Da Bombonera, com amor
Luís Mateus
2019/03/13 21:04
E5
«Da Bombonera, com amor» é uma coluna de opinião/crónica da autoria do jornalista Luís Mateus e a sequência lógica da rubrica “Era Capaz de Viver na Bombonera", publicada originalmente de 2008 a 2018, pelo mesmo autor, no jornal MaisFutebol.

É ele o culpado pelas inúmeras A4 amarrotadas, tornadas triplos falhados esquecidos em cima do tapete, em pleno Madison Square Garden a abarrotar, sem espaço para vivalma e a gritar o meu nome. Onde cheerleaders vestidas de azul e laranja sincronizam-se, em piruetas e contra-piruetas, antes de se imobilizarem, ofegantes, sorrisos rasgados, forçados e naturais, e dedos em riste, a apontar para o cubo gigante de arestas arredondadas pendurado do tecto. Como terei vindo aqui parar?

Só ele carrega toda a culpa dos espaços por preencher, por completar, sem o tracinho de aviso ou o asterisco de notário a marcar o local, na frente e verso de cada página por favor, neste

Culpado!

O martelo do shô’doutô’juiz a estalar na madeira desigual, e o eco a fazer carambola na azulejaria, mundo quase só feito de azuis e amarelos, e a voltar para dar bofetadas a quem ainda se surpreende ou, por ventura, tirou cinco-que-foram-só-cinco para passar pelas brasas. Que se dêem graças a Deus por não julgar casos de violência doméstica, ou vociferar-se-iam passagens do livro-que-não-se-vende a fim de justificar o injustificável.

Mas, sobretudo

Culpado!

O culpado disto tudo! Outra martelada vinda do fundo da arrogância a fazer tremer bigodes que resistiram à mudança de século e aos resíduos de sopa.

Não repetir ideias, adjectivos, dizer o que já disseram, mesmo com outro tom. Outra teatralidade. Entoação diferente. De banalidades, lamentavelmente, está o futebol cheio, e tudo o que o rodeia. Não copiar, porque a originalidade também deve ser meta, e questão de brio. De orgulho. Se vamos escrever o mesmo por que não assinamos apenas por baixo, e poupamos tempo e trabalho. Energia.

Daí a folha em branco, os espaços vazios por preencher, palavras que não comparecem à chamada que se faz quando se abre um documento novo no processador de texto. Ideias que não se acendem no escuro da mente. Já perdi a conta às vezes que me deixou assim, sem conseguir bater na primeira tecla. Ele e o outro. A sua Némesis.

Culpado!

A bola redonda, e o futebol isto mesmo. Só termina quando acaba, que é quando o árbitro apita, e não quando começa, quando o árbitro também apita. A melhor defesa é sempre o ataque, mas se se tapa a cabeça destapam-se os pés. No final, são 11 contra 11 e ganha a Alemanha, excepto quando é o Brasil, a Itália, a Espanha, a França, a Argentina ou o Uruguai.

Não são frases feitas o que Ronaldo derruba, estas rebatem-se a si mesmas sem esforço, como se acompanhadas logo à partida por uma hashtag que as contraria. São factos. Máximos. Recordes. Impossibilidades. Limitações de si mesmo. Chega ao topo e acrescenta mais um degrau. Muda a variável, e cria o paradigma. Tudo passa a fazer sentido no quadro cheio de equações encadeadas, apagadas e reescritas por cima dos restos de pó na ardósia. O que interessa o histórico, o passado, as estatísticas? O que interessa nunca se ter recuperado de 2-0 na primeira mão? O que interessam os limites quando ele acha que não os tem, que não existem, que de uma maneira ou outra, se ele fizer mais 50 agachamentos por dia vai aguentar mais 10 centésimos no ar e chegar onde mais ninguém chega.

Não uma vez. Não duas vezes. Dezenas. Não com 18 anos, mas 34. Não frente aos pequenos, mas perante gigantes. Sempre que achamos sem o dizer que já não, ele grita que sim, sublinha-o com duplo-traço e coloca-lhe vários pontos de exclamação. Não sem rival, mas ainda e sempre perante o maior de todos.

Não nasceu com ele, e isso torna-o maior. Enorme.

O que se pode ainda escrever nos espaços vazios? Como se pode elogiar tudo o que já fez numa era que estava destinada a outro? Como se elogia tamanha fome, tamanha vontade? Tanto profissionalismo, sacrifício, dedicação? Não sei, mas não escrever nada, mesmo que alguém já o tenha dito, parece muito pior.

Cristiano merece a dúvida. Merece defesa. Merece que, na altura em que nos dividamos a escolher o melhor de sempre mesmo antes de ser cumprida a história, como fazemos sempre e contra a nossa próxima natureza, ele esteja bem dentro na nossa cabeça.

Enquanto outros já nasceram extraterrestres, ele cresceu a lutar por sê-lo. Não há alguém em todo o planeta que possa dizer que apostou e perdeu. Ganhou, continua a ganhar e em cada um que mudar de opinião terá uma nova vitória. Não tenho dúvidas de que acredita que vai convencer-nos a todos. E quando ele acredita…



Comentários (5)
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SO
carlos_batuta
2019-03-17 00h48m por sofintas
Caríssimo,

Conversa muito agradável e em temática (ou sub-temática, ou assunto) que dava, com tempo e talento, para escrever um livro (se calhar, tudo dava para escrever um livro - citando Saramago "um segundo da vida pode dar um livro").

Como me faltam as duas coisas, vou restringir-me a deixar mais uma dica:

O título "La Bombanera, Com Amor" e as mensagens que normalmente brotam dos belos textos de Luis Mateus não condizem com o jogador e...ler comentário completo »
Mais que de acordo, Mais-Que-Caríss imo,
2019-03-16 23h04m por carlos_batuta
Nem precisamos de recuar tanto no tempo. Basta recordar os contemporâneos Xavi e Iniesta para questionar a justiça dos rótulos "Melhor do Mundo, Melhor de Sempre".

Agora, o Ronaldo também inclinaria a Bombonera, sempre que decidisse que a sua equipa iria ser melhor.
Os 50 agachamentos diários dos 13 aos 34 anos, de que fala o Luis Mateus, são por si só uma manifestação de amor ao jogo. Tal como a fome de se ultrapassar, de continuar a vencer, e a vencer-se. ler comentário completo »
SO
carlos_batuta
2019-03-16 01h55m por sofintas
Caríssimo,

Depende da "tipologia" e do grau de convencimento a que nos reportemos (e a que possamos prever reportar-se este excelente texto de Luis Mateus inserido num espaço - que terá a sua especificidade, com determinado imaginário - como este "Da Bombonera, Com Amor").

Em relação a grau de convencimento. . . estou, por exemplo, convencido que o Cristiano Ronaldo do Manchester United e das três primeiras épocas do Real é o segundo melhor jogador que apa...ler comentário completo »
Caro sofintas
2019-03-15 23h54m por carlos_batuta
Acho que o texto do Luís Mateus se refere exclusivamente à admirável capacidade de superação e automotivação de um atleta de excepção.

Porquê de excepção? Porque
"de uma maneira ou outra, se ele fizer mais 50 agachamentos por dia vai aguentar mais 10 centésimos no ar e chegar onde mais ninguém chega. "
Eu estou convencido.

Tal como nos entusiasmamos e celebramos mais uma braçada vitoriosa do Michael Phelps, ou mais uma flecha certeira do Usain Bolt...ler comentário completo »
SO
Luis Mateus
2019-03-14 19h24m por sofintas
Ainda não me convenceu e, creio, não convenceu o senhor Luis Mateus. A mim, um jogador não me convence apenas com golos (mesmo que muitos e, parte deles, em jogos importantes). Pelo que conheço de si - de outros artigos de opinião -, também não me parece que bastem golos para um jogador o convencer. "Da Bombonera, com amor" evoca e solicita outras coisas para se ser convencido por um jogador e personagem. Coisas que o jogador Cristiano Ronaldo já não tem (teve algumas, não todas, at...ler comentário completo »
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