muito tempo a falar disso porque foram efetivamente os piores seis meses da minha carreira desportiva. Não fujo aos assuntos mas não gosto de promover coisas ou pessoas que acho que não devo. Foram os piores seis meses da minha carreira que me obrigaram, e a palavra é mesmo obrigar, a sair de casa. Curiosamente, sou um homem de fé e acredito que nada acontece por acaso, e proporcionou-me seis meses fantásticos num campeonato fabuloso, em Inglaterra. Mas a verdade é que tive propostas de outros clubes, como do Mónaco, por exemplo, com dinheiro a sério em cima da mesa e recusei sempre porque estava bem, estava em casa, sentia-me importante, era capitão de equipa, estava no clube do coração. Tinha tido várias oportunidades, nunca quis sair e vi-me obrigado a sair. É verdade que adorei Inglaterra, mas os primeiros tempos foram difíceis.

      Porquê?
      Lembro-me que ia com o empresário, o Amadeu Paixão, quando aterrei em Londres pensei: "O que é que eu estou aqui a fazer?". Arranjei todas as desculpas para dar o dito pelo não dito. Na reunião que tive com o presidente e o treinador do Charlton uma das coisas que perguntei foi: "Meus amigos, como é que é o natal?". Eles disseram que jogávamos dia 22 e 26 de dezembro. Disse-lhes: "tudo bem, mas eu tenho de ir passar o natal a casa. Se não for passar o natal a casa digam-me que vou-me já embora". Isto só para se ver o ridículo e a minha tentativa desesperada de ver se eles me diziam que não podia e eu assim poder vir embora. Mas deram-me o dia 23 e no dia 25 apanhei o último avião da noite do Porto para Londres para jogar no dia 26 às 11 da manhã com o Fulham.

      Adaptou-se bem ao futebol inglês?
      Adaptei-me. Ainda tenho algumas garrafas de champanhe, porque no final do jogo o "man of the match" levava uma garrafa de champanhe. Fiquei nos três melhores estrangeiros de sempre da história do Charlton. Aquele era um campeonato à minha imagem. Qualquer carrinho, qualquer lance mais disputado no ar, para os adeptos ingleses era como se fosse marcar um golo e eu era como peixinho na água. Foram seis meses fantásticos.

      Foi pai novamente.
      Sim, tinha sido pai há dois meses do Guilherme quando fui para Londres. Foi complicado.

      Era um empréstimo do FCP ao Charlton com opção de compra, certo?
      Sim, que eles quiseram acionar, mas é quando o Mourinho me liga a perguntar se eu gostava de voltar.

      O que é que ele lhe disse que o convenceu a regressar ao Porto?
      Eu já conhecia o Mourinho e quando me liga disse-lhe: "Zé, conheces-me bem, sabes a minha vida, sabes que é que eu quero, sabes o que sinto pelo Porto e vou mas não vou passar pelo que passei, se for para isso, deixa-me ficar em Inglaterra que estou bem. Vou mas quero ser tratado de forma imparcial". Ele garantiu-me que queria que eu fosse. E fui. Mais uma vez perdi dinheiro, porque o contrato que me ofereciam era claramente superior, era a entrada definitiva no campeonato inglês e depois do Charlton iria para um West Ham, um Aston Villa e teria acabado a minha carreira ali com mais umas libras no bolso. Mas o coração, como sempre, falou mais alto.

      ©Getty / Eddy LEMAISTRE

      Perdeu em dinheiro, mas ganhou a melhor época da sua vida provavelmente, porque ganha logo a Taça UEFA.
      Sim. É como digo, nada acontece por acaso. Eu não sou de dramas, eu confio. E dou muitas vezes este exemplo: em termos de lesões devo ter sido o jogador mais castigado de Portugal; e, de cada vez que me lesionava, renovava contrato, portanto... Sinceramente acho que as coisas acontecem porque têm de acontecer e nós temos é de ter força para dar a volta por cima.

      Quando regressa ao FCP fica logo de novo com a braçadeira de capitão. Estava à espera?
      Não, sinceramente não estava à espera. Quando vamos para a reunião nem sabíamos exatamente qual era o tema. Vamos tranquilos e quando é abordado esse tema o Vítor Baía com elegância, com inteligência e acima de tudo com humildade, porque aquilo iria pôr os jogadores numa situação complicada de terem de votar, de terem de decidir entre um e outro, pede a palavra e diz que achava que por justiça eu devia ser o capitão. Assim foi. A verdade é que eu era o capitão, mas o Vítor era o meu braço direito, esquerdo, eu não tomava decisões sozinho, sem o Vítor por exemplo, sem o Paulinho Santos. E acho que foi ali o princípio de um grande grupo de trabalho. Havia muitos jogadores novos, muitos mesmo.

      Isso assustou-o?
      Sim, quando comecei a ver as contratações estava assustado. Porque não sabia o potencial que eles tinham. Estamos a falar de Derlei, Paulo Ferreira, Tiago, Nuno Valente, Maniche, que vinha do Benfica, eram jogadores que sinceramente desconhecia o potencial que estava dentro deles. E que era muito.

      Eram todos jogadores à Porto?
      Eram todos jogadores à Porto. Foram todos escolhidos. Temos de valorizar o Mourinho porque penso que foi tudo ideia dele ou do presidente também, os dois em conjunto, mas a verdade é que conseguimos fazer ali um grupo de grande qualidade, de humanidade, de grande complexidade, foram realmente dois anos lindos, lindos, lindos, em todos os sentidos.

      Sentiu-se renascer, no sentido que é uma espécie de regresso a casa do filho pródigo?
      Foi isso tudo. Voltei a casa.

      Também para si a conquista da Taça UEFA marcou mais do que a Liga dos Campeões no ano seguinte?
      Sem dúvida, foi a mais marcante, por ser a nossa primeira internacional. Foi um bocadinho como o “tri”, foi aquela que deu o clique, que nos abriu os olhos e fez pensar “afinal nós podemos”. E depois por ter sido em Sevilha, pelo jogo em sim, pelo ambiente, foi realmente fantástico.

      ©Getty / Tony Marshall - EMPICS

      O Mourinho surpreendeu-o de alguma forma, no sentido em que é diferente tê-lo como adjunto uns anos antes e depois como treinador?
      Surpreendeu-me. Mas, entretanto, como nós temos cabeça não só para deixar crescer cabelo, isto fez-me pensar que muito daquilo que fazíamos com o Bobby Robson tinha já o dedo do Mourinho, que não era visível na altura para nós jogadores. Mas foi uma surpresa, claro, agradável.

      Essa primeira época com Mourinho há um episódio marcante, no jogo com o Belenenses, em que, como disse Mourinho, o "Bicho" acabou por fazer o trabalho sujo dele, ao intervalo.
      Sim, era um adversário com belíssimas relações com o Porto, mas que nos últimos anos e nos últimos jogos criava-nos muitos problemas. Era uma fase importante do campeonato e nós estávamos a perder. Sabem aquele jogo em que entram as camisolas e os jogadores não estão lá? Em que nada sai bem e parece que estamos todos a dormir? Eu estava revoltadíssimo, porque era um jogo importante numa fase crucial e porque era o Belenenses novamente a criar problemas. Fui o primeiro a chegar ao balneário no intervalo e não me contive, rebentei, estava de tal forma revoltado... E o Mourinho seguramente ouviu-me a falar e pensou: "O Bicho está a fazer aquilo que eu iria fazer, e bem, portanto deixa-o fazer". Eu lá me calei, ele entrou e só se limitou a dizer o que íamos fazer do ponto de vista táctico. E depois, lá está, tive a sorte e a felicidade de fazer dois golos nesse jogo. Mais uma vez, nada acontece por acaso.

      Outra coisa que já foi repetida muitas vezes é que o Mourinho parecia que sabia tudo o que ia acontecer e que a equipa estava com níveis de confiança absolutamente fora do normal. É assim?
      Sim, logo nessa primeira época de Mourinho, fazemos o estágio em Saint-Etiénne e já vimos do estágio a jogar com uma confiança grande. Depois fomos ganhando. Logo nos primeiros 10, 12 jogos do campeonato tínhamos só vitórias e um ou dois empates. E, na Liga Europa, fazíamos vitórias em casa por 5 e 6, as coisas surgiam naturalmente. Tenho um exemplo com ele: íamos jogar contra o Benfica e fizemos um treino conjunto de preparação para o jogo. Na equipa que estava a fazer de Benfica ele meteu dois ponta de lança. Virei-me para ele: "Ó mister, o Benfica não gosta com dois ponta de lança, joga com um e outro por trás". E ele disse: "Ó Bicho, isso é como eles começam. Mas quando estão a perder eles metem dois e como nós vamos começar logo a ganhar...". E não é que aconteceu isso? [risos]. Começa o jogo, estamos a ganhar e o Benfica muda para 4x4x2, com dois ponta de lança. E nós estávamos mais do que preparados como devíamos defender contra dois ponta de lança. Ele fazia isto já a pensar que alguém vai chamar a atenção e ele aproveita e dá logo três, quatro exemplos de jogo.

      Recorda-se de algum episódio do Mourinho que lhe tenha causado maior surpresa?
      Há vários. O jogo em casa com o Panathinaikos, em que perdemos e ele tem perante os sócios aquela atitude: "calma, calma, que só estamos no intervalo, vamos lá ganhar". E fomos lá ganhar. Mas, nomeadamente, quando estávamos todos a assistir ao sorteio da Liga dos Campeões e sai-nos o Manchester United e ele começa a fazer uma grande festa: "até que enfim sai uma equipa ao nosso nível". E nós olhamos: "este gajo está maluco" [risos]. O Mourinho é isto. Se calhar por dentro dizia "porra!", mas a mensagem dele era sempre positiva. Sempre.

      No segundo ano de Mourinho estavam confiantes que iam ganhar a Liga dos Campeões desde o início?
      Com todo o respeito, o segundo ano foi no automático. Venham eles. Andávamos no automático. Foi mais do mesmo, não sei se com a mesma qualidade de jogo, porque acho que no primeiro ano tínhamos muita qualidade de jogo. Tivemos um ano de aprendizagem e no segundo ano foi no automático, era fácil. Mas era mesmo. Parece ridículo, mas era fácil. Se me perguntarem, mas pensavas que ias ganhar a Liga dos Campeões? Não. Não pensava como era evidente porque tínhamos equipas que tinham um orçamento 10, 15 vezes superior ao nosso, com os melhores do mundo. Mas não era um objetivo ganhar a Liga dos Campeões, era um sonho. As coisas foram acontecendo até que chegou uma altura em que ..."eh pá, se calhar isto vai dar". E deu.

      ©Getty / MIGUEL RIOPA

      Tudo muda com a saída do Mourinho.
      Sai Mourinho, saem muitos jogadores, ficam jogadores que queriam ter saído. Vários dos jogadores que ficaram não ficaram muitos felizes. Alguns tinham começado a ganhar dinheiro há pouco tempo, tinham uma oportunidade de ir ganhar muito dinheiro e nós temos que ser compreensivos e não pensar que toda a gente tem de jogar só pelo coração, porque quando se acaba uma carreira temos mais 40, 50 anos de vida pela frente. Alguns jogadores que ficaram desconfortáveis e houve alguns problemas, porque deixaram sair o A e não deixar sair o B.

      Como se posicionava nessa altura?
      Eu estava tranquilo. Estava em casa, já tinha saído, tinha voltado. Estava feliz, não queria sair. Falava com alguns deles, ouvia-os e, sinceramente, como capitão de equipa, dizia-lhes coisas que eu próprio não achava. Tentava fazê-los ver que era mais um ano aqui, que depois para o ano saíam seguramente, quando eu próprio sabia que se calhar aquela oportunidade não iria voltar a acontecer. Mas eu tinha que tentar motivar os jogadores todos e eram alguns que não estavam felizes. Depois há o papel dos empresários no meio disto tudo. Não é fácil. E isto não é uma crítica, porque se eu tivesse nessa altura 25 ou 26 anos e se tivesse um empresário que constantemente me chateasse a cabeça, provavelmente também queria sair. É a ambição natural das pessoas que temos de compreender. Foi um ano complicado. O Brasil que é um dos melhores mercados, tinha três jogadores a bombar, o Diego, o Luís Fabiano e o Robinho, dois deles vieram para o Porto, o Robinho foi para o Real Madrid. Ou seja, fomos buscar jogadores de grande qualidade que tiveram dificuldade em adaptar-se num contexto diferente porque não vieram para acrescentar, vieram para serem as figuras, vieram com um peso muito grande e sem tempo de adaptação.

      Também não ajudou o facto de terem tido três treinadores.
      Sim, começou logo no início com o Del Neri, fez a pré-época e quando chegamos ele vai passar três dias a casa em Itália e já não volta.

      Porquê? As coisas não correram bem na pré-época?
      Ninguém estava muito satisfeito com a metodologia de treinos que era muito diferente daquilo a que estávamos habituados. Treinador italiano que diferenciava completamente a parte técnico-táctica da parte física. Quando era sem bola, era sem bola, eram tareias.

      E o Victor Fernandez?
      Bom treinador, mas algumas dificuldades de adaptação também, alguma falta de pulso. E depois acaba por vir o Couceiro já numa fase complicadíssima, tentar solucionar aquilo que já não tinha solução. Só não foi uma época para esquecer porque ganhámos a Taça Intercontinental.

      Quando chegou o fim dessa época o que lhe passava pela cabeça? Achava que estava na hora de pendurar as botas?
      Eu achava que ainda tinha capacidade e que era muito melhor do que os outros [risos]. E é quando vem o Co Adriaanse, que eu senti logo de início que se calhar as coisas não iriam correr assim tão bem para o meu lado.

      Entrou em choque com ele?
      Não. Mas foi o treinador que acabou com a minha carreira, entre aspas. Mas não posso falar mal dele, nem falo, porque foi honesto. Acaba a pré-época, ele manda-nos todos para o quarto e disse: "A partir de agora vou chamar-vos porque não posso ficar com os jogadores todos e vou explicar-vos o porquê das coisas". Nós fomos para os quartos e batíamos à porta um dos outros, e cada vez que um abria a porta, desatávamos a rir. Até que decidi ir descansar um bocadinho. E batem à minha porta. Abro a porta, está o adjunto dele e o Rui Barros. Pergunto o que é que se passa e ele dizem: "o mister quer falar contigo". Fui-me calçar e pensei: "Ele não fala português, eu sou capitão, falo inglês, falo francês, deve ser para o ajudar a traduzir alguma coisa". E vamos a caminhar e tudo muito calado. Viro-me para o Rui Barros: "Ó baixinho, vou ser dispensado?". E ele faz aquela carinha como quem diz, "pois". Chego lá abaixo à sala e ele disse-me: "Jorge, o meu sistema é este. Para a tua posição tenho o Pepe, o Ricardo Costa, o Pedro Emanuel e o Bruno Alves, portanto tu és a minha quinta opção"; "É para me ir embora, não é?"; "Não, não, não, calma, calma. Tu és um jogador que ao contrário de todos os outros não tenho o atrevimento de dispensar. Mas tenho que ter a coragem de te dizer que dificilmente vais jogar"; "Então eu vou para o meu quarto, deixa-me pensar no que vou fazer da minha vida e já te comunico".

      O que fez?
      Fui para o quarto e comecei a pensar. Eu começava a pré-época sempre com um bocadinho de peso a mais, tinha sempre mais dificuldade de apanhar o ritmo, era aquele jogador um bocadinho a gasóleo que precisava de jogar para ganhar ritmo. E disse para mim: "calma, porque daqui a 15 dias já estou aí a bombar e ele vai ter de me pôr a jogar porque vai ver que sou melhor do que os outros". Fiquei. E nunca joguei. E uma das coisas que me irritou nele, aí sim, foi logo a seguir ao primeiro jogo do campeonato. No treino a seguir entra no balneário para fazer o briefing do jogo e pergunta a dois ou três jogadores, não a mim, não teve esse atrevimento: "Estavas convocado?"; "Não"; "Estavas convocado?"; "Não"; "Então, quem não esteve no jogo fora do balneário, quero falar só com os que estiveram no jogo". E isso custou-me tanto, estar ali 45 minutos fora do balneário, levou-me a pensar: "eu não faço parte disto". Mas fiquei ali mais um bocadinho, até que veio uma pressão brutal do Sérgio Conceição e do presidente do Standard de Liége para ir para lá. Aqui não me estava a sentir útil e decidi ir até à Bélgica.

      E gostou?
      Gostei muito. A cidade é fantástica, o povo é maravilhoso, estava na companhia do meu amigo Sérgio. É futebol inglês com menos qualidade, joguei com o Fellaini, o Witsel, miúdos da formação, tinham uma qualidade brutal e a prova disso é que hoje a seleção belga está no top. Campeonato muito competitivo, muito bom, tinha um ano e meio de contrato e vim embora, deixei lá um ano.

      Porquê?
      Não me apeteceu jogar mais [risos]. A dois jogos do fim, estávamos um ponto atrás do Anderlecht, que joga e empata. Eu e o Sérgio estávamos castigados e fomos ver o nosso jogo que era fora, contra uma equipa dos últimos classificados e empatamos o jogo. Com o empate garantimos o 2.º lugar e a Liga dos Campeões. Mas o Standard de Liége não era campeão há 21 anos e se tivéssemos ganho o jogo, ficávamos um ponto à frente do Anderlecht; depois jogávamos em casa, ganhávamos e éramos campeões. E quando eu e o Sérgio chegámos ao balneário estava tudo a festejar porque tinham garantido o apuramento para a Liga dos Campeões. Logo na altura disse ao Sérgio: "Desculpa, mas isto não é para mim. Esta falta de ambição não dá para mim". Fiquei desiludido, também tinha outros problemas pessoais que não interessam para aqui e vim embora e deixei lá um ano de contrato.

      Teve pena de não terminar a carreira no FCP?
      Tive. Fui burro, foi um bocadinho de orgulho. Eu quis ir jogar para mostrar que ainda podia. E podia, porque eu fiz os jogos todos na Bélgica, e bem, mas respeito as opções. Foi orgulho, saí por orgulho, como quem diz eu acabo quando eu quiser. São decisões. Arrepende-te daquilo que não fazes, nunca te arrependas do que fazes.

      ©Getty / FRANCK FIFE

      Vamos voltar à seleção. Fala-se muito na grande rivalidade que havia entre os jogadores do norte e os jogadores do sul. Viveu isso na seleção?
      Eu comecei na seleção aos 16 anos e quando chego à seleção A tinha amigos, que posso dizer mesmo que são amigos, do norte e do sul. Sou amigo pessoal do João V. Pinto que por acaso é do norte, mas que jogou no Benfica, do Nuno Gomes, do Figo, do Rui Costa, então com ele eram noitadas a jogar Football Manager. Estamos a falar de jogadores do Sporting, do Benfica e do Porto, porque a nossa relação começou éramos nós miúdos. Mas sim depois entretanto houve, fora destas gerações, alguns jogadores que chegaram à seleção e que sentiram algum desconforto, mas a grande maioria era um grupo de amigos.

      Mas está a referir-se a que tipo de jogadores?
      Não lhe vou dizer os nomes, porque não é simpático. Foram jogadores que só apareceram na seleção sénior, não vem deste grupo de miúdos. Comigo nunca houve isso, de todo.

      Não estava naquele estágio que deu origem ao famoso “Caso Paula”.
      Graças a Deus, não. Estava castigado. Bendito cartão amarelo como dizia o Lourenço Júnior, se é que isso aconteceu, eu não vi.

      Mundial da Coreia e do Japão em 2002. Aquilo correu tudo mal não foi?
      Da mesma forma que disse que entrei no balneário e não gostei da falta de ambição e acabei a minha carreira, no mundial de 2002, acaba o mundial e eu faço uma carta à federação a pedir dispensa da seleção, porque também não gostei do ambiente da equipa técnica e direção; não gostei da preparação; não gostei de termos ido para Macau, não treinarmos e provavelmente fomos atrás de dinheiro; não gostei da forma como foi organizado; não gostei. Foi uma desilusão para mim aquele mundial.

      Das superstições do António Oliveira também não gostou?
      Isso eu já conhecia. Não é por aí. Não gostei de muita coisa, desiludiu-me. Achei também que estava na hora de dar lugar aos mais jovens e eu também precisava de mais tempo para a família.

      Antes disso ainda há o Europeu 2000.
      Mas essa foi uma prova fantástica em que quase tudo correu bem, perdemos uma meia-final com uma super França da forma como foi.

      E foi ou não foi mão do Abel Xavier?
      Foi, claro. Mas no final do jogo estávamos todos convencidos que não e por isso é que houve aqueles problemas todos, porque não é fácil perderes o acesso a uma final em morte súbita. Foi um mau perder da nossa parte. Mas depois de vistas as imagens, não há dúvida: foi mão.

      Tendo em conta o VAR, se ele existisse no seu tempo de jogador, a sua vida ia ser muito mais difícil?
      Não sei se estou a perceber a pergunta [risos]. Hoje em dia no futebol parece que estamos no “Big Brother”, mas acho bem, tudo o que são ferramentas que possam trazer a verdade desportiva acho bem, desde que seja bem usada; mas essa é outra questão que nos levaria estar aqui mais duas horas a falar. Se na minha altura houvesse VAR, provavelmente teria de arranjar outro tipo de estratégias, não sei [risos].

      Qual foi a dupla em que se encaixou melhor?
      É sempre complicado. Obrigatoriamente tenho de falar no Fernando Couto, tenho de falar no Ricardo Carvalho e tenho de falar no Aloísio. Por afinidade, por cumplicidade, o meu amigo Fernando Couto, aquilo era bonito de ver [risos]. Mas depois o Ricardo Carvalho foi seguramente dos melhores do mundo.

      É verdade que se passava com o Ricardo Carvalho por causa da lentidão dele?
      O Ricardo começava sempre a dormir. O Ricardo é muito sono. E fazia sempre uma asneira no início, só que depois ele tinha a capacidade de retificar a asneira e o Ricardo tirava-me do sério porque tinha constantemente de berrar com ele ao início. Mas depois tinha uma capacidade técnica, física e uma leitura de jogo que eram impressionantes. e chegou a um nível que eu pensava que ele não iria chegar por falta de concentração, mas realmente ele fazia asneira e tinha capacidade de rectificar.

      Qual foi o adversário que lhe deu mais trabalho?
      Não consigo dizer. Felizmente joguei contra belíssimos avançados. Desde o Weah, ao Romário, mas quando me pedem um se calhar digo pelo van Nistelrooy. O Patrick Kluivert também era um jogador fenomenal, forma tantos que é injusto.

      E o jogador que mais o surpreendeu pela positiva, de que não estava à espera de tanto?
      O Drogba. Não o conhecia na altura quando joguei contra ele.

      Sente que a sua geração podia ter feito ainda mais?
      Sim. É verdade que cometemos erros. A coisa boa daqueles almoços de equipa é que nos davam um espírito de grupo e uma união incríveis. Agora nós exagerávamos, é verdade, cometemos erros, é verdade. E hoje em dia está mais do que provado cientifica que é preciso evitar o álcool, evitar o cigarro, é preciso o descanso, e por isso digo que os erros que cometemos trouxeram-nos muitas vitórias, porque nos deram um espírito de grupo incrível, mas também digo que se calhar individualmente poderíamos ter feito carreiras ainda melhores. Tenho essa consciência.

      Hoje o jogador de futebol é mais individualista e não tem o espírito de grupo que havia antigamente?
      Eu faço questão das equipas que lidero de reunir, mas percebo claramente que já não é o que era. O jogador hoje é um bocadinho mais egoísta, do que era há uns anos. Mas também são muito mais solicitados. A vida mudou completamente. Não podemos só acusá-los. A própria vida mudou. Não havia PlayStation na altura, não havia redes sociais, por isso também ocupávamos os nosso tempo de uma forma diferente. O jogador hoje tem mais conhecimento do que há 20 anos.

      Portugal
      Jorge Costa
      NomeJorge Paulo Costa Almeida
      Nascimento1971-10-14(49 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoDefesa (Defesa Central)

      Fotografias(21)

      Comentários (1)
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      motivo:
      Jorge costa
      2020-10-16 17h52m por PauloFutre10_
      Pra mim esta entre os 5 maiores centrais de sempre portugueseses
      Meu top :
      1 Pepe
      2 Ricardo Carvalho
      3 Fernando Couto
      4 Jorge Costa
      5 Humberto Coelho
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