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      Play-off - Brasil 2014
      Grandes jogos

      Suécia x Portugal: um confronto de titãs

      Texto por Ricardo Miguel Gonçalves
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      Fora dos grandes torneios de seleções, poucos jogos carregaram sequer metade da emoção que foi proporcionada aos adeptos em Solna, numa noite de novembro em 2013.

      Suécia e Portugal, dois países e duas competentes seleções europeias, que disputavam uma vaga de acesso ao Campeonato do Mundo do ano seguinte. Eram esses os nomes que se liam no painel do estádio, acima do marcador, mas teria sido igualmente eficiente se em vez deles estivessem escritos, em letras gordas, outros dois nomes: Zlatan Ibrahimovic e Cristiano Ronaldo

      Afinal, foi em torno deles que esta história se desenrolou...

      Jogo de importância... Mundial!

      Para falar de um jogo histórico, convém primeiro explicar a necessidade do mesmo. Foi uma partida de qualificação, um selo que desde logo tira algum interesse, especialmente nas eras mais fortes do futebol português, mas convém não esquecer a histórica e tão bem documentada tendência lusa para adiar os problemas até à última, quando a pressão já é maior.

      Mesmo favorito na fase de apuramento direto, a famosa preguiça falou mais alto e Portugal terminou em segundo lugar no grupo, atrás da Rússia e à frente de Israel, Azerbaijão, Irlanda do Norte e Luxemburgo. Assim, a seleção foi forçada a conquistar um bilhete para o Brasil pela via do desenrascanço: os play-offs.

      A sorte ditou que o adversário nessa importantíssima eliminatória fosse a Suécia. Uma equipa teoricamente mais fraca que Portugal, mas que brilhara num grupo de qualificação em que só foi superada pela Alemanha que, como sabemos, acabaria mesmo por limpar esse Mundial de 2014. Mesmo nos jogos contra a mannschaft os suecos conseguiram dar luta, registando um 4-4 na Alemanha e uma derrota por 3-5 em casa, perante uma seleção conhecida pela solidez defensiva. 

      Ronaldo tinha decidido a primeira mão, em Lisboa @Carlos Alberto Costa
      Os mais otimistas apontavam novamente para o favoritismo português, mas os pessimistas apontavam para a longa lista de ocasiões em que esse fator já tinha falhado. Estivesse o copo meio cheio ou meio vazio, certo é que a ideia de defrontar Zlatan Ibrahimovic fazia ambos os grupos de portugueses engolir em seco...

      Para compensar, os escandinavos tinham uma visão semelhante acerca de Cristiano Ronaldo, que provou ser ainda mais justificada. O camisola 7 de Portugal, que conquistaria a sua segunda Bola de Ouro nesse ano, foi superior no primeiro assalto e marcou o único golo da primeira mão!

      Um 1-0 sobre os suecos, em Lisboa, serviu para tranquilizar os portugueses e pouco mais, porque a verdadeira história foi escrita quatro dias depois, em Solna...

      Zlatan versus Ronaldo

      Mesmo sendo o futebol um desporto coletivo por natureza, não é desconhecido o cenário de um jogador que leva a equipa às costas. É cada vez menos comum essa dependência, devido à evolução tática que mais facilmente permite anular elementos em específico, mas nunca será erradicada.

      Neste ponto da sua cronologia, Portugal era, mais do que nunca, um one man show. Cristiano Ronaldo carregava a cruz da decisão e dos golos, poucos anos antes do nascimento de uma geração dourada, mais adequada ao talento do capitão. 

      Na Suécia, um homem carregava fardo semelhante. Ibrahimovic, Zlatan - como nas suas locuções em terceira pessoa, que andavam algures entre o cómico e o arrogante -, ou apenas Ibra. Independentemente do nome, o avançado de ascendência bósnia era considerado um dos melhores do Mundo, sem qualquer discussão.

      Uma das melhores exibições da carreira @Carlos Alberto Costa
      Ronaldo, sempre ambicioso, não consideraria a possibilidade de falhar a presença num Campeonato do Mundo, prova que disputara duas vezes antes. Zlatan também tinha marcado presença no Coreia/Japão 2002 e Alemanha 2006, mas tinha falhado a edição de 2010 e por isso chegou a este play-off como uma missão clara.

      Estavam lançadas as cartas para que estes dois jogadores disputassem um dos maiores duelos individuais em toda a história do futebol. Um confronto de titãs!

      A primeira parte não esteve à altura das expectativas, mas a segunda compensou em todos os departamentos. Corria o 49º minuto quando o Zlatan mostrou todas as suas qualidades físicas e técnicas para, numa fração de segundo, roubar a bola a Miguel Veloso e servir Sebastian Larsson, que só não marcou porque Rui Patrício, o melhor humano em campo, resolveu.

      Apenas um minuto depois, na outra ponta do campo, Ronaldo entrou de rompante na área e atirou forte para o fundo das redes, abrindo o marcador e duplicando a vantagem no agregado. No caminho para a bandeira de campo, onde celebrou, não foi difícil ler-lhe os lábios. «Eu estou aqui», gritou. E estava, de facto.

      Capitão sueco virou o jogo do avesso @Catarina Morais
      Maior tranquilidade era impossível, até que o sueco convocou uma versão mais ajustada ao seu estatuto de auto-proclamado Deus e conseguiu, em apenas cinco minutos, virar o resultado! Aos 68 empatou, de cabeça, e no 72º minuto fez o 2-1 com um livre direto. 

      2-1 no marcador e 2-2 no agregado que, mesmo favorecendo Portugal pela regra dos golos fora, não inspirava qualquer confiança, especialmente com o clima que Zlatan criara na Friends Arena. Teve de ser Ronaldo a falar mais alto...

      Aos 77, apenas cinco minutos depois dos suecos terem passado a acreditar no Mundial, Ronaldo voltou a marcar com o pé esquerdo. Volvidos mais dois minutos, o pé direito lançou novo míssil, que silenciou a casa escandinava de forma permanente, para dar lugar à euforia lusa!

      O bis de Zlatan Ibrahimovic foi insuficiente @Catarina Morais

      «Portugal precisou de mim e eu disse que estou presente»

      Foi assim que Portugal conseguiu, mais de meio milénio depois desse capítulo dos descobrimentos, voltar a encontrar o caminho para o Brasil. Não correu bem para a equipa das quinas, esse último torneio sob a liderança de Paulo Bento, mas nada apaga a euforia vivida nesse 19 de novembro de 2013.

      Até para Ronaldo, que viveu tantos momentos fantásticos na sua extensa carreira, a noite foi inesquecível. «Este pode ser o melhor momento da minha vida», disse o craque em entrevista ao As, apenas dois dias após o feito.

      Ronaldo partilha a emoção de Paulo Bento @FPF/Francisco Paraíso
      Aliás, como se o hat-trick não fosse épico o suficiente por si só, num contexto de tamanha importância, vale que recordar que três golos era precisamente o que o capitão precisava para igualar Pauleta como o melhor marcador de sempre por Portugal!

      «Os recordes são para ser batidos, mas o mais importante é que sabia que Portugal precisava de mim e eu disse que estou presente». Foi essa a histórica frase do português, mais histórica do que qualquer entrevista, na emoção imediata do pós-jogo.

      Zlatan falou também, no seu caso ao conceituado jornal italiano La Gazzetta dello Sport. As palavras do perdedor contrastaram com as do vencedor na mesma medida que o resultado, mesmo sem fugir à personagem:

      «Melhor do Mundo? Só posso dizer que ele marcou mais um golo do que eu. Trata-se de um grande jogador, mas demos-lhe demasiado espaço», lamentou, acerca de CR7.

      Duraram muitos mais anos, as carreiras destes craques. Ainda assim, este seria o último confronto de ambos no panorama internacional.

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      A festa portuguesa na Suécia
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      jogos históricos
      U Terça, 19 Novembro 2013 - 19:45
      Friends Arena
      Howard Webb
      2-3
      Zlatan Ibrahimovic 68' 72'
      Cristiano Ronaldo 50' 77' 79'
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      Estádio
      Friends Arena
      Lotação54329
      Medidas105x68m
      Inauguração2012