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      Juan Román Riquelme: El último 10

      Texto por Rodrigo Coimbra
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      «Aproveitei e desfrutei do futebol ao máximo. Espero que as pessoas tenham gostado tanto quanto eu»

      Juan Román Riquelme. Riquelme. Ou simplesmente Juan Román. Um génio incompreendido. Alguém capaz de despertar emoções num jogo que o próprio transformou. Poderia e tinha capacidade para ser muito mais do que aquilo que realmente foi. Optou por ser aquilo que quis ser. E foi um dos melhores e mais talentosos jogadores da sua geração.

      Nascido um dia antes da Argentina conquistar o Campeonato do Mundo de 1978, Riquelme não teve uma infância nada fácil. O seu pai era o líder de um gangue violento dos subúrbios de Buenos Aires e forçou muitas vezes o pequeno Juan Román a participar em jogos ilegais. Fintou o mundo do crime organizado e tornou-se num dos talentos mais entusiasmantes da América do Sul.

      Era um número 10 clássico. Para muitos o último verdadeiro 10. Muito por culpa do seu estilo único. O coração do meio campo adversário era o seu habitat natural. Era ali que se sentia peixe dentro de água e pautava o jogo segundo as próprias leis. E houve quem lhe tirasse esse espaço de forma a diminuir o seu talento. Que era muito.

      Capacidade superlativa ao nível do passe, antecipação, técnica, controlo, drible e uma incrível apetência para os lances de bola parada eram qualidades que compensavam alguns defeitos: falta de ritmo, inconsistência e caráter introvertido. Não era um velocista. Longe disso. Mas pensava muito mais rápido que os demais.

      Sai Maradona, entra o miúdo… Juan Román Riquelme

      Muito novo na seleção @Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      «Tive a sorte de crescer durante a era de Maradona, que todos os argentinos consideram o melhor jogador de todos os tempos. Depois de vê-lo tocar na bola, eu costumava correr para a rua com meus amigos, pegar a bola e fingir que era ele. Eu fazia o relato de mim mesmo e dizia ‘Maradona está com a bola’, coisas assim. Agora é assim que o meu filho faz com Messi: ele começa a chutar a bola e diz ‘Messi está na bola’. Para pessoas da minha idade, Maradona é a grande referência. Mas para as gerações mais jovens, como o meu filho, Messi é o herói.»

      Riquelme começou a carreira no modesto Argentino Juniors, até que, ainda júnior, foi contratado pelo Boca Juniors. Por lá, não demorou a ganhar o rótulo de ‘próximo’ Maradona, com quem chegou a dividir balneário nos últimos anos de carreira de El Pibe. Esta comparação ganhou uma dimensão quase mitológica quando o pequeno Juan Román substituiu Maradona no Superclásico que marcou o adeus deste aos relvados. Foi visto à época como uma passagem de testemunho.

      No entanto, ao contrário de Maradona, muito elogiado pelo seu estilo de jogo rápido, Riquelme era reconhecido pela capacidade de desacelerar o ritmo do mesmo jogo e esperar pelo momento certo para servir os colegas para o golo. E apesar de ambos terem iniciado o percurso na Europa no Barcelona, só um viveu quase em exclusivo o amor ao emblema de Buenos Aires: Riquelme. O outro conquistou a Europa.

      Companheiros de balneário no final da década de 90 e símbolos maiores de um dos clubes mais representativos da Argentina, Riquelme e Maradona sempre tiveram uma boa relação – na memória a célebre imagem do abraço entre os dois após a albiceleste conquistar o ouro nos Jogos Olímpicos de Beijing -, até que tudo azedou em 2010, altura em que Maradona esteve à frente da seleção argentina.

      «Eu quero que o Román desequilibre nos últimos 20 metros para marcar a diferença, com velocidade mental para jogar para os avançados e que chegue ao golo. No outro dia vi-o a jogar pelo Boca e não sei se tem problemas físicos, mas assim ele não me serve», disse Maradona. Palavras que motivaram resposta pronta de Riquelme.

      «Sei que vou perder o Mundial, mas quando um jogador não tem a mesma ideia do treinador, não podem estar juntos. Os meus códigos não são os dele e está claro que não podemos trabalhar juntos. Terminou a seleção para mim», atirou. Uma despedida amarga após 51 internacionalizações, 17 golos, uma eliminação sem derrotas no Mundial 2006 e duas finais perdidas (Confederações 2005 e Copa América 2007). Valeu o ouro nos Olímpicos de 2008 enquanto capitão de uma seleção que contava com nomes como Di María, Messi e Kun Agüero.

      Mal-amado em Barcelona

      Em julho de 2002, e após sete temporadas de muitas conquistas com o Boca Juniors, entre elas a Taça Libertadores e a Intercontinental, esta com vitória sobre o Real Madrid (2x1), em Tóquio, ambas em 2000, Riquelme mudou-se para o Velho Continente e logo para o Barcelona. Com muita controvérsia à mistura.

      Em Barcelona, ficou aquem do esperado @Getty / Mike Egerton - EMPICS
      Pouco antes da mudança, o irmão de Riquelme foi sequestrado e os responsáveis pelo rapto forçaram o craque argentino a pagar pelo resgaste. Já depois do irmão ser libertado, o médio quis esquecer todo aquele momento e foi essa – admitiu-o anos mais tarde – uma das principais razões para que tivesse aceitado a oferta do Barcelona, que pagou cerca de 13 milhões de euros pelo seu passe. Mas não a única.

      A luta por um salário mais condizente com a preponderância que tinha no Boca, motivando mesmo uma posição pública contra o então presidente Mauricio Macri, abriu ainda mais a porta de saída e o namoro blaugrana resultou em casamento. Não por vontade do treinador Louis Van Gaal.

      O holandês deixou sempre claro que a contratação de Riquelme não fazia parte dos seus planos, mas sim de interesses de alguns superiores no clube, entenda-se jogada política por parte da direção culé liderada por Joan Gaspart, e mostrou sempre uma grande indiferença para com o novo 10 do Barcelona – muitas vezes suplente e quando era titular jogava como ala esquerdo, longe da posição que lhe dava mais conforto e onde conseguia fazer a diferença.

      «Ele [Van Gaal] disse que eu era o melhor jogador do mundo quando tinha a bola nos pés, mas quando estava sem ela, o Barcelona ficava com um a menos […] Houve um jogo em que não fiquei onde ele queria, ganhámos esse jogo e mesmo assim conseguiu arranjar forma de me criticar», revelou Riquelme anos mais tarde, em declarações a uma televisão argentina.

      Os maus resultados nessa época ditaram a saída de Van Gaal, que deixou o Barcelona a três pontos do lugar de despromoção, e consequente entrada de Radomir Antic que tinha novos planos para Riquelme.

      «Riquelme, vais ser a chave de recuperação desta equipa». A frase entoada pelo técnico sérvio em pleno balneário blaugrana não caiu bem no seio do grupo que, segundo o Mundo Deportivo, levou a que algumas das principais referências do Barcelona fizessem pressão sobre Antic no sentido de impedir a titularidade do criativo argentino.

      Sem o espaço desejado e com a mudança do corpo diretivo e técnico no ano seguinte – Laporta assumiu a presidência e apostou em Rijkaard -, Riquelme optou pela mudança. Até porque o 10 do Barcelona já estava prometido a… Ronaldinho Gaúcho. E a saída do argentino abria uma vaga para um extra-comunitário. Bastante conveniente. Teve convites de Inglaterra, mas surpreendeu ao aceitar o empréstimo ao Villarreal.

      Um Submarino Amarelo e… Zidane

      O Villarreal subiu ao principal escalão do futebol espanhol pela primeira vez em 1998. Nos dois anos anteriores à chegada de Riquelme o clube terminou o campeonato na 15.ª posição. Dados que tornam a escolha do médio argentino ainda mais curiosa.

      A verdade é que Juan Román contruiu uma história muito bonita ao lado de figuras históricas como Marcos Senna, Santi Cazorla e Diego Forlan (Bota de Ouro em 2005), tendo sido comprado logo no final da primeira temporada. Sob o comando de Manuel Pellegrini, o emblema espanhol teve um sucesso tremendo sem precedentes, onde se destaca o 3.º lugar no campeonato de 2004/05, um feito que permitiu ao submarino amarelo disputar pela primeira a Liga dos Campeões na temporada seguinte.

      O momento negro contra Lehmann @Getty /
      O ano de 2006 terá sido muito provavelmente o ponto mais alto da carreira de Riquelme. E o mais agridoce. O maestro argentino conduziu o Villarreal às meias-finais da prova milionária, numa campanha em que os espanhóis afastaram Manchester United e Inter de Milão, caindo apenas aos pés do Arsenal, com Riquelme a desperdiçar uma grande penalidade nos últimos minutos.

      «Se eu tivesse que escolher o pior momento, seria a meia-final que perdemos com o Villarreal. Ficamos muito empolgados em tentar chegar à final da Liga dos Campeões, porque sabíamos que o Villarreal nunca mais poderia ter a chance. Foi uma época muito difícil», assumiu Riquelme, numa entrevista pós-carreira concedida ao site da FIFA.

      Mais tarde viria a cair também na final do Campeonato do Mundo com a sua Argentina. Novamente contra… Jens Lehmann. Depois de defender a grande penalidade de Riquelme nas meias da Champions, o guarda-redes alemão brilhou no desempate através da marcação de penáltis na final do Mundial. Foi o princípio do fim da era Riquelme em Villarreal. No ano seguinte teve um conflito com o treinador Pellegrini ao ponto de se ter recusado a treinar. Regressou ao Boca e não mais voltou à Europa.

      Entre os bons e maus momentos passados em Espanha, destaque para um dos mais marcantes. O dia em que Zinedine Zidane se despediu do Santiago Bernabéu e trocou de camisola com… Riquelme.

      «Eu tenho a camisola que ele [Zidane] vestiu no seu último jogo em casa pelo Real Madrid. Na quarta-feira antes do jogo, ele ligou-me e disse que não tinha a minha camisola e que queria trocar comigo no domingo. No jogo, ele foi substituído a cinco minutos do final, para que os adeptos pudessem aplaudi-lo e ele ficou à espera do apito final para cumprir a promessa. Foi um momento realmente adorável. Ele foi um dos melhores jogadores que eu já vi», recordou Riquelme em entrevista à FIFA.

      O regresso ao ponto de partida

      Aos 28 anos e depois da desavença com Pellegrini, Riquelme aceitou um empréstimo de cinco meses ao Boca Juniors, de fevereiro a junho de 2007. No ano seguinte esteve perto de regressar à Europa pela porta do Atlético Madrid, disposto a pagar 8 milhões, mas o negócio não se concretizou e o Boca adquiriu o passe do médio argentino em definitivo, fazendo do 10 a contratação mais cara da história de um clube argentino.

      O regresso a casa @Rogério Tomaz Jr.
      Sucesso imediato. Mais uma Libertadores para o palmarés – vitória sobre o Grêmio, com três golos de Riquelme divididos pelos dois jogos da final – dois campeonatos e uma taça.

      Ainda assim, nem tudo foi um mar de rosas. Em outubro de 2008, o defesa Julio César Cáceres, durante uma entrevista a uma rádio paraguaia durante a concentração da sua seleção, criticou a disponibilidade de Riquelme para jogar pelo Boca.

      «Umas vezes corre, outras está mais passivo… Parece estar mentalmente saturado. Ele parece ter mais motivação quando joga pelo seu país», disse o defesa, provocando reação quase imediata do médio:

      «Ele não sabe o que eu sinto pelo clube. Participo da concentração antes da partida, assim como os outros jogadores, e não tive férias, porque escolhi jogar nos Jogos Olímpicos. Quando conquistamos o ouro, corri para o aeroporto para jogar na final (Recopa Sudamericana 2008). Essas coisas devem ser mantidas no balneário, ele quebrou todos os códigos do futebol.»

      Com o técnico Basile @Getty / JUAN MABROMATA
      Ultrapassadas algumas questões contratuais no final da temporada 2010, Riquelme regressou meses mais tarde ao Boca Juniors onde se manteve mais quatro anos antes de regressar ao ponto de partida. Palmeiras (Brasil) e Chivas (México) ainda estiveram em cima da mesa, mas o último capítulo estava prometido ao Argentinos. Que ajudou a subir à primeira divisão.

      Uma viagem incrível, Juan Román. Gostámos tanto como tu.

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      Juan Román Riquelme (ARG)
      Juan Román Riquelme (ARG)

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