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      Vittorio Pozzo: Il Condottiero

      Texto por João Pedro Silveira
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      Durante um período histórico de quatro anos, Vittorio Pozzo conduziu a Itália à conquista de dois campeonatos mundiais e uma medalha de ouro no torneio olímpico de futebol, garantindo assim, não só um lugar na história do futebol italiano, como o reconhecimento de ser um dos maiores treinadores de todos os tempos. 

      Conhecido como um mágico das táticas, Pozzo encarna o líder de sucesso. Autoritário, paternalista para os jogadores, exigia que seus jogadores lutassem até ao fim para garantir a vitória da azzurra em campo. Eis a história do único treinador bicampeão do mundo!

      O jovem anglófilo

      Vittorio Pozzo, nasceu a 2 de março de 1886, na cidade de Turim, no norte de Itália, onde cresceria e completaria a sua educação escolar, no Liceu Cavour. Estudou línguas, viajando depois pela Europa, estudando e jogando na Suíça, no Grasshopper de Zurique. Seguiria viagem pela França, antes de finalmente aportar a Inglaterra, onde se radicou em Manchester.
       
      Em terras de «Sua Majestade», aprofunda o conhecimento pelo jogo, enquanto se enamorava pela cultura inglesa, pelos seus artistas, escritores, músicos, enquanto descobre a verdadeira paixão que os ingleses têm pelo football.
       
      Na grande urbe mancuniana, à sombra das chaminés das grandes fábricas, entre livros, exposições, feiras industriais e jogos de futebol, o jovem Pozzo sonhava numa forma de transportar um pouco desse rigor, do pragmatismo e da eficácia inglesa, que tanto o fascinavam, para a distante e modorrenta Itália natal...
       
      O regresso e a guerra
       
      Regressaria a casa apaixonado pela «Velha Albion», e regressava na condição de reconhecido anglófilo, uma paixão, que juntamente com a paixão que tinha pelo futebol, manteria até ao fim dos seus dias, pois sempre se considerou um devedor da cultura britânica. 
       
      Em Turim, começou a trabalhar na Pirelli, enquanto ajudava a fundar o Torino, clube onde jogaria durante cinco épocas, até 1911, ano em que pendurou as botas. Entretanto, aceitou o cargo que comissário técnico do Torino, e um ano depois, estava à frente da seleção italiana nos Jogos de Estocolmo. Era a estreia absoluta de Itália numa competição internacional, e a aventura terminou logo no primeiro jogo, com uma derrota com a Finlândia (2x3). De volta a casa, demite-se de selecionador nacional e voltar para a Pirelli.
       
      Em 1915, com a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial ao lado da Inglaterra e da França, é  chamado para as fileiras do exército, como um tenente das Alpini, as forças de elite de combate na montanha do exército italiano. Essa experiência militar, os horrores da guerra, marcaram profundamente Pozzo. O brio profissional, a modéstia, a mais rigorosa ética, a vida espartana - tudo foram valores que transportaria consigo das trincheiras para a vida futura, aplicando consistentemente esses ensinamentos, tanto nos relacionamentos humanos, como no desporto profissional.
       
      A Squadra Azzurra
       
      Terminado o conflito, regressado a Turim e ao Torino, acabaria por abandonar o comando técnico do Toro, uns anos depois, em 1922, sem nunca conseguir um grande sucesso.
       
      Em 1924 é chamado pela Federação, para estruturar o campeonato, com o objetivo de relançar a competição desportiva em Itália. Ainda no mesmo ano, é chamado a liderar a seleção nos Jogos Olímpicos de Paris, mas a Itália volta a ficar longe dos objetivos, eliminada pela Suíça nos quartos, depois de ter levado de vencida espanhóis e luxemburgueses. 
       
      Regressado da «Cidade da Luz», muda-se para Milão, para dirigir um escritório da Pirelli, e enquanto se encontra na capital da Lombardia, aceita o repto do AC Milan, que comandaria até 1926. 
       
      Terceira tentativa
       
      Terminado o período milanês, Leandro Arpinati convence Pozzo a um terceiro consulado à frente da aquadra azzurra. O torinese, a princípio hesita, mas depois resolve abraçar o projeto, um longo projeto que duraria 20 anos, e conduziria o futebol italiano ao topo do mundo.
       
      Em 1930 lidera a Itália à conquista do seu primeiro troféu, com a vitória na Taça Internacional, uma competição criada pelo austríaco Hugo Meisl, para colocar em disputa, as melhores seleções da Europa Central: Áustria, Hungria, Checoslováquia, Itália e Suíça. Dois anos depois, conquistariam a prata, e na terceira edição em 1935, voltariam a vencer a prova.
       
      «O Método»
       
      Ao mesmo tempo que na Áustria, o seu amigo Meisl inovava os processos de treino e «criava» a Wunderteam, em Itália, Pozzo punha em prática uma nova formação tática que revolucionava o futebol. Chamou ao seu sistema «Il Metodo», italiano para «O Método».
       
      Inspirado nas inovações de Meisl, baseou o novo esquema tático tradicional no 2-3-5, o reconhecido WM. Apercebendo-se que os seus half-backs necessitavam de mais apoio para tablar e avançar no terreno, superando as defesas contrárias, fez recuar dois atacantes, criando involuntariamente os médios alas.
       
      Com esta alteração, solidificava a defesa, garantia que a equipa não era tantas vezes apanhada em «contra pé», assim como conseguia contra-ataques rápidos e mortíferos, ao dispor de mais peças no meio-campo para controlar o jogo. Por outro lado, os atacantes que jogavam pelas laterais, começaram a descer mais à linha, aproveitando o factor velocidade na posição. Nasciam os extremos.
       
      «O Método» permitia um conjunto alargado de  variações táticas durante o jogo, sendo a mais óbvia de todas, o 4-3-3, que podia se transformar em 4-5-1, entre outras. Com esta formação «elástica», Pozzo dava a conhecer posições até então inéditas no futebol internacional, como os defesas laterais, os médios volantes, médios alas ou os extremos.
       
      A revolução de Pozzo seria posta em prática na Taça Internacional e mais tarde no Campeonato do Mundo, mostrando ao mundo, a Itália como a mais evoluída das nações futebolísticas, no que concerne à tática. As décadas passaram, mas o italianos devem a ainda a Pozzo, e aos que se lhe sucederam, a coroa dos «reis da tática». 
       
      O sonho de Mussolini
       
      Aquando do primeiro mundial de 1930, disputado no Uruguai, a Itália, juntamente com outras nações europeias, recusou-se a participar na prova. Depois do sucesso da primeira edição da Taça Jules Rimet, a FIFA queria que a segunda edição se realizasse em solo europeu. Mussolini, necessitado de demonstrar a grandeza da nova Itália fascista, consegue trazer a organização da competição para casa.
       
      A Itália precisava então de preparar uma grande equipa, Benito Mussolini, não olhou a meios e foi procurar os italo-descentes na América do Sul. Foi assim que De Maria, Guaita, Monti e Orsi vestiram a camisola da squadra azzurra, ao lado de grandes jogadores nascidos na «bota» como Schiavio, Meazza e Ferraris.
       
      Schiavio, Meazza e Ferraris.
       
      Quando questionado sobre a o tema das naturalizações, e lembrando que alguns deles tinham sido chamados a prestar provas no exército italiano, atirou: «se eles podem morrer por Itália, podem jogar pela Itália».
       
      Vencer ou vencer
       
      Antes da competição, Il Duce recebeu os jogadores em Roma, desejando-lhes boa sorte e galvanizando as tropas com um esclarecedor «vencer ou arcar com as consequências». Enquanto os jogadores por certo engoliam em seco, temendo as possíveis consequências, Pozzo continuava confiante nos seus rapazes.

      A Itália estreou-se com uma goleada fácil sobre os E.U.A., antes de encontrar a Espanha nos quartos, num jogo que passou à história como a «Batalha de Florença», italianos e espanhóis empataram a uma bola, e tiveram que voltar a enfrentar-se apenas 24 horas depois. A Espanha, debilitada com sete lesões, acabou por claudicar, culpa do golo de Meazza, decisivo para levar a Itália para as meias-finais. Os espanhóis protestaram a arbitragem, a FIFA fechou os olhos, e Mussolini sorria confidente...
       
      Nas meias-finais, as autoridades italianas mudaram o palco de Nápoles para Milão, os austríacos protestaram, mas a FIFA voltou a não atender às reclamações. 
       
      A arbitragem, a cargo do sueco Elkind - admirador confesso do ditador italiano, e que na véspera privara de perto com as altas figuras do governo italiano - fechou os olhos à dureza italiana, que massacrou o Wunderteam austríaco. A Itália venceria por 1x0 e garantia a presença na final, onde Elkind, voltou a marcar presença...
       
      Quatro anos de magia: Roma, Berlim e Paris
       
      Rezam as crónicas que «estava escrito» que a Itália de Benito Mussolini teria de vencer. Na véspera do jogo o árbitro aceitou  ir jantar ao Palazzo Venezia com o ditador.
       
      E no dia seguinte a Itália, que de facto era melhor equipa, foi levada ao colo, até ao seu primeiro título mundial, acabando por vencer a Checoslováquia por 2-1, mas só após prolongamento. A vitória sorria a Pozzo e aos seus rapazes, Mussolini cumpria a sua palavra, a consequência da vitória transalpina era a glória a todos que serviram tão bravamente a Itália tinham direito. Pozzo, Meazza e os outros, tornaram-se vedetas adoradas em todo o país..
       
      Dois anos depois, a Itália venceria a medalha de ouro nos Jogos de Berlim, sucedendo, tal como acontecera no mundial, à Celeste Olímpica, pois o futebol não fizera parte do programa dos Jogos de 1932, em Los Angeles. Em Berlim, na final com a Áustria, todas as dúvidas ficavam dissipadas, a Itália era a maior potência futebolística do mundo. 
       
      Em 1938, em Paris, foi a vez da Hungria sentir na pele a força da Itália, vencedora de um torneio imaculado, em que demonstrou toda a sua superioridade, deixando pelo caminho primeiro a Noruega, depois a anfitriã França, nas meias-finais o Brasil e na final os magiares (4x2).
       
      A Itália era bicampeã do mundo, Pozzo conseguia um feito que nenhum treinador conseguiu igualar ao longo de todo o século. A Itália estaria preparada para manter o domínio global, mas o começo da II Guerra Mundial acabou por invalidar esses planos.
       
      A Guerra terminaria em 1945, e Pozzo, que se manteve no cargo até 1948, não pode mais comandar a sua squadra azzurra na fase final de um mundial, falhando a conquista do tri, que só seria ganho após um doloroso jejum, que foi interrompido em terras espanholas no verão de 1982.
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      Fotografias(3)

      Vittorio Pozzo levado em ombros depois da conquista do Mundial
      Vittorio Pozzo (ITA)
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