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      A Coluna é do Silva
      Paulo Silva
      2020/09/30
      E3
      A Coluna é do Silva é o espaço de opinião sobre e à volta do FCP, dinamizado por Paulo Silva, um dos podcasters responsáveis por “A Culpa é do Cavani”, o podcast de referência do universo portista. Publica-se à terça-feira, semana sim, semana não.
      Em dias consecutivos, o FCP jogou – e goleou! – no Bessa e comemorou 127 anos de existência. Das conversas em torno destes acontecimentos, resultou ter que explicar que o derby da Invicta não me toca como a outros. Na verdade, durante muito tempo da minha vida torci pelo Boavista, sempre que não jogasse contra o Brasão Abençoado. E pelo Salgueiros e pelo Leixões – oh, herege! – e pelo Passarinhos da Ribeira. Pelo simples facto de serem… do Porto. É uma coisa que os Tripeiros podem não compreender, mas este Portista tentará explicar-vos.  
       
      Há uns anos, um querido familiar, à época ainda recente familiar, olhou para mim e definiu-me numa das suas sempre lapidares, e lampiónicas, afirmações:
       
      - Pá, tu és preto, mouro e tripeiro. Porra, não te aconteceu nada de jeito! - Para elevação das almas mais suscetiveis, esclareço desde já que não há um pingo de racismo ou xenofobia implícitos nesta frase. Se o conhecessem, este parágrafo seria desnecessário. Pelo sim, pelo não, fica dito.
       
      A verdade é que eu tive a felicidade de nascer em África, no seio de uma família totalmente africana. A mãe era de Cabo Verde, o pai é moçambicano. Se recuar uma geração, a avó paterna já foi nascida em Moçambique, apesar das origens...mauricianas, a outra Avó era cabo-verdiana do Mindelo. O Avô paterno, esse sim, era de Rio Tinto. A verdade obriga a que se diga que era o mais africano de todos. Porque o foi até morrer, por escolha. Do outro Avô sei muito pouco, mas creio que nele terminou um ramo anglo-saxónico da família. Pronto, imaginem a ONU e estamos conversados sobre as raízes.
       
      Chegado à Metrópole, fizeram-me desaguar nos arrabaldes da Grande Lisboa, onde passei mais de 20 anos da minha vida. E paremos aqui por um instante.
       
      Com quase 30 anos de idade, este belo mancebo nunca tinha vivido no Porto, ou sequer passado mais do que curtos períodos, em trabalho ou lazer, na Invicta. Pelo contrário, tinha crescido na Amadora, morado em Benfica e representado o Sporting Clube... Brandoense. No entanto, era a cidade do Porto, o Norte, que me deslumbrava. Aceitava sem rodeios o mito do "é no Norte que se trabalha" e enchia-me de um estranho orgulho, alheio, a estória dos Tripeiros.
       
      Ou seja, é um exercício completamente ao contrário. Não era da cidade que me advinha o amor ao Clube, por ser manifesta e comprovadamente impossível. Mas do Clube se fazia a paixão pela Cidade. Ainda hoje isso me custa o dobro da revolta quando nos fecham as portas do Município ou quando portuenses achincalham o FCP. 
       
      Ser Portista em Lisboa, por exemplo, é bastante mais complicado do que ser lampião em Campanhã. Hoje será menos assim, mas no meu tempo, para além da resma de papel para fotocópia custar apenas 25 tostões, era uma escolha bestialmente solitária. Em 1987, enquanto o Porto saía à rua em festa e alegria, eu saí de punhos cerrados e insulto pronto. Não para festejar, mas para confrontar. Fazendo uma batalha contra os outros da minha alegria intima, partilhada apenas e só em casa. 
       
      Vivi bons momentos nas Antas, mas o meu estádio é o Dragão. Nunca assisti a treinos, nem sequer vi um jogo dos juniores ao vivo. Não passei dias entre o estádio e o Pavilhão Américo de Sá. Gosto da cobertura da minha arquibancada, gosto do conforto da minha cadeira azul e acho-os bem melhores do que as bancadas de cimento. Não me incomoda o cheiro das pipocas e passo, sempre!, pelas lojas do Alameda antes de entrar. E sou do FCP.
       
      Se a mística se faz de um espírito guerreiro que em nós, Portistas, é maior e mais exacerbado, então deixem-me que vos diga que não há nada mais místico do que ser Azul e Branco em terra de Vermelhos e Verdes. E todos aqueles que viveram e vivem esta experiência saberão muito bem de que sentimento estou a falar. Também eles terão, suponho, uma dimensão de julgamento, de todos os tipos, especial para Jorge Nuno Pinto da Costa. Porque ele foi o nosso Leónidas e nós os seus indefetíveis 300.
       
      Por coração, acabei aqui. E este acabei não é uma mera palavra, é todo um processo de intenções. Já não saio daqui para mais lado nenhum. Tenho mais esta dívida de gratidão para com uma freguesa aqui da Tasca. E confesso, é muito melhor estar tão perto. Perto do Dragão, da Cidade, de vocês. Até Lisboa ganhou um brilho diferente. De facto, como é linda a Cidade, que luz única tem (não, não é essa! É luz mesmo, de iluminar!).
       
      Portanto, não foram as raízes. Ainda que uma das minhas primeiras reminiscências seja o Avô a sintonizar um rádio enorme, que parecia feito de palha com botões dourados, para ouvirmos o relato do Porto, sob o calor do trópico. Também não foi o local onde se viveu. Pelo contrário, a aura ainda hoje especial que o Porto tem para mim, deve-se ao facto de ser a casa do FCP. Não são as memórias dos locais mais míticos, pois que para mim nunca o foram. Então que raio de Portista és tu, Silva?
       
      Não sei. Sou este, que querendo que a Seleção ganhe sempre, não se chateia por aí além se perder. Este que não mente e por isso avisa à partida que não, não vai torcer pelas "equipas portuguesas" nas competições europeias. Eu quero mesmo que os outros percam. Não fico particularmente contente, e menos ainda orgulhoso, por ser assim, mas sou. Make no mistakes, sinto-me tão português como qualquer campino. Provavelmente sou é ainda mais Portista.
       
      Pode ser que o Porto, o FCP, seja a minha verdadeira Nação. Tão esbatidas as raízes, tão dispersas as ligações, pode ser que me tenha restado o FCP. O elo comum, mesmo que inexplicável, desta vida. Não que isto vos possa interessar, mas se calhar o nosso Clube é a minha ALMA MATER.


      Comentários (2)
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      motivo:
      J_
      FC Porto Sempre!
      2020-09-30 16h50m por J_Du4rte
      Um texto de quem sente e que faz sentir. Parabéns.

      Abraço
      Excelente
      2020-09-30 15h32m por simaopedro1
      Demonstração do mais puro portismo.
      A comparação com Leónidas é simplesmente fantástica.
      Para além disso, é um artigo em que qualquer portista se revê, os meus parabéns.

      Porto Sempre!

      Abraço
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