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      A Coluna é do Cavani
      A Culpa é do Cavani
      2020/03/31
      E0
      A Coluna é do Cavani é o espaço de opinião sobre e à volta do FCP, dinamizado pelos podcasters responsáveis por “A Culpa é do Cavani”, o podcast de referência do universo portista. Publica-se à terça-feira, semana sim, semana não.

      Com isto do bicho, não tenho tido tempo nenhum para fazer exercício. Não só tenho a sorte de poder manter a minha atividade através de teletrabalho, como ainda por cima está mais gente cá por casa, o que implica que tenha, muito fugazmente, de lhes falar e isso tudo. Parecendo que não, rouba-me exatamente os minutos que eu tinha destinados a exercitar o cabedal. Se não é má vontade das pessoas, não sei o que seja.

      Talvez arreliada com algum, creio que ainda imperceptível a olhos leigos, arredondar das formas, a minha mais que tudo desafiou-me: havias de fazer uma aula de yoga comigo. Ri-me um bocadinho, só por dentro - devem achar que eu sou parvo! - e disse-lhe diretamente o que achava do assunto: pois claro, meu doce. Não voltei a pensar nisso, está claro.

      Mas você sabem que, mesmo em tempos de corona, as moças é um animal diferente de nós, que somos bestas. Elas usam mais neurónios e raramente se esquecem de coisas. Também se pode dar o caso de irem inventando conforme lhes dá jeito, porque a gente, bestas, raramente pode saber:

      - Sim, tu disseste, era uma quarta-feira de fevereiro de 1993 e chovia, nem quero pensar que não te lembras, que o teu amor era água. E agora isto? Quem és tu que não te conheço?

      Ora penico - diz que nestes sítios de bem não se pode dizer palavrões - como é que a pessoa vai saber se é verdade? E de que forma se liga com a discussão atual? E como é que se sai desta conversa, se não dá para desatar ao estalo ou a falar de bola e pedir dois finos e fica assim, cada um na sua e a próxima pago eu? Balbuciamos:

      - Mas, mas, mas... (porque carago - carago acho que se pode - havia eu de me meter com isto da água? mas qual água? ainda se fosse vinho, pata que pôs esta trampa toda)

      E é mais ou menos assim que dás por ti sentado no chão da sala, de pernas à chinês, à espera que comece a aula de yoga via youtube. Uma vez excluída, por hoje - ah sim cachopa, eu reparei no sorriso e na faísca nos olhos, ficas guardada para a próxima - a hipótese de fazer isto numa perspetiva naturista, que é como quem diz sem ponta de pano em cima, procedi ao segundo patamar de interesse do yoga: mostrar a estas tipas, parceira de aula e instrutora - a mim que me importa que esteja na TV - que o Silva é mestre do yoga e mete as pernas atrás das costas com uma perna às costas. Se não vai haver badalhoquice, ao menos haja competição! Não tive ainda tempo de investigar, mas estou basto certo de que é mesmo este o propósito desta disciplina de artes marciais ou lá o que seja isto.

      Para começar, é uma malta que fala esquisito. A senhora parece que está na terapia da fala. As palaaaavras são diiiiitas muuuuuu iiiiii to len-ta-men-teee. Credo, ainda agora começou e já estou uma pilha de nervos. Concentração, vamos.

      A moça pede que esqueça tudo e leve a atenção para dentro de mim mesmo, observando como me encontro neste momento. Ora bem, vejamos, encontro-me deitado no chão da sala, de pijama, e isto não foi aspirado hoje, pelo que é muito provável que fique cheio de alergia à conta dos pêlos dos gatos. Se era para relaxar, está a resultar em cheio, não haja dúvida. Depois querem que eu permaneça com o semblante bem sereno e tranquilo. Está bem Abel.

      A voz diz "não importa o que fez antes, nem o que vai fazer a seguir". É quanto basta para perdermos qualquer esperança de foco no momento. Tenho que ir gratinar couve flor, minha amiga. Por acaso, nem estava a lembrar-me disso, até a querida fazer o grande favor de falar. Faço questão de gratinar couve flor sempre que há rolo de carne. A gente já sabe que o rolo de carne é casado com puré de batata, sim, mas a couve flor gratinada, cheia de queijo, a escorrer béchamel, é a amante marota, a fantasia secreta, e que bem que se podiam dar os três.

      - Estás ao menos a prestar atenção?

      - Pois claro que estou, então não se nota logo?

      - Então porque é que parece que adormeceste em vez de estares a fazer o exercicio? - diz-me linda como sempre, mas toda ela um nó de pernas sobre braços por debaixo de abdómen. Isso é sequer possível? E porque é que nunca me mostraste que conseguias fazer isso quando...errr...deixa para lá.

      Então, é para fazer o quê? Eu faço isso a dormir, menina. Eu jogo à bola, pá. Eu levanto alguns 20 quilos no ginásio, topa bem. Em elasticidade devo ser praí um Baía e em concentração até há quem me trate por Mly. Vamos lá mostrar-vos com quantos glúteos se faz yoga.

      Joelho direito ao peito, feito. Lindo, fogo. Ah espera, agora tenho que rodar o joelho para fora. Dor. Apoiar o pé na coxa esquerda. Dor. Nada mais fácil, isto filmado era o próximo sucesso do home yoga na Índia. Como assim empurrando ao máximo o joelho direito para fora? Isto dói imenso, minha senhora. Lá porque vossa mercê tem essas terminações nervosas todas maradas, não quer dizer que a gente não seja pessoas normais. Hã? Subir o joelho esquerdo para o peito? Epá, desculpem lá mas isso é parvo. É estúpido. Eu já nem consigo distinguir o cotovelo do tornozelo, que é tudo coisas acabadas em elo, como é que vou agora agarrar um joelho enquanto o outro está a apontar para mais infinito? Oh senhora, nem a Traci Lords nos seus tempos áureos, quanto mais o Silva em isolamento social. Eu só peço encarecidamente que isto acabe ou que me levem internado com o covid.

      Mas não! Agora é repetir para o outro lado, valha-me São Roque, o protetor contra a peste e padroeiro dos inválidos. Como este.

      Por fim, sentar sobre os calcanhares. Ufa, isso consigo eu fazer. E bem! Dor. Pois, não sabia é que doia um pedacinho no peito do pé. Deitar a testa nas mãos. Aaaaahhhh, agora sim, yoga de alta competição, ninguém deita melhor que o Silva. Apesar dos pézinhos maçados.

      Iiiinspiiira, sobe o tronco, sentando sobre os calcanhares. Ai mãezinha me acuda, subir o tronco é fácil de dizer, mas é a mim que se me estraçalha a lombar e os abdominais e os pés, por Cristo, os meus pobres pés. E lá fico, meio sentado nos calcanhares, meio tronco elevado, como que apanhado a meio de uma cólica depois de quatro semanas de prisão de ventre. E ela ri-se! Ri-se muito, como se quisesse o divórcio. Chora de riso perante o meu sofrimento atroz. É isto o Amor?

      - Desculpa amor, desculpa - e ri-se - não consigo evitar - e ri-se - aaaaiiii a minha barriga - pois, lá está, cólicas, né? - ai que não posso - e ri-se - pareces um cágado paraplégico a tentar sair da carapaça - e ri-se - de pernas para o ar!

      Pfff, como se isso fosse uma imagem que as pessoas achassem sequer engraçada.
       

      Paulo Silva



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