placardpt
    Inglaterra 1966

    Portugal: a saga dos magriços

    Texto por Luís Paulo Rodrigues
    l0
    E0

    Ninguém dava nada por eles. Afinal, era a estreia de Portugal, um país pequeno, à beira-mar plantado e com fraca repercussão mundial ao nível de seleções. De forma discreta aterraram em Inglaterra, de maneira frustrante levantaram voo rumo a casa, ainda que a marca tenha ficado bem presente em terras de Sua Majestade, nomeadamente a da «Pantera Negra». O zerozero.pt embarcou para uma viagem à história ímpar daquele Mundial e José Augusto foi o comandante que nos indicou o caminho.

    qOtto Gloria não nos perdoou. Disse-nos, com estas palavras: 'seus filhos da puta, vocês deram-me a maior alegria de ter ganho aos meus irmãos brasileiros e agora estão a perder com uma equipa da Walt Disney
    José Augusto
    «Parece-nos, de facto, muito apropriada a ideia na medida daquilo que o 'Grão Magriço' representa, o belo episódio de suspense que Luís de Camões canta em 'Os Lusíadas', um autêntico desportista que vai jogar a Inglaterra... e até ganhar». Esta era a justificação que o jornal A Bola usava para explicar a adoção de Magriços para os jogadores portugueses que, naquele julho de 1966, honraram a camisola vermelha e o símbolo das quinas no peito.

    Foram seis jogos, cinco vitórias e apenas uma derrota, que culminaram no inédito lugar no pódio, o terceiro lugar, pois a final foi falhada por causa da derrota nas meias diante da anfitriã Inglaterra, um jogo com uma história que o antecedeu e que foi decisiva para esse desfecho negativo. Já lá vamos.  

    Provocados

    Por agora, o início. Portugal apurou-se num grupo de qualificação com a Checoslováquia, Roménia e Turquia, fruto de quatro triunfos, um empate e uma derrota. Na fase final, o sorteio não foi propriamente o melhor: a Bulgária, a Hungria nos seus tempos áureos, e o bicampeão em título Brasil, de Pelé na flor da idade (25 anos).

    Gentil Cardoso, selecionador brasileiro, ousou espicaçar os estreantes portugueses, dizendo ter a certeza que o Brasil e a Hungria passariam, já que os lusos não reuniriam condições biológicas para a «maratona» de um Campeonato do Mundo.

    A vitória frente ao Brasil
    «As palavras do senhor Gentil Cardoso talvez tenham sido no sentido de procurar o desânimo, mas estas coisas normalmente têm o efeito contrário. E assim foi. No fim do jogo com eles, o doutor Silva Rocha, que era um excelente médico e um homem formidável, não se conteve e disse-lhe: 'ó Gentil, apanha um avião e vai para o Brasil!'», contou José Augusto, ao zerozero.pt.

    Numa animada conversa com o nosso órgão, o Aristocrata da Bola explicou também que essa designação se deverá «ao facto de nunca ter sido castigado nem ter chamado alguma coisa aos adversários» ao longo da carreira. José Augusto, o segundo melhor marcador português dessa seleção, deu conta do espírito positivo da comitiva na partida para a competição, numa experiência que poucos se aperceberiam e que tinha incidência principal nos dois grandes de Lisboa.

    «Em traços gerais, era um Mundial em que acreditávamos que podíamos ir bastante longe, pois, apesar de ser a nossa primeira participação, tínhamos já uma grande maturidade. O Benfica tinha sido bicampeão europeu, o Sporting tinha ganho a Taça das Taças e eram esses dois clubes que estavam mais representados na seleção. Conhecíamos os nossos adversários e sabíamos que podíamos augurar um lugar de mérito», definiu.

    qO Eusébio foi o melhor marcador e só não foi considerado o melhor jogador porque os ingleses são os ingleses e foi preciso dar o prémio ao capitão deles

    Autoritários

    Ao primeiro jogo, o primeiro triunfo, frente a poderosa Hungria, mas que não teve argumentos para o virtuosismo nacional. José Augusto fez dois, José Torres fez um e o 3x1 colocou Portugal na frente do grupo, com Eusébio ainda em branco, mas a fazer a primeira exibição de encher o olho aos ingleses de Manchester (o local é importante para esta história). A seguir, nova vitória em Old Trafford, só que contra a Bulgária (3x0), aí sim, com um golo do Pantera Negra, mesmo que, rezam as crónicas, esse tenha sido o seu desafio mais discreto. Um auto-golo de Ivan Vutsov e mais um tento de José Torres completaram o marcador.

    Por fim, o jogo contra o Brasil e a necessidade canarinha de ganhar por dois golos para que Portugal não passasse e para que fossem os campeões do Mundo a seguir para os quartos. A pressão estava do lado brasileiro, ainda que os portugueses já fossem «vistos como candidatos» por esta altura. Em Liverpool, António Simões abriu o ativo e Eusébio deu-lhe mais cor antes do intervalo de um jogo onde marcaria mais um (3x1), para nova chapa três.

    Pelé passou quase sempre ao lado, ele que foi marcado por Vicente, o homem que achava que ia a Inglaterra só para marcar o Rei (não foi bem assim, que jogou quase todos os jogos). Na retina ficou também o lance da lesão de Pelé, na dupla entrada de Morais que correu Mundo, mas que não poderá significar forçosamente aquele infortúnio.

    «O Pelé já tinha contraído a lesão no Brasil e, na altura, havia muito aquela coisa de 'não jogas hoje, mas amanhã já jogas'. Depois foi fruto também do jogo com a Bulgária. Claro que as duas cargas do Morais, na mesma jogada, o derrubaram, mas aquilo já vinha de antes. E é bom que se recorde que, durante o jogo, ele deu uma cabeçada ao Morais que deixou mossa, e a bola nem lá estava. No fim saiu a cumprimentar os jogadores, pois é uma norma de respeito e de reconhecimento que fomos melhores», registou José Augusto, ao telefone com o zerozero.pt.

    O épico jogo diante da Coreia do Norte

    Apertados

    Os quartos-de-final reservaram um confronto épico com a Coreia do Norte. Novamente em Liverpool, a surpresa começou por ser enorme. Nem um minuto de jogo e já os coreanos marcavam, aos 25' havia já 0x3.

    «Não nos podemos esquecer que a equipa da Coreia tinha estado dois anos a preparar-se para a competição na Alemanha do Leste e já tinham eliminado a Itália. Tinham jogadas estudadas e mecanizadas e o seu capitão, que tinha uma meia elástica, era o organizador da equipa. Era ele que, ao receber a bola, via a equipa movimentar-se de determinada forma e colocava a bola num jogador em específico», detalhou José Augusto, antes de explicar o que mudou entretanto.

    «Depois do 3x0 o Otto Gloria chamou-me e disse-me para o marcar, para que ele deixasse de ter bola. E foi assim que começámos a mudar o jogo», um desafio que teve um momento épico ao intervalo, onde um furibundo Otto Gloria rebentou a escala. As palavras contadas por quem lá estava.

    «Ao intervalo já tínhamos marcado dois golos, estava 3x2, mas o Otto Gloria não nos perdoou. Disse-nos, com estas palavras: 'seus filhos da puta, vocês deram-me a maior alegria de ter ganho aos meus irmãos brasileiros e agora estão a perder com uma equipa da Walt Disney. Vão lá para dentro, metam o colhão na garganta e comam o coreano vivo'»... E foram mesmo, como comprova o 5x3 final, com quatro de Eusébio e um de José Augusto, ele que contou outro detalhe delicioso.

    «Depois o Otto Gloria foi à conferência de imprensa, nós arranjámo-nos, vestimo-nos e fomos para o autocarro. Perguntou-se: está tudo? Está. Seguimos viagem e deixámos o Otto Gloria a pé. Ele chegou ao hotel todo fodido e começou a berrar: Está tudo maluco? Já ganhámos o campeonato, é?», revelou, entre sorrisos, uma história que outros juram ter acontecido no fim do jogo com o Brasil. Num ou noutro, aconteceu, e a verdade é que o treinador teve que ir à boleia dos jornalistas para onde se encontrava a seleção.

    Desviados

    Portugal, com dois jogos em Manchester e outros dois em Liverpool, encantava pelo futebol praticado e estava nas meias-finais, contra a anfitriã Inglaterra, que tinha o hábito de jogar em Wembley e que era forte na defesa (zero golos encaixados até então), mas frágil no ataque - os portugueses eram o oposto, dizia-se.

    Derrota com a Inglaterra e Eusébio em lágrimas
    O jogo estava marcado para Liverpool, só que, vá-se lá saber porquê, foi alterado: «Depois do jogo com a Coreia, os ingleses estavam completamente rendidos e não foi por acaso que depois tiveram que mudar o jogo da meia-final de Liverpool para Wembley. Aquilo deve-lhes ter custado um bom dinheiro. Ainda hoje ninguém confirma, mas aquela mudança teve que significar dinheiro debaixo da mesa para a nossa Federação. A FIFA não podia mudar um jogo assim de um sítio para o outro sem o consentimento das duas seleções».

    «É que não havia nenhum jogador do Liverpool na seleção inglesa e, portanto, o estádio estaria altamente dividido, já que os ingleses dessa cidade estavam habituados a ver-nos jogar e muitos deles iam torcer por nós. Quase de certeza que ganharíamos à Inglaterra em qualquer campo, menos em Wembley», justificou, lúcido, José Augusto, com a memória a fervilhar sobre aquela situação.

    E Portugal perdeu por 2x1. Talvez tenha faltado Vicente - fraturou a mão contra a Coreia - para secar Bobby Charlton, o marcador dos dois golos britânicos. Talvez Stiles tenha estado em grande plano a anular Eusébio, que só de penálti marcou. Talvez «quem não marca, morre», como avaliou José Augusto. O desvio da final estava feito, restava lutar pelo pódio.

    Imortalizados

    O prémio de consolação surgiu no jogo que ninguém gosta de jogar. Novamente em Wembley, frente à fortíssima União Soviética, outra vez uma prova de superação e um triunfo por 2x1, com o nono de Eusébio na competição e José Torres, quase nos 90', a garantir o pódio.

    Terminava a participação de uma prova que imortalizou a turma das quinas e, concretamente, Eusébio da Silva Ferreira, desde aí estacionado na sala dos notáveis do futebol mundial, mesmo que lhe tenha faltado a distinção óbvia: «O Eusébio foi o melhor marcador e só não foi considerado o melhor jogador porque os ingleses são os ingleses e foi preciso dar o prémio ao capitão deles [Bobby Charlton].

    Rivalizando com a final do Euro 2004 como a página mais bonita do futebol português, a prestação dos Magriços foi carimbada como salvadora da competição pela prestigiada France Football.

    «Os portugueses é que abrilhantaram o campeonato do Mundo», rematou-nos José Augusto, depois de, também ele, abrilhantar as nossas referências daquele distinto verão de 1966, depois do qual não mais o futebol português foi o mesmo...

    Comentários

    Gostaria de comentar? Basta registar-se!
    motivo:
    EAinda não foram registados comentários...
    Tópicos Relacionados
    Competição