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      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      2020/10/15
      E1
      Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

      Quando o Liverpool da muito elogiada intensidade contrata Thiago Alcântara não é certamente para acrescentar velocidade ao jogo. Já não falta lá quem acelere, pelo que o craque hispano-brasileiro acrescenta sobretudo pausa e critério, a pausa que é mais difícil pedir a Henderson e o critério que não dá para exigir a Fabinho. E vale a pena lembrar que até Firmino, o menos lembrado mas tão decisivo com qualquer outro do trio de ases ofensivos, é um jogador superior mais por pensar rápido do que por correr depressa. E Diogo Jota será tanto mais forte - e hoje não se duvida que possa ser - quanto mais soluções acrescentar à aceleração que garante em campo aberto.

      Percebo que os adeptos comuns, e até os jornais em busca de manchetes, como se viu nos últimos dias em Espanha, não se entusiasmem tanto com Gerard Moreno, um craque dos pés à cabeça, como com Adama Traoré, que adorava correr os 100 metros e se besunta de azeite para que não o agarrem. Já me custa mais entender que os que procuram ver além do óbvio não valorizem sobremaneira os que acrescentam qualidade de decisão em doses generosas, face aos que repetem movimentos idênticos vezes sem conta, por eficazes que pareçam. Claro que a compatibilidade é possível, porque se pode gostar de ver água e azeite no mesmo copo. Confundi-los é que é mais difícil. Porque a aceleração é crucial desde que se perceba ou aproveite o momento certo de a concretizar. Quem acelera em permanência corre mais risco de embater num muro. Acredito em quem acelera para atacar, não tanto em quem ataca sempre a acelerar.

      É quase uma obsessão, em Portugal, concluir cada posse com uma finalização, como se uma jogada de ataque não pudesse ser reiniciada sem que se perca a bola pelo meio. Nota-se isso, desde logo, em qualquer dos treinadores actuais dos três grandes, mesmo que sejam obviamente diferentes os caminhos tácticos - de estrutura ou de dinâmica – definidos por Sérgio Conceição, Jorge Jesus ou Rúben Amorim. Em qualquer dos casos fica sempre a ideia de que jogada iniciada tem de ser concluída, seja nos lançamentos em busca da profundidade muito comuns no Porto, nas transições ofensivas que voltam a ser muito fortes no Benfica ou na busca da velocidade dos homens da frente, à primeira oportunidade possível, no jogar do Sporting.

      É por isto que me parece que Waldschmidt, João Mário e mesmo Felipe Anderson vão ser testes do algodão quanto ao que pode ser diferente nos principais emblemas do país. Talvez menos Anderson que os restantes, já que o craque (é mesmo!) que o Porto contratou tem uma velocidade de execução com bola e tanta qualidade no 1 contra 1 que o fará mais facilmente nuclear no futebol de Conceição. A questão é até que ponto jogará muitas vezes com Corona, Otávio e mais dois avançados no mesmo onze. Já João Mário terá de encontrar o espaço certo para acrescentar a sua indiscutível qualidade aos leões, não tendo o perfil para a dupla de médios equilibradores habitual em Amorim (onde estão mais confortáveis Palhinha, Matheus Nunes e até Pedro Gonçalves) nem a vertigem garantida por Tabata, Jovane, Tiago Tomás e Nuno Santos. Waldschmidt é o futebolista diferente num Benfica que adora circular depressa, por ser capaz de pausar e jogar com qualidade nas entrelinhas. Acredito que com o alemão em campo o futebol encarnado terá mais qualidade e variabilidade, mas Luca ficará sempre a perder se prevalecerem critérios de rapidez e potência na comparação com Cebolinha, Rafa, Darwin e Seferovic.

      Mantenho a expectativa de um jogar mais completo por parte do Braga, sobretudo quando puder explorar Gaitán na plenitude e viver mais da capacidade criativa do argentino, de Iuri ou dos Hortas do que de uma dupla de médios de combate e de lançamentos longos para Fransérgio, do mesmo modo que aplaudo os primeiros sinais de Boavista e Nacional, as equipas que coletivamente mais me surpreenderam pela positiva, colocando ambas o talento em lugar de destaque: No Bessa (e não apenas lá) surge Angel Gomes muito acima de todos e na Choupana há uma dupla que entusiasma, também na coragem de Luís Freire de os juntar em campo: Koziello e Thill. São algumas das novidades que deixam água na boca. E acrescentem outra, já e sem vacilar, porque ele bem pode guiar o Famalicão a nova época de qualidade e valer outro grande negócio no futuro: Joaquín Pereyra, o argentino de quem se chegou a falar para o Sporting, tem um pé esquerdo que fala e uma capacidade de ver mais campo que os outros, que é o que define os craques de verdade. Muito mais isso que a capacidade de acelerar, por muito que isso impressione mais num primeiro olhar.



      Comentários (1)
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      motivo:
      TA
      Carlos Daniel
      2020-10-15 23h01m por Tantoscasos
      Estimado Carlos,
      Em parte, concordo com o que faz referência. . . cada vez mais, se quer construir rápido e bem, e acaba-se por privilegiar um certo tipo de jogadores (fortes, rápidos e incisivos no ataque à profundidade). Por exemplo, para mim, quanto mais não valia ter um Nani a um Adama, mas, por força do modelo de jogo posto em prática no Wolves, o hispano-maliano acaba por granjear um enorme protagonismo (ao ponto de ser titular na seleção de Espanha). Lá está, noutros...ler comentário completo »
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