O Melhor dos Jogos
Carlos Daniel
2020/02/13
E4
Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

Em Portugal há dois vícios de análise, um é mais que vício, é doença mesmo, a dos árbitros. Deixemo-la, que já não falta quem a transforme no elemento nuclear em todos os jogos, mesmo os que pretendem protegê-la e melhorá-la. O outro é o de excesso de análise individual. Andámos entre os casos do jogo e o melhor em campo. Ou então o pior em campo, que nisto da análise instantânea vale quase tanto encontrar um herói como um réu, no exercício mais fácil de compreender pelo adepto comum, na hora da hipersensibilidade emocional. Se a minha equipa ganha é porque o jogador A é magnífico, se perde é porque o B é um desastre. Acontece que isto de garimpar em busca da unidade que se destaca de 28 – repito, um entre 28, que são por regra os intervenientes, concretizadas as substituições - é um óbvio exercício redutor, e mesmo, na maioria das vezes, tão inútil quanto enganoso. Inútil porque identificar a unidade que se destaca um pouco mais pode dizer-nos algo da felicidade pontual de um indivíduo, de um dia que lhe correu melhor, mas pouco indicia sobre o que pode correr bem ou mal quanto a comportamentos coletivos nos jogos seguintes, e disso dependerá o sucesso. Além de que o desempenho individual até chega a variar na razão inversa da qualidade de jogo, no exemplo clássico de um guarda-redes (ou algum defesa) que só é o melhor no individual quando o adversário é superior no coletivo. E é sobretudo enganoso porque atentar à árvore impede a perceção da floresta. Escolher o melhor de uma equipa que deve funcionar como um todo, e num jogo que é inteiro, cria a ilusão de que se determinada peça funcionar é toda a máquina que vai atrás. Tirando um ou dois casos - e é preciso atingir uma escala de Messi, pela influência coletiva - raramente é verdade. Bruno Fernandes era o jogador mais decisivo dos últimos anos no futebol português? Quase ninguém duvida. E ninguém terá sido mais vezes eleito o melhor em campo. Mas não foi campeão nem perto disso esteve, que não há primaveras de andorinha solitária.

O Porto ganhou o clássico recente porque surpreendeu com Corona a lateral? Foi muito mais do que isso, mesmo se o rendimento individual do mexicano foi altíssimo. Mas o que o permitiu esse rendimento foi um contexto tático, particularmente uma dinâmica inicial pensada para o ligar a Otávio – nos movimentos que criavam dúvida tática no lateral contrário – e Marega – aproveitamento da profundidade - que o Benfica não soube ou não pôde contrariar. Foi uma abordagem estratégica competente que permitiu instabilizar o rival. Muitos estarão convencidos de que com outro perfil de jogador – que não Ferro e Grimaldo – o Benfica teria defendido de modo mais competente. Não creio. Quando muito atenuaria. Se uma equipa que faz coincidir esses dois no onze com Weigl, Taarabt, Pizzi, Rafa e Chiquinho e não é capaz de ter bola – e de ter mesmo, por largos minutos – estará sempre condenada. O Benfica quis ganhar duelos com jogadores de posse, quando o Porto é forte em ganhar a posse com jogadores de duelos. Claro que outro fosse o resultado e estaríamos a ouvir e a ler os que sempre incensam Danilo como elemento chave para garantir equilíbrios e dar a velha consistência, expressão só lembrada quando se joga mal. Acontece que a ausência de Danilo não retirou força defensiva e presença de Sérgio Oliveira até acrescentou qualidade com bola. Como já se dizia também que Mbemba não garantia a mesma segurança de Pepe mas foi com o consagrado veterano em campo que o Porto sofreu os golos no clássico e nenhum após a sua saída. Pelo prisma individual é muito mais fácil ter razão que encontrar uma solução. Do lado do Benfica, além de se localizar a origem do mal no espaço entre Ferro e Grimaldo, mas sobretudo muitos lamentaram as ausências de Gabriel e Cervi, como se não tivessem estado em campo em todos os jogos anteriores, com a equipa sempre a sofrer golos e perante adversários mais frágeis.

O mais importante para entender o que se passou é reconhecer que enquanto o Porto colocou o jogo no território que mais gosta, de duelos e acelerações, o Benfica não encontrou forma de roubar espaço e ficar com a bola. Aliás, em jogos como este – raros em Portugal - a equipa da Luz tem vivido quase uma dúvida existencial, sobre se tem a estratégia certa para os jogadores errados ou o inverso. Certo é que o Benfica sofre sempre mais quanto mais depressa perde a bola ou mais vezes o adversário o obriga a lutar por recuperá-la. Isto pode ser atenuado ou agravado por características de um ou outro atleta, mas a essência coletiva é o que é. E no futebol coloca-se sempre mais perto de ganhar a equipa que encontra o contexto tático para deixar mais confortáveis os jogadores, ou seja, aquela em que o coletivo favorece mais o individual do que depende dele.

Nota coletiva: Bayern de Munique – Com Hans-Dieter Flick, bombeiro de valor comprovado na organização e no scouting, o Bayern voltou à condição de melhor equipa alemã. E o que a classificação demonstra, a qualidade de jogo justifica. E no meio apresenta uma dupla que diz quase tudo sobre os propósitos de jogo: Kimmich e Thiago Alcântara. No mundo da intensidade sobrevalorizada e no país que nunca despreza o físico, a opção por médios baixos, em que a intensidade mental supera a de pernas, é evidente o caminho seguido para melhorar o jogo. E com melhor jogo, melhores resultados. Na casa das máquinas manda o cérebro e com eles o Bayern pode voltar a ser aquela máquina.

Nota individual – Aleksander Isak –Alto como Ibrahimovic, moreno como Henrik Larsson, o novo prodígio sueco assume-se finalmente na empolgante Real Sociedad, a despeito da concorrência de William José. As últimas semanas foram eloquentes, mas é o jogo de Chamartín, em que a Real eliminou o Real Madrid, que pode ter marcado a emancipação definitiva do ponta de lança de 20 anos, depois da falta de espaço em Dortmund e do relançamento no Willem II. Entende cada vez melhor o jogo, move-se com argúcia nos limites da área e a figura aparentemente frágil esconde pólvora autêntica que lhe sai do pé direito. Isak já não pode parar, e isso é uma óptima notícia para o futebol.



Comentários (4)
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motivo:
TM
A piada do dia
2020-02-14 11h26m por TMCosta1982
"Na minha opinião, vi um Benfica com melhor qualidade de jogo, a dominar na primeira parte. . . . "
TM
Pinho352
2020-02-14 11h06m por TMCosta1982
Isso foi copy paste da cartilha ou escreveste isso tudo do nada? É que não se aproveita nadinha. Não percebes nada de futebol. Faz um favor, não comentes mais.
RR
Pinho 352
2020-02-13 20h23m por rravv
Caro Pinho, antes de mais vamos tirar o arbitro fora. Não é por ser Portista, atenção. O Benfica jogou com o Famalicão, fez uma exibição horrivel e empatou. Se fosse no campeonato eram mais dois pontos que iam à vida. E não foi por culpa do arbitro. Aliás se fossemos a expremer o deve e haver do arbiro no classico não sei se o Benfica teria razóes de queixa.
Daquilo que eu entendo da análise do Carlos Daniel é que apesar do Porto ter aproveitado o espaço Ferro-Grimaldo como quis ...ler comentário completo »
PI
Análise
2020-02-13 19h57m por Pinho352
Acho um artigo em geral com uma análise desenquadrada de quem assistiu supostamente de forma neutral e faz a análise como jornalista daquilo que se passou em campo no último sábado.
Na minha opinião, vi um Benfica com melhor qualidade de jogo, a dominar na primeira parte, com excepção dos últimos 15 minutos e em toda a segunda parte, tendo pecado na definição das suas jogadas de ataque e a decisão dos seus jogadores também não foi a melhor. Aliás, na 2ªparte o FC Porto apenas teve ...ler comentário completo »
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