Retrospetiva de de Portugal nos últimos 5 Mundiais de futebol

27/11/2022

Portugal disputa no Qatar o seu sexto Campeonato do Mundo de futebol consecutivo. É de longe a melhor sequência da equipa das Quinas, que contava apenas duas participações em Mundiais antes de 2002.

O alargamento sucessivo do número de participantes em fases finais ajuda a explicar, mas o principal fator é o crescimento e desenvolvimento do futebol português nas últimas décadas.

Mas nem todas as cinco participações anteriores foram iguais. Qual a retrospetiva de Portugal nos últimos 5 Mundiais? Como poderão tais resultados influenciar a expectativa sobre a Seleção no Qatar? Recordemos.

Japão e Coreia do Sul 2002

  • Selecionador: António Oliveira

Num mundial de má memória, Portugal não passou da fase de grupos. Foi surpreendido pelos Estados Unidos no primeiro jogo da fase de grupos, sofrendo três golos nos primeiros 36 minutos e conseguindo apenas reduzir para 3-2 no final.

Seguiu-se uma goleada confortável por 4-0 frente à Polónia (hat-trick de Pauleta e conclusão por Rui Costa). Mas no jogo decisivo, a Seleção tornou a perder, frente ao anfitrião sul-coreano, por 1-0. Os três pontos valeram o terceiro lugar e a eliminação imediata.

A passagem de Portugal pelo Mundial 2002 ficou marcada pela agressão de João Vieira Pinto ao árbitro Angel Sanchez no jogo contra a Coreia do Sul, na sequência da sua expulsão. A discrição do gesto não evitou uma suspensão pela Comissão de Disciplina da FIFA e valeu a JVP nunca mais ser convocado para a Seleção.

Alemanha 2006

  • Selecionador: Luiz Felipe Scolari

A prestação no Euro 2004 ajudou a “enterrar” o escândalo desportivo e disciplinar do Mundial de 2002. O Mundial de 2006 “catapultou” Portugal até às meias-finais, repetindo o feito obtido 40 anos antes e solidificando o estatuto da Seleção como candidata a vitórias.

Este Mundial destacou-se pela escassez geral de golos, abaixo do que era historicamente expectável. Portugal foi um dos melhores exemplos, tendo apenas marcado dois golos durante a fase a eliminar.

A fase de grupos valeu três eficazes vitórias. No histórico e simbólico jogo contra Angola, Portugal entrou muito forte e Pauleta apontou o 1-0 logo aos 4 minutos; o resultado manteve-se até ao final. Seguiram-se vitórias sobre o Irão (2-0) e México (2-1).

Nos oitavos de final a polémica disciplinar voltou a pairar sobre a Seleção, mas desta vez com culpas repartidas e não com foco num dos nossos jogadores.

Trata-se da “Batalha de Nuremberga”, como ficou conhecida a partida contra os Países Baixos, com 16 cartões amarelos e 4 cartões vermelhos entre as duas equipas (dois vermelhos para cada lado). O jogo mantém o recorde de amostragem de cartões em jogos de torneios internacionais FIFA. Valeu o excelente golo de Maniche para selar o 1-0.

Nos quartos de final Portugal tornou a eliminar a Inglaterra nas grandes penalidades, como havia feito em 2004, e nas meias-finais perdeu com a França por 1-0. Tornou a perder no jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugar, com a Alemanha, por 3-1.

África do Sul 2010

  • Selecionador: Carlos Queiroz

Este foi o Mundial no qual se revelou uma tendência que se viria a tornar recorrente até à atualidade: a sensação de que a Seleção teria potencial para alcançar melhores resultados do que o efetivamente conseguido (com a notável exceção do Euro 2016).

Portugal começou a fase de grupos com um empate sem golos contra a Costa do Marfim, equipa teoricamente mais acessível mas sem que fosse possível desbloquear uma solução para a respetiva solidez defensiva.

Seguiu-se a histórica goleada por 7-0 sobre a Coreia do Norte, acentuando o sucesso histórico da equipa das Quinas sobre a sua congénere asiática depois dos 5-3 do Mundial de 1966. O último jogo do grupo foi um valoroso empate a zero contra o Brasil. Os cinco pontos valeram a Portugal o 2.º lugar.

Porém, um longo e sofrido encontro frente à Espanha nos oitavos de final valeu uma eliminação por 1-0 e a célebre tirada de Cristiano Ronaldo aos jornalistas, após o jogo: “Porque é que perdemos? Perguntem ao Carlos Queiroz!” A Espanha viria a sagrar-se campeã, minimizando a perceção do desaire. Mas ficou a impressão que um melhor resultado poderia ter sido conseguido.

Brasil 2014

  • Selecionador: Paulo Bento

Os adeptos sentiam que a seleção de 2014 tinha talvez menos hipóteses de um grande resultado do que no Euro 2012 ou no Mundial 2010. Ainda assim, as expectativas eram grandes – mas viram-se goradas com a pesada derrota por 4-0 contra a Alemanha no primeiro jogo da fase de grupos. E no segundo jogo sobreveio um empate a duas bolas com os Estados Unidos (golos de Nani e Varela).

A vitória no jogo final sobre o Gana, por 2-1, foi insuficiente para levar Portugal à fase seguinte. Paulo Bento seria demitido do cargo pouco tempo depois.

Rússia 2018

  • Selecionador: Fernando Santos

Portugal começou com um empate a três bolas com a Espanha, em jogo épico e com Ronaldo a fazer o hat trick. Ronaldo selou também a vitória sobre Marrocos por 1-0. O terceiro jogo teve muita tensão e “história”, uma vez que foi contra o Irão treinado por Carlos Queiroz, convertido em “vilão” da história.

Ronaldo falhou um penálti que teria sido útil para evitar o empate a uma bola, ainda assim suficiente para levar Portugal aos oitavos de final – com muitas reclamações de Queiroz quanto a um alegado favorecimento do árbitro e da FIFA a Portugal.

Nos oitavos de final, Portugal foi derrotado com propriedade pelo Uruguai, por 2-1 (golo de Pepe contra um “bis” de Edinson Cavani).

Lista de convocados 2018

Recorde-se a lista de convocados por Fernando Santos para o mundial anterior (assinalados com asterisco os jogadores que repetem a presença no Qatar):

Guarda-redes

  • Rui Patrício*;
  • Anthony Lopes;
  • Beto.

Defesas

  • Pepe*;
  • Bruno Alves;
  • José Fonte;
  • Rúben Dias*;
  • Raphael Guerreiro*;
  • Mário Rui;
  • Cédric Soares;
  • Ricardo Pereira.

Médios

  • Adrien Silva;
  • João Moutinho;
  • William Carvalho*;
  • João Mário*;
  • Bernardo Silva*;
  • Bruno Fernandes*;
  • Manuel Fernandes.

Avançados

  • Cristiano Ronaldo*;
  • André Silva*;
  • Gelson Martins;
  • Ricardo Quaresma;
  • Gonçalo Guedes.

Que esperar de Portugal no Qatar 2022 à luz dos Mundiais anteriores?

Os resultados a longo prazo devem ser vistos com muita cautela porque os jogadores e as circunstâncias são diferentes. Se é certo que Brasil, Alemanha e Itália são os dominadores históricos do Mundial de futebol, é também certo que o futebol desses países tem sido historicamente forte, mas de forma nenhuma invulnerável.

França, Espanha e Portugal são três exemplos de equipas que só em tempos modernos começaram a acumular sucesso de forma continuada. A “Tripla” espanhola (Europeus de 2008 e 2012 e Mundial 2010) seria impensável apenas duas décadas antes. A segunda ausência consecutiva da Itália num Mundial reforça esta realidade.

Mesmo em relação ao Mundial anterior, as diferenças são inúmeras. Ao contrário da perceção popular de que Fernando Santos convoca “sempre os mesmos”, são apenas dez os jogadores que transitam do último Mundial. A Seleção combina experiência em grandes competições e juventude cheia de energia e vontade de se afirmar.

Desde 2006 que a Seleção não passa dos oitavos de final, mas é também verdade que nas quatro participações desde então ficou sempre a ideia de que a equipa não estaria na máxima solidez psicológica para aguentar a dureza de uma competição tão curta.

Fernando Santos tem, também, vasta experiência de competições internacionais; é o primeiro selecionador a repetir a presença no Mundial aos comandos de Portugal desde 2002. Portugal tem boas probabilidades de voltar, pelo menos, a chegar aos quartos de final.