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      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      2021/10/14
      E3
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.
      Listam-se os melhores jogadores portugueses do momento, desconta-se Cristiano Ronaldo que as lendas não se devem misturar nem sequer com os incomuns dos mortais, alinham-se obviamente Bernardo Silva e Bruno Fernandes, por esta ou outra ordem, consoante se valorize mais o jogo associativo ou o rasgo finalizador, espera-se pela explosão de Félix, o atacante mais diferenciado nascido desde a mudança de século, mas normalmente esquecemo-nos dele. E não devíamos. Por uma razão simples: João Cancelo é muito provavelmente o melhor lateral que o país viu em mais de 40 anos e seguramente tão bom na função que lhe reservam, no mínimo, quanto qualquer dos outros que citei com exceção de CR7.
       
      Naturalmente não vi Cavém em campo, nem Virgílio ou sequer Hilário, mas cresci com Artur, o ruço da raça insuperável, benfiquista que também jogou no Sporting, depois com Gabriel, o primeiro a quem me lembro de chamarem “lateral moderno” por atacar como ninguém naquele FC Porto de Pedroto cheio de campeões com bigode, mais Pietra, do Belenenses e depois do Benfica, talvez o único tecnicamente comparável a Cancelo, como ele destro natural mas lateral competente em qualquer dos lados e com tanta qualidade nos pés que jogar a médio também se tornava frequente e fácil para o lisboeta da cabeleira farta. Apareceu depois João Pinto, sempre o homem da primeira Taça dos Campeões do FC Porto, de pulmão imenso e fibra para dar e vender, Veloso, na mesma linha, de entrega total e longevidade rara com a braçadeira da águia, e depois Inácio e Álvaro, mais tarde Secretário, Dimas, Abel Xavier, Rui Jorge, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Miguel, Bosingwa, Fábio Coentrão, Nélson Semedo, Raphael Guerreiro, tantos de qualidade, outros que agora esqueço, estou mesmo convencido que nenhum como João Cancelo.
       
      Filho do Barreiro, como tantos históricos de gerações anteriores, fez o percurso mais comum desses que o antecederam (José Augusto, Bento, Frederico, Carlos Manuel), do Barreirense para o Benfica, craque anunciado na puberdade dos sub-15 encarnados, desperdiçado pelo Benfica apesar do dinheiro da venda, na tradição de dificuldade nacional de acreditar a sério nos mais novos, mesmo nos melhores. Aparentou sempre alguma instabilidade emocional mas a qualidade foi tanta que superou a trintena de jogos, em qualquer das épocas no Valência como depois no Inter e na Juventus. E finalmente o City. E Guardiola, que quer sempre atacar também com os defesas, soltar desde trás os que superam o homem e ganham espaço. Foi preciso domá-lo primeiro para o libertar a seguir, e agora é vê-lo até em zona defensiva a driblar avançados, como só me lembro de acontecer com Leandro, lenda de pernas arqueadas do Flamengo e daquele Brasil de 82 que os tipos da minha idade não esquecem.
       
      Cancelo é único no modo como galga metros em posse ou para recolher a bola no espaço, ao longo da linha como nos pedaços de relva onde mais adversários se acumulam, é o lateral que pode ser o que quiser: passa como um médio, assiste como um extremo, finaliza como um avançado. Em linguagem matemática seria um conjunto singular, para mim é o paradoxo admirável do jogador que é ao mesmo tempo especialista e multifunções. O que Cancelo faz, tanto e tão bem, poucas vezes vi noutros laterais em décadas, eu que me lembro de Kaltz e Gerets, Júnior e Briegel, que amei Cafu, Lahm, Roberto Carlos e Marcelo, que talvez nunca tenha visto melhor que Dani Alves. Na atualidade há dois ou três que caminham num nível próximo, Hakimi e Alexander-Arnold, com Dest a prometer chegar-se, mas nenhum me surge tão completo como o português. O melhor do mundo é designação guardada para habitantes do Olimpo, como Messi e Ronaldo, etiqueta só muito pontualmente colada um degrau abaixo, em Modric ou Lewandovski, raramente reservada a outras funções em campo, mesmo se este ainda pode ser o ano de Donnaruma, na tarefa mais específica de todas. Na tarefa de Cancelo, nessa que ele cumpre com competência mas depois multiplica como num milagre bíblico, não há outro igual. Estou mesmo convencido de que é o melhor lateral português que já vi e parece-me justo que se olhe para ele como o nosso outro melhor do mundo por estes dias.


      Comentários (2)
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      motivo:
      Boa reflexão
      2021-10-16 11h05m por hdmr77
      E se o jornalismo fosse uma equipa e a nação tivesse uma seleção, o Carlos Daniel seria o 10 e capitão!
      Concordo
      2021-10-15 08h43m por bernardobranco
      Sem dúvida , Cancelo é de facto o melhor lateral do mundo. Gostava de o ver num Bayern Munique ou Barcelona onde realmente poderia jogar numa equipa histórica e mítica
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