betclicpt
      Uma peladinha no Maracanã
      Jorge Reis-Sá
      2020/06/27
      E1
      Não esperem análises sérias sobre o Famalicão ou sobre futebol. Não esperem análises, sequer. Ou esperem sentados, senão cansam-se.

      Aqui

                      Eu sei e o leitor sabe o que queremos ser quando formos grandes: jogadores da bola. Até eu, que andei de bota ortopédica durante anos, quis ser. O sonho é tão grande que a única coisa que achava necessário era ajustar o lugar: em vez de ser ponta de lança e marcar o golo na final da Taça ao serviço do Famalicão, eu era o defesa direito a marcar o golo na final da Taça ao serviço do Famalicão. Por isso, quando a vida nos leva para o lugar normal, o futebol passa a ser o tal “regresso semanal à infância” de que falou Javier Marías.

                      Todas as aproximações ao jogo e aos seus protagonistas que não sejam estar na bancada a gritar impropérios ao árbitro e ao adversário, deixam de ser o regresso à infância e passam a ser o regresso ao sonho. Portanto, não sendo eu da corporação, não fazendo parte da estrutura de um clube ou do que rodeia a competição, conhecer um jogador é, para mim, sempre voltar ao sorriso. Há uns meses, eu conheci o Fábio Martins, ainda que rapidamente.

                      O Fábio é inteligente. É bom rapaz – embora me pareça sempre mais velho do que os meus 43 anos. Reformulo: todos os jogadores são mais velhos do que nós. Não é do regresso à infância de que fala? É um excelente jogador e nós, no Vila Nova, temos muita sorte em poder contar com ele. Como contámos há dias, no jogo com o Moreirense. Fez um grande jogo. Sem erros.

                      Sim, eu sei, mas a saída de bola que deu golo do Moreira, como é?, perguntam. Neste caso, as coisas devem ser consideradas erradas não pelo seu efeito mas pela sua causa. O efeito da saída de bola deu golo deles – errou, dizem. Mas a causa da saída de bola era um passe que isolaria o Rúben Lameiras. Além que era falta, claro, mas isso interessa nada.

                      O que interessa mesmo é que a saída de bola é culpa do treinador. Assim, sem contemplações. Ele é que tem a mania que quer ganhar os jogos por 5-4 em vez de por ½ -0. E como gosto eu dele por causa disso. No final do jogo a sua entrevista é reveladora de uma postura que tanta falta faz ao futebol português: “pena ter acabado o jogo, não ter havido mais meia-hora, estava a ser um belíssimo espectáculo.” Mas como, João Pedro? Trazemos um ponto para a luta pela Europa, podíamos ter marcadoo segundo golo mas, nitidamente, também poderíamos ter sofrido, e o João Pedro queria mais meia-hora? Graças a Deus. Estava a dar tanto gosto ver que todos queríamos mais. Sim, com alguma arritmia cardíaca por jogamos sempre no limite, principalmente na saída de bola (o Roderick, ontem, ia-me mesmo dando um ataque cardíaco num dos seus passes a rasgar a área – a nossa), mas é esse limite que depois cria os desequilíbrios nas entrelinhas (e Roderick demonstrou o mesmo noutra ocasião na primeira parte, por exemplo). Foram as entrelinhas que permitiram a mudança na segunda parte. (Como eu adoro escrever entrelinhas como se soubesse do que estou a falar.) E o Pote, mesmo sem vontade de responder a perguntas (“ele fala com os pés”, disseram-me metaforicamente), elogiou quem devia: “ele falou connosco no intervalo e nós corrigimos”. Quantos clubes podem dizer que têm quem fale ao intervalo tão reiteradamente para que a correcção se note quase sempre? (Nunca me vou esquecer do baile em Alvalade, onde saímos para a segunda parte a perder 1-0.)

                      O Famalicão fez um grande jogo. O lance do Fábio é apenas reflexo de uma postura. Queremos marcar golos. Jogamos em todo o lado com essa vontade. Por isso, sejamos claros: não houve qualquer erro do Fábio. Houve apenas os olhos na baliza do raio do guarda-redes do Moreira, homem do jogo para o Paneira. E, como sabemos, o Paneira também nunca erra. Ou então não.

       

                      Ali

      Tu queres ver? E se o Rúben Amorim não for a fraude que todos esperam e o dr. Varandas tiver feito um grande negócio? Para já isso é um facto: ficou com o treinador do adversário directo e ainda não pagou um tostão. Como a pandemia ainda deve demorar um ano a ser debelada, tem ainda muito mês para manter o argumento pandémico para o calote.

      Mas e se? Será que o Amorim é mesmo um Mourinho 2.0 mas sem guedelha? O Sporting – para mal do Famalicão – não tem estado mal, ao contrário dos outros três da vida airada classificativa. Jovane é reforço. Os meninos na defesa tremem que nem varas verdes mas lá se vão aguentando – é só Coates não se lembrar de começar a marcar golos na baliza errada. E Wendel equilibra, como um pêndulo. Tu queres ver?

      No outro lado da Segunda Circular, Bruno Lage confirma a tese de Carlos Brito: é fácil jogar à bola quando não se tem nada a perder. Até dá para ser campeão e tudo. Agora começar uma época, estruturar um plantel, ter o mundo às costas por causa da felicidade ingénua da vitória do ano anterior, pois, isso já é mais chato. E faz o verniz estalar. O que nos vale, como bem disse um “comentador” da CMTV, é que ele continua a ser uma pessoa querida para os seus amigos e familiares. É só no trabalho que a fel vem ao de cima. Ficamos todos mais descansados. O que nos interessa é mesmo a vida privada do mister Lage.

      Vale-nos o verso de Eugénio de Andrade, escrito na morte de Ruy Belo: “com esse sorriso onde a infância tomava sempre o comboio para as férias grandes”. Nunca li sorriso tão aberto como este. E é esse o de Trincão. Um pé esquerdo dado por Deus (ou pela genética dos pais, para os mais seculares como eu), mas um sorriso que diz “eu quero é jogar à bola”. E como isso é diferente do futebol.

       

                      Acolá

                      O Liverpool foi campeão. Um vídeo animado corre nas “redes”, demonstrando o que quer dizer “you will never walk alone”. Dá pele de galinha só de imaginar. Procurem, vão ver. Vale muito a pena.

                      Expliquei ao meu rapaz o que tinha acontecido, 30 anos depois (ao mesmo tempo que lhe dizia que a celebração foi uma estupidez, porque nada – e muito menos um jogo de bola – deve colocar em risco toda uma população). A resposta dele, do alto dos seus 13 anos: “o Liverpool é assim como o Sporting, mas funciona”.

       

                      Jorge Reis-Sá

                      Para dúvidas, conselhos ou insultos: [email protected]



      Comentários (1)
      Gostaria de comentar? Basta registar-se!
      motivo:
      DI
      Treinador ofensivo
      2020-06-29 12h37m por dilios
      Posso estar a ser injusto, porque não vi todos os jogos do Famalicão, mas da amostra que tenho, (os 2 jogos contra o Braga, ) pareceu sempre mais um Famalicão a jogar para ½-0 e não para o 5-4
      OPINIÕES DO MESMO AUTOR
      Aqui                 Custa muito dizer isto: mas décimo quarto, outra ...
      07-07-2020 14:03E1
      Aqui Na minha outra profissão – a de editor – publiquei há uns anos um livro de um dos cronistas mais pessimistas da nossa praça: Alberto Gonçalves. O ...
      03-07-2020 11:25E1
      Aqui Façamos um pacto: o leitor confia. E comecemos com algo simples: eu já tinha escolhido o nome para o conjunto das crónicas antes do jogo entre o Famalicão e o ...
      20-06-2020 14:02E1
      Opinião
      O Caldeirão
      Rodrigo Correia
      O Melhor dos Jogos
      Carlos Daniel
      Livres Sem Barreira
      Márcio Madeira
      Uma peladinha no Maracanã
      Jorge Reis-Sá
      O sítio dos Gverreiros
      António Costa
      Uma peladinha no Maracanã
      Jorge Reis-Sá