Portugueses lá fora
entrevista
Médio vive primeira experiência no estrangeiro

Pedro Moreira: saudades, o abre-olhos Tarantini e a 'mágoa' FC Porto

2019/02/24 19:39
Texto por Rodrigo Coimbra
E0

Após quatro temporadas no Rio Ave, Pedro Moreira deu início à primeira experiência além-fronteiras em outubro de 2018 na Roménia, onde abraçou o desafio lançado pelo Hermannstadt.

Pedro Moreira
Liga Portuguesa
114 Jogos  5544 Minutos
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Aos 29 anos, o médio português, que teve propostas para continuar em Portugal, sentiu que estava na hora de sair da zona de conforto e tentar algo diferente. Arrependido? Não! Saudades? Claro!

O conhecimento profundo de tudo o que vai acontecendo no Campeoanato português, a grande lição aprendida com o antigo companheiro de equipa Tarantini e ainda a maior tristeza da carreira foram alguns dos temas abordados durante a entrevista ao zerozero.

«Podia ter sido mais? Podia… Podia ter sido menos? Podia… Mas estou muito orgulhoso do que fiz.» Pedro Moreira está de bem com a vida. E esse estado de espírito é percetível ao longo desta conversa. Venha daí!

©FC Hermannstadt

«Estava na altura de sair da minha zona de conforto»

zerozero (ZZ): Qual é o balanço destes quatro meses no Hermannstadt (Roménia)?

Pedro Moreira (PM): Está a correr bem, para já. Claro que, ao início, foi um bocado difícil a adaptação, pois é a minha primeira vez fora do país, mas é como tudo na vida, temos de nos adaptar. Os meus colegas receberam-me muito bem e agora já passou essa fase menos boa. Tenho jogado sempre, a equipa tem tido resultados e agora é continuar…

ZZ:  Ter uma experiência no estrangeiro era algo que ambicionavas na tua carreira?

PM: Quando era mais novo não pensava muito nisso, sinceramente. Pensava em ficar em Portugal, estar perto da minha família e dos meus amigos. Mas depois, com o passar dos anos, fui metendo na minha cabeça essa vontade, sobretudo na época passada. Senti que era a altura certa para arriscar e tentar alguma coisa fora de Portugal. Sair da minha zona de conforto e também para ver se era capaz de aguentar tudo aquilo que envolve estar no estrangeiro: longe da família, amigos e campeonato diferente. Queria ver se conseguia lutar contra isso. E para já tem corrido tudo bem.

ZZ: Família… Essa distância tem sido a principal dificuldade?

PM: No início foi mais a adaptação ao futebol, ao tempo, pois neva muito aqui, mas quando te adaptas a isso vem a saudade da família, amigos e até de tomar um simples café numa esplanada no Porto. Pequenas coisas que nos fazem falta. Mas quase todos os dias falo com eles e é bom para matar saudades e para desabafar quando as coisas não correm tão bem.

ZZ: Em termos de futebol, quais as principais diferenças do romeno para o português?

PM: Eles correm que é uma coisa louca [risos]. Passam os 90 minutos a correr, não têm uma lesão, não têm cãibras, é impressionante. O jogo raramente para e é muito virado para o jogo direto. Baliza, baliza, baliza… Em Portugal é diferente: mais pausado, existe troca de bola a partir de trás. Custou-me um bocado, porque sou um jogador que gosta de ter bola, mas já me adaptei ao estilo deles.

ZZ: E a língua? O futebol é uma língua universal, mas como foi quebrar a barreira linguística com os teus companheiros. Já arriscas alguma coisa em romeno?

PM: Falo o básico [risos]. Já entendo certas coisas, mas não sei falar romeno, nem é uma coisa que estou a contar para já... Talvez se ficar mais alguns anos, aí sim. Também tenho alguns colegas na equipa que falam inglês, não é que eu fale muito também, mas dá para nos entendermos.

ZZ: A Roménia, enquanto país, surpreendeu-te ou desiludiu-te?

PM: Por acaso, vim com um bocado de receio. Não sabia o que ia encontrar. Mas a cidade é muito gira e não falta nada. A única dificuldade é mesmo o tempo [risos]. Mas também já me adaptei a isso. Às vezes estão -3º ou -4º e já nem tenho frio.

ZZ: Aqui em Portugal há a ideia de que as pessoas vão menos aos estádios. Como é na Roménia?

PM: Aqui os adeptos são fanáticos! Há sempre muita gente nos estádios, que não são muito grandes, e todas as equipas têm claque. Mesmo quando jogamos em casa, as equipas de fora trazem muita gente... É pena na minha equipa não se sentir muito isso porque o nosso estádio está em obras e estamos a jogar num campo emprestado que fica a quatro horas. Não temos assim tantos adeptos. Dizem que o estádio vai ficar pronto em março e estou ansioso para sentir o ambiente, pois contam que temos sempre 8/9 mil pessoas nas bancadas.

Pedro Moreira partilhou balneário com Tarantini durante quatro temporadas no Rio Ave ©Vítor Parente

«Joguei com uma pessoa que me abriu os olhos: o Tarantini»

ZZ: Vamos voltar aqui um pouco ao futebol português. Como foi romper a ligação de anos ao nosso campeonato?

PM: Custou, custou… Eu sabia que ia custar. Mas também foi uma decisão minha. Tinha hipótese de continuar a jogar em Portugal, mas tinha metido na cabeça que queria arriscar e experimentar coisas novas depois de quatro anos no Rio Ave. Agora vejo os jogos todos da liga portuguesa e por vezes vejo os jogos e tenho saudades. Mas foi uma decisão minha, não estou arrependido.Tenho saudades, claro, mas fui eu que tomei essa decisão. Quem sabe se um dia, muito em breve, possa voltar ao futebol português. Neste momento estou a gostar muito de estar aqui. As coisas estão a correr bem e o objetivo é fazer o máximo número de jogos possível. Depois logo se vê.

ZZ: O certo é que o teu contrato termina no final da temporada. Qual é o objetivo depois disso?

PM: O meu objetivo na altura era arranjar algo que fosse ao encontro do que eu pretendia em termos de salário. Queriam que eu assinasse dois anos, mas eu queria apenas um, pois queria ver como ia correr sem estar preso a um sítio. Foi o mais justo. Eles, entretanto, já falaram comigo para renovar, mas eu pedi mais um tempo. Quero ver como a equipa acaba, como é que eu me sinto para tomar essa decisão. Mas estou a sentir-me bem e se as coisas continuaram assim e chegarmos a um bom acordo, porque não? Estou longe do meu país, mas o futebol é mesmo assim…

ZZ: muitos jogadores portugueses que acabam por ir para fora em busca de melhores condições financeiras, muitos até para campeonatos de menor expressão. É uma diferença assim muito grande?

PM: O futebol português podia oferecer um pouco mais para conseguir segurar os jogadores portugueses. O jogador anda muitas vezes à procura de conseguir estabilizar a vida e acaba por encontrar essa oportunidade fora do país. Aqui na Roménia não é o melhor exemplo. Não vim ganhar muito mais do que ganhava em Portugal. Foi mais uma questão de oportunidade. Agora, se as coisas correrem bem, aí sim é possível que consiga fazer o tal contrato que desejo para estabilizar a minha vida e ajudar a minha família, porque o futebol não dura sempre… E na Roménia há essa possibilidade de abrir as portas para muitos mercados. Não podemos mentir, queremos ganhar o máximo possível ao longo da nossa carreira para estabilizar a nossa vida.

ZZ: Aos 29 anos, já olhas muito para isso e para o final de carreira?

PM: Claro que já começo a pensar nisso. Até aos 25 anos talvez não pensasse muito, mas depois comecei a pensar mais e a olhar mais para o que eu gastava, para a vida que fazia, gastos que tinha e a olhar mais para a família que precisa de mim. E com o passar dos anos vamos ganhando essa experiência. Também joguei com uma pessoa que me abriu os olhos: o Tarantini. Tem a sua tal causa que me ajudou a pensar nisso.

A ideia de que um jogador ganha muito dinheiro é um bocado ilusão… Ganhamos bem, é verdade, temos salário acima da média, é verdade, mas depois não dá para viver muitos anos com a vida que tínhamos. A não ser que sejas um Ronaldo ou Messi e ganhes milhões… Eu quero aproveitar ao máximo a minha carreira, mas também tenho de pensar nisso.

Pedro Moreira capitaneou a equipa B do FC Porto ©Rogério Ferreira

«Maior tristeza? Não me ter estreado na equipa principal do FC Porto»

ZZ: Como tens visto o campeonato português nessa perspetiva de quem está fora?

PM: Tenho acompanhado muito. O campeonato está muito bom. As equipas que estão em baixo não têm tantas diferenças; as de cima estão separadas por poucos pontos e mesmo a luta pela Liga Europa está boa. O Moreirense está a apresentar um futebol muito bonito, o Rio Ave a jogar muito bem, apesar de ainda não ter os resultados pretendidos, o FC Porto está fortíssimo, o Benfica está a dar gosto ver jogar, o Sporting está a crescer também e temos o SC Braga que quer cimentar de vez a sua posição no futebol português. É um campeonato muito bom e as pessoas deviam valorizar muito mais. 

ZZ: Tinhas 18 anos quando te estreaste na Liga, depois tiveste momentos altos e baixos, entre primeira e segunda liga, com mais de 100 jogos em cada uma das competições, envergaste a braçadeira de capitão em vários clubes que representaste… Convido-te agora a falar um pouco sobre a tua carreira até ao momento.

PM: Estou orgulhoso do que fiz. Tive momentos altos e outros baixos, é verdade, mas estou orgulhoso de me ter estreado na primeira liga com 18 anos, orgulhoso de o FC Porto me ter contratado, orgulhoso de ter capitaneado a equipa B do FC Porto, orgulhoso por ter passado em várias equipas na primeira liga e ser eleito para o lote de capitães e orgulhoso de ser uma pessoa muito respeitada pelos clubes por onde passei. É isso que me deixa mais feliz. Mais do que o jogador, quero que as pessoas se lembrem de mim como sendo uma boa pessoa, que deu tudo pelo clube, humilde, trabalhadora e que nunca arranjou problemas. Foi sempre isso que procurei fazer em todas as equipas.

ZZ: Alguma tristeza ao longo desta caminhada?

PM: A minha maior tristeza talvez seja nunca me ter estreado na equipa principal do FC Porto, que era um sonho que tinha… Podia ter acontecido, mas não aconteceu… Mas estou orgulhoso do que fiz até hoje. Podia ter sido mais? Podia… Podia ter sido menos? Podia… Mas estou muito orgulhoso do que fiz. Realizei um sonho que muitas crianças têm e consegui jogar nas ligas profissionais. Consegui tanta coisa boa.

ZZ: E algum arrependimento?

PM: Não sou de pensar nisso. Há três anos tive uma excelente proposta para ir para Chipre, estava como jogador livre e assinei pelo Rio Ave a ganhar menos de metade do que ia ganhar para lá, mas não me arrependo. As decisões que tomei foram pensadas, fui feliz por onde passei. Infelizmente a minha carreira foi marcada por algumas lesões que me impediram de fazer mais alguma coisa, mas o que posso fazer agora? Já passou. Acima de tudo, orgulhoso do que fiz e do que ainda vou fazer porque ainda tenho muito para fazer.

ZZ: Para terminar a nossa conversa. Se voltarmos a falar daqui a um ano, o que gostarias de me contar?

PM: Difícil… [risos]. Pergunta difícil. Queria ter saúde, não ter lesões e ter um bom contrato à minha espera. No fundo, gostava que me ligasses para me dar os parabéns por ter conseguido esse contrato bom para mim e para a minha família.

Portugal
Pedro Moreira
NomePedro Manuel da Silva Moreira
Nascimento1989-03-15(30 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoMédio (Médio Defensivo)

Fotografias(63)

Pedro Moreira
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