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2019/01/11 17:03
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“Joga Bonito” é uma coluna de opinião de um treinador-jornalista que acredita ser possível apresentar um futebol bem mais atractivo, apaixonante e entusiasmante do que aquele que se vê habitualmente em Portugal. E pasme-se, com o mesmo objectivo presente na cabeça de todos os treinadores, adeptos e restantes agentes desportivos nacionais: ganhar!

É impressionante o quão avessos e resistentes à mudança somos em Portugal. Principalmente em relação àquilo que eu considero como sendo uma boa mudança: mais inteligência no debate sobre o que é o futebol em todas as suas vertentes, mais abertura na comunicação, mais partilha de conhecimento, menos clubismo cego, enfim, mais educação futebolística.

Mais do que reconhecer, aplaudir e validar aqueles que vão ousando fazer diferente e procuram ser diferentes dos demais, não por uma questão de vaidade, mas antes por uma questão de crença e afirmação pessoal, a grande maioria dos portugueses está mais preocupada em encontrar defeitos, em descobrir falhas, em apontar erros.

Como se existissem modelos de jogo perfeitos, metodologias de treino infalíveis, treinadores e jogadores absolutamente precisos. Como se o futebol não fosse um desporto praticado por humanos, os quais, reparem bem neste pormenor, são falíveis. Ou alguém conhece um ser humano perfeito? Eu não conheço. E falando do ser humano que melhor conheço, eu, posso garantir-vos que sou perfeitamente imperfeito.

Mas convivo bem com isso. Já não convivo bem com aquelas pessoas que elogiam hoje aqueles que vencem por quererem ser diferentes para depois os criticarem amanhã pela mesma razão. Independentemente do nível em que nos encontremos, do local onde nos encontremos e das pessoas com quem falemos, todos conhecemos alguém que se encontra escondido nos elogios de hoje para, ao mínimo deslize, os transformar nas críticas do amanhã.

Enquanto uns apelidam tal acto de liberdade de opinião, eu apelido-o de hipocrisia, incoerência e ausência de carácter. Porque, para mim, é precisamente disso que se trata...

E as últimas quatro semanas têm sido uma amostra espectacular para sustentar esta minha opinião. Basta atentarmos na quantidade de blogues, sites e órgãos de comunicação social que ao longo desse mesmo período de tempo tanto se desdobraram em elogios ao modelo de jogo de Luís Castro, à lufada de ar fresco representado por Marcel Keizer e ao inigualável futebol do Manchester City de Pep Guardiola, como se aproveitaram dos resultados menos positivos destes treinadores para se apressarem em apontar erros, anunciar tragédias e prever hecatombes.

Ou seja, o que há quatro semanas os distinguia dos demais e os elevava a patamares de excelência um pouco por todos os escribas de futebol por esse país fora, passadas duas semanas era igualmente responsável pelo arrastar dos seus nomes em artigos que anunciam defender ideias, mas que no fundo defendem apenas os resultados.

O SCP perdeu em Tondela e o futebol atractivo de Keizer deixa de ser atractivo e passa a ser monótono e previsível. O VSC perde em Belém e já se fala em crise. Os citizens perderam com o Crystal Palace e Guardiola já estava fora da corrida ao título. As mesmas pessoas que nos seus artigos elogiosos nunca se lembraram de lhes apontar debilidades na hora da vitória, urgem ainda mais rapidamente em escrever algo que evidencie “novos” defeitos na hora da derrota. Como se, de uma semana para a outra, uma equipa pura e simplesmente se esquecesse de tudo o que de bom havia feito até então e como se tudo o que havia sido feito até então fosse perfeito. 

Se isso não for hipocrisia, não sei o que será então...

Daí ser importante percebermos, de facto, o que queremos para o nosso país, quer em termos de comunicação social que analisa o futebol, quer em termos da educação futebolística de todos os que são apaixonados pelo desporto-rei.

Não podemos ser um povo que elogia hoje quem ganha porque ousa ser diferente para amanhã criticar essas mesmas pessoas pelas mesmas razões. Não faz sentido! Afinal de contas as pessoas são boas por vencerem da maneira em que acreditam? Ou são más por também perderem da maneira em que acreditam? Porque, no fundo, a mim parece-me que o foco dos elogios e das críticas de quem escreve não está nas crenças de quem ganha ou perde, mas sim apenas e só no resultado final dessas mesmas crenças.

Eu até posso perceber a resistência à mudança, porque sei como o ser humano é. Mas sei que o ser humano pode ser melhor a vários níveis, incluindo este que me levou a escrever este artigo. E por acreditar que todos podemos melhorar, termino com uma pequena interrogação: não será a ausência de crenças o principal problema de quem hoje elogia as crenças de Keizer, Castro e Guardiola para depois os criticar amanhã precisamente pelos mesmos motivos?

PS – Este artigo de opinião, tal como todos os outros, não pretende agradar a ninguém nem obter seguidores ou convencer ninguém a mudar de opinião. Mas pretende alertar e fazer pensar sobre pequenas questões que em nada abonam a favor do verdadeiro futebol de que gostamos



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