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      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      2021/04/09
      E0
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

      Espanta-me que Manuel Machado, velho caminhante das ligas portuguesas, apresente no momento em que regressa ao nível mais alto uma estratégia de “dar a bola” ao adversário. Percebemos-lhe a intenção, velha de décadas e comum a tantos, que é a de jogar com menos espaço nas costas da linha defensiva e aproveitar pontualmente o erro rival. Do mesmo modo que sabemos, como ele sabe, até pelo resultado, que a estratégia falhou redondamente. Tanta bola se entregou ao adversário que ele fez 5 golos com ela. O ponto mais revelante parece-me ser outro, todavia, e é os das primeiras mensagens que o novo treinador do Nacional passou à equipa: de confiança reduzida nas próprias capacidades e da aposta num jogar dependente do opositor. Opositor que, a propósito, era o Portimonense e no Funchal, não exatamente um dos maiores emblemas do país. E já há muitos sabemos que não há duas oportunidades para criar uma boa primeira impressão. Em Famalicão aconteceu o inverso: Ivo Vieira aterrou, como é costume nele, com a mensagem de que o protagonismo no jogo é irmão gémeo da vontade de ter bola. Num par de semanas alterou o destino de uma equipa que vagueava triste e, de caminho, já goleou o Marítimo na Madeira e ultrapassou, com muito mais mérito que felicidade, os projetos mais elogiados até agora, Braga e Paços de Ferreira. E nada disso me espanta propriamente.

      Bola tratada com carinho e qualidade teve a seleção de sub-21. Rui Jorge dizia no fim do jogo com a Suíça que se deliciou no banco - como nós pela televisão - e bem mereceu o momento de prazer. Porque foi ele que que desenhou para o meio campo aquele losango de talento que enquadrou a felicidade. O que atirou a qualidade de jogo para a estratosfera foi valorizar mais a decisão que o músculo, a intuição que os centímetros, juntando em campo gente que se compreende depressa e cria relações com a facilidade de quem repete uma receita culinária muitas vezes testada. O jogo nunca deixará de ser dos jogadores e o futuro dele dependerá bem mais de homens que subvertem modelos e alteram rumos – como ainda esta semana Neymar e Mbappé fizeram em Munique - que da modernidade dos meta-dados, traduzida em gráficos e manchas de calor. Nunca será isso a sustentar a paixão que nos trouxe até aqui. Ver ao mesmo tempo num meio campo Bragança, Vitinha, Pote e Fábio Vieira reconcilia-nos com o jogo porque o retira de um escritório burocrático e devolve à rua, troca a manga-de-alpaca pelo rasgão na ganga que todos nós algum dia sofremos ao imitar os gestos dos craques. Não os números.

      E só nessa equipa que vulgarizou a Suíça havia ainda, entre outros, craques anunciados como Florentino, Trincão ou Francisco Conceição, que em breve estarão a equipar-se junto de Ronaldo, Félix, Bernardo, Bruno Fernandes ou Diogo Jota. Aliás, a seleção principal bem pode acabar em breve com a dicotomia gasta de se jogar ou bem ou bonito, que há cada vez mais gente para jogar bem quase sempre e bonito por regra, sem deixar de ganhar. A receita é buscar mais a compatibilidade que a complementaridade, porque juntar esses tantos que falam a mesma linguagem do talento tornará desnecessário qualquer esperanto e poderá mais vezes encher-nos os olhos de espanto.



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