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      A Coluna é do Cavani
      A Culpa é do Cavani
      2020/02/25
      E0
      A Coluna é do Cavani é o espaço de opinião sobre e à volta do FCP, dinamizado pelos podcasters responsáveis por “A Culpa é do Cavani”, o podcast de referência do universo portista. Publica-se à terça-feira, semana sim, semana não.

      Habituei-me a jogos de computador há muitos anos. Comecei com coisas banais num antiquíssimo ZX Spectrum (ouvi dizer que há um museu ali para Cantanhede e tenho de lá dar um salto para banhar o cérebro na nostalgia e depois aproveito e banho o estômago na Mealhada, só para equilibrar os banhos), passei para um Amiga, onde vivi os melhores tempos de pureza e diversão em jogatinas com amigos. Passando para PCs, amadureci e melhorei, seguindo para as consolas durante muito pouco tempo por falta dele e por bastante inépcia para a coisa. Acabei em mobile, porque é muito mais fácil, simples e prático e não tenho de perder tempo em frente a uma televisão quando posso estar a ver o Niort contra o Le Havre e quem é que vai perder isso para passar mais um nível de God of War?! Ninguém que valorize o ar que respira, that's right.


      E em grande parte dessas deambulações pelo éter da realidade alternativa havia aquelas pequeníssimas ajudinhas quase sempre disponíveis. No início chamavam-lhes "pokes", aquelas combinações improváveis de teclas que davam setecenteos milhões de dolários nos Tycoon ou que activavam uma espécie de God Mode no pew-pew-pew tirinhos game versão whatever. Era tão fácil, estava ali ao lado um botãozinho que detinha todos os bens do mundo, uma espécie de caixa de Pandora invertida, como se a Pandora deixasse de vender rosquinhas para enfiar nas pulseiras e começasse a entregar sonhos, a encolher barrigas e a devolver cabelo. Pandora de vender na televisão a meio da manhã, mas da boa.

      E eu, como todos, raramente cedia a essas artimanhas do demónio porque gajo que é gajo joga a sério e luta sem recorrer a essas coisas senão não tem piada nenhuma. Ora era só o que me faltava estar agora a carregar ali no shift-control-quatro-sete-pê-pê-éfe-cursor-direito, eu vou é ganhar isto a jogar a sério, a ser o melhor que sei ser e só mesmo no improvável cenário de chegar ao fim do jogo e ser uma final da taça que demorou uns meses a chegar e se estiver a ter tanto azar e se eh pá também ninguém quer saber só eu é que estou a ver isto e pumba. Está ganho. Está limpo e está fechado. A alma relaxa, a emoção acalma e desliga lá isso que está a começar o West Ham contra o Scunthorpe em sub23.

      O problema, transpondo o raio da metáfora finalmente para o que interessa, é quando começamos a depender dessas "só-desta-vezes". Quando o resto do jogo pode ser alheado porque eventualmente aparecerá um remate colocado, um cruzamento perfeito, um cabeceamento aos 90 minutos, uma Kelvinada ou Tellesice. E tenho notado que jogo após jogo temos esperado pela sorte sem conseguirmos fazer com que a sorte não seja uma dependência mas uma consequência natural. E quando assim acontece, eventualmente as teclas das combinações mágicas vão ficar gastas e na altura que precisarmos...não vão funcionar. E vamos ficar todos a olhar para para trás e a pensar que se calhar podíamos ter feito um bocadinho mais.

      Vamos todos fazer um bocadinho mais, sim? Eu também vou.

      Jorge Bertocchini



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