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      Arrigo Sacchi: O inventor do Super Milan

      Texto por João Pedro Silveira
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      Arrigo Sacchi, nascido a 1 de abril de 1946 na modesta vila de Fusignano, inserida na província de Ravenna. Origens humildes, família trabalhadora. Futebol como sonho e um complemento especial de uma vida aterefada com o papel de vendedor de sapatos através da fábrica do pai.

      Sacchi não viveu uma vida típica e glamorosa de um futebolista. Apaixonado e obcecado pelo jogo, nunca passou do amadorismo, atuando como defesa durante anos no clube da terra. Aos 26 anos, enquanto tentava a sorte noutro clube local, Baracca Lugo, decidiu arriscá-la a partir dos bancos. 

      A decisão não foi, de todo, descabida. Afinal, Sacchi passou a sua juventude a devorar algumas das equipas mais marcantes da história: a Holanda de Rinus Michels, Cruyff e companhia - a grande inspiração -, o Real Madrid de Di Stéfano, a Hungria de Puskás e Gusztav Sebes e as gerações fenomenais do Brasil, com Pelé à cabeça. A posteriormente apelidada de 'filosofia de Sacchi' teve sobretudo estes conjuntos como pilares.

      A inclinação para o futebol pressionante e de ataque começou logo no Baracca Lugo, que depositou mais confiança nas suas valências como técnico do que como jogador. Com o passar do tempo, a ascensão de Sacchi foi notória. Depois desse primeiro desafio, mudou-se para Bellaria - onde surpreendeu até jogadores mais velhos pelas ideias inovadoras - e daí saltou para a Academia do Cesena, onde esteve um par de temporadas e a full-time, visto que necessitou de optar entre a vida de fábrica e de um homem do futebol.

      Mais tarde surgiu o Rimini, um patamar ligeiramente mais alto para quase vencer um título nos anos 80 e, com isso, chamou à atenção da Fiorentina para treinar nas camadas jovens. Em 1885/86, apareceu, então, o Parma, o seu primeiro grande desafio no futebol sénior.

      Afundados nas divisões inferiores (Serie C1, terceiro escalão), os gialloblu tinham o objetivo de voltar à Serie B (segundo escalão) e o desejo foi cumprido. Com um futebol intenso e completamente dissociado da realidade italiana, o Parma carimbou a subida com três derrotas em 34 jogos. Mas mais impressionante foi o trajeto da equipa na Taça de Itália. O Parma chegou aos quartos-de-final e venceu o AC Milan presidido por Silvio Berlusconi por duas vezes e sem sofrer qualquer golo! O destino é tramado...

      Da desconfiança à glória em Milão

      Corria o ano de 1987. Silvio Berlusconi completava o primeiro ano à frente do AC Milan. Insatisfeito com o rumo da equipa, tomou em mãos o processo de reestruturação do clube. Demitiu Nils Liedholm e foi a Parma buscar um jovem treinador quase desconhecido: Arrigo Sacchi (1), que o deixou deslumbrado, na época anterior, ao arrumar os rossoneri da Taça de Itália.

      Em Milão, Sacchi enfrentou uma feroz crítica mesmo antes de se sentar no banco. A imprensa questionou o seu currículo, com alguns a alcunharem a aposta de Berlusconi como um erro de palmatória, uma demonstração da sua inexperiência no mundo do futebol e das suas subtilezas. Um jornal perguntou mesmo «se um jogador mediano podia liderar uma grande equipa». Outros lembraram que até Berlusconi - que jogara nos amadores - fora melhor futebolista que Sacchi.
       
      Berlusconi sorriu e deixou o seu homem forte falar. O treinador natural de Fusignano, também ele sorridente, asseverou: «Um jockey não precisa de nascer cavalo...». Os jornalistas, pasmados, também eles sorriram e Sacchi ganhou o seu primeiro braço-de-ferro com a imprensa italiana.
       
      Na década de oitenta, a esmagadora maioria das equipas italianas jogavam ainda de forma defensiva - o famoso catenaccio - à velha e boa maneira italiana: dois centrais fixos, um líbero, dois médios ala, tudo muito rígido e com posições fixas... A posse de bola era mais individual do que coletiva e o ataque vivia de rasgos individuais, quando um dos avançados (ou médios) conseguia romper a marcação individual.
       
      O Parma de Sacchi jogava num 4x4x2 bem definido no relvado, balanceado no ataque e com muitas movimentações com e sem bola. Para além disso, as trocas de posições tornavam o seu jogo um rasgo no marasmo do futebol italiano, inovando com um meio campo em losango. As críticas foram muitas e, na maior parte das vezes, infundadas. Anos depois, a imprensa passou a referir-se à inovação de Sacchi como uma «Revolução Coperniciana» no calcio.
       
      Berlusconi não olhou a meios para oferecer a Sacchi todas as armas para atacar o título e a Europa. Apaixonado pela Holanda de Rinus Michels - tanto a de 70 como a de 80 -, Sacchi resolveu adaptar o jogo da sua equipa ao futebol total à holandesa. Para tal, contou com a chegada de um trio de luxo: Marco van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard. A eles juntavam-se a jóias nacionais como Franco Baresi, Carlo Ancelotti, Roberto Donadoni e Paolo Maldini.
       
      Entre 1987 e 1991, o Milan só conquistou uma liga italiana, mas, na Europa, acabou por reviver os tempos dourados dos anos sessenta, sagrando-se bicampeão europeu, feito que mas ninguém repetiu até à segunda década do século XXI. Em 1989, os rossoneri esmagaram o Real Madrid nas meias-finais por 6x1 (no conjunto das duas mãos), antes de baterem, em Barcelona, os romenos do Steaua, com dois golos de Gullit e outros dois de van Basten. Um ano depois, seria o igualmente holandês Rijkaard a apontar o golo solitário sobre o Benfica em Viena, garantindo a vitória e o sucesso do tridente dos Países Baixos.
       
      Squadra Azzurra
       
      O sonho do tricampeonato europeu - feito apenas conseguido por Real Madrid, Ajax e Bayern - acabou por morrer às mãos do Marselha, nos quartos-de-final da edição de 1990/91. Sacchi abandonou Milanello no final da época assumindo, poucos meses depois, o cargo de treinador nacional, substituindo Azeglio Vicini que falhara a qualificação de Itália para o Euro 1992. 
       
      Usando o Milan como base da defesa da seleção e Roberto Baggio como maestro, a Itália foi batida pela Suíça na qualificação para o mundial dos Estados Unidos (1994), mas superou, sem problemas, a concorrência de Portugal e Escócia.
       
      Em terras de Tio Sam, a Squadra Azzurra estreou-se com uma derrota com a Irlanda, mas acabou por se qualificar num grupo em que as quatro equipas terminaram empatadas com quatro pontos. (2) Depois de uma longa caminhada com Baggio a resolver sempre os problemas, apontando golos a Nigéria, Espanha e Bulgária, a Itália voltou à final de um Mundial, doze anos depois de ter conquistado o terceiro título em Espanha. Pela frente encontrou o Brasil, também ele tricampeão, mas em jejum há longos e penosos 24 anos... (3)
       
      Numa tarde de muito calor, debaixo do sol inclemente de Pasadena, Califórnia, italianos e brasileiros foram os primeiros finalistas a não conseguirem marcar um golo nos noventa minutos, mantendo-se em branco após prolongamento, obrigando à decisão pela marca de grandes penalidades. Na lotaria dos penáltis, a injustiça bateu à porta de Roberto Baggio que, ao falhar, permitiu o tetra brasileiro.
       
      Dois anos depois, em Inglaterra, Sacchi não sobreviveu a eliminação na primeira fase, sendo afastado da seleção. Passou ainda uma época por Milão, sem sucesso, antes de tentar a sorte em Espanha, ao leme do Atlético Madrid, que guiou a uma presença numa final da Taça do Rei e a um desprestigiante 13º lugar no campeonato.
       
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      (1) - Para grande surpresa dos italianos, pois o Parma acabara de ser campeão da Serie C1 (o terceiro escalão do futebol italiano)
      (2) - República da Irlanda, Itália e México passaram para a segunda fase, tendo a Noruega sido liminada.
      (3) - Vitória curiosamente conseguida contra a Itália, no Mundial do México, por 4x1 na grande final.
      Em campo, Sacchi criou uma equipe baseada no futebol total da Holanda de Cruyff, com sua forte pressão e os contra-ataques letais. Com a bola nos pés, um time que impunha o próprio jogo e obrigue o adversário a seguir o ritmo imposto. Em suma, um time ofensivo até ao defender. Mas não dá para negar a sorte do técnico emiliano em ter encontrados jogadores tão dispostos a se entregar a seu jogo. Tanto que vários deles viraram treinadores ao fim da carreira: Ancelotti, Donadoni, Gullit, Rijkaard, van Basten. Para a revista inglesa World Soccer, o Milan da segunda temporada de Sacchi, em 1988-89, foi o clube mais forte de todos os tempos, e o quarto melhor time da história, atrás apenas de três seleções (Hungria '53, Brasil '70 e Holanda '74).Em 1987, Silvio Berlusconi completava um ano como presidente do Milan. Ambicioso, e visando utilizar o clube como trampolim político, Berlusconi surpreendeu ao demitir o sueco Nils Liedholm a algumas rodadas do fim do campeonato e escolher um treinador praticamente desconhecido do grande público para comandar a dupla Gullit-van Basten: o jovem Arrigo Sacchi. Aquele mesmo que havia sido notado na mesma Milão na temporada anterior, quando, pela Coppa Italia, seu Parma havia exigido do Milan de Liedholm uma disputa por pênaltis.
       
      At Milan, Arrigo Sacchi again faced problems of credibility. The press argued that such an inadequate player could never go on to be a successful coach, and that even Berlusconi- who had played football at amateur level- was probably a better player. However, Sacchi coined a witty term: "A jockey doesn't have to have been born a horse". Sacchi's success at Milan gained him two back-to-back European cups- an incredible achievement. The success he gained was largely attributed to the Dutch trio he had purchased- Marco Van Basten, Ruud Gullit and Frank Rijkaard. However, other great players such as Franco Baresi, Roberto Donadoni and Paolo Maldini were also a key to his success.
       
      Àquela época, a maioria dos times da Serie A jogavam de um modo bastante tradicional, com dois centrais fixos, geralmente um líbero, dois meias externos... A posse de bola também era mais individual do que propriamente da equipe, já que os jogadores eram mais facilmente marcáveis. O Parma jogava num 4-4-2 bem ofensivo e cheio de movimentação, com ou sem a bola. Uma "revolução copérnica", como chamaram os jornais da época, na estreia italiana do centrocampo a rombo, ou basicamente o meio-campo em losango da forma como conhecemos no Brasil. No Milan, não recuou e peitou os críticos para colocar em prática seu esquema. Fez bem. Com os rossoneri, conseguiu seus melhores resultados e todos os títulos da carreira, contando inclusive com um sacrifício até então inesperado dos seus principais homens, sendo Ancelotti um dos grandes exemplos do trabalho.
      Em campo, Sacchi criou uma equipe baseada no futebol total da Holanda de Cruyff, com sua forte pressão e os contra-ataques letais. Com a bola nos pés, um time que impunha o próprio jogo e obrigue o adversário a seguir o ritmo imposto. Em suma, um time ofensivo até ao defender. Mas não dá para negar a sorte do técnico emiliano em ter encontrados jogadores tão dispostos a se entregar a seu jogo. Tanto que vários deles viraram treinadores ao fim da carreira: Ancelotti, Donadoni, Gullit, Rijkaard, van Basten. Para a revista inglesa World Soccer, o Milan da segunda temporada de Sacchi, em 1988-89, foi o clube mais forte de todos os tempos, e o quarto melhor time da história, atrás apenas de três seleções (Hungria '53, Brasil '70 e Holanda '74).
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