Em que posição pode Cristiano Ronaldo terminar na tabela geral de goleadores em Mundiais?

27/11/2022

Cristiano Ronaldo, um dos maiores caçadores de recordes da história do futebol, faz no Qatar o seu quinto Campeonato do Mundo. Sendo um dos maiores goleadores da história, CR7 não enjeitaria deixar o seu nome no topo dos recordes de golos associados aos Mundiais da FIFA. Terá ele hipóteses de se tornar o melhor marcador de sempre em Campeonatos do Mundo? Analisemos a possibilidade.

Ponto de situação

Cristiano Ronaldo marcou “apenas” oito golos em Mundiais de futebol. Sublinhe-se o “apenas” porque seria talvez de esperar que CR7 aparecesse mais perto do topo da tabela. Ele nem sequer é o melhor marcador de Portugal em Mundiais. O mítico Eusébio, com os seus nove golos no Mundial de 1966, ainda é o detentor dessa marca.

O melhor marcador de golos em Mundiais de todos os tempos é o alemão Miroslav Klose, que se retirou do futebol internacional após sagrar-se campeão em 2014. Klose marcou 16 golos em Mundiais, o que significa que Ronaldo precisaria de marcar dez golos no Qatar para superar esta marca. Após o penálti bem-sucedido contra o Gana, faltam nove.

Uma tarefa monumental

A história está contra Ronaldo. Ao longo das últimas décadas, o futebol tornou-se progressivamente mais defensivo, seguindo a máxima de que “o ataque ganha jogos e a defesa ganha campeonatos”. Há quem diga que a derrota da incrível equipa brasileira no Mundial de Espanha 1982, frente à Itália, foi a vitória definitiva do futebol taticista e defensivo. A figura do ponta de lança brilhante e capaz de resolver jogos e torneios tem saído diminuída.

Eusébio marcou nove golos em Inglaterra 1966 e Gerd Müller marcou dez golos no Mundial do México 1970. Desde então, apenas por uma vez um jogador marcou mais de sete golos num Mundial: Ronaldo Fenômeno (oito golos no Japão/Coreia do Sul 2002).

Uma marca importante em Mundiais e um novo recorde

Mas Cristiano Ronaldo já ficou na história dos golos em Mundiais de futebol. Ele é o primeiro jogador a conseguir marcar golos em cinco Campeonatos Mundiais diferentes (futebol masculino). Com o golo contra o Gana, superou três ilustres futebolistas que concretizaram em quatro Mundiais. São eles (golos marcados entre parêntesis):

  • Miroslav Klose, Alemanha (16)
  • Pelé, Brasil (12)
  • Uwe Seeler, Alemanha (9)

Esta estatística não demonstra apenas a eficácia na concretização de golos. Mostra também a longevidade da influência que estes jogadores tiveram (e têm, no caso de Cristiano Ronaldo) nas respetivas seleções nacionais. Seria de esperar que Diego Maradona, por exemplo, estivesse nesta tabela, mas ele não marcou qualquer golo no Mundial de Itália 1990 e estava no ocaso da sua carreira em 1994.

Poderia Ronaldo ter já mais golos em Mundiais? Talvez. Mas recorde-se que, no início da sua longa carreira, a vocação do madeirense era jogar a extremo e como construtor de ataque, tanto no Sporting CP e no Manchester United, como na Seleção. A adaptação a ponta de lança sobreveio numa fase mais adiantada da carreira.

Muitos recordarão como Ronaldo era acusado de nunca marcar golos ao serviço da Seleção. Parece estranho agora, tendo Ronaldo não apenas ultrapassado as marcas de Eusébio e Pauleta, mas também as de todos os outros goleadores de seleções, até superar os 109 de Ali Daei ao serviço do Irão.

Mas a proeza de ter sido o primeiro a marcar em cinco Mundiais diferentes já ninguém lhe tira.

Dez golos no Qatar: será possível?

É necessária uma conjugação de circunstâncias altamente improvável. Ronaldo tem de mostrar que está completamente recuperado da gastroenterite que o afligiu antes do início do Mundial. Tem de provar que os problemas pessoais em torno da sua situação em Manchester estão ultrapassados. E tem de “sacar” de toda a sua eficiência e experiência para aproveitar ao máximo cada jogo, principalmente os da fase de grupos.

Parece impossível, mas não é um cenário tão improvável como se possa imaginar.

Manchester United

Se houvesse dúvidas em torno do foco e da concentração do jogador, ficaram dissipadas com o anúncio da rescisão por mútuo acordo do contrato entre CR7 e o United. Pouco importam as razões; suspeita-se que a família Glazer, que tenciona vender o clube, terá tentado evitar mais controvérsias e preferido simplesmente “livrar-se” do jogador.

Ronaldo é neste momento um jogador sem clube e sem litígios com o seu clube anterior. Ele está 100% focado na Seleção.

Experiência em grandes competições

Cristiano Ronaldo participou em todos os Mundiais e Europeus desde 2004. Conhece perfeitamente o ambiente que rodeia estes torneios curtos e muito intensos, e sabe lidar com as pressões. O penálti concretizado reforça essa ideia.

Apoio da equipa

Não há qualquer sinal de tensão ou desunião na equipa por causa de Ronaldo ou dos problemas que teve no Manchester. O próprio CR7 já veio afirmar que, se pudesse ser campeão do mundo sem marcar qualquer golo, “assinaria por baixo”. Pese a recente entrevista a Piers Morgan, o facto é que Ronaldo sabe o que é necessário para ter um coletivo unido e sólido, e sabe que sem isso não é possível vencer uma competição tão curta como um Mundial. Para ser estrela, Ronaldo não pode agir como uma – nem o tem feito nas últimas semanas, em ambiente de Seleção.

Golos marcados num só mundial: um recorde mais distante ainda

Datam das primeiras décadas do futebol os grandes feitos de avançados em mundiais, antes de o futebol se tornar defensivamente mais eficaz. O recorde permanece com Just Fontaine (França), que marcou treze golos no Mundial de 1958. Segue-se Sandor Kocsis (Hungria), com onze golos no Mundial de 1954, e depois o supra citado Gerd Müller.

Se dez golos parece um limiar muito elevado para Cristiano Ronaldo se tornar o melhor marcador de sempre em Mundiais e o melhor português a marcar num só Mundial (superando os nove de Eusébio), a marca dos catorze golos parece mais remota ainda.

Um sexto mundial em 2026?

Alguns adeptos alvitram que Cristiano Ronaldo poderia permanecer no futebol ao mais alto nível a tempo de jogar um sexto Mundial em 2026, na América do Norte. Porém, esse objetivo parece ainda mais remoto, se tal é possível, que marcar catorze golos no Qatar. Ronaldo terá 41 anos e seguramente não conseguirá manter a sua influência num plantel de altíssimo gabarito como é o da Seleção. O próprio Ronaldo, de resto, já afirmou que provavelmente este será o seu último Mundial.

Conclusão: é agora ou nunca

Cristiano Ronaldo afirmou-se progressivamente como goleador, com o decorrer da carreira e ao serviço dos seus clubes e da Seleção. Livre de compromissos com o Manchester, Ronaldo tem agora o momento de um esforço supremo para deixar uma marca indelével na história dos Mundiais de futebol.

Nem que fosse, como ele próprio tinha afirmado antes de Portugal-Gana, para ser Campeão do Mundo sem marcar um golo nesta fase final.