Fangueiro treina o líder do campeonato luxemburguês

«O Luxemburgo já não é aquele Luxemburgo de há uns anos»

2019/11/16 13:05
ENVIADO ESPECIAL REPORTAGEM: Rodrigo Coimbra, no Luxemburgo;
E1

Carlos Fangueiro despediu-se da carreira de futebolista em 2012/13 no Luxemburgo, para onde partira um ano antes em busca de um futuro financeiramente mais seguro para a sua família. Então com 35 anos, o antigo médio percebeu que não tinha condições físicas para ajudar mais o 'seu' Leixões e decidiu abraçar um desafio no Grão-Ducado.

Fangueiro
BGL Ligue 2019/2020

11 Jogos
9 Vitórias
1 Empates
1 Derrotas

25 Golos
13 Golos sofridos

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«É verdade que ganhei algum dinheiro durante a minha carreira, mas tinha a noção de que esse dinheiro não me iria permitir estar sem fazer nada até à idade da reforma», conta-nos hoje o treinador Fangueiro, há oito anos emigrado e já perfeitamente adaptado ao pequeno Luxemburgo.

Por cá, no país que recebe a seleção portuguesa para a última jornada da fase de qualificação para o Campeonato da Europa do próximo ano, o técnico de 42 anos tem feito um trabalho meritório no Titus Pétange, clube fundado apenas em 2015, primeiro como coordenador e agora enquanto treinador principal.

O emblema que resultou da fusão de dois outros clubes da cidade de Pétange é líder destacado da BGL Ligue, quando o principal objetivo seria estar no top 5, e escreve assim as primeiras linhas de uma página que promete ser histórica no campeonato luxemburguês.

«Com todo o gosto!», é desta forma que aceita o nosso convite para falar sobre o presente e do futuro no Luxemburgo. E claro, também sobre o Luxemburgo x Portugal. Vamos a isso.

©Wildson Alves Photography

A mudança para o Luxemburgo: «Olhava para os meus colegas doutorados desempregados e isso assustava-me»

zerozero (ZZ): O Fangueiro muda-se para o Luxemburgo já na fase final da sua carreira. Já era com a perspetiva de seguir para um cargo técnico?

Carlos Fangueiro (CF): Fiz tudo para acabar a minha carreira onde comecei, no Leixões, e consegui esse feito. Estava com 34 anos e renovei por mais um ano, embora tenha ficado acordado com o presidente que só ficaria enquanto sentisse que tinha condições para dar o meu melhor dentro de campo. Infelizmente, tive duas lesões musculares seguidas e senti que já não conseguia. Subi ao escritório do presidente e acordei a saída.

ZZ: …

CF: Nessa altura, lembrei-me de uma pessoa que já andava há algum tempo a tentar trazer-me para o Luxemburgo e falei com ele. Disse-me para vir, que ainda podia dar o meu contributo como jogador e que mais tarde ia aparecer algum projeto para seguir para a carreira de treinador. Vim, adaptei-me e fiquei por aqui...

ZZ: E já lá vão oito anos. Como é a vida do Fangueiro? Calculo que esteja perfeitamente adaptado…

CF: No início foi difícil. Como o futebol não me permitia ter um contrato profissional, então o clube arranjou-me um trabalho para ficar legal no país e ter direito a tudo o que isso implica. Quatro meses depois de ter chegado, comecei a trabalhar e não escondo que foi difícil. Não sabia a língua e tive de sujeitar-me ao trabalho que me arranjaram.

ZZ: Foi mais um ‘investimento’ em termos de futuro, não?

CF: Eu tinha duas propostas. Uma do RM Hamm Benfica, que dava um valor muito superior, mas não tinha trabalho, e outra desse clube pequenino, da 3.ª divisão, onde ofereciam 350€ e perspetiva de arranjarem-me um trabalho. Estive três anos nesse clube já a perspetivar o meu futuro. É verdade que ganhei algum dinheiro durante a minha carreira, mas tinha a noção de que esse dinheiro não me permitia estar sem fazer nada até à idade da reforma. Depois também surgiu aquela crise complicada em Portugal e eu olhava para os meus quatro filhos e para os meus colegas doutorados desempregados e isso assustava-me. Então decidi vir para cá.

ZZ: É um país com uma boa qualidade de vida.

CF: Exatamente. O sistema escolar é fantástico e o sistema de saúde também muito bom. Se tivermos algum problema pagamos e depois recebemos o valor quase na totalidade. É uma diferença abismal para Portugal.

ZZ: Além disso, estamos a falar de um país com uma comunidade portuguesa muito grande. Por vezes não se esquece e pensa que está em Portugal?

CF: É isso mesmo, por vezes esquecemos que estamos aqui. Ajudou-me imenso no início. Se fosse preciso resolver alguma coisa, sabíamos que íamos encontrar alguém que falasse português em qualquer serviço.

Union Titus Petánge é líder da BGL ©Union Titus Pétange

«Acredito que podemos fazer história»

ZZ: O presente é no Union Titus Pétange, um clube fundado em 2015. Como chegou até aí?

CF: Entrei praticamente no início do projeto. O Pétange estava em fase descendente e o Titus Lamadelaine estava em fase ascendente com o Jean-Paul. Então como os dois clubes são da mesma vila optou-se por fazer uma fusão. O clube ficou com boas condições de trabalho: três campos de relva natural, ginásio, campos de vólei… Projeto interessante e os frutos começam a surgir rapidamente.

ZZ: Mas o Fangueiro não entra logo para treinador, pois não?

CF: Era muita coisa no início [risos], mas conseguimos fazer um trabalho extraordinário. Comecei como diretor desportivo, coordenador geral da formação, pois não existia esse trabalho… Subimos todos os escalões, fomos campeões em vários e eu treinei os juniores e os sub-23. Depois da saída do Baltemar Brito abriu-se oportunidade de ser treinador que era algo que ambicionava também. Felizmente as coisas estão a correr bem.

ZZ: Os resultados provam isso mesmo. Nove vitórias em 11 jornadas neste início de época. Podemos assumir que é uma liderança improvável?

CF: O nosso principal foco é ficar pela primeira vez na história do clube nos cinco primeiros classificamos. Estamos em primeiro e sabemos que vai ser difícil continuar ali porque atrás de nós temos clubes com investimentos esmagadores. Acredito que podemos fazer história. Temos 11 pontos de diferença para o 4.º lugar, pelo menos penso que devemos conseguir a Europa. Isso já seria um feito histórico para toda a gente.

ZZ: Tem em mãos uma equipa muito jovem. Como é trabalhar esse potencial todo?

CF: Temos a equipa mais jovem do campeonato. A mensagem passa rapidamente e da forma como quero que passe porque toda a gente fala francês. É fácil trabalhar com eles, mas não podemos esquecer que entraram 20 novos jogadores. O meu maior objetivo era que este grupo pudesse ficar forte e unido. Era uma tarefa difícil, mas conseguimos. São miúdos que trabalham e que querem mostrar o seu valor.

ZZ: Tem aí um jogador luso-descendente, o Artur Abreu, que tem sido muito falado para a seleção do Luxemburgo. O que tem ele de tão especial?

CF: O Artur é um monstro. Sou sincero, estive em Guimarães sete anos e sei o que é trabalhar naquela casa… Falei com um ou outro dirigente do Vitória quando deixaram sair o Artur porque o Artur tinha acabado de fazer 24 anos e não podia continuar ali na segunda equipa e então optaram pela saída. Eu disse que se lhe dessem mais tempo poderia ser fundamental na primeira equipa. Nos «bês» precisou de meio ano para se adaptar e depois acabou por ser titularíssimo na fase final… 

ZZ: Agora é um dos destaques da BGL…

CF: O Artur chega-me aqui muto mais forte, mentalmente, fisicamente, tecnicamente e está a partir isto tudo. Em todos os jogos marca ou dá a marcar. Tenho a certeza de que mais cedo ou mais tarde vai ser chamado à seleção daqui. Já é inteiramente merecido. Neste momento é uma injustiça muito grande não ser chamado. Por outro lado, acabo por compreender o selecionador, pois tem aquele grupo formado há muitos anos. Mas não deixo de dizer que é mais do que claro que o Artur tem lugar nesta equipa do Luxemburgo.

Fangueiro não descarta um regresso a Portugal ©Union Titus Pétange

Portugal? «Sei que é difícil, mas não impossível...»

ZZ: Como vê o crescimento do futebol no Luxemburgo?

CF: As seleções já não perdem por muitos golos de diferença. Já se começa a olhar de forma séria para a formação e têm saído bons jovens valores para os países aqui ao lado – Alemanha e França. Acho que se deve olhar de maneira diferente para o Luxemburgo. O Luxemburgo já não é aquele Luxemburgo de há uns anos atrás em que se dizia que era amador. Têm saído alguns jovens talentos daqui. O Pjanic da Juventus começou a jogar no Luxemburgo. O Dany Mota que está agora nos sub-21 de Portugal começou aqui. E há mais exemplos… O Gerson, agora no Dínamo, ou o Leandro Barreiro do Mainz.

ZZ: E como é que a comunidade está a viver este regresso da seleção ao país?

CF: Os bilhetes esgotaram no próprio dia. Isso diz tudo O estádio tem capacidade para 13 mil e os bilhetes esgotaram há muito tempo. A grande prova de que as pessoas estão a encarar este jogo com grande seriedade. É um grande orgulho receber a seleção portuguesa no Luxemburgo.

ZZ: Aos 42 anos, como é que o Fangueiro olha para o futuro? Portugal está no seu horizonte?

CF: Enquanto jogador sempre gostei de experimentar coisas novas. Andei por Inglaterra, Grécia, Vietname... Sempre fui ambicioso e continuo a ser como treinador. Sei das minhas capacidades. Não foi fácil mostrar o trabalho aqui porque existiram muitas coisas no início que complicaram muito o trabalho. Agora, cresci muito enquanto treinador, sei da exigência que passo, sei a forma como comunico e tenho feito um bom trabalho por onde tenho passado. E não penso ficar por aqui toda a minha vida. Sei que é difícil em Portugal alguém dizer que vai ao Luxemburgo buscar o Fangueiro, mas não é impossível.

ZZ: Do que sente mais saudades?

CF: Do ambiente que se cria em volta do jogo. Cheguei a jogar no antigo Estádio da Luz com 120 mil pessoas. O país aqui é pequeno e existem muitos clubes próximos, o que tira espectadores. A média é 300-400 pessoas. E quando é um dérbi vai para os 1000. A envolvência das pessoas no estádio faz-me uma falta tremenda.

ZZ: Se voltássemos a falar no final da época, o que é que o Fangueiro gostaria de contar?

CF: Gostaria de ser campeão. [risos] E de constatar que tudo se tornou realidade. Seria uma satisfação enorme.

  • Fotos gentilmente cedidas por Wildson Alves Photography
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