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    História da edição

    Champions 11/12: Que balde de gelo italiano

    Texto por Jorge Ferreira Fernandes
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    Nem sempre, feliz ou infelizmente, o futebol respeita a ordem natural das coisas e beneficia aqueles que, em teoria, são os melhores. A Champions de 2011/2012 foi uma das mais emocionantes de sempre, muito por culpa de uma equipa que precisou de apresentar a sua versão menos bonita e espetacular para, por fim, garantir o tão desejado título europeu. Procurar lógica neste desporto é mesmo tempo perdido. 

    O Chelsea, que tinha perdido uma grande oportunidade na edição de muitas surpresas em 2003/2004, que tinha, com José Mourinho, falhado por muito pouco o acesso a duas finais e que, com Grant, tinha ficado a uma escorregadela de John Terry de levantar a Orelhuda, sagrou-se campeão europeu na temporada em que o título aparecia como menos provável. Uma meia-final para a história e um jogo decisivo, ainda por cima na casa do outro finalista, recheado de momentos dramáticos, com um protagonista a dar um grito de revolta e a, por fim, alcançar o objetivo que toda aquela zona da cidade de Londres procurava. 

    Convém lembrar que esta época dos blues começou com uma mudança e muitas expetativas. André Villas-Boas, depois de ter arrasado na temporada de estreia no Dragão, chegava a Stamford Bridge com o rótulo de Special One II e não se pedia ao técnico português menos do que a mesma qualidade de jogo apresentada na Invicta e os resultados, como a recuperação do título da Premier League e o olhar sempre muito direcionado para a Champions. A fase de grupos, entre muita inconsistência, com maior ou menor brilhantismo, acabou por ser ultrapassada, muito por culpa de um rendimento quase perfeito em casa. 

    Ora, o adversário que tinha impedido na última edição que o Chelsea seguisse para a final de Wembley, não teve um regresso nada positivo à Liga Milionária. Num grupo onde era o principal favorito, o Manchester United desiludiu, permitindo ao Benfica garantir o primeiro lugar e ao Basileia também seguir em frente. Duas vitórias em apenas seis jogos, numa descida nada usual para a Liga Europa que não apaga, ainda assim, a surpresa de um conjunto suíço que fazia brilhar um jovem Shaqiri e a emancipação de um Benfica muito mais capaz em relação à época anterior, também devido às apostas certeiras em elementos como Garay, Bruno César, Witsel ou Rodrigo, para lá do entendimento entre Aimar e Cardozo. A águia voava às custas dos diabos vermelhos de Inglaterra. 

    Tal como em 2006, o Benfica caiu nos quartos perante o futuro campeão @Catarina Morais

    Para a outra equipa portuguesa não houve a mesma sorte. Habituado a passar o primeiro obstáculo na Champions, o FC Porto não fez melhor do que acabar o seu grupo em terceiro, depois de uma fase de grupos onde os problemas no início da caminhada de Vítor Pereira ficaram bem à vista. Muitos dos que permaneceram no Dragão, depois de uma época praticamente perfeita, tinham expetativas em sair, algumas posições, como a de ponta de lança, não foram bem cobridas - Kléber não era, de todo, Falcao - e o Zenit e o surpreendente APOEL mostraram-se mais consistentes e regulares durante os seis jogos, num quarteto em que o último classificado acabou com cinco pontos. 

    Depois de ter perdido a meia-final face ao grande rival Barcelona, na época passada, o Real mostrou desde muito cedo que estava nesta Champions para ir até Munique e para conquistar o 10º título. Reforços foram poucos, apenas Coentrão entrou verdadeiramente no rolo compressor, mas o crescimento coletivo dos merengues foi tão evidente que, na primeira dezena de partidas, os comandados de Mourinho conquistaram nove vitórias, sofreram apenas um empate (em Moscovo, tendo o tento do CSKA aparecido no último lance do jogo, praticamente), e chegaram à marca dos 32 golos. Uma autêntica máquina, com Ozil e Di María a brilharem e a serem os principais fornecedores de um ataque que tinha nomes como Benzema, Higuaín e, claro, Cristiano Ronaldo, que começava uma luta muito especial com Messi pelo título de melhor marcador da competição. 

    Antes de travar a sequência incrível deste Real Madrid, o Bayern, que tinha, para lá das legítimas e naturais aspirações, o desejo de jogar a final da Liga dos Campeões em casa, passou por um pequeno susto na primeira fase, com um dos grupos mais emocionantes e concorridos da história da Champions. Os alemães acabaram em primeiro, é certo, mas apenas com mais dois pontos do que o segundo, o Nápoles, e três do que o terceiro, o Manchester City, que demorava a assumir um protagonismo europeu no meio de tanto investimento. Curiosamente, as duas eliminatórias foram praticamente um passeio para os bávaros, que destruíram o Basileia por 7x0, antes de ultrapassarem um problema chamado Marselha. A equipa de Kroos, Schweinsteiger, Robben, Gómez, entre outros, tinha crescido muito e estava pronta para regressar ao topo do futebol europeu. 

    Quanto ao campeão europeu Barcelona, não acabou com folha limpa a fase de grupos, mas quase, empatando apenas uma partida. E se havia dúvidas quanto ao poderio e à continuidade desta equipa, que já contava com Fàbregas ou Alexis, elas ficaram dissipadas logo na primeira eliminatória, às custas de um Leverkusen demasiado curto. A primeira mão até teve o mínimo de equilíbrio, apesar da clara superioridade catalã (1x3), a segunda foi um autêntico massacre que entrou para a história da competição. Não só pelo facto do Barcelona ter marcado sete golos num jogo a eliminar, mas mais por cinco deles terem sido da autoria de um único jogador, Lionel Messi. Num apanhado da carreira de um dos melhores de sempre estará lá, com certeza, aquela noite memorável de 7 de março de 2012. 

    Voltando à equipa portuguesa que passou o primeiro obstáculo, o Benfica protagonizou nos oitavos de final uma eliminatória bem equilibrada e interessante contra o Zenit de Spalletti. A jogar em temperaturas negativas, os comandados de Jorge Jesus acabaram por trazer um positivo 3x2, que só teve como senão a lesão de Rodrigo, num lance dividido com Bruno Alves, que retirou o jogador encarnado em melhor forma da segunda-mão. Sem o jovem espanhol, apareceu um português, na Luz, uns dias depois, para carimbar a passagem aos últimos oito. Era a hora de Nélson Oliveira, que teria ainda uma outra palavra a dizer no resto de participação encarnada. 

    Numa fase mais adiantada da prova, coube ao Chelsea colocar-se no caminho do Benfica, que igualava a melhor marca na Champions (1994/1995 e 2005/2006). Apesar do estatuto dos londrinos, esta não era uma missão impossível para Jorge Jesus e companhia. Porque o Benfica estava em crescendo no patamar europeu, já tinha deixado ótimas indicações contra uma outra equipa, teoricamente, até mais forte, como o Manchester United, e porque este conjunto blue ainda se mostrava, quiçá, demasiado curto para um sério candidato. A primeira -mão não correu bem aos lisboetas, com Torres a decidir pela margem mínima, a segunda começou pior, com o golo de Lampard, e as múltiplas ausências deixaram a tarefa ainda mais complicada. O que é certo é que, com uma dupla de centrais formada pelo médio Javi García e pelo defesa esquerdo Emerson, o Benfica chegou ao empate e por pouco não conseguiu carimbar a reviravolta, tendo Nélson Oliveira optado pelo remate quando tinha Djaló numa ótima posição. Era, também, o início da queda para o jovem internacional português no Estádio da Luz...

    Chegávamos, então, aos quatro sobreviventes. Barcelona e Real Madrid podiam, esta vez, discutir uma final, mas para isso tinham mesmo de eliminar Bayern e Chelsea. Merengues e bávaros protagonizaram uma eliminatória de grande nível, equilibrada como poucas, recheada de grandes momentos, onde as duas equipas acabaram por partilhar o domínio. Cristiano Ronaldo brilhou na segunda-mão e colocou o futuro campeão de Espanha em vantagem, mas a decisão ficou adiada para as grandes penalidades. Aí, Sergio Ramos enviou a bola para as nuvens, o próprio CR7 não conseguiu bater Neuer e o Bayern pôde festejar o facto de jogar um jogo tão importante como a decisão da Champions em casa. Mourinho terminava de joelhos...

    Se a uma das meias-finais não faltou emoção e drama, então a outra teve isso tudo e muito mais. Favorito, à partida, o Barcelona tinha uma oportunidade de ouro para conquistar o terceiro título europeu naquela que, já se sabia, seria a última temporada de Guardiola em Camp Nou. A derrota na primeira-mão, em Stamford Bridge, foi surpreendente, mas a consequência de uma forma de jogar que não encantava todos e que, ao mesmo tempo, era extremamente eficaz, quer do ponto de vista defensiva quer nos lances de transição atacante. Uma semana depois, em Camp Nou, o Chelsea defendeu ainda mais, mas não conseguiu evitar dois golos, de Busquets e de Iniesta, e um Barça dominador, em busca de «salvar» uma época que, desta vez, não ia ter título de campeão espanhol. Só que os deuses do desporto rei conspiraram e levaram estes blues até Munique, num final de jogo absolutamente dramático em que um Barça em superioridade numérica, já depois de ter desperdiçado uma grande penalidade, lançou-se desesperadamente em busca do golo decisivo, apenas para que Torres, o contestado e desinspirado El Niño...em Londres, pudesse carimbar o épico apuramento. Gary Neville até perdeu a voz nos comentários.

    Conhecer perfeitamente os caminhos a percorrer. Jogar diante do seu próprio público. Pisar o relvado tantas e tantas vezes pisado dias, semanas, meses e anos antes. Não faltavam razões para se considerar este Bayern como o legítimo favorito da final de 2012. Mas não era só o fator casa, este conjunto comandado por Heynckes tinha a qualidade de jogo, a sabedoria tática, a consistência para não cometer os mesmos erros do Barcelona. E, depois, a qualidade individual era muita e ainda mais potencialmente decisiva do que a do Chelsea, que foi obrigado, por exemplo, a lançar um jogador como Bertrand no onze inicial. 

    E o jogo até acabou por confirmar algumas destas ideias pré-concebidas. Afinal, o Bayern foi quase sempre melhor, criou mais oportunidades e chegou ao golo com naturalidade, a menos de dez minutos do final, por intermédio de Muller. Começavam-se a aquecer as gargantas para o grande festejo, quando Drogba, numa cabeçada de revolta, empatou a partida e adiou a decisão para o prolongamento. Robben falhou no frente a frente com Cech, como já tinha falhado Messi e, nas grandes penalidades, prevaleceu o azul que tanto tinha ficado ofuscado nos anos anteriores. Drogba foi às lágrimas e o sonho de Abramovich foi cumprido. 

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    jogos históricos
    U Sábado, 19 Maio 2012 - 19:45
    Allianz Arena
    Pedro Proença
    1-1
    (3-4 g.p.)
    Thomas Muller 83'
    Didier Drogba 88'
    Estádio
    Allianz Arena
    Lotação75000
    Medidas105x68
    Inauguração2005