A Coluna é do Cavani
A Culpa é do Cavani
2019/11/19
E5
A Coluna é do Cavani é o espaço de opinião sobre e à volta do FCP, dinamizado pelos podcasters responsáveis por “A Culpa é do Cavani”, o podcast de referência do universo portista. Publica-se à terça-feira, semana sim, semana não.

Quando sentiu a parede fria nas costas, foi inundado por uma sensação de agora. Não, não é nada confuso, vocês conhecem o sentimento. O momento em que os músculos avisam que...é agora, concretiza-se neste instante o que estava prometido.

Chegava leve a esta hora. Ao longo do isolamento dos últimos dias – meses, anos, um século, já não saberia dizer. Porque o mundo se dobrara sobre si mesmo na exiguidade de 3 compactos metros quadrados – tinha-lhe sido possível, ou talvez não lhe tivesse restado outro remédio, reviver os amores, as dores e passar muito tempo de qualidade com os seus arrependimentos. Está claro que aproveitou para se despedir, com o método de um cientista, de todos os que calculou o chorassem. Mesmo dos mortos, que não há nenhuma prova de que os mortos não choram e o cárcere ensinara-o de que é bem provável que chorem mais do que os vivos.

Enfim, digamos que o terror que a parede fria nas costas era suposto provocar estava lá. Sólido como o muro que via por detrás das cabeças dos soldados. Mas se esperavam que os joelhos cedessem, acabaram desiludidos. Aliás, agora que pensa nisso, roubando 2 inúteis segundos a estes inúteis minutos que sobram, é capaz de ter sido a desilusão que faiscou nos olhos do comandante do pelotão. Ou então lentes de contacto. De todo o modo, manteve-se de pé, fruto de ter deixado todo o peso das suas pessoas cuidadosamente pousado no altar que lhes construíra. Sim, continuava a parecer um catre. Cada um chama-lhe o que quiser.

A bexiga não. Essa gritou liberdade!, assim que o viraram, costas contra a parede, de frente para a linha perfeita de soldadinhos. Nem uma ponta de vergonha enquanto se mijava pelas pernas abaixo, dando sequência natural aos litros de cerveja que exigira para empurrar dois bifes em sangue e uma quantidade indeterminada de bolinhos de bacalhau, batatas fritas das a sério, arroz de tomate malandrinho e uma salada mista, para limpar o palato entre pratos. Tomem por certo, que um homem que vai morrer não mente, que francesinhas e tripas não se comem tão longe de casa. Daí que fosse preciso bastante cerveja para ajudar a esquecer esta derradeira frustração. E agora senti-a nos pés, encontrando o seu caminho de volta ao pó. Lúpulo will be dust.

Agora, vai ser agora. E tudo o que lhe vem é um estádio em azul, o coração apertado, as endorfinas à solta, o Tarik a serpentear absurdo por entre gauleses, alemães invencíveis prostrados aos pés de um cigano vaidoso. Oh mais, muito mais, muito para lá do retângulo de erva, o pulsar oval dos irmãos, mesmo quando desavindos, a certeza de que aqui é casa e não há papões que nos possam ferir. Lentamente a mente a tomar a posição de partida, fetal, o liquido a aquecer-lhe as pernas, amniótico, a mente limpa de todos os pecados e desejos e objetivos. Só o frémito da multidão – um! – a Alma a revelar, como se fosse preciso, a sua verdadeira cor. Que é uma, sendo duas.

Os canos encaram-no, sarcásticos. Em si cinquenta mil, olhos postos no apito e na boca do árbitro, digo, do comandante. É agora e os joelhos ameaçam-no. Subitamente o silêncio caiu como uma pedra, como se depositássemos uma esperança vã num miúdo qualquer que viesse salvar a humanidade, este humano, estes cinquenta. Mil. Como uma câmara sofisticada de uma emissora paga, o cérebro percorre as bancadas, as mãos postas por Deus, os olhos já molhados, e afasta-se, sobe, lampejam as luzes coloridas do Centro Comercial - dê-se alguma cor a esta tragédia - e o miúdo esgueira-se, sim, ele esgueira-se, lá vai, com os nossos corações no bolso, nas mãos, nos pés, nesse pé, só nesse.

O Comandante cansa-se da espera, afinal é Sábado, seria bom chegar cedo a casa e deve haver assado. Enche os pulmões de ar e grita impedioso: FOG
                                                                                                                              OLO! GOLO DO PORTO, CARAGO! Joelhos cedem, mas não os dele. E parte, crivado de uma bala por cada soldadinho, mas a Alma permanece: azul, branca indomável, imortal.

Por: Paulo Silva



Comentários (5)
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motivo:
PO
Sinceramente
2019-11-21 07h48m por PortoDragao
Poderiam ter avisado que nao encontraria aqui nada de interessante . . . .
???
2019-11-19 16h47m por jfs79
Eu devo ser muito burro, e lembro-me bem dos Lusiadas na escola, isto ultrapassa a minha pobre inteligência. . . alguém me traduz?
[. . . ] ?
2019-11-19 12h22m por irlandes
Um tipo a ser fuzilado por ser adepto do FC Porto? Ou que apenas se lembra do FC Porto quando está a ser fuzilado? [. . . ] ?

Vergonha alheia é a única coisa que posso dizer. . .
Acabei de perder dez minutos da minha vida a ler isto.
E sou adepto do FC Porto.
TM
LOL
2019-11-19 11h06m por TMCosta1982
"o podcast de referência do universo portista"
TM
?
2019-11-19 11h03m por TMCosta1982
E isto é para?
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