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      A preto e branco
      Luís Cirilo Carvalho
      2021/05/02
      E0
      "A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.
      Costumo dizer que em Portugal o único sítio onde não existe presidencialismo é na Constituição da República, que impõe um regime diverso desse, porque de resto ele está presente em todos os sectores da nossa vida em sociedade.
       
      Nos partidos políticos, nas câmaras municipais, nas juntas de freguesia, no mundo do associativismo, em todos esses lados o presidente é o Presidente e o resto são os ajudantes do presidente ou qualquer coisa de parecido, como se a legitimidade da eleição recaísse apenas na primeira figura e não em todos os eleitos.
       
      Se isso é assim nos diversos aspectos que foquei e que respeitam ao nosso mundo político, cultural, empresarial, associativo e por aí fora, há um mundo muito próprio em que isso se verifica, se possível a dobrar: os clubes desportivos. Não todos, mas em boa parte deles.
       
      Onde se elegem órgãos sociais com competências e áreas de actuação diversa, mas onde a palavra, a vontade, o desejo, a “ordem” do presidente valem muito mais que tudo o resto e se transformam em lei dogmática dentro do clube.
       
      Tinha um grande amigo, infelizmente falecido no ano passado, mais velho uns anos do que eu e com toda uma vida de experiência desportiva e em torno do desporto, que me dizia muitas vezes que no tempo da ditadura os clubes eram dirigidos em democracia e agora no tempo da democracia eram dirigidos em ditadura, querendo com isso dizer que, antes do 25 de Abril, na gestão dos clubes desportivos, na qual normalmente participavam homens (infelizmente era, e mais infelizmente ainda continua a ser, um mundo de escassa participação feminina) prestigiados da comunidade, as decisões eram tomadas colegialmente, enquanto depois do 25 de Abril passaram a ser cada vez mais (pelos menos as mais importantes) tomadas apenas pelo presidente do clube na base de um “posso, quero e mando” que pouco tem a ver com a democracia.
       
      Bastará olharmos para o que tem sido a história dos nossos clubes, especialmente daqueles que têm no futebol a modalidade prioritária e a praticam ao mais alto nível, para constatarmos que esse meu amigo tinha toda a razão. Direi até que cada vez mais razão.
       
      Não vou até ao ponto de achar, como um célebre humorista brasileiro que dizia “...o penalti é um momento tão importante que devia ser o presidente do clube a marcá-lo...”, mas sem dúvida que nos tempos que correm os presidentes dos clubes têm um poder decisório que extravasa os estatutos dos clubes e os princípios racionais de boa gestão, intervêm em todas as áreas, impõem decisões em todas as matérias que entendem e agem como se apenas eles fossem legítimos depositários da vontade dos associados desses clubes em que isso acontece.
       
      Fazem-no porque os associados dos clubes não se incomodam que assim seja, dado que elegendo os órgãos todos apenas escrutinam minuciosamente a actividade do presidente, como se os restantes dirigentes não existissem, o que leva a que os presidentes, sabendo que são eles que têm a “cabeça no cepo”, queiram controlar o máximo possível para que a cabeça lhes fique em cima dos ombros e não no tal cepo e também porque esses restantes não se importam de fazerem de conta que não existem desde que isso seja condição para se manterem nos cargos e merecerem a confiança do presidente.
       
      O que leva, necessariamente, a que os presidentes tenham pela certa horas de tremenda solidão em que têm de decidir sozinhos (alguns até gostarão, mas para outros deve ser uma angústia) sabendo que dessa decisão pode depender muita coisa para os seus clubes e para eles próprios também. Por exemplo, a escolha do treinador, que é uma daquelas áreas em que os presidentes podem ouvir muita gente, recolher muitas opiniões, solicitar muitas informações sobre o perfil dos candidatos, mas depois, quando chega a hora de decidir, sabem que a última palavra é deles e que da decisão que tomarem não há recurso nem justificações caso as coisas corram mal, especialmente num tempo como o de hoje em que o escrutinio é diário, várias vezes ao dia, ao ritmo que as redes sociais permitem, em que todas as decisões e opções são discutidas, criticadas e apoiadas por adeptos que valorizam quase sempre a componente paixão em detrimento da componente razão e que não têm pejo em opinarem sobre tudo, mesmo sobre matérias que não conhecem, sobre a qual não têm informação e, em muitos casos, conhecimentos suficientes sobre os assuntos para acerca deles opinarem.
       
      São as regras dos tempos de hoje. Por isso, quando os presidentes têm de decidir nessas horas de solidão absoluta, é bom que o façam com o máximo de informação, sem cedências ao populismo ou ao que parece óbvio, sem ilusões acerca de o feito aqui poder ser reproduzido ali, sem esperar que a dimensão dos seus clubes funcione como uma espécie de catalisador de competências dos contratados.
       
      Mesmo no regime presidencialista, de que não sou nada adepto, reconheço que não é nada fácil ser presidente de um clube face à responsabilidade que lhes recai sobre os ombros e ao nível de cobrança que os adeptos sobre eles fazem pender, mas são as “regras não escritas” dos tempos de hoje, e quem sente a motivação de presidir a uma instituição tão difícil como um clube desportivo sabe que ou as cumpre, sujeitando-se ao bom e ao mau como consequência, ou então contribui para as mudar através da tal colegialidade tão em uso noutros tempos e que me parece, ainda hoje, ser a forma mais desejável de dirigir um clube.
       
      Opções que cada um deve tomar no seu tempo e no seu clube.


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