Língua e futebol

Confusões de língua: os estrangeirismos no futebol português

Texto por Pedro Marques Silveira
l0
E0
Na língua portuguesa o futebol será das áreas em que mais se recorre a estrangeirismos e empréstimos linguísticos. Quem já não ouviu palavras não portuguesas como «dérbi», «doping», «afición», «claque», «remontada», «score» «flash-interview» ou até mesmo «futebol»?

Este texto é uma tentativa de encontrar as raízes e os motivos por detrás do uso e abuso de palavras estrangeiras na nossa língua na comunicação social desportiva, mas é também uma tentativa de analisar as mais recentes introduções que erroneamente se vão enraízando entre jornalistas, comentadores e adeptos do «desporto rei».

BI inglês

Nascido na Inglaterra, introduzido e desenvolvido no nosso país pelos ingleses, o futebol é talvez uma das mais queridas importações que os portugueses já tiveram o prazer de importar.
 
O futebol pode ter nascido inglês, mas entre nós, há muito que é português. Mas antes de ser bem lusitano, recebeu as mais variadas influências. Desde que chegou a estas terras foi influenciado pelos mestres húngaros que nos ensinaram os rigores da tática nos anos 30 e 40. Terá crescido em convivência com o gene latino de italianos e espanhóis ou dos artistas argentinos que brilhavam no nosso campeonato, aprendendo a «gingar» com os brasileiros e os muitos atletas que foram chegando de África a partir da segunda metade do século passado.
 
Começo difícil 

A verdade é que o «beautiful game» se aportuguesou tornando-se nacional, com um estilo e uma forma de jogar reconhecidamente portuguesa. 

Se o jogo e a forma dos portugueses o jogarem se nacionalizou, o mesmo se pode dizer do vocabulário que nos primeiros tempos era quase todo em inglês e que chegou aos nossos dias já bem lusitano.

Curiosamente o futebol tinha chegado ao país na ressaca de um dos acontecimentos que mais ferira o orgulho nacional em séculos. Falamos é claro do vexante ultimato inglês que deitara por terra os sonhos lusos do «Mapa Cor de Rosa», o sonho antigo de ligar «Angola à Contracosta», ou seja Moçambique, sonho das autoridades portuguesas desde a célebre viagem de Brito Capelo entre 1884 e 1885. 
 
Durante décadas, os únicos códigos de regras disponíveis no país eram importados de Inglaterra e como tal estavam escritos em inglês.
Com o orgulho ferido, a opinião pública portuguesa clamava contra a impotência do governo do Rei D. Carlos. Falava-se abertamente da forma como Portugal se dobrara perante a vontade britânica. A monarquia definhava e a república estava próxima, pelos cafés do país a «Pérfida Albion» era a culpada de todos os males da outrora gloriosa nação.
 
Quando os ingleses e depois alguns portugueses começaram a jogar o jogo, este foi recebido com enorme desconfiança. A sua impopularidade devia-se sobretudo ao desprezo a que era votado tudo a que soasse remotamente anglo-saxónico. Não é à toa que na primeira versão dos versos de «A Portuguesa» se marchava contra os «bretões» e que só mais tarde se passou a marchar contra os «canhões».

Como os portugueses se afastaram do futebol, coube aos súbditos de Sua Majestade introduzir e divulgar o jogo, mas certamente estes não teriam o cuidado de verter para a língua de Camões as respetivas traduções dos termos técnicos e regras e o futebol entre nós nasceu "em inglês" ao contrário dos principais países da Europa que tal como nós tomaram o jogo como seu, como tão bem ilustram o «but» francês, o «calcio» italiano, o espanholíssimo e entretanto caído em desuso «balompié», o «voetball» holandês ou o «tör» germânico. 

Crónicas e explicações
 
«O Diário Illustrado» apresentou uma crónica de dois jogos realizados no mesmo dia, corria o ano de 1893. Ao ler-se o texto percebe-se que na época era tão importante contar o que se passava durante o jogo como era explicar aos leitores o que era essa coisa do football.

O primeiro jogo era entre um «team do Club Lisbonnense» e «um grupo de englishmen e Lisboa e Braço de Prata», enquanto o segundo era uma partida entre os "combatentes" do «Team do Real Gymnasio Club» e o «Grupo de englishmen da Companhia do Cabo Sub-marino».

Uma equipa do Sport Lisboa e Benfica em 1910. Por esses tempos os «clubs» não só «falavam» como «vestiam» em inglês, importando todo o equipamento que usavam.
O cronista defendia que o mais importante para um espetador poder entender o jogo era saber e perceber o que estava a assistir.

Sendo assim, passava de pronto à explicação: «O football é um jogo inglez por excellencia. É batido entre dois grupos, de onze jogadores cada um, e joga se n´um campo de muitos metros em forma de parallelogrammo, limitado por buts, pequenas bandeiras que impedem a ingressão dos espectadores.»

Além da curiosa insistência na chamada «vírgula de Oxford», ou de série, o jornalista faz referência a um termo estranho, «buts», que de pronto informa serem pequenas bandeiras que servem como delimitação do terreno. 

A palavra «buts» não existe no inglês actual com o sentido que o texto emprega, mas no dialecto escocês «buts» tinha e tem o mesmo significado que o inglês «outside», o que faria todo o sentido no contexto do texto. Sendo assim, talvez esse grupo fosse formado não por ingleses (ou só por ingleses), mas por um conjunto de jogadores tanto ingleses como escoceses, o que já explicaria melhor a utilização de termos escoceses desconhecidos entre os ingleses... Todavia «buts» seria a única excepção num mar de anglicismos...

Para inglês ler?

Mas o texto do «Diário Illustrado» não seria o único a recorrer a termos como «point» para ponto, «captain» para capitão ou «goal» para baliza ou meta. Passar os olhos pela imprensa da época permite perceber a quantidade de anglicismos que existiam no comentário desportivo. Primeiro de tudo o próprio jogo era conhecido entre nós pelo termo inglês «football», assim como o próprio «desporto» era ainda e só «sport».
 
Olhando para o nome dos primeiros clubes desportivos que surgiram em Portugal no fim do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX encontramos termos como «sport», «sporting», «football» (com ou sem hífen), «club» ou «footballers», só para citar os exemplos mais comuns. Até o nome das cidades onde os clubes jogavam sofriam da anglicização futebolística como são os casos do Lisbon Foot-Ball Club e do Oporto Cricket Club.

Os três grandes refletiam no seu nome essa influência britânica: Sporting (Desportivo) Clube de Portugal, Sport (Desporto) Lisboa e Benfica e o «Foot-ball Club» do Porto. Se leões e águias mantiveram o anglicismo, o FC Porto acabaria por adaptar o nome para o aportuguesado «Futebol Clube», mas só uma década mais tarde é que encontramos uma total adaptação do português com nomes como o do Clube de Futebol os Belenenses, onde já não existe a inversão do sujeito, tão típica do idioma de Shakespeare. 

O uso de palavras inglesas era comum na época. Até os próprios jornais tinham nomes em inglês como «Sports» ou «Football».
Nesses tempos a imprensa fazia referência a trains (treinos) que antecediam os tão aguardados matchs (jogos). Os foot-ballers (futebolistas) ou sportsmen (desportistas) perseguiam a «ball», faziam dribles e tackles, tentando também fazer com que a bola entrasse no «goal» (baliza).

Quando o jogo começava ou a bola era reposta em campo dizia-se «ball in play», quando esta batia na mão de um jogador de campo era «hand». O tempo era «time» e até uma fuga de um avançado com uma bola era um «rush». 

As equipas, perdão, os «teams», disputavam a vitória de uma «cup» (taça) e por aí adiante...

Jogadores, regras...

Entre as primeiras medidas associativas que se tomaram no futebol nacional conta-se a fundação de uma Liga de Football Association de que seriam os fundadores o Carcavelos Club, Lisbon Cricket Club, Football Cruz Negra, Sport Lisboa, Club ##Internacional de Football e Sporting Club de Portugal
 
O próprio futebol muitas vezes respondia pelo nome de «association», termo utilizado na língua inglesa para o diferenciar de outros futebóis com códigos diferentes que viriam a transformar-se em modalidades distintas como o râguebi ou o futebol americano.
 
Dentro do campo as próprias posições dos jogadores recorriam ao termo original. O guarda-redes era ainda o «goal keeper», o defesa lateral seria um «back» durante muito tempo, depois havia os «half-backs»e lá na frente os «forwards. O árbitro era o «referee», o fiscal de linha era o «linesman» e o treinador tanto era o manager como o ainda hoje popular «mister». 

Os jogadores marcavam free-kicks, corners, penaltys e eram apanhados em off-side e assim seria até meados do século XX. 
 
Os anos iam passando e gerações de jornalistas e cronistas foram adaptando ou traduzindo os termos ingleses do nosso futebol. O grito de «está off-side!» ainda tão comum nas bancadas dos nossos estádios há 30 anos passou a ser «está fora-de-jogo!». As equipas passaram a ceder e a ganhar cantos. Os «managers» quase saíram do discurso comum, cedendo o lugar ao portuguesíssimo treinador e o «resultado final» tomou o lugar ao «score».

Dentro do campo passamos a ter avançados, guarda-redes, defesas, médios, alas, extremos, laterais, trincos... A linguagem futebolística enriqueceu-se. Os empréstimos linguísticos chegaram e naturalmente entraram até no discurso comum do dia-a-dia.
 
A natureza dos empréstimos
 
Hoje em dia são poucos os anglicismos usados pelos pioneiros que não tenham uma tradução na nossa língua, perdendo umas a integridade fonética e a ortográfica, porém, os anglicismos perduram. A «performance», acompanhada pela «prestação» é mais comum que «actuação» ou «desempenho».

«Remontada» é uma das muitas palavras que nos últimos anos "importamos" da vizinha Espanha.
A maior parte dessas mudanças deveram-se a traduções como «linesman», que mais tarde seria «liner» e «bandeirnha» e com o tempo passou a «juiz de linha», alguns foram aportuguesados como o próprio «football» que se tornou «futebol». Outros foram decalcados da língua inglesa como o «golo d´ouro» que no original era um «golden goal» ou o «shoot» que se adaptou à fonética da nossa língua para se tornar no «chute». 

O fim da década de noventa traria a globalização também para o mundo do futebol. De um momento para o outro os jogadores portugueses eram a exceção e não a regra nos onzes escolhidos por cada «Mister». 
 
O inglês continuou a ter a fatia de leão no que toca aos estrangeirismos adotados na linguagem desportiva portuguesa, com as últimas décadas a oferecerem ao adepto comum português palavras como «play-off», «sprint», «doping» ou as famigeradas «flash-interview» que se recusam a ser «entrevistas curtas». O discurso corrente recebe regularmente diversas palavras do inglês e o futebol não está isento.

O discurso futebolístico está cheio dessas novas importações linguísticas: «To focus» que em português seria «concentrar» tornou-se «focalizar», o «vencer por agregado» do inglês «aggregate» não é mais do que que a «vitória no conjunto das duas mãos», assim como o «to realize» tranformou-se em «realizar» quando a tradução correta em português só podia ser «aperceber».

Contudo outras referências além das provenientes da língua de Shakespeare marcaram a forma dos comentadores e adeptos falarem de futebol. O sucesso do «Escrete» e dos jogadores brasileiros em Portugal legaram-nos palavras como «artilheiro», «peladinha», «gandula», «torcida» ou «redondinha», de África chegaram via futebol palavras como «candongueiro» ou «revienga». A Itália, referência futebolística nos anos 80 e 90 "ofereceu-nos" o «maestro», o «libero», os «ultras» e os «tiffosi» e em tempos idos até os franceses já nos tinham emprestado a «equipe» e a «claque». 

A ilusão do significado

Mas seria mais recentemente a língua castelhana a fazer-nos chegar um conjunto de novos termos que "pegaram de estaca" no futebolês. Se a «afición» é ainda um estrangeirismo utilizado entre aspas ou itálico, já o mesmo não se passa com os «aficionados» e a popular «remontada» usada hoje em dia mais vezes que a portuguesíssima «reviravolta».
 
Outro caso de utilização comum é o da palavra «rival» que no espanhol é utilizado no sentido de adversário. Em português tem esse mesmo significado de adversário, ou com quem se rivaliza, mas no contexto desportivo (entre outros) sempre fora usado para referir uma rivalidade com tradição. O Sporting é rival do Benfica, tal como o Benfica é rival do FC Porto, já se o Benfica for jogar com o Nacional não será um rival do Nacional, mas já este último será sempre um rival do Marítimo. A rivalidade tem a ver com a tradição e a história dos embates e não com a simples existência de um adversário.
 
Importada de Espanha chega também a «roda de imprensa», do original «rueda de prensa», que não é nada mais que a «conferência de imprensa» já de si traduzida do inglês «press conference». A tradição da tradução literal há muito que é "regra" no futebolês. 
 
Por falar em «tradição», esta é outra palavra que treinadores e jogadores espanhóis, assim como portugueses que jogaram ou treinaram em Espanha utilizam num sentido que não era comum entre nós. Um treinador português não diria que iria enfrentar «um adversário com tradição», diria antes que iria encontrar um «histórico» ou um «adversário com história», mas hoje em dia já é comum ouvir que «iremos defrontar um adversário com tradição».

Novas tradições à parte, poucas dúvidas restam que a mais arrepiante das importações do país vizinho será o recorrente, e porque não irritante, «ilusão» que em português significa «engano dos sentidos ou pensamento», «o que se nos afigura ser o que não é», «uma quimera» ou uma «esperança irrealizável». Não há nada de positivo no seu significado, mas quem lê, ouve ou vê a comunicação social desportiva portuguesa, terá de pensar certamente o contrário.
 
Quando Quique Flores chegou ao Benfica declarou que «Tinha ilusión de ser campeón» e na imprensa portuguesa passou automaticamente a ter «ilusão de ser campeão», esquecendo-se que em castelhano a palavra tem uma conotação positiva, precisamente o oposto da conotação que tem na nossa língua. O erro está de tal maneira interiorizado no mundo futebolístico que como escreveu num artigo o jornalista João Bonifácio (1), parece que já faltou mais «para que uma grávida esteja “de ilusões” em vez “de esperanças”».

Tenhamos então esperança que a «ilusão» volte a significar o que sempre significou e que esse significado não seja «irrevogável», a bem da nossa língua e futebol. 
--------------------------------------------------
(1) - In jornal Público, 26 de janeiro de 2011.
Comentários (0)
Gostaria de comentar? Basta registar-se!
motivo:
EAinda não foram registados comentários...