Alemanha 1974
    Grandes jogos

    Zaire x Jugoslávia: A degola dos inocentes

    Texto por João Pedro Silveira
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    Este é aquele jogo que será sempre lembrado por ter sido equilibrado até ao apito inicial. Os zairenses, que vinham de uma derrota com a Escócia onde haviam abandonado o campo de cabeça erguida, enfrentaram os jugoslavos e foram literalmente atropelados pela indiferença dos europeus que, sem piedade, apontaram golo atrás de golo até ao 9x0 final. 

    Sonhos de um ditador

    O Zaire, em 1974, era liderado por Mobuto Sese Seko, ditador sem escrúpulos, um dos mais sanguinários déspotas que o continente africano conheceu, o que não é de somenos tendo em conta o triste historial de opressão e ditaduras que África conheceu e ainda hoje conhece.

    Como todos os ditadores, Mobuto Sese Seko quis transformar o seu Zaire - ex-Congo Belga, atual República Democrática do Congo - num farol desportivo do «continente negro». 

    Les Leópards (Os leopardos em português), petit nom dos zairenses, conseguiram a qualificação para o Mundial em dezembro de 1973 depois de derrotarem Marrocos por 3x0, permitindo ao governo, com sede em Kinshasa, ter tempo para preparar a participação no Campeonato do Mundo, dotando a federação local com todos os meios necessários para que a campanha da equipa nacional do Zaire em solo alemão fosse um sucesso desportivo.
     
    O Zaire eliminara Marrocos que, quatro anos antes, fora o representante africano no Campeonato do Mundo e tornou-se na terceira equipa do continente depois dos marroquinos e do Egito (1934) a chegar à fase final do maior evento futebolístico do Mundo, sendo inclusive a primeira equipa subsaariana a subir ao grande palco, abrindo, assim, caminho para as futuras prestações de seleções tão icónicas como os Camarões em 1982 e 1990, a Nigéria em 1994 e 1998, o Senegal de 2002 ou o Gana de 2010...
     
    A caminho da Alemanha
     
    Feliz com os seus jogadores, Mobuto ofereceu a cada jogador um carro e uma casa além de prometer cobri-los com riquezas e honrarias no regresso da Alemanha.
     
    A despedida de Kinshasa foi apoteótica. Primeiro a comitiva desdobrou-se em festas e receções oficiais, depois a festa saiu para a rua quando as multidões acompanharam a equipa no caminho para o aeroporto, lotando as bermas das estradas e agitando bandeirinhas. A festa terminou com a despedida oficial com direito a protocolo de estado em plena pista do aeroporto.

    Poucos pareciam lembrar-se que o Zaire estava incluído num grupo que contava com Escócia, Jugoslávia e o Campeão do Mundo em título, Brasil... Talvez isso explique muito do que se seguiu em terras teutónicas. 
     
    A 14 de junho aconteceu a estreia com a Escócia no Westfalenstadion, em Dortmund. A derrota por 0x2 não comprometia e deixava em aberto o caminho, adiando a decisão para a segunda partida marcada para a terça-feira seguinte, dia 18, no Parkstadion, em Gelsenkirchen, contra a Jugoslávia.
     
    A débâcle
     
    Os jugoslavos eram um adversário temível que no jogo de abertura tinham obrigado o campeão em título Brasil a ceder um empate a zero. Por sua vez, o Zaire contava com um jugoslavo no banco que tinha um conhecimento sólido sobre o adversário: Blagoja Vidinic, um mago de leste que já havia levado Marrocos quatro anos antes ao Mundial do México.
     
    Na véspera do jogo, os zairenses foram informados que não iriam receber pela participação no Mundial, o que era o oposto do que fora acordado em Kinshasa. Houve protesto e ameaça de greve, mas os agentes dos serviços secretos e da polícia que acompanhavam a equipa intimidaram os jogadores que acabaram por aceder a entrar num campo onde o Zaire sofreria uma das mais humilhantes derrotas da história dos Mundiais...
     
    Com meia hora de jogo, o Zaire já perdia por 0x5 e o resultado ameaçava atingir proporções épicas. Sem saber como agir, os jugoslavos abrandaram e limitaram-se a marcar só mais quatro golos até ao fim do jogo, fechando a goleada com um novo recorde (até então) num Mundial. O recorde seria batido oito anos mais tarde, em Espanha, quando a Hungria esmagou El Salvador por 10x1. 
     
    Mal o jogo terminou, as autoridades zairenses viraram-se para Vidinic, culpando-o pela vergonhosa prestação da equipa, enquanto os jogadores foram ameaçados com um não regresso ao país caso fossem novamente humilhados pelo Brasil.
     

    A cena 

    Quatro dias passados, no Waldstadion, em Frankfurt  Brasil e Zaire jogaram a honra. Se os africanos prometiam cerrar fileiras e evitar nova humilhação, os sul-americanos tentaram limpar a pálida imagem deixada nos dois dois primeiros jogos, onde haviam empatado a zero com escoceses e jugoslavos.

    Durante noventa minutos, brasileiros e zairenses cumpriram o seu papel sem grande brilho, diga-se. Os golos surgiram naturalmente e os canarinhos venceram por 3x0. O Brasil x Zaire não ficou para a história pelo futebol exibido, mas por um número de comédia aquando da marcação de um livre a favor do Escrete: um jogador zairense (Ilunga Mwepu) saiu a correr da barreira quando ouviu o apito de Nicolae Rainea e chutou a bola. Uma imagem para a história dos Mundiais que fez justiça à triste participação da primeira equipa subsaariana num Mundial vencida nos três jogos com um patético score de 0x14.

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    jogos históricos
    U Terça, 18 Junho 1974 - 19:30
    Parkstadion
    Omar Delgado
    9-0
    Dušan Bajević 8' 30' 81'
    Dragan Dzajic 14'
    Ivica Šurjak 18'
    Josip Katalinski 22'
    Vladislav Bogićević 35'
    Branko Oblak 61'
    Ilija Petković 65'
    Estádio
    Parkstadion
    Parkstadion
    Alemanha
    Gelsenkirchen
    Lotação62109
    Medidas-
    Inauguração1973