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        Uma peladinha no Maracanã
        Jorge Reis-Sá
        2020/07/29
        E2
        Não esperem análises sérias sobre o Famalicão ou sobre futebol. Não esperem análises, sequer. Ou esperem sentados, senão cansam-se.

        Aqui

        Já há umas crónicas falei do tempo. O facto de um jogo ter 90 minutos e o cronómetro não parar quando a bola sai e ou o jogo se interrompe, faz com que os clubes tenham aprimorado a arte de “perder tempo”. O facto de terem, há uns poucos anos, alterado o paradigma dos descontos foi a maior dádiva que deram ao futebol. Agora, já podem existir jogos que acabam aos 105 minutos e ninguém rasga as vestes em revolta. Foi uma das maiores revoluções no jogo desde que permitiram que os homens de preto pudessem passar a ser também homens de cor-de-rosa. (O futebol de encontro aos novos tempos, ora aí está, que o jogo também é estética.)

        Isto faz com que seja cada vez mais inútil e absurdo “perder tempo”. Não há, é claro, quem queira aprender. O que o Ricardo Soares fez no jogo Moreirense – Sporting é só mais um exemplo de alguém que ainda não percebeu que o futebol já não vive de quezílias e nervosismos impostos aos adversários com as perdas de tempo e outros que tais, mas antes de passes nas entrelinhas e transições defensivas e periodizações tácticas. Só treinadores do século XX continuam a achar que ficar em forma no início da época é levar os jogadores para o monte de Santa Catarina para “ganharem corpo” fazendo exercícios às cavalitas uns dos outros. O que nos vale é que, na maior parte das vezes, isso nota-se e o preparador físico à antiga, dito agora treinador, perde os jogos.

        Foi isso que aconteceu no Setúbal – Famalicão. Um treinador que entrou para empatar perdeu o jogo. Não vou ser injusto e comparar o Lito Vidigal com o Ricardo Soares (talvez já tenham percebido que encanitei com o senhor Soares…) mas a verdade é que o Vidigal entrou no jogo para chatear, não para jogar.

        A postura dos jogadores do Setúbal trouxe ao jogo aquele tom quezilento que é o melhor amigo no nervocalm que o pai da Mafalda tomava para aturar a filha. O jogo deixa de ser uma festa e passa a ser uma chatice. O jogo deixa de ser uma celebração e passa a ser uma irritação. São faltas, faltinhas e faltonas. São perdas de tempo porque há dores na amígdala do guarda-redes (sempre do guarda-redes, por que será?). São os nossos jogadores a perderem a calma (não podem tomar nervocalm lá dentro) e entrarem no mesmo jogo que o adversário quer. O Famalicão pode ter perdido com o Portimonense, mas aí perdeu bem, não me apeteceu partir a televisão. Jogos como os do Setúbal é que fazem com que a facturação dos reparadores de electrodomésticos aumente.

        Por isso mesmo soube tão bem aquele golo aos 89 minutos. Não foi só o golo da vitória mas foi também libertação de toda a frustração que o jogo pequenino do adversário nos impôs. “Toma!” “Pega!” “Vai buscar!”, entre outras expressões que envolvem o coito ou afins. Porque essa verbalização foi também um grito de felicidade por ter ganho quem quis jogar futebol e não quem quis que não se jogasse futebol. Em resumo: venceu o futebol.

        Ali

        Na última crónica, eu ia falar do Marega. Do acto absurdo que teve na ponta final do jogo em Tondela, onde, não contente com o facto de não poder marcar o penalty, pontapeou a bola e se alheou do jogo em total desrespeito pelos seus colegas de equipa. Gravíssima a perda de bola que teve quando ela lhe chegou aos pés. Esta semana falo do Marega porque aquela locomotiva azul fez “um golo de belo efeito” que selou o campeonato para o Porto. E concluo: dinheiro faz dinheiro. Explicarei.

        Já todos ouvimos que quando não temos dinheiro não podemos pensar em ganhar dinheiro em condições. Por um motivo extremamente simples: não temos paz. E sem paz, temos de ir atrás do primeiro negócio para colmatar a necessidade imediata, em vez de pensar no terceiro negócio, que obriga a mais tempo e vagar mas também nos dará muito mais retorno. O que aconteceu com o Marega foi isso mesmo.

        Façamos um suponhamos: o Porto estava no lugar do Benfica e o Marega fazia aquele número. Seria trucidado pelos colegas (em privado), pelo treinador (muito em público), pelos adeptos (em público ou nas redes sociais sob o anonimato soez do costume). E o Porto não teria quem marcasse o segundo golo ao Sporting (para simplificar, claro). A única coisa boa era que o Sérgio Conceição teria um bode expiatório para culpar. Assim, dinheiro fez dinheiro. Toda a gente perdoou a estupidez do maliano e todos se tornaram com grande felicidade campeões. O homem é o homem e a sua circunstância, escreveu José Ortega y Gasset. E um clube de futebol, com tantos homens, ainda mais.

        Acolá

        Pasmei: os franceses terminaram o campeonato antes, deram faixas de campeão com receio de pandemia, mas agora já meteram público nos estádios, como se fossem os da linha da frente. Bem diziam os romanos: “estes gauleses são loucos”.

        E a loucura é simples e explica-se em duas ou três frases. É um absurdo olímpico comparar um espectáculo como o “Deixem o Pimba em Paz”, ou até uma abominável tourada, com um jogo de futebol. Porque depois há jogos que são panelas de pressão pelas quezílias e perdas de tempo dos adversários e que vêem a sua libertação ocorrer aos 89 minutos. E, meus amigos, não há razão que salve o distanciamento social quando gritamos aos abraços as expressões sexuais todas.

         

        Jorge Reis-Sá

        Para dúvidas, conselhos ou insultos: [email protected]



        Comentários (2)
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        motivo:
        CV
        Caro Lazyfox
        2020-07-17 15h18m por CVV58
        Não vejo relação entre ser comentador de clube pequeno e clube grande, só porque é comentador adepto de clube pequeno não pode ter opinião em relação ao estratagema das perdas de tempo simuladas no futebol?

        Quanto ao Nuno Manta concordo plenamente com a sua opinião, esse treinador, se é isso que lhe posso chama, deveria mudar de profissão, é demasiado nocivo ao futebol.
        Quanto ao Daniel Ramos, se me permite, não concordo consigo, considero um bom treinador, o tempo se encarregará de me dar razão.
        Um bem haja para o Sr.
        É curioso,
        2020-07-17 01h00m por Lazyfox
        Ver um comentador de uma equipa dita "pequena" - com todo o respeito pelo Famalicão, que em campo tem mostrado jogar como equipa grande - falar de perda de tempo. Espero que o Famalicão mantenha a sua atitude num futuro próximo, e o Jorge não tenha que se retratar.

        Quanto à sua "paixão" pelo Ricardo Soares, está a ser injusto em deixar de fora treinadores como o Nuno Manta ou o Daniel Ramos. Treinadores cuja única visão do jogo é ver o adversário vir para cima, e esperar po...ler comentário completo »
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