A preto e branco
Luís Cirilo Carvalho
2020/03/23
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"A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.

E a longa “noite” do futebol prossegue.

Do futebol e do desporto em geral (já se sabe que também dos países mas estes textos são sobre matéria desportiva) sabendo-se já que o Europeu fica para o ano enquanto as competições nacionais e europeias de clubes estão suspensas por tempo indefinido mas dificilmente serão reatadas ainda no decorrer da presente época.
 
Em simultâneo, e perante a inexplicável teimosia do Japão em realizar os Jogos Olímpicos a qualquer preço, foi hoje conhecida a posição de Canadá e Austrália, que anunciaram que não estarão presentes aguardando-se que a manter-se a teimosia nipónica outros países o venham a fazer dados os condicionalismos provocados pela pandemia.
 
Em Portugal, pese embora algumas vozes avisadas que chamam a atenção para o que será o futuro (Pedro Proença, Jorge Castelo, Luís  Campos), vejo muito mais energias concentradas na por agora inútil discussão de quem será o campeão do que na preparação do pós covid-19, que será dífícil e até traumático para muito clubes e para muitas modalidades.
 
Isso significa, que ninguém tenha dúvidas, uma retracção significativa nos investimentos publicitários das empresas que terão de orientar as suas tesourarias para áreas bem mais importantes do que aqueles que se prendem com a publicidade aos seus produtos. Ou seja, terão muito menos disponibilidade para investir no desporto em geral e no futebol em particular.
 
Por outro lado, mas igualmente muito importante, com a quebra das receitas publicitárias também as televisões terão menos dinheiro para o futebol, o que significará, com boa dose de probabilidade, a impossibilidade de cumprirem os actuais contratos em vigor ou sequer de os renovarem por verbas semelhantes às actuais o que afectará todos os clubes e não apenas aqueles que participam em competições da UEFA.
 
E como uma má notícia nunca vem só, é igualmente evidente que as verbas para patrocínio de camisolas e para publicidade estática nos estádios serão também reduzidas, o que terá igualmente forte repercussão no orçamento dos clubes já severamente afectados pelos cortes anteriormente referidos.
 
Em suma, no pós-pandemia os clubes terão muito menos receitas (e já nem falo na quebra de rendimentos das famílias que provocará, outra má notícia, uma baixa nas receitas associativas oriundas de quotas, venda de lugares anuais e merchandising, etc) o que os obrigará a enfrentar uma realidade de grande dureza e de necessária adaptação aos novos tempos. Que terá de passar inevitavelmente pela redução de orçamentos, pela diminuição da folha salarial para valores muito inferiores aos da actualidade, por gestões de grande rigor, pelo fim de transferências milionárias, por uma aposta redobrada na formação e por uma necessidade de captação de receitas fora dos mercados tradicionais. E, é claro, por uma consciencialização de que as receitas televisivas já não serão o “abono de família” dos respectivos orçamentos.
 
Tempos difíceis aí vêm e para os quais é necessário os clubes portugueses irem-se preparando de forma prudente, organizada e profundamente realista. No que terão de ser acompanhados por FPF e LPFP (e pela UEFA em termos europeus) na exigência de orçamentos realistas, na fiscalização do seu cumprimento, num rigoroso “fair play” financeiro para as provas nacionais e pela detecção atempada das movimentações de dinheiros suspeitos. Então a nível de UEFA há que olhar com grande rigor os dinheiros vindos dos xeques árabes e dos oligarcas russos que, se não forem devidamente controlados, matarão a competitividade das competições. No caso português a crise financeira terá ainda outra vertente desportiva.
 
Se o futebol, modalidade raínha, será severamente afectado, que dizer então das restantes modalidades? Modalidades onde, com base num ecletismo pouco comum noutros países (Espanha será o mais parecido connosco), os principais clubes portugueses, que têm no futebol a primeira vertente desportiva, estão igualmente presentes no andebol, no basquetebol, no voleibol, no futsal, no pólo aquático e no hóquei em patins, que serão as principais modalidades de equipa a seguir ao desporto rei.
 
Não estão todos em todas mas estão todos em parte significativa delas e nalguns casos com orçamentos absolutamente irrealistas pagando a praticantes dessas modalidades salários que muito clubes da primeira liga de futebol não pagam aos seus futebolistas.Também aí a vida terá de ser outra.
 
Adequando os orçamentos às receitas (que são quase nenhumas) e percebendo que se calhar terão de deixar de ter tantas modalidades, que em boa verdade são sustentadas em grande parte pelo tal futebol que também terá de apertar o cinto, para passarem a ter apenas aquelas que de facto for viável terem.
 
Não faltam, neste tempo tão estranho sem competições desportivas, assuntos para uma reflexão tão séria quanto profunda por parte dos dirigentes desportivos dos clubes, das Ligas profissionais e das Federações. Enquanto é tempo. Porque a própria pandemia já se encarregou de demonstrar que não reagir a tempo apenas complica, e muito, o problema.


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